14 de outubro de 2016

Capítulo 4

Antes que Kylie dissesse alguma coisa, ela viu na expressão do avô que ele já sabia qual seria a decisão dela. E viu a dor que estava lhe causando. Ela a sentia também. A dor do avô.
— O senhor não vai me perder. O fato de eu não morar aqui não vai mudar nada. Sempre vou ser sua neta. Mas acho que Burnett tem razão. Eu preciso voltar. — Essa era, ela pensou, a única escolha que poderia fazer.
Shadow Falls era a sua casa, mas essa era apenas parte da razão que a levara a tomar a decisão.
No fundo, ela sabia que Burnett estava certo. Por mais talentosos que fossem seu avô e seu complexo de camaleões, eles tinham passado a maior parte da vida evitando o confronto, e não se preparando para isso. Eles não eram páreo para Mario e sua gangue assassina.
O problema era que Kylie não tinha certeza se Shadow Falls seria páreo para Mario. E se fosse, quantos mais seriam feridos como Helen, ou pior, mortos?! Aquilo já tinha acontecido antes.
Enquanto ela acompanhava os passos de Burnett até o portão da frente, eles permaneceram em silêncio.
A noite já caía. Parte do céu, tingido com tons de rosa, insinuava o pôr do sol. Quando chegaram ao portão, Burnett olhou para ela.
— Mais tarde telefono ao seu avô a fim de combinarmos um horário para eu vir buscá-la amanhã.
Kylie concordou com a cabeça; ela tinha insistido para que ele lhe desse tempo para se despedir do avô. Mas agora seu coração não queria ver Burnett ir embora. Eles não tinham começado a conversar de fato. Os últimos quinze minutos tinham se passado com o avô fazendo perguntas sobre como Burnett os encontrara ali. O vampiro explicou que tinha sido através do escritório imobiliário.
Quando o avô vendera sua casa, Burnett conseguiu encontrar o corretor que realizou a venda e, por meio dos registros de vendas, descobrira outra propriedade do seu avô.
Agora, com o adeus em seus lábios, ela não se sentia pronta.
— Você jura que Helen está realmente bem?
— É como eu disse. Ela vai se recuperar.
— E a missão de Della vai indo bem? Ela não está em perigo?
— Da última vez que nos comunicamos, ela confirmou que está tudo bem.
Kylie assentiu.
— E Holiday, como vai?
— Ela está preocupada. Mas ela vive preocupada com vocês, campistas. É seu estado natural de ser.
— Mas as coisas entre vocês dois estão... bem?
Ele sorriu.
— Sim. Muito bem.
Os sorrisos de Burnett eram poucos, por isso ela pôde deduzir quanto o relacionamento havia progredido.
— E Miranda? — perguntou Kylie.
— Solitária — ele disse. — Com as suas duas colegas de alojamento fora, ela está se sentindo um pouco deslocada. Ela, assim como muitos outros, vai ficar feliz em saber que você está voltando.
— Certo. Sem ninguém com padrões mutantes andando por ali, acho que o dia a dia fica meio entediante.
Burnett deu de ombros.
— Ficaria espantada se soubesse quantas pessoas perguntaram de você. Você não é a aberração que imagina ser, Kylie.
— Sinto falta de todos, também — ela admitiu. — Posso dar um abraço de despedida?
Ele arqueou uma sobrancelha em sinal de desaprovação, e Kylie soube imediatamente por quê. Burnett não era o tipo de pessoa que eximia os outros das suas responsabilidades.
— Eu não acho que você mereça um abraço de despedida — ele disse, lembrando a Kylie que ela não tinha se despedido dele ao sair do acampamento.
— Eu estava errada — disse ela, aceitando que merecia o castigo. — Acontece que eu sabia que você iria discutir comigo. Teria tornado a minha partida ainda mais difícil.
— Eu teria argumentado. Teria insistido em dizer que não era a melhor atitude a tomar — ele disse. — E eu teria razão.
— Talvez não toda a razão. Eu aprendi algumas coisas. Além disso, ele é meu avô e ela é minha tia-avó. Passar um tempo aqui não foi totalmente errado.
— Entendo a sua necessidade de aprender sobre si mesma e, concordo, há um momento para se reunir com a família, mas não quando sua vida está em perigo.
Kylie olhou para ele.
— Então o bem-estar de uma pessoa é mais importante do que... a família. Mas Holiday não é a sua família? — Ela sabia que o pegara.
Ele nem sequer tentou dar alguma desculpa boba.
— Dou o braço a torcer.
— Uau, isso é uma raridade! — Ela sorriu.
— Bem, pode se vangloriar — disse Burnett. — Mas, como sempre digo, você conhecia a minha fraqueza e usou-a contra mim.
— Amar alguém não é fraqueza — disse Kylie. E então a preocupação ofuscou a leveza do momento. — Você tem certeza de que foi Mario quem atacou Helen?
— Tanta certeza que estou aqui agora — ele disse. — E vou colocar guardas vigiando este lugar durante a noite. Mario já viu o seu poder, Kylie. Você ameaça a existência dele.
E, no entanto, Kylie se sentia impotente contra ele. Ela olhou para além do portão da frente e viu duas figuras. Duas figuras que ela reconheceu como Lucas e Derek. Eles estavam a uns bons quinze metros de distância um do outro, como se não estivessem de fato juntos.
Ou, como se... estivessem em vigília... Eles estariam de guarda? A ideia de que Lucas podia ser a pessoa convocada para vigiá-la, depois de magoá-la tão profundamente, enviou outra onda de dor ao seu peito.
— Lucas não — ela murmurou.
— Lucas não o quê? — Burnett perguntou.
Kylie se achou meio infantil por se sentir assim, e até mais por expressar esse sentimento, mas ela não queria pensar que Lucas estaria tão perto naquela noite. Ela teria que enfrentar sua proximidade pela manhã, quando voltasse para Shadow Falls, mas não naquela noite.
— Eu não quero Lucas me protegendo.
Burnett abriu a boca para dizer algo, mas em seguida fechou-a, como se pensasse melhor. Então, com a testa franzida, concordou com a cabeça.
Kylie ignorou o olhar de desaprovação e se aproximou para reivindicar o seu abraço. O abraço de Burnett, mesmo com a temperatura fria do seu corpo de vampiro, enviou uma sensação de calor direto ao peito de Kylie. Saber que no dia seguinte ela iria para casa tornou a despedida mais fácil, mas saber que seria forçada a ficar na presença de Lucas tornava meio agridoce essa volta para casa.
Kylie começou a fazer o caminho de volta para a sede do complexo, mas à medida que se aproximava ficou preocupada com a conversa que sem dúvida ocorreria lá dentro. Precisando de alguns minutos para encontrar uma maneira de ajudar o avô e a tia a entenderem sua decisão, ela passou reto pela casa e seguiu para o gazebo. O céu brilhava num tom de rosa forte e o sol poente banhava a cena à sua frente com tons dourados. Enquanto andava entre os carvalhos, seu olhar foi atraído para o musgo espanhol que balançava com a leve brisa.
Ela se perguntou se o avô se sentiria obrigado a se mudar, agora que Burnett tinha provado quanto era fácil encontrá-lo. Ela esperava que não. Por mais descontente que tivesse se sentido ali aquela semana, a beleza da propriedade não tinha lhe passado despercebida. Os ecos da natureza pareciam anunciar a chegada do anoitecer – um pássaro, alguns grilos.
Então o crepúsculo pareceu prender a respiração e a tranquilidade do momento foi interrompida pelo barulho de um galho estalando. O coração de Kylie parou quando seu olhar se voltou para a orla das árvores. Por que o ligeiro ruído a sobressaltou, ela não sabia. Poderia ter sido apenas uma criatura inocente voltando para casa antes de escurecer.
No entanto, o barulho não parecia inocente.
De repente, uma sombra apareceu e depois desapareceu entre as árvores. Kylie não podia explicar por quê, mas, em vez de correr do barulho, ela se sentiu compelida a correr na direção dele.
Perto das árvores, ela viu a figura novamente, uma silhueta feminina, entrando e saindo das sombras. Por um milésimo de segundo, Kylie achou que reconhecera.
Ela fez uma parada abrupta.
Como era possível? Como ela poderia estar ali? O que ela estaria fazendo ali? Kylie a seguiu. A garota tinha que ter seguido Lucas. Por que outra razão sua noiva estaria ali?
Sem muita certeza se queria enfrentá-la, ela se virou para se afastar. Tinha dado apenas alguns passos quando ouviu os pés de alguém pisando a terra macia, acompanhando os passos de Kylie.
— O que você quer? — Kylie falou com rispidez, sem olhar para a pessoa que agora movia-se ao seu lado.
— Falar com você — a pessoa respondeu. No entanto, havia alguma coisa errada com a voz. Não era o tom de voz floreado com o qual ela ouvira a moça prometer sua alma à pessoa que Kylie amava. Não era Monique.
Kylie parou e olhou para Jenny, a camaleoa de 17 anos de idade que fazia do complexo. Ela tinha cabelos escuros e a mesma altura de Monique. Será que Kylie a confundira com...?
— Era você?
— Era eu o quê? — perguntou Jenny.
Kylie olhou novamente para os traços de Jenny, um nariz reto, queixo quadrado e olhos verde claros acinzentados, e lembrou-se da vaga sensação de que ela parecia familiar. Não era como se a conhecesse, mas como se ela se parecesse com alguém que ela conhecia.
— Era você... que estava na floresta?
— Acho... que sim. Eu estava vindo de casa.
Kylie teve um rápido vislumbre da pessoa que ela pensara ser Monique. Não tinha sido Jenny.
Ou tinha?
— Você viu mais alguém?
— Não. Por quê? Havia mais alguém andando por aí?
Kylie olhou para a floresta.
— Provavelmente não — disse ela, mas sem estar completamente convencida. Por ser um lobisomem, Monique poderia ser muito silenciosa, se quisesse. Ou muito rápida ao fugir.
Kylie voltou a andar, sua mente mais acelerada do que seus passos.
— Então... você se incomoda? — perguntou Jenny.
Perdida em seus pensamentos, Kylie olhou para a garota.
— Me incomodo de fazer o quê?
— De conversar — disse Jenny, apertando as mãos como se estivesse preocupada com alguma coisa.
— Eu... — Kylie olhou para trás, na direção da casa. — Eu preciso falar com meu avô e minha tia agora, mas por que você não vem comigo?
Kylie observou novamente a expressão preocupada de Jenny e achou estranho que a garota quisesse falar com ela. Jenny não tinha sido rude com Kylie durante sua estadia ali, mas também não tinha sido amigável.
— Algo errado?
— Ouvi dizer que você está indo embora. É verdade?
Kylie assentiu.
— Sim. Por quê?
Jenny mordeu o lábio inferior como se estivesse nervosa.
— Quando?
— Amanhã — respondeu Kylie.
Vozes vieram da casa do avô. Kylie olhou na direção da porta.
— Eu... tenho que ir.
Jenny correu para longe, apressada. Kylie voltou-se para a casa e percebeu que na varanda do avô estavam os outros quatro camaleões mais velhos, como se tivessem acabado de sair da casa para ir embora.
Kylie olhou para trás e tentou mais uma vez convencer a si mesma de que era Jenny e não Monique que ela tinha visto. Mas não estava totalmente convencida.
Enquanto se dirigia para a casa, os anciãos passaram por ela. Todos acenaram rapidamente com a cabeça e continuaram andando, mas Kylie sentiu a tensão se irradiando deles. De alguma forma, Kylie sentia que eles tinham conversado com o avô sobre ela. Embora estivesse aliviada com o fato de o avô ter pelo menos chegado a um certo nível de paz com Burnett, isso não significava que os outros anciãos o apoiavam. E isso, Kylie percebeu, poderia significar problemas. Se não para ela, pelo menos para o avô.
Kylie hesitou ao entrar na casa. Mesmo depois de treze dias morando ali, ela ainda se sentia no dever de bater. Não que a tia ou o avô não a fizessem se sentir bem-vinda, mas ela simplesmente sentia não pertencer àquele lugar. Talvez porque, no fundo, soubesse que não se adaptaria à comunidade dos camaleões. Ela pertencia a Shadow Falls. Lembrou-se de Burnett dizendo que a sua vinda tinha sido um erro. E mesmo que não parecesse muito certo, ela não estava preparada para chamar de erro.
As vozes vinham da sala de jantar e ela se dirigiu para lá. Quando entrou no corredor, as vozes pararam. Pararam rápido demais, como se soubessem que ela estava lá e não quisessem que ela ouvisse o que diziam. Kylie fez uma pausa no limiar da porta. A tia e o avô estavam sentados à mesa, olhando para ela. Kylie desejou saber a coisa certa a dizer. No entanto, uma parte dela sabia que não importava o que dissesse, ela iria magoá-los. Talvez Burnett estivesse certo. Vir tinha sido um erro.
Se não por outra razão, pela dor que havia causado ao avô e à tia.
— Sinto muito se causei problemas. Lamento que...
— Não se preocupe, minha filha. Sente-se — disse a tia. — Você quer que eu esquente a sua pizza?
— Não, não estou com fome. — Kylie sentou-se e olhou para o avô. — Os anciãos estão chateados com o que aconteceu? Estão chateados comigo ou com você?
O avô suspirou.
— Chateados, sim, mas não com uma pessoa em particular. Eles não gostam de mudanças, e ultimamente tem havido uma série de mudanças.
E, principalmente, por minha causa. Kylie mordeu o lábio.
— Uma pessoa uma vez me disse que é quando as coisas não mudam que devemos começar a nos preocupar.
— Eu aposto que essa pessoa não era um camaleão — disse o avô.
— Não — respondeu Kylie.
Ele acenou com a cabeça.
— Certo ou errado, temos uma tendência a gostar de nossas zonas de conforto.
— Existe algo que eu possa fazer para ajudar? — ela perguntou.
As rugas entre os olhos ficaram mais evidentes.
— Fique conosco e continue a aprender o que a sua herança significa — disse ele. — Você só arranhou a superfície do que há para aprender.
— Malcolm — disse a tia —, não ponha a menina numa situação difícil.
— Eu me preocupo que a situação fique realmente difícil quando ela voltar para Shadow Falls — ele disse.
— Eu fiz o máximo para agir da maneira certa, mas não posso ficar — confessou Kylie, sentindo a garganta apertar.
— Eu sinto muito. — Ele ergueu a mão. — Sua tia está certa, eu estou pressionando você e não deveria. Já dei a minha opinião. Mas tenho que dizer que vou sentir sua falta.
— E eu vou sentir a sua — disse Kylie. — Vocês vão ficar morando aqui?
Ele deu de ombros.
— Se os outros anciãos forem embora, vamos também.
— Porque eles não confiam em Burnett? — perguntou Kylie.
— Tenho certeza de que é por isso também — disse ele.
— Como vou entrar em contato com o senhor?
— Hayden Yates ainda está trabalhando na sua escola.
Hayden era o camaleão que o avô havia contratado para ficar de olho em Kylie. Por alguma razão, quando ela foi embora, tinha presumido que ele iria também.
— Ele ficou como professor?
O avô assentiu.
— Ele os convenceu de que você o enganou para que a levasse embora do acampamento. Eles ainda não sabem quem ele é, e precisa continuar disfarçado.
Kylie concordou com a cabeça, mas não podia deixar de achar suspeito. Burnett não era enganado com tanta facilidade.
— Na verdade, Hayden fala muito bem da direção da escola.
— Viu? — disse Kylie. — Na verdade, lá não é um lugar ruim.


Naquela noite, sem saber o horário em que Burnett viria buscá-la, Kylie fez as malas. Então se esticou na cama, coberta com os lençóis e o edredom mais macios que ela já tinha visto, e começou a rever as fotos do pai. Achava que estar com o avô faria com que sentisse menos falta do seu verdadeiro pai, mas não; parecia que estava acontecendo o contrário. Ver esse homem que parecia uma versão mais antiga do pai fazia com que ela sentisse ainda mais a falta de Daniel.
Por fim, depois de passar muito tempo desejando que as coisas fossem diferentes, ela ficou ali, olhando o teto. Preocupava-se com a possibilidade de sua partida magoar o avô. Preocupava-se com Della, e até um pouco com Miranda, sentindo-se abandonada pelas duas amigas. Preocupava-se com a mãe, na Inglaterra, provavelmente transando com um homem que lhe dava arrepios.
Ah, Deus, ela tinha que afastar bem rápido essa imagem da cabeça, ou ia pôr para fora o pouco de pizza que tinha comido.
Ela também estava preocupada porque ainda não sabia como enfrentar Lucas.
— Mas você não está preocupada comigo?
O frio chegou tão rápido que Kylie perdeu o fôlego quando o oxigênio gelado atingiu seus pulmões. Ela pegou o edredom e puxou-o até o queixo.
— Eu deveria estar preocupada com você? — perguntou Kylie, olhando para onde o fantasma estava. Seu cabelo pendia solto e ia quase até a cintura. Ela usava o mesmo vestido branco coberto de sangue.
E parecia... morta. Mais morta do que antes.
Kylie não entendia. Se um fantasma tinha a opção de parecer morto ou não tão morto, por que não escolhia sempre a segunda opção?
— Não, não se preocupe comigo. Eu já estou morta. Vê?
Ela puxou a saia esticando-a e mostrou uma dúzia de cortes sangrentos no vestido branco. Era como se alguém a tivesse atacado com uma faca e não soubesse quando parar.
— Isso é terrível. — Kylie desviou o olhar por um segundo e depois voltou a fitar o fantasma. — Quem fez isso com você?
O fantasma não respondeu, só ficou olhando para os buracos no vestido.
— Na verdade, não é tão terrível. E para ser honesta, a pessoa com quem você deveria se preocupar é você mesma. Porque, se não começar a me ouvir, vai acabar morta. Assim como eu.
— Ouvir o quê? Você me dizendo para eu matar alguém? É isso que você quer? — Kylie perguntou, franzindo a testa.
— Sim. — Ela continuou a olhar para os buracos no vestido. — E não faça isso parecer uma coisa terrível. Tirar uma vida não é a pior coisa do mundo.
— Ok, eu estou curiosa. Quantas pessoas você matou?
O espírito olhou para cima como se estivesse considerando a questão. E parece que aquilo exigia um tempão. Como se ela realmente tivesse que contar.
— Você realmente fez isso, não fez? Você matou mais de uma pessoa?
— Mais de vinte, mas sei que estou me esquecendo de algumas. É que essas não contam muito.
— Quem você era? Um assassino de aluguel... uma assassina de aluguel?
— Não, bem, mais ou menos, eu acho. Eu não lucrava com o meu trabalhoSó cuidava do problema de outras pessoas. E dos meus próprios. — De repente apareceu sangue em suas mãos.
Ela as ergueu e olhou para elas. O sangue escorria dos seus dedos. Parte dele caiu sobre o vestido já ensanguentado e algumas gotas escorreram para o tapete bege. O cheiro de ferrugem encheu a sala e fez Kylie sentir náuseas. Ela supôs que deveria estar feliz por não apreciar mais o cheiro de sangue.
— Você está tentando me levar para o inferno com você? É isso o que você quer? Ouvi falar que alguns maus espíritos presos no inferno fazem isso. Mas eu não vou para lá, e me recuso a ajudá-la a matar alguém, então pode desistir. Você entendeu? — Kylie fechou os olhos e tentou ter pensamentos positivos, da maneira que, segundo Holiday, poderia impedir um fantasma de assumir o controle... e levar você para lugares onde não queira ir.
Ela sentiu o refluxo da maré de frio, mas ouviu o espírito sussurrando em sua cabeça.
— Eu não quero que você vá para o inferno. Eu quero que você mande alguém para lá.
— Vá embora! Vá embora! Vá embora! — Kylie murmurou em voz alta e mentalmente. — Eu não vou matar ninguém para você. Não... Não... eu, não.
O frio foi embora e Kylie respirou fundo. Mas o estalo em sua janela a fez gritar de susto e saltar pelo menos três centímetros da cama.
Seu olhar se desviou para a janela, mas ela não viu nada.
Depois que o pânico inicial diminuiu, surgiu na sua mente a imagem do pássaro azul – o mesmo que ela tinha salvado da morte. Será que ele a seguira até ali?
Saindo da cama, ela se aproximou da janela, e com os pensamentos no fantasma saído do inferno ainda agitando a sua mente, puxou cautelosamente as cortinas rendadas brancas. De súbito, um rosto distorcido apareceu pressionado contra a vidraça.
Kylie gritou.

Um comentário:

  1. Que merda!
    Acho que ela tá se referindo ao Mário... a espírita... digo.

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