8 de outubro de 2016

Capítulo 3

Os pés descalços de Kylie moviam-se rápidos de encontro à terra enquanto ela corria. Ela ouviu uma miscelânea de vozes vinda do refeitório, onde todos se reuniram após o funeral de Ellie. Ellie, que morrera nas mãos de Mario.
Outra onda de culpa tomou conta de Kylie. Ela correu mais rápido. Não queria se juntar aos outros campistas. Ela queria... precisava... ficar sozinha.
Estava quase chegando à sua cabana quando sentiu uma lufada de ar passar por ela. Um vampiro com pressa. Talvez um vampiro caçando.
Kylie se esforçou para correr mais rápido e se preparou mentalmente para lutar. Não que tivesse alguma chance de vencer uma batalha contra um vampiro. A superforça que ela tinha só aparecia quando estava ajudando os outros.
Uma protetora, era assim que os outros sobrenaturais a chamavam. Mas como poderiam chamá-la assim se ela não tinha protegido Ellie? Nem mesmo as suas habilidades de cura tinham surtido efeito. Que injustiça ela ter salvado um pássaro, trazendo-o de volta à vida, e não ter conseguido salvar uma amiga! Ela estava disposta a pagar o preço. Não importava quanto de sua alma teria que dar em troca para salvar Ellie.
Ela sentiu novamente: a lufada de ar quando algo passou rapidamente por ela.
Dessa vez viu uma cortina de cabelos negros esvoaçantes. Definitivamente era um vampiro.
Mas ele não estava caçando.
Della apareceu ao lado de Kylie, correndo no mesmo ritmo alucinante. Mas por ser uma vampira, ela se movia com facilidade, como se estivesse correndo por diversão.
— O que há de errado? — O cabelo escuro de Della, herança da sua ascendência asiática, tremulava atrás dela como uma bandeira.
— Você é o que há de errado. — Kylie parou bruscamente. — Odeio quando você passa por mim correndo desse jeito e eu não consigo ver se é de fato você. Eu me sinto ameaçada. Me sinto como... uma presa.
— Ah, corta essa! — resmungou Della, com o seu jeito malcriado de sempre. — Me desculpe por estar preocupada. Eu ouvi você correndo como uma louca e pensei que alguém estivesse te perseguindo.
— Sinto muito, mas ninguém está me perseguindo. — O olhar de Kylie voltou-se outra vez para a floresta. Ele só está me provocando para que eu entre na floresta e enfrente-o. Mas quem é ele, e por quê? No início ela achava que era Mario, mas e se estivesse errada?
— O que aconteceu? — Della perguntou.
Kylie tirou os olhos da floresta.
— Nada.
Della inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse ouvindo o coração de Kylie, buscando os sinais de que a amiga estava tentando enganá-la. Então revirou os olhos.
— Mentirosa... Que coisa feia...
Kylie gemeu.
— Tudo bem. Estou mentindo. E daí?
— Uau! Você está com um humor daqueles! O que a deixou assim?
— Você. — Kylie se encolheu ao ouvir o seu próprio tom rude.
Della sorriu como se apreciasse a raiva da amiga. Kylie começou a andar.
— Quem deveria ser a sua sombra hoje? — Della perguntou.
— Eu não sei. — O olhar de Kylie disparou para a floresta e a sensação bateu mais forte do que nunca. Ela saiu correndo pela trilha, acelerando o passo ao máximo. Não parou até que chegou à sua cabana. Sentiu uma câimbra do lado direito de tanto correr. Ao chegar na varanda, desabou no chão.
— Então, o que aconteceu? — Della não estava nem mesmo respirando com dificuldade quando se sentou ao lado de Kylie.
Algo na floresta está chamando o meu nome. Isso parecia loucura. Kylie não podia dizer isso. Ela olhou para Della. Os olhos pretos puxados da companheira de alojamento pareciam realmente preocupados e a fizeram se sentir uma megera.
— Desculpe. Estou de mau humor.
— O que é muito raro — disse Della. — Eu meio que gosto disso.
Kylie revirou os olhos e deixou de lado as suas reservas.
— Você já ouviu falar em camaleões?
— Já — respondeu Della.
— Já? O que você sabe sobre eles?
— São lagartos que mudam de cor. De acordo com Chan, eles não têm um gosto tão ruim. No Havaí, os vampiros da região vendem o sangue desses bichos. Deve ser tão bom quanto o O negativo.
— Não. — Kylie puxou os joelhos para cima e os abraçou.
— Não, o quê?
— Quero dizer... camaleões que são um tipo de sobrenatural.
— Um lagarto sobrenatural? — Della riu.
Kylie ficou de pé num salto.
— Ei! — Della apareceu ao lado dela. — O que há de errado com você?
Kylie abriu a porta da cabana e olhou de volta para Della.
— Tudo está errado.
— É por causa de Ellie? — A voz de Della insinuava uma emoção que a vampira queria esconder.
O coração de Kylie ficou mais apertado.
— É, é por causa da Ellie. É porque eu sou um lagarto. É tudo.
— Você é um lagarto? — A seriedade desapareceu dos olhos da amiga e ela sorriu.
Kylie irrompeu através da porta, então virou-se novamente para Della.
— É isso mesmo, você é uma vampira e eu sou um lagarto, por isso pode ir se acostumando.
O sorriso de Della desapareceu.
— Você fumou alguma coisa? Sério, acho que você é um lobisomem. Esse seu humor irritadiço é um pista infalível.
— E os vampiros? Não são irritadiços? — disse Kylie, revirando os olhos.
— Não, nós somos mal-humorados. Irritadiços e mal-humorados são duas coisas completamente diferentes.
Della entrou na cabana. A tentativa da vampira de mostrar bom humor era para ajudar Kylie, não para feri-la.
Mas Kylie não estava no clima.
— Eu não sou um lobisomem. — Lágrimas ardiam em seus olhos. — Se eu fosse, então Lucas ficaria feliz e tudo estaria em perfeita ordem neste mundo.
Della olhou para ela espantada.
— Você está falando sério?! Quem te disse que você é um lagarto?
— Meu pai.
Os olhos de Della se arregalaram.
— Está brincando.
— Não, não estou.
Della deixou-se cair no sofá e olhou a sala em volta.
— Ele está aqui agora?
— Não.
— Ótimo. — Ela bateu as mãos nas coxas. — Talvez ele estivesse fumando algo.
Kylie revirou os olhos cheios de lágrimas.
— Você poderia parar de fazer piadinhas?
Della pegou uma almofada do sofá e jogou em Kylie.
— Olha aí, seu lado lobisomem vindo à tona novamente.
Kylie se virou para entrar em seu quarto, mas antes que chegasse à porta, Della estava na frente dela. Era assustadora a rapidez com que um vampiro podia se mover.
— Tudo bem — disse Della. — Eu vou tentar ficar séria, mas... É loucura. Eu sei que você não quer acreditar, mas alguém está curtindo com a sua cara. Não existe essa coisa de lagarto sobrenatural. É só você perguntar a ela.
— Ela quem? — A porta principal da cabana bateu e Miranda entrou na sala. Seu cabelo loiro estava solto, listado com mechas cor-de-rosa, verde e preta. Kylie não sabia se Miranda usava seus poderes de bruxa para tingir o cabelo ou se era tinta mesmo.
Miranda franziu o cenho.
— Por que você me deixou lá sozinha? — ela perguntou a Della.
Della fez uma careta.
— Foi mal. Kylie está tendo uma crise. Eu só posso ser superamiga de uma de vocês de cada vez.
Miranda olhou para Kylie.
— Que tipo de crise?
Normalmente, Kylie contava tudo a Miranda e Della, mas nesse momento ela preferia ficar de boca fechada. Durante todos aqueles meses ela ansiara por saber de que espécie era, achando que isso iria resolver tudo e, no entanto, ali estava ela, supostamente sabendo que era um camaleão, e se sentindo mais confusa do que nunca.
— Crise de réptil apetitoso. — Della riu, colocou a mão na boca e depois se voltou para Kylie, pedindo desculpas com os olhos. — Opa!
— O quê? — Miranda exclamou.
Della apoiou uma mão no quadril.
— Diga a Kylie que lagartos sobrenaturais não existem.
— Perry pode se transformar num lagarto. — Os olhos de Miranda brilharam com orgulho. — Ontem ele se transformou em...
— Por favor, chega de histórias sobre Perry. — Della pressionou as mãos contra o estômago. — Senão juro que vou vomitar.
— Você é tão idiota... — Miranda rebateu.
— Eu não sou idiota. Estou farta de ouvir histórias sobre Perry. “Os dedos mindinhos de Perry são tão bonitos!”, “Perry tem as sardas mais charmosas que eu já vi atrás da orelha direita.”
— Você só está com inveja! Porque não tem namorado e Kylie e eu temos!
Tinha. Kylie tinha um namorado. Ela não tinha certeza do que ia acontecer entre ela e Lucas agora. Os apelos do lobisomem para que ela não fosse embora ecoaram em seu coração.
— Inveja? — Della rugiu para Miranda. — Ah, pelo amor de Deus, eu prefiro cair morta agora do que viver apaixonada como você.
Miranda ergueu a mão e mexeu o dedo mindinho – um sinal claro de que um feitiço estava prestes a ser lançado dos seus lábios. Os olhos de Della brilharam e seus caninos se projetaram.
— Chega! — Kylie olhou de uma para a outra. Ela não aguentava mais. — Ah, que inferno! Quer saber, não parem, não. Vocês duas ameaçam se matar desde que cheguei aqui, e isso está me deixando louca. Então, simplesmente se matem logo para pôr um fim nesse sofrimento. — Por dentro, Kylie estremeceu. Ela não queria ter dito aquilo. Nem mesmo agora, quando estava tão furiosa. No entanto, talvez um pouco de psicologia reversa corrigisse aquelas duas.
Miranda e Della encararam Kylie como se ela tivesse perdido o juízo. Elas poderiam até estar certas, mas em parte era por culpa delas. Suas discussões estavam deixando Kylie a ponto de enlouquecer.
— Vamos lá! O que estão esperando? Se matem de uma vez. E façam isso de um jeito divertido. — Kylie cruzou os braços e fulminou as duas amigas. Começou a bater um pé no chão, assim como a mãe dela fazia quando estava à beira de um ataque de nervos.
Os olhos de Della voltaram à sua cor original e seus caninos desapareceram sob o lábio superior. Miranda baixou seu ameaçador dedo mindinho. Quer dizer então que a psicologia reversa funcionava de fato. Rá!... Quem diria...
— O que há de errado com ela? — Miranda perguntou a Della como se Kylie estivesse tão mentalmente instável a ponto de não poder responder por si própria.
— Não há nada errado comigo — respondeu Kylie, frustrada além dos limites. — Eu me pergunto o que há de errado com vocês duas.
Della olhou para Miranda e encolheu os ombros.
— Ela pensa que é um lagarto.
— Um camaleão — Kylie corrigiu.
Miranda revirou os olhos.
— Coitadinha. Está agindo como um lobisomem.
Della lançou a Kylie um sorrisinho.
— Eu disse isso a ela. Mas ela me ouve? Claro que não!
— Eu não sou um lobisomem. — Não importava o que Kylie desejasse ser agora.
— Mas, se você for, tudo bem — disse Miranda. — Prometemos te amar de qualquer maneira.
Kylie desabou numa cadeira da sala, enquanto as duas melhores amigas olhavam para ela com um misto de piedade e malícia. Elas achavam que Kylie estava louca. E talvez ela estivesse mesmo. Achava que a floresta estava chamando seu nome e acreditava que era um réptil. Ela se inclinou para trás e olhou para o teto.
— Eu sou um camaleão — disse ela, esperando que dizer isso lhe trouxesse algum tipo de entendimento instintivo. Ela prendeu a respiração, esperando por uma epifania – uma certeza interior que faria com que tudo parecesse entrar nos eixos.
Nada aconteceu. E nada pareceu entrar nos eixos. Não parecia certo ela ser um lagarto. Nem ver um fantasma com o rosto de alguém que ainda estava vivo, nem o seu pai sugerir que ela iria em breve fazer um passeio até o além, e muito menos a confissão de Derek de que ele a amava.
Nada. Nada parecia certo. Ela gemeu.
— Dê a Kylie uma Coca Diet, Della — disse Miranda. — Talvez o açúcar dê uma turbinada no cérebro dela.
— Esse refrigerante não tem açúcar de verdade — respondeu Della.
— Eu sei. Mas você já ouviu aquela frase? Finja até que seja verdade?
— Ah, esqueça a Coca. Eu vou pra cama. — Kylie levantou da cadeira num salto e foi para o quarto, batendo a porta com tanta força que quase a arrancou das dobradiças.
Atrás da porta, ouviu as amigas dizerem ao mesmo tempo:
— Definitivamente, um lobisomem.
Ela não tinha chegado a sua cama quando ouviu um barulho alto na sala de estar. Será que Miranda e Della tinham finalmente decidido se atracar? Sentindo-se culpada por encorajá-las, resolveu sair do quarto para evitar a briga, mas se acalmou quando ouviu vozes.
— Onde está Kylie? — A voz grave e profunda de Burnett atravessou a parede ao mesmo tempo que seu celular começou a tocar.
Ela tirou o telefone do bolso e abriu a porta. Burnett estava do lado de fora, já com a mão levantada para bater na porta. Raiva e um ar de culpa se estampavam no seu rosto.
— Algo errado? — O telefone vibrava na mão de Kylie.
— Você está bem?
— Por que não estaria? — Será que tinha acontecido mais alguma coisa? A essa altura, nada poderia surpreendê-la.

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