4 de outubro de 2016

Capítulo 4

— Não, agora é a minha vez — insistiu Kylie, arrependendo-se de ter perguntado e levantando a mão na esperança de impedir uma guerra entre suas duas melhores amigas. Depois respirou fundo. — Eu já contei a maior parte quando nos falamos por telefone. Mas o que eu ainda não consigo encarar é que curei Lucas e Sara. Isso significa que há mais uma habilidade a acrescentar à minha miscelânea de dons. Alguma ideia do que isso poderia significar? Porque eu realmente gostaria de saber o que eu sou.
— Não dá pra saber — disse Miranda. — Você é simplesmente estranha.
Ela riu, e até mesmo Della abriu um rápido sorriso.
Kylie franziu a testa.
Miranda fez uma cara séria.
— Só estava brincando. Agora, falando sério, você é... diferente. Só o fato de ninguém poder ver com clareza o seu padrão mental, que vive mudando, bem, já não é normal. — Ela apertou os olhos e olhou para a testa de Kylie. — Eu nunca vi um padrão cerebral mudar assim, a não ser um metamorfo durante uma transformação.
Kylie mordeu o lábio e refletiu se seria sensato fazer a pergunta que estava na ponta da língua. Mas se ela não pudesse perguntar às suas melhores amigas, a quem poderia?
— O que vocês sabem sobre protetores?
Um silêncio caiu sobre a sala. Então Miranda trocou um rápido olhar com Della.
— Por quê? — Miranda perguntou.
— Ah, não! — Della disse. — Pega leve! Não me diga que você é uma protetora... Quer dizer, eu nunca conheci um protetor, mas pelo que eu ouvi são tipo... super, super-raros.
Kylie ergueu a mão para que Della parasse de tirar conclusões precipitadas.
— Eu não sei com certeza, mas Holiday parece achar que é possível. Ela disse que isso poderia explicar como Daniel morreu, porque ele não pôde proteger a si mesmo. E também explicaria por que eu não pude me defender do vampiro.
— Você se defendeu. Quebrou uma parede de concreto! — disse Miranda.
— Só depois que ouvi o sacana batendo em Lucas.
Os olhos de Miranda se arregalaram.
— E você só foi capaz de enfrentar Selynn quando pensou que ela tinha machucado sua mãe. Caramba! Estou na mesma cabana que uma protetora! Quer dizer, ninguém vai mexer mais comigo, porque você vai chutar a bunda de quem fizer isso! — Sua voz ficou mais aguda. — Eu sou amiga de uma protetora! Você sabe o quanto isso faz de mim uma pessoa legal?
Miranda e Della bateram as mãos no alto.
Kylie olhou para elas.
— Você sabe o quanto isso me faz parecer uma pessoa nem um pouco legal?
— Isso não faz de você uma pessoa menos legal — disse Della. — Isso faz de você uma pessoa incrível! Você não ia acreditar em tudo o que ouvi sobre protetores. Significa que, quando você tiver todos os seus poderes, será ainda mais forte do que eu. — Ela estreitou os olhos escuros e ligeiramente amendoados. — Eu não sei se gosto disso, mas ainda assim é incrível.
— Mas eu não quero ser incrível. Só quero descobrir o que eu sou e, depois, viver a minha vidinha de híbrido sobrenatural com meus dons nada surpreendentes. Ajudar um fantasma aqui e ali e, claro, seria legal curar algumas pessoas. Eu viveria bem com isso. Porque... — Kylie hesitou, sem saber direito se estava sendo completamente honesta, mas depois decidiu abrir o jogo. — Talvez eu até queira ser incrível, só não tenho tanta certeza se vou mesmo ser... incrível. Eu não sou como você. — Ela apontou para Della. — Não sou tão destemida e com certeza não sou uma heroína. Eu gosto de coisas fáceis, de baixo risco ou sem nenhum risco.
Miranda limpou a garganta como se esperasse Kylie terminar para dar sua opinião.
— Eu não sou como você também — disse Kylie para ela. — Eu não sou...
— Não se preocupe — disse Miranda. — Eu sei que não sou o tipo de garota que sai por aí chutando traseiros...
— Você ainda é mais corajosa do que eu. E nunca tem medo de falar o que pensa. Você não se importa com o que as pessoas pensam. Eu nunca iria tingir meu cabelo por medo de que as pessoas não gostassem.
— Mas no dia em que você arrebentou com a Selynn, não teve medo — disse Della, interrompendo-a. — Você simplesmente agiu. E vai acabar se acostumando a ser mais radical. Não é tão difícil.
Parecia bem difícil para Kylie.
— A maioria dos protetores é de uma determinada espécie?
Se fosse esse o caso, ela esperava que isso pudesse levá-la a descobrir de que espécie ela era.
— Não — disse Miranda. — Eles podem ser qualquer coisa, mas são conhecidos pela índole boa e pura. Uma espécie de Madre Teresa dos sobrenaturais.
— Algo que eu absolutamente não sou — disse Kylie.
Della e Miranda se entreolharam e depois olharam de volta para Kylie.
— Você é, sim — disseram elas ao mesmo tempo.
— Não sou! Eu não sou nem um pouco melhor do que vocês duas. Olhem o que eu fiz para Selynn e Fredericka.
— Porque você estava protegendo alguém. E é exatamente isso o que os protetores fazem. — Miranda deu de ombros como se estivesse se desculpando, quando viu a carranca de Kylie.
— Mas... eu não sou santa. Outro dia praticamente joguei Socks para fora da cama por me acordar. E... atropelei um esquilo uma vez.
— De propósito? — Della perguntou.
— Não.
— Pois, então — disse Della. — Aposto que você chorou e se sentiu culpada.
A cara feia de Kylie ficou ainda pior.
Della arqueou uma sobrancelha.
— Está vendo? É isso o que faz de você uma pessoa tão boa. Você quase nunca fica furiosa.
— Eu fico furiosa. Fico furiosa com vocês o tempo todo. Lembre-se...
— Espere, uma coisa não faz sentido — disse Miranda. — Eu nunca ouvi falar de um protetor que não fosse cem por cento sobrenatural.
— Estão vendo? Essa é a prova. — Kylie bateu as mãos na mesa, querendo acreditar nisso. — Eu não sou uma pessoa tão boa assim, e sei que sou filha da minha mãe, que é humana. Então, não sou uma protetora.
— Ou talvez você seja simplesmente o primeiro protetor híbrido de que já se ouvir falar — Miranda disse. — Quer dizer, normalmente só nasce um protetor a cada cem ou duzentos anos. Mas chega desse assunto. — Ela agitou as mãos no ar, como se empurrasse o pensamento para longe. — Vamos chegar à melhor parte e falar sobre o que aconteceu naquela noite.
— Que melhor parte? — Kylie perguntou.
Miranda abriu um grande sorriso, um daqueles que poderia ser usado para vender pasta para clarear os dentes.
— Pooor favooor... Você ficou lá, no escuro, tarde da noite, por várias horas, sozinha com Lucas. Que, por acaso, é o mais gato de todos os lobisomens que eu já conheci. Quer dizer, eu não me ligo muito em lobisomens, mas até eu tenho que reconhecer. Ele é demais! Então... — Ela estendeu as duas palmas. — O que rolou? E não se atreva a não me dizer nada. Porque vou perder totalmente, completamente, a fé nos romances se nada aconteceu.
Kylie abriu a boca para responder e então viu Della inclinada para a frente, virando a cabeça ligeiramente, como se tentasse ouvir os batimentos de Kylie e ver se ela tentava mentir.
— A bruxinha tem razão — disse Della. — Essa pode ser mesmo a melhor parte.
Kylie franziu a testa para Della. Sendo uma garota sempre tão cheia de segredos, ela não devia pressioná-la daquele jeito. Então Kylie olhou para Miranda, que prendeu a respiração em expectativa, esperando Kylie abrir o coração.
— Desculpe — disse ela. — Não aconteceu nada.
Miranda bufou e pôs os braços sobre a mesa, afundando a cabeça entre eles.
Della a encarava, e Kylie sabia que a vampira estava ouvindo seu batimento cardíaco e verificando de novo se ela estava mentindo. Francamente, Kylie não sabia muito bem o que Della ouviria. Aquilo não era realmente uma mentira. Nada aconteceu. Exceto que...
Ela tinha se sentido segura ao ser abraçada por Lucas, a não ser na hora em que ela se transformou em Mulher Maravilha ao ouvir o bandido batendo nele. O que aquilo queria dizer? Kylie não tinha certeza. Então, como poderia explicar?
Miranda levantou a cabeça da mesa.
— Entende o que eu quero dizer? Você é a Madre Teresa. Pura. Sem desejo.
— Não — Kylie rebateu, não querendo ser vista como uma freira. — Eu... tenho desejo.
Della e Miranda trocaram um olhar pesaroso.
— Desculpe — disse Della. — Mas, se anda como uma freira e se comporta como uma freira, é porque é uma freira.
— Ele me abraçou — disse Kylie. — Me abraçou forte. E eu adormeci encostada no ombro dele. Foi bom. E meio que... Ele é quente. — Embora ela quisesse dizer que ele tinha uma temperatura quente, não se importava que as duas tirassem suas próprias conclusões.
— É isso aí! — Miranda deu um grande sorriso novamente. — Ele te beijou? Foi como o beijo ardente que ele te deu no riacho quando você chegou aqui?
— Não — disse Kylie.
As duas amigas trocaram olhares outra vez.
— Madre Teresa... — disseram ao mesmo tempo.
— Mas ele me beijou quando voltei pra cá — Kylie deixou escapar, decidindo que preferia contar do beijo do que ser considerada uma freira. — E ele quase me beijou quando me seguiu até o escritório hoje cedo.
Miranda gritou e Della riu.
— Então, ele te tascou um beijo, hein?
Kylie olhou para o humor no rosto das suas companheiras e não viu onde estava a graça.
— Eu estou tão confusa! — Ela encostou a testa na mesa. Socks, agora de volta à mesa, enfiou o nariz no cabelo dela e cheirou seu couro cabeludo como se estivesse preocupado.
— Confusa com o quê? — Miranda perguntou.
Kylie levantou a cabeça e apoiou o queixo na palma da mão.
— Confusa com o que eu sinto por Lucas. Confusa com o que eu sinto por Derek... além de chateada. Estou furiosa com Derek neste momento.
Socks golpeou com a cabeça a mão dela, pedindo carinho. Tentando também confortar a si mesma, ela afagou a cabeça do gambazinho.
— E você tem todo o direito! — Della lançou a Miranda um olhar estranho. — Ela precisa saber.
— Saber o quê? — Ao ver as duas trocando olhares, Kylie teve um mau pressentimento.
Elas não tiveram a chance de responder, porque ouviram um estalido e a porta da cabana se escancarou.
Burnett entrou e atrás dele estava Holiday. Atrás de Holiday estava Perry. Será que eles tinham notícias dos Brightens? O coração de Kylie deu um salto.
— Eu disse pra você bater! — disse Holiday, repreendendo Burnett.
— Eu bati! — ele retrucou, olhando para ela, atrás dele.
— Bem, geralmente depois que se bate, espera-se até que alguém lhe diga que pode entrar.
Burnett lançou a Holiday um sorriso forçado.
— Acho que você precisa ser mais específica da próxima vez. — Ele olhou para Kylie, e ela pôde ver a preocupação em seus olhos.
— O que está acontecendo? — O olhar de Kylie se voltou para Perry, que parecia quase culpado. Mas culpado pelo quê? Ah, droga! O que será que tinha acontecido?
— Sinto muito. — Os olhos de Perry adquiriram um tom verde profundo.
O peito de Kylie ficou apertado.
— Sente muito pelo quê?
Perry olhou para Burnett e, em seguida, para Holiday.
— O que aconteceu? — Kylie perguntou. — Os Brightens estão bem? Responda!
Perry ficou ali olhando para ela com um olhar culpado.
— Eu responderia se fosse você — Della disse para Perry, num tom sarcástico. — Do contrário, ela pode catar você pelas orelhas outra vez...

2 comentários:

  1. Que mania que o povo desse livro tem de não saber usar a porta!

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  2. É essa história do Lucas preferir o bando!? Caiu no meu conceito....

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