14 de outubro de 2016

Capítulo 40

Kylie virou-se, escondendo o que podia das suas partes mais íntimas com as mãos. O vapor era tão denso que ela mal conseguia distinguir a silhueta. Mas um vago esboço de um corpo era visível por trás da cortina de vapor.
Todas as músicas assustadoras de filmes de terror com cenas de chuveiro fatais surgiram na cabeça de Kylie, mas, mais do que apavorada, ela estava furiosa. Será que fantasmas não sabiam o que era privacidade?
— Eu estou no chuveiro! — Kylie retrucou, autoritária. — Isso não pode esperar?
— Não, não pode — disse a voz. — Ele está prestes a me encontrar e isso vai magoá-lo muito. Ele não pode ficar sozinho.
O tom característico da voz fez vir à tona uma lembrança. Kylie conhecia aquela pessoa, mas de onde?
Sem se preocupar mais com sua nudez, Kylie abanou a mão para dissipar o vapor que impedia a visão como a condensação num espelho. Quando ela viu quem estava no chuveiro com ela, seu coração se apertou. Não de medo, mas de tristeza. E não era pela mulher que estava à sua frente, mas pelo seu neto, Lucas.
— Ele está a caminho da minha casa agora. Apresse-se. Ele não pode ficar sozinho.
Kylie saltou para fora do chuveiro e correu para se vestir. Enquanto lutava para colocar a roupa no corpo molhado, seu coração doía por Lucas, ao pensar em como ele se sentiria ao encontrar o corpo da avó.
— Onde a senhora mora? Espere! Burnett sabe?
— O vampiro? É a essa pessoa que você se refere?
— Sim — confirmou Kylie, desejando que não demorasse muito para ela falar num tom adequado.
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim, ele já esteve lá.
— Della! — Kylie chamou.
— Há uma carta na gaveta da minha escrivaninha que ele precisa ler. Não deixe que ele saia de lá sem lê-la.
Della veio correndo para a sala num flash.
— O que foi?
— Ele estava certo, sabe?
— Quem estava certo? — Kylie perguntou ao espírito, ignorando a vampirinha em pânico ainda usando seu pijama de Mickey Mouse.
— Você é parte da missão dele, e ele parte da sua. Eu vejo as coisas com mais clareza daqui. Veja, vocês têm sido parte das missões um do outro desde que se conheceram, todos esses anos atrás. Você é a razão pela qual ele irá concluir a missão da vida dele e ele vai estar ao seu lado para salvá-la quando você precisar de ajuda para concluir a sua. Mas vá agora. Vá ajudá-lo.
— É uma visão? — perguntou Della, olhando para Kylie com incerteza.
— Vamos embora! — Kylie disparou para fora da cabana. Ela estava quase na cabana de Holiday quando percebeu que estava voando e devia ter se transformado num vampiro.
— Espero que a gente esteja indo a alguma festa do pijama — disse Della com sua voz atrevida.
— Tenho que falar com Burnett — Kylie respondeu, enquanto lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto.
Elas aterrissaram com estrondo na varanda de Holiday e não tinham dado nem um passo quando Burnett abriu a porta, ainda fechando a calça jeans.
— O que aconteceu? — perguntou.
— Você sabe onde mora a avó de Lucas?
Ele parecia confuso, os olhos ainda atordoados de sono.
— Sim, Lucas me ligou há uns dez minutos, ele estava indo para lá, ver como ela está.
— Precisamos ir para lá.
— Por quê? — perguntou Burnett.
— Ela morreu — Kylie explicou, deixando mais lágrimas escaparem dos olhos. — Ele não precisa ser o primeiro a encontrá-la.
— Ah, mas que droga! — Burnett correu de volta para o quarto já com o telefone na orelha. Ele olhou para Kylie. — Ele não está atendendo.
— Você fica aqui — disse Burnett para Della, e então ele e Kylie partiram. Os pés dela só bateram no chão três vezes antes de alçar voo ao lado de Burnett.
Em menos de dez minutos, Burnett começou a sua descida. Eles pararam em frente a uma grande casa térrea de tijolos brancos, que dava uma impressão de riqueza e paixão pela jardinagem. O quintal parecia saído de uma revista.
Não que Kylie tenha passado muito tempo apreciando a paisagem. Seus pés mal haviam tocado o gramado bem cuidado quando ela ouviu um barulho dentro da casa.
Ela ouviu alguém ofegando de dor e tristeza.
— Ele já está aqui — disse ela a Burnett. — Eu vou entrar.
Burnett entrou na frente dela.
— Não. Eu vou entrar.
— Não! — Kylie exigiu, e começou a avançar, com o coração doendo por Lucas.
— Kylie — Burnett pegou o braço dela. — Quando um lobisomem está fora de si, especialmente tão perto da Lua cheia, ele às vezes ataca com raiva. Ele não pode controlar isso. Especialmente com um vampiro.
Ela secou as lágrimas dos olhos.
— Você não entende. Ele me ama. Não vai me machucar. Nunca faria isso.
Burnett hesitou.
— É exatamente como entre você e Holiday — disse Kylie.
Ele suspirou e se afastou da porta. Ela entrou na casa. O aroma de limão era o mesmo que Nana costumava usar. Tudo na casa, desde as antiguidades até as pinturas a óleo, demonstrava riqueza.
— Lucas! — ela chamou.
Ele não respondeu. Ela andou pelo corredor onde ouviu alguém soluçando de tristeza.
Lucas estava sentado na beirada da cama. O corpo sem vida da avó estava no meio da cama.
— Lucas — disse ela novamente, entrando no quarto.
Ele se virou. Seus olhos estavam do tom mais profundo e escuro de laranja que ela já vira.
— Vá embora! — ele rosnou.
— Não. Você precisa de mim agora. Sua avó me disse.
Ele atravessou o quarto e a prensou contra a parede. Não havia nada além de uma dor selvagem nos olhos dele. Ele rosnou, e pela primeira vez ela viu os dentes caninos dele projetados.
— Sou eu, Lucas — disse ela, sentindo os dedos dele enterrados nos seus braços.
Ela sentiu o instante em que ele caiu em si. Ele deixou cair as mãos, afastou-se dela e pressionou a cabeça contra a parede.
Ela foi até ele, colocou os braços ao redor da cintura dele, apertou o rosto entre as omoplatas de Lucas e abraçou-o.
— Ela se foi — disse ele, com a voz rouca de dor.
— Eu sei. — Ela o abraçou mais apertado.
Lucas se virou e puxou-a contra si. Eles ficaram lá por muito tempo, apenas abraçando um ao outro.
— Eu sinto tanto! — Kylie sussurrou, sentindo a dor do namorado e se lembrando com clareza de como ela se sentira quando soube que Nana tinha morrido.
Ele a soltou, e então encontrou os olhos dela. Seu olhar ainda estava brilhante, mas a selvageria tinha se dissipado. As lágrimas no rosto dele não eram um sinal de fraqueza, mas um sinal de devoção, do amor que sentia pela única mãe de verdade que ele tinha conhecido e depois perdido.
— Eu sabia que ela não tinha muito tempo, mas eu ainda não estava pronto. Pensei que tivesse mais um ano, talvez dois.
Kylie pegou a mão dele.
— Eu sinto muito. Sei como é isso.
Ele suspirou e olhou para a cama e para o corpo da avó. Ouvindo a respiração de Lucas mais curta, ela o puxou para fora do quarto.
Quando ela parou, ele encontrou o olhar de Kylie.
— Como você... como você soube?
— Ela veio me ver. Disse que você poderia precisar de mim.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Mesmo na morte, ela estava cuidando de mim.
Ele encostou as costas contra a parede e soltou outro rosnado baixo.
— Eu vou sentir tanta falta dela... Ela era minha avó e minha mãe ao mesmo tempo. Era a única pessoa que se importava comigo quando eu era criança.
Kylie se aproximou. Ele cruzou os braços atrás das costas dela e a abraçou. Ela finalmente se afastou e olhou para ele.
— Ela disse que havia uma carta para você na gaveta da escrivaninha.
— Vou olhar. — Ele passou a mão na bochecha dela. — Deixei uma mensagem no telefone do meu tio. Ele e os outros membros da família podem estar aqui a qualquer momento. É preciso que você vá.
— Quero ficar aqui. Quero ficar aqui ao seu lado, Lucas.
— Eu sei e, se fosse por mim, você poderia ficar. Mas o costume dos lobisomens de preparar os membros da alcateia para a morte é apenas para parentes consanguíneos. — Ele se abaixou e a beijou. — E mesmo se não fosse o costume, você é uma vampira nesse momento. Não posso correr o risco de que você se machuque. Por favor, entenda — disse ele. — Porque, se alguém tocar um dedo em você, eu vou matá-lo.
Ela assentiu com a cabeça. Não gostou de ter que ir, mas entendeu.
— Você vai ficar bem?
— Graças a você — disse ele.
— Eu não fiz nada. — Ela pousou a mão sobre o peito de Lucas, sabendo que o coração dele estava partido.
— Você veio. — Ele parou como se estivesse se lembrando de algo. — Deus, eu lamento! Eu te machuquei quando você entrou no quarto?
— Não — ela assegurou.
Ele levantou as mangas da camiseta dela e viu os hematomas em seus braços.
— Droga! Eu machuquei. — Ele fechou os olhos, mais angustiado ainda.
— Isso não é nada. — Ela ficou na ponta dos pés e beijou-o suavemente, na esperança de aliviar sua dor. — Eu estou bem, Lucas. Olhe pra mim.
Ele abriu os olhos. Ela sorriu.
— Eu estou bem.
Ele soltou um suspiro trêmulo, então inclinou a cabeça para cima e cheirou o ar.
— É Burnett lá fora?
Ela assentiu com a cabeça.
Ele franziu a testa.
— Ele não deveria ter deixado você entrar. Sabe que é perigoso.
— Ele tentou me deter. Eu insisti. Sabia que você não iria me machucar.
— Mas eu machuquei — ele disse com irritação, e olhou para os braços dela.
— Isso não é nada. Amanhã não terá mais nada.
Ele olhou no fundo dos olhos dela.
— Eu te amo, Kylie Galen. Ferir você é a última coisa que eu quero fazer.
Ela sorriu.
— Eu também te amo.
A sombra de dor nos olhos dele mudou por um segundo. Ele se inclinou e pressionou a testa na dela.
— Eu ouvi direito?
Ela olhou para ele.
— Sim, você ouviu. E você também precisa saber que, embora eu queira muito que você entre naquele Conselho, isso não vai mudar nada entre nós.
— Eu não ia deixar que mudasse. — Ele a beijou novamente e, em seguida, a fez recuar. — Gostaria de não ter que te mandar embora.
— Eu sei — disse ela.
Ele a acompanhou até a porta, a mão segurando a dela, e ela sentiu que Lucas realmente não queria deixá-la ir.
Tão logo abriram a porta, Burnett foi ao encontro deles.
— Sinto muito pela sua avó — disse Burnett.
— Obrigado. — A forma como Lucas falou, a maneira como ele se conteve na frente de Burnett, mostrava que ele estava escondendo sua dor. E ainda assim ele deixara que ela a visse. Ele não a tinha escondido dela. Ele confiava nela a esse ponto. Por alguma razão maluca, isso, mais do que qualquer outra coisa, fez com que ela o amasse mais ainda. As lágrimas causaram um nó na garganta de Kylie novamente. Ele precisava dela como ela precisava dele. O que significava que ela não poderia morrer.
Lucas olhou para Kylie.
— Amanhã é Lua cheia, então vai haver cerimônias. Provavelmente não vou vê-la por vários dias.
Ela aquiesceu, ainda sem gostar do que ouvia. Ela queria estar com ele em seu momento de dor. Mas aceitou que isso era algo que não podia mudar.
Burnett olhou por cima do ombro e, em seguida, de volta para Lucas.
— Alguém está vindo.
— É melhor vocês irem — disse Lucas.


— É só Lucas, ou algo mais? — Holiday perguntou na manhã seguinte.
Kylie olhou para a cachoeira. Ela tinha ido ao escritório de Holiday logo ao amanhecer e perguntado se elas poderiam visitar o lugar. Burnett, como de costume, esperou do lado de fora.
— Eu só precisava disso — disse Kylie. Ela tinha acordado pela manhã preocupada com Lucas e preocupada... com o que o fantasma tinha dito. Que se ela lutasse e perdesse, as pessoas que amava iriam sofrer.
Ela precisava sentir a energia quente da cachoeira dizendo a ela que ia ficar tudo bem. Ela não queria morrer, queria estar ao lado de Lucas ao longo de todos os altos e baixos da vida. Mas principalmente ela não queria morrer sabendo que iria deixar as pessoas que amava infelizes.
Holiday olhou para ela.
— Qual o problema, Kylie?
Kylie forçou um sorriso e lutou contra as lágrimas que subiam pela garganta. Ela sentia tudo aquilo ali. A paz, a aceitação de que tudo ficaria bem. Ela só não sabia se estaria viva para ver isso por si mesma.
— Você nunca sentiu que só precisava vir até aqui?
— Normalmente, quando isso acontece, alguma coisa está tirando a minha sanidade. Então, o que está te incomodando?
— Tudo! — respondeu Kylie. — Estou preocupada com Lucas. Ele está tão chateado, Holiday! Ele chorou. E eu não acho que ele possa fazer isso na frente do pai ou da família dele. Ele precisa de mim, mas eu não posso ficar ao lado dele por causa de uma regra idiota! E estou preocupada com a minha mãe, porque ainda não confio em John.
Estou preocupada em deixar todo mundo que eu amo, sem saber se eles ficarão bem sem mim.
O ambiente da cachoeira pareceu entrar em seu peito e acalmá-la. Juntamente com o toque de Holiday em seu braço.
— Vai ficar tudo bem. — disso Holiday, ainda com soluço. — E se você quiser, eu peço a Burnett para investigar John novamente.
Kylie suspirou.
— Não. Você está certa. Vai ficar tudo bem. — Ela tinha que acreditar. Ela precisava.
— Você já contou à sua mãe o que sente por ele? — Holiday perguntou.
— Contei, e ela acha que só estou chateada porque ela não vai voltar com o meu padrasto. — Kylie mergulhou os pés na água fria. — Eu até liguei para ela antes de procurar você. Tirei-a da cama e tudo mais. Ela está na casa de praia dele, aproveitando suas férias antes de pedir demissão para ir trabalhar pra ele. É como se ele estivesse monopolizando cada vez mais a minha mãe. Ela está praticamente morando com ele, e agora vai trabalhar pra ele.
Holiday apertou mais uma vez o braço de Kylie.
— Por mais que a gente queira fazer os nossos pais se comportarem, eles agem tão mal quanto nós em nossas crises de relacionamento. Minha mãe chegou até a sair com um stripper depois do divórcio.
Kylie olhou para Holiday e riu.
— Ok... Chega de coisas ruins. O que você quer que eu vista no seu casamento?
Holiday revirou os olhos com um ar afetado. Era o que acontecia cada vez que alguém mencionava o casamento.
— Por mim pode ir até de short. Você é a minha dama de honra. Pode usar o que quiser.
— Eu tenho um vestido estampado em tons pastel que eu acho que serviria.
— Parece perfeito! — disse Holiday. — Ah, eu contei que convidei Blake para o casamento?
— Você quer dizer, Blake, o seu ex-noivo?
— Ele mesmo — confirmou Holiday.
Kylie fez uma careta.
— E Burnett sabe? — Ela imaginou Burnett arrancando alguns membros de Blake por aparecer na cerimônia.
Ela sorriu.
— Foi ideia dele. Ele disse que queria que o homem viesse para saber que eu não sou mais solteira.
Kylie sorriu.
— É bem o estilo de Burnett.
— Claro que Blake recusou o convite. Acho que Burnett o assusta um pouco.
— O que prova que você só se apaixona por homens inteligentes — brincou Kylie com uma risadinha.
Elas se deitaram sobre as pedras e olharam para o teto da caverna.
— Eu sei que você é jovem, mas Burnett e eu estávamos pensando se você gostaria de ser madrinha do bebê. Afinal, é por sua causa que estamos juntos.
Kylie sorriu.
— Eu ficaria honrada.
Depois de alguns minutos de silêncio, Holiday falou novamente.
— Consegui os formulários das faculdades que você pediu. Burnett ou eu podemos ajudá-la a preenchê-los quando quiser.
Após um momento de silêncio pacífico, Holiday suspirou.
— Você consegue ver?
— Ver o quê? — perguntou Kylie.
— Acabei de ter um vislumbre do futuro. Você terminando a faculdade em cerca de cinco anos e voltando a Shadow Falls para trabalhar aqui.
— Você me contrataria? — perguntou Kylie.
— Num piscar de olhos — assegurou Holiday.
Kylie sorriu.
— Já que você tem tudo planejado, o que eu vou estudar na faculdade? Que tipo de trabalho vou fazer aqui?
— Psicologia, é claro. Você vai ser uma grande conselheira.
Kylie sorriu.
— Sabe, isso é exatamente o que eu estava pensando em fazer. — Kylie fez uma pausa. — Quando você olha o futuro, consegue ver se Miranda, Della e eu vamos entrar na mesma faculdade?
— Se vocês quiserem, vão, sim. Puxa, talvez a gente possa contratar vocês três. Miranda seria uma excelente professora. Com suas próprias deficiências, ela vai saber como trabalhar com outros alunos com mais dificuldades. E Della, com certeza, vai trabalhar com Burnett na segurança.
— Gosto da sua ideia do futuro. — Kylie fez uma pausa, então, perguntou: — Será que Lucas estaria aqui?
— Pode apostar que sim. — Ela suspirou. — Ele estaria trabalhando com Burnett na UPF e aqui durante meio período.
— Eu o amo — disse Kylie.
— Eu sei.
— Uau! Não vai me dizer que eu sou muito jovem para me apaixonar?
Holiday suspirou.
— Você é jovem, mas fazer o quê? Você é uma alma antiga, e às vezes isso faz com que tenha mais sabedoria do que outras pessoas da sua idade.
Holiday estendeu a mão e acariciou a de Kylie.
— Com certeza vai ficar tudo bem.
Sim, Kylie pensou. Ela realmente gostava da visão de futuro de Holiday. Tudo o que tinha a fazer era continuar viva.

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