14 de outubro de 2016

Capítulo 42

Kylie não sabia o que fazer. Então fez a primeira coisa que lhe ocorreu. Apertando um pouco mais o braço da mãe, ela desejou que ela e a mãe ficassem invisíveis. A mãe gritou, obviamente, quando não foi capaz de ver a si mesma ou Kylie.
Sem poder se entregar ao pânico como a mãe, Kylie não hesitou e correu para a porta, esquivando-se dos dois homens. Infelizmente, a mãe foi arrancada das mãos de Kylie. Fazendo meia-volta, Kylie não conseguiu ver onde ela estava, mas ouviu-a ofegando, e percebeu que Mario tinha ficado invisível e agora estava com ela.
— Solte-a! — ela sibilou, desejando ficar visível.
Mario apareceu segundos depois com a mãe. A mão dele agarrou a garganta dela com tanta força que o rosto dela adquiriu um tom azulado.
Kylie levantou a espada.
— Chame-o de covarde! — A voz do espírito ecoou nos ouvidos de Kylie no mesmo instante em que o frio lhe causou um calafrio na espinha. — Insista para que ele lute com você como um homem.
— Seu covarde! Largue a minha mãe e lute comigo como um homem! — gritou Kylie, rezando para que aquilo funcionasse.
Mario, com a mão ainda em torno do pescoço da mãe de Kylie, olhou para a garota, estreitando os olhos.
— Tudo bem. — Ele jogou a mãe para John.
Ela caiu aos pés do homem, com falta de ar. Ele a levantou, sem muita gentileza. Tudo o que Kylie queria era atacar. Esquecer a espada e usar as próprias mãos para partir os dois homens ao meio. A única coisa que a detinha era o espírito, repetindo as mesmas palavras várias vezes.
— O poder que você tem está na espada. O poder está na espada.
No momento em que a mãe conseguiu encher os pulmões de ar, ela se desvencilhou de John e investiu contra Mario. A mãe podia não ser sobrenatural, mas o amor materno também era algo muito poderoso.
Só não tão poderoso quanto a magia daqueles dois homens. John agarrou-a pelo cabelo.
— Pare de lutar, sua idiota!
Os olhos da mãe se arregalaram e ela os desviou em direção a John. Pela expressão dela, Kylie deduziu que, pela primeira vez, a mãe tinha visto John como ele realmente era: uma pessoa cruel, que o tempo todo a usara.
O coração de Kylie sofria pela mãe e ela rezava para que esses não fossem os últimos momentos da vida dela. Porque ninguém deveria morrer pensando apenas nos próprios erros. Consumida pelo arrependimento.
Mario fez um gesto com a mão e uma espada apareceu.
— Eu vou te matar lentamente, e sua mãe vai poder assistir. Não vai ser divertido?
— Não! — a mãe de Kylie gritou.
John prendeu os braços da mãe atrás das costas e segurou-os ali, tornando sua luta inútil.
— Não aqui! — exclamou John. — Eu paguei mais de cinquenta mil por este tapete.
A mãe gritou novamente e John puxou-a contra ele.
— Cale a boca ou ela vai morrer mais cedo.
Mario olhou para o filho.
— O sangue só aumentaria o valor do tapete!
A mãe olhou para Kylie com lágrimas nos olhos. O espírito olhou para John.
— Você vai apodrecer no inferno por tudo o que fez.
Kylie só podia rezar para que o espírito estivesse certo e sua viagem para o inferno acontecesse em breve.
— Mas um pouco mais de espaço para brincar seria bom.
Mario moveu-se para ficar na frente de John e colocou a ponta da espada no peito da mãe de Kylie, olhando para a garota.
— Vamos sair daqui. Se você preferir não me seguir ou tentar fazer qualquer coisa idiota, eu vou matá-la. E com prazer.
A mãe de Kylie soltou um som horrível, um grito de terror puro. Quando ela olhou para a frente, Kylie viu o pedido de perdão nos olhos da mãe. Ela achava que ambas estavam condenadas a morrer ali, e Kylie não tinha tanta certeza de que ela estivesse errada.
— Eu vou seguir você — assegurou ela.
E ela fez isso. Ela o seguiu pelo corredor e pela sala de estar.
Mario acenou com a mão e os móveis recuaram, dando-lhes o cômodo inteiro para lutar. Kylie não tinha ideia de onde Mario havia conseguido seus poderes, mas ela podia ver que eles eram malignos.
— Me dê um segundo, quero assistir ao espetáculo. — John, arrastando a mãe de Kylie consigo, abriu uma gaveta, tirou dali um rolo largo de fita adesiva e envolveu os pulsos dela. Então fez o mesmo com os tornozelos. Com brutalidade, ele a empurrou contra a parede enquanto ela lutava com ele e implorava para que ele parasse. A risada do homem ecoou cruelmente. Ele rasgou outro pedaço de fita e tampou-lhe a boca.
Kylie assistia com horror e fúria, mal conseguindo refrear o impulso de avançar sobre aquele arremedo de homem e arrancar seu coração negro.
— Agora não. Ainda não. Paciência, paciência! — o espírito sussurrou na orelha de Kylie. — Há um plano e você deve segui-lo se quiser enganar a morte.
Kylie não entendia o que o espírito queria dizer, mas não tinha tempo para refletir. O grito do espírito avisou-a bem a tempo de se defender do ataque de Mario. Ela baixou a espada para conter a dele. O barulho soou em seus ouvidos, mas ela quase não ouvia mais por causa do sangue que zumbia através do seu corpo.
Ele veio para cima dela de novo e Kylie bloqueou golpe por golpe. Suas espadas retiniam, entrechocavam-se. Lucas teria ficado orgulhoso. Mas, por melhor que ela fosse em bloquear os golpes dele, ela nunca tinha a chance de partir para a ofensiva, pois estava ocupada demais se defendendo.
Embora não tivesse tempo de olhar, ela podia imaginar a mãe assistindo a tudo com horror. E por mais que tentasse não ouvir, os gritos desesperados dela chegavam aos seus ouvidos abafados pela fita.
— Nos ajude! — Kylie gritou as palavras em seu coração, clamando pelos anjos da morte, por Deus, por quem pudesse ouvir. À distância, o uivo do cão-lobo rompeu o ar, como se ele orasse por ela também.
— Não perca de vista a espadaAtenção! Ele vai avançar por baixo desta vez.
As ordens do espírito vinham rápidas. Kylie tentava ouvir e se esquecer de que essa era uma luta de vida ou morte. Ela recebia ordens e ouvia o barulho de metal contra metal.
Por um breve segundo, Kylie viu de relance o rosto de Mario. Ele sorria, como se estivesse simplesmente brincando com ela. Por quanto tempo ela conseguiria lutar assim? Como ela poderia ganhar?
— Não pare de acreditar nos seus dons! — o espírito gritou.
Então Kylie viu John aparecer atrás do pai com sua própria espada.
Dois contra um? As lembranças da visão de Lucinda encheram a cabeça de Kylie. No entanto, apenas um fragmento de medo entrou no seu coração. Não havia tempo para ter medo.
Como Lucinda na noite em que perdeu a vida, Kylie não pensava na morte, simplesmente lutava. Lutava com todas as suas forças e uma oração nos lábios.
Ela observou com repulsa quando John levantou o braço para trás e cravou a espada nas costas do pai. A lâmina mergulhou no peito do homem até o cabo. A frente da camisa ficou escurecida de sangue. Os olhos de Mario ficaram verdes brilhantes, pouco antes de a vida se esvair deles. Um punhado de vapor negro subiu como um nevoeiro da boca do homem.
Kylie sabia que era a alma imunda de Mario e do mal de todos os seus pecados. Então o som mais hediondo que Kylie já ouvira rasgou o ar como ratos guinchando e baratas se alimentando.
Vários seres sombrios, sequazes do inferno, varreram a sala e levaram a alma negra de Mario com eles.
John puxou a espada, o sangue esguichando do buraco no peito de Mario. Com a espada não mais segurando o corpo, ele se desintegrou no assoalho.
A morte não era bonita.


Kylie olhou para o corpo, sua própria espada imóvel diante dela. Por que John tinha feito aquilo? Será que ela tinha se enganado sobre ele?
Quando olhou para o rosto do homem, o sorriso frio que ostentava revelou que ela não estava errada.
— Isso veio bem a calhar! — exclamou o espírito. — Você matou o homem que matou o seu filho. — Ela aproximou-se dele, olhando-o nos olhos. Então seu olhar se deslocou para Kylie. — Não confie nele.
— Por que você fez isso? — ela perguntou a John, mantendo a espada em riste.
— Eu só estava esperando ele morrer para tomar o lugar dele. Essa foi apenas a oportunidade que eu procurava.
Kylie sentiu a vilania em seus olhos cinzentos.
— E agora? — ela perguntou.
— É óbvio, não é? — Ele sorriu. — Você tem escolha. Aceitar que você e sua mãe me pertencem. Você faz o que eu digo, e a sua mãe vive. Se não fizer, ela morre. — Ele lançou um olhar para a mãe dela, que o fitou com ódio.
— Acho que nós duas preferíamos morrer — Kylie disse. — Mas não planejo morrer agora.
— Acha que pode me vencer? Você não passa de uma criança com poderes que não consegue nem controlar.
Ele avançou com uma rapidez feroz. A espada num movimento febril. Ela mal conseguiu contê-lo.
— Vá para a esquerda. Agora! — O espírito gritava instruções.
Kylie lutava para se defender. Sua espada desceu, mas a dele veio mais rápido. Ela sentiu a ponta afiada da lâmina em seu braço esquerdo.
A picada e o sangue vieram em seguida.
Ela não diminuiu o ritmo. Não podia. Se desacelerasse, se tirasse os olhos da espada dele por um segundo, isso significaria a morte.
Para ela.
Para a mãe.
Então, ela sentiu o frio, o frio familiar do seu pai. Ele estava ali.
Mas era para ajudá-la ou levá-la com ele?
Um estrondo soou em algum lugar nas proximidades. Ela se forçou a não pensar nem se concentrar em outra coisa que não fosse a luta.
Então, um rosnado baixo vibrou na sala. Ela viu um lobo saltar desde o outro lado da sala. A boca escancarada, os dentes expostos, como se estivesse pronto para rasgar a carne. Seu amigo tinha vindo lutar com ela.
O reconhecimento veio num flash.
Não era o meio-lobo lá fora.
O lobo voando no ar em direção a John era Lucas!
John apontou a espada na direção da nova ameaça, pronto para perfurar Lucas no peito.
Usando toda a força que tinha, sentindo o sangue quente com a necessidade de proteger, Kylie baixou a espada, interceptando a dele e derrubando-as das mãos do homem. John gritou com fúria, se esquivou de Lucas e estendeu a mão para pegar novamente a espada.
Antes que ele a alcançasse, Kylie o atingiu. Enterrou a espada na lateral do seu corpo. Então puxou a arma e começou a avançar contra ele novamente.
John caiu.
Seu corpo tremia.
Ele ofegava, sem ar.
O sangue gotejava da ponta da espada de Kylie.
Kylie olhou para Lucas, com os olhos em chamas, os dentes ainda arreganhados. Então, assim como antes, sons horríveis encheram a sala quando o demônio enviou sua horda para recolher a alma imunda que escoava da boca de John.
Soltando a espada, Kylie sentiu-se suja também por tirar uma vida. Em seguida, virou-se para a mãe, que ainda assistia à cena. A constatação veio rapidamente. Ela não tinha tirado uma vida, tinha salvado uma.
Caindo de joelhos, ela se esforçou para tirar a fita adesiva da boca da mãe. Lucas, em toda a sua beleza lupina, aproximou-se dela. A mãe se encolheu como se estivesse com medo do lobo. Lucas roçou no braço de Kylie, encontrou seu olhar brevemente, então se virou e saiu. Kylie lembrou-se novamente do que a avó de Lucas tinha dito. Você faz parte da missão dele, e ele da sua.
— Mãe — disse Kylie. — Vai ficar tudo bem. — Ela terminou de puxar a fita da boca da mãe.
O grito dela ricocheteou nas paredes.
— Está tudo bem — disse Kylie novamente. — Está tudo bem. Agora fique quieta, para que eu possa tirar o resto da fita que está prendendo você.
Assim que Kylie tirou a fita dos pulsos da mãe, ela agarrou a filha e a abraçou. Abraçou-a forte e por muito tempo.
— Este é o pior sonho que eu já tive.
Kylie recuou e ficou indecisa sobre o que dizer, mas, em seguida, só balançou a cabeça e arrancou a fita do tornozelo da mãe. A mãe enrodilhou-se como uma bola, balançando para a frente e para trás, como se estivesse apenas esperando para acordar.
Kylie olhou para os dois corpos. Ela precisava chamar a polícia, não é? Olhou para a mãe e se perguntou como faria aquilo com ela balbuciando coisas sobre sonhos e lobos.
Em seguida, se lembrou de que, embora tivesse vindo sozinha, ela tinha amigos. Pegou o celular e começou a digitar o número de Burnett. Antes que seu dedo apertasse o botão de chamada, outro ruído encheu a sala. Um som suave e reconfortante. O som de água gotejando. O som da cachoeira.
Uma sensação de calor e um sentimento de retidão e justiça invadiram o peito de Kylie.
O momento de tranquilidade foi abalado quando a mãe gritou de novo, com os olhos focados em algo atrás de Kylie.
— Ele... O quê? Como? — A mãe começou a recuar.
Kylie se virou, agarrando a espada, e rezando para que fosse apenas o pânico da mãe.
Ela estava errada.

2 comentários:

  1. Gostei, não ficou com cara de que ela era uma super-herói que salva todos e tudo sozinha.

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    1. Verdade nem acredito que é o ultimo livro :(

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