31 de outubro de 2016

Capítulo 3

Dan sentiu suas pernas tremendo enquanto eles corriam em direção ao carro de Nellie. Ele rapidamente mergulhou no banco de trás do jipe enquanto Amy sentou na frente. Ele não queria que elas soubessem como ele esteve aterrorizado, esperando aqueles longos minutos no fundo de uma cova.
— Pirralhos! Me desculpem! Eu perdi tudo? — Nellie torcera o tronco e estava remexendo nas coisas do banco de trás, tentando endireitar suas tralhas de sempre, o que Dan considerava uma tarefa impossível.
A familiaridade do gesto, o cheiro habitual do carro – o que era, exatamente? Uma mistura de pipoca, maçãs, e aquele frasco de shampoo com cheiro de grama molhada que Nellie tinha derramado um ano atrás? – o que quer que fosse, o ajudou a se sentir seguro.
Quando Nellie retornara para a faculdade no período de inverno, ela tentou por alguns dias suavizar sua aparência, mas agora seu cabelo estava novamente no seu estilo louco de costume, preto com pontas brancas platinadas. Ela estava sempre atrasada, mas alegava que era porque ela estava “loucamente ocupada.” Além de ser tutora deles, possuía carga completa de aulas na Universidade de Boston, enrolava, pelo menos, dois namorados, e cozinhava em um café em Boston às quartas-feiras e nas noites de sábado. Dan sorriu quando viu sua dificuldade para varrer o caos do banco de trás para o chão: em seu braço havia uma nova tatuagem temporária. A palavra FOCO brilhou pra ele do antebraço bronzeado dela.
Nellie já havia sido a au pair deles, o que significa que ele uma vez teve a melhor au pair da história da civilização. Ela viajou o mundo com eles na caça às 39 pistas, cuidando deles e os protegendo. Agora, ela era como uma mistura de irmã mais velha e melhor amiga.
Nellie tirou vários itens – uma garrafa de água, uma toalha, um livro de receitas, um saco de maçãs – do assento enquanto falava.
— Eu tive uma manhã daquelas — ela falou, jogando um sanduíche meio comido de volta no saco de papel. — Meu celular ficou maluquinho. Deletou todas as minhas fotos! E então seu tio Fiske ligou, ele está bem, mas acho que devemos visitá-lo. E então eu esqueci completamente que tinha colocado rolinhos de canela no forno, e corri para chegar aqui a tempo, embora eu soubesse que a tia Beatrice me mataria se eu estivesse atrasada... e aí um carro vermelho me fechou... — A cabeça de Nellie apareceu. — Ei, eu acho que é aquele carro! — ela exclamou, apontando para o Toyota vermelho. Então, finalmente, ela olhou para Amy e Dan. — Por que vocês estão tão sujos? Isso é SANGUE?
— Nós estamos bem — Amy tranquilizou-a, pegando a toalha.
— Vocês definitivamente NÃO estão! O que aconteceu?
— Eu te conto enquanto dirige — Amy disse. — Tem um monte de fotógrafos aqui, por algum motivo. Talvez alguém famoso vá ser enterrado hoje — Amy limpou seu rosto e então jogou a toalha para o Dan.
Nellie colocou o carro em marcha e dirigiu para os portões do cemitério.
— Ok, desembucha, porque estou a ponto de enlouquecer totalmente. Vocês caíram de uma árvore ou algo assim?
— Nós caímos em uma cova — Dan respondeu. — Por que nós fomos empurrados. Então algum valentão tentou nos enterrar vivo.
— Dois deles me perseguiram pelo cemitério — Amy acrescentou.
Nellie quase saiu da estrada quando se virou para olhar o Dan. 
— Não é engraçado.
— Eu também não acho que tenha sido — Dan disse, limpando o último resíduo de terra do rosto.
As mãos de Nellie agarraram o volante. Ele viu seu rosto mudar. Ela, assim como eles, era uma Madrigal, o clã da família que agora estava no comando de todos os Cahill.
— Alguma ideia de quem eram? — ela perguntou.
— Nós não sabemos — Amy respondeu. — Esse é o problema. — Ela olhou pela janela. — Está começando de novo Nellie. Eu sinto isso.
Nellie deu olhada rápida para ela.
— O quê?
— Alguma escuridão que a gente não consegue ver. Está vindo em nossa direção. De novo.
— Você tem certeza que não foi só uns caras malucos aleatórios...
Dan podia ver o rosto de Amy no espelho retrovisor. Ele conhecia aquele olhar. Ela estava analisando os detalhes, pensando em cada palavra, cada gesto. 
Ela balançou a cabeça firmemente.
— Não. Isso foi planejado. Eles devem ter pagado o agente funerário. E...
— Eles sabiam quem a gente era — Dan disse. — Eu tenho certeza disso.
— Cahill ficando irritados? — Nellie sugeriu.
Amy e Dan consideraram. Mesmo que agora a família Cahill houvesse concordado com a paz, e a rede deles houvesse conectado todos os clãs, eles não conheciam cada Cahill pessoalmente.
— Acho que não — Amy respondeu lentamente. — Havia algo... profissional sobre eles. Tipo capangas contratados.
— Capangas é a palavra certa — Dan concordou. — Aquilo não era um pastor. Eu achei estranho o cara parecer uma versão ilustre do Incrível Hulk.
— Quem quer que fossem, aqueles caras eram atletas olímpicos de primeira. — Amy disse. — Quando eu chutei o cara, foi como bater em uma parede.
Nellie mordeu o lábio.
— Nós vamos descobrir — ela falou.
Sua voz estava confiante, mas Dan sabia que quando Nellie mordia o lábio, ela estava seriamente apavorada. Eles ficaram em silêncio pelo resto da viagem.
Eles atravessaram as estradas de volta para Attleboro até que chegaram à propriedade Cahill. Nellie digitou o código nos portões de ferro e dirigiu pela estradinha sinuosa. Assim que os portões se fecharam atrás deles, Dan relaxou. Ele percebeu que suas mãos estavam fechadas em punhos.
A elegante mansão de Grace apareceu logo à frente, através de uma campina e atrás de um grupo de árvores. Dan deixou escapar um longo suspiro. Lar.
Nellie estacionou em frente da porta da cozinha e desligou o motor. 
— Vamos acessar a rede Cahill e ver se há algum alerta.
  Pendurando suas jaquetas no átrio, eles tomaram as escadas pulando dois degraus de cada vez. Eles não usavam muito da casa agora – apenas a cozinha, os quartos e a biblioteca de Grace, um lugar onde muitas vezes se reuniam no final da tarde, com um fogo na lareira, a cabeça de Amy inclinada sobre um livro. Dan a ouvia perambular pela casa à noite. Ele sabia que não havia nada que ele pudesse fazer para sumir com sua tristeza.
Eu sou uma das crianças mais ricas do planeta, e não posso fazer nada.
Há dois anos, após a caça às 39 pistas, Amy fizera um grande plano para reformar a mansão da avó deles. Ela sabia que havia problema chegando, então construiu um centro de comando, com um monte de quartos de hóspedes, banheiros e uma cozinha separada, caso os Cahill precisassem ficar por lá.
Amy tinha até comprado um satélite em órbita para suas necessidades de comunicação, que ela nomeou de Gideon por causa do primeiro Cahill. Ajudava bastante ter um zilhão de dólares. Amy não era o tipo de garota que comprava suéteres e bolsas. Ela comprava satélites. Isto praticamente fazia dela a irmã mais legal da galáxia, ele imaginava.
  Agora Dan usava o computador do centro de comando para manter pelo menos dois jogos de xadrez ao mesmo tempo com seu melhor amigo, Atticus Rosenbloom, que vivia em Roma, com seu irmão, Jake. Dan sabia que algo não estava bem entre sua irmã e o Jake agora, mas ele preferia comer um prato de geleia de salamandra do que perguntar a ela sobre isso.
Quando ele entrou na sala, viu imediatamente que ele tinha perdido. Atticus tinha deixado uma mensagem: PERDEDOR.
  Perdi para um garoto de onze anos. Bem, pelo menos o Atticus era um gênio. Ele já tinha se graduado no ensino médio e fora aceito por Harvard, Yale e pela Universidade de Chicago. Dan escreveu de volta: NÃO POR MUITO TEMPO.
Ele viu sua irmã estremecer quando passou pela entrada. Ele sabia que este quarto a lembrava de Evan.
Saladin se esfregou contra seus tornozelos e ele o pegou. Colocou o gato no colo quando se sentava em frente ao computador principal. Ele começou a verificar o mural dos Cahill.
— Nada fora do comum — anunciou. Ele deixou escapar um suspiro de alívio. Pelo menos sua família estava segura.
Nellie se sentou no segundo computador, a testa franzida. 
— Seu sistema de alerta pessoal está apitando que nem louco, no entanto. Olha todos esses acessos.
Amy se inclinou sobre seu ombro.
  — É um site de fofoca — ela disse, em tom surpreso.
Nellie clicou no link, e uma imagem apareceu. Amy e Dan na frente da sede da Interpol.
CAHILL MIMADOS ROUBAM OBRAS DE ARTE POR DIVERSÃO!, gritava o título. Embaixo, em fonte menor, estava: Alegam que os roubos foram “apenas pegadinhas”. Teriam pago por sua liberdade?


— O quê? — Amy exclamou.
— Nós nunca falamos que os roubos foram pegadinhas! — Dan protestou. — E não subornamos ninguém! E a Interpol entendeu totalmente que a gente roubou aquelas coisas para resgatar os reféns!
— E eles concordaram em deixar a história em off. — Amy disse. — Então como um site de fofoca conseguiu essa foto?
Nellie engoliu em seco.
— Eu tirei essa foto. Meu celular foi hackeado!
— Mas foi só essa manhã. — Amy apontou.
— Eu só notei essa manhã — Nellie corrigiu, sua voz sombria enquanto ela clicava em mais links. — Pode ter acontecido semanas ou meses atrás. Eu quase não uso a câmera.

CRIANÇAS CAHILL FOGEM DAS ACUSAÇÕES DE ROUBO

A fotografia foi tirada anos atrás, Dan e Amy andando de patins.
— Essa foto é minha com toda a certeza. — Nellie disse. Ela começou a digitar freneticamente. — Eu tenho que fazer o nosso gênio da tecnologia dar uma olhada nisso.
Dan cutucou a Nellie para que ele pudesse tomar seu lugar no teclado do computador.
— Olha para isso — ele disse. — É de hoje.
Amy viu uma fotografia de si mesma que pulando sobre uma lápide. Sua boca estava aberta, o cabelo estava voando, e parecia que ela estava rindo. Ela sabia o momento em que a fotografia foi tirada. Ela estava gritando para a jovem que havia levantado a câmera em seu rosto. Mas comparando com o título da matéria, parecia que ela estava tendo o melhor momento de sua vida.

AMY DIZ: “CADÁVERES SÃO LEGAIS” 
CRIANÇAS CAHILL ESCOLHEM CEMITÉRIO HISTÓRICO PARA UMA FESTA SELVAGEM

— Estão fazendo a gente parecer pirralhos ricos e mimados. — Amy disse. — Como isso aconteceu?
Dan clicou para passar a foto, e rapidamente saiu da página. 
— Isso é um monte de baboseira. Não precisamos ver isso.
— O que foi? Vamos, eu já vi o pior — Amy clicou no botão para voltar. Ela prendeu a respiração quando o rosto de Evan apareceu.

A MORTE TRÁGICA QUE ASSOMBRA AMY
Ela foi a causa da morte do seu primeiro amor?

Dan olhou para o rosto arrasado de sua irmã. Rapidamente ele tirou da página.
— Não importa o que diz. É só lixo.
— Ele só estão tentando criar polêmica — Nellie falou.  — Não há muita coisa acontecendo com as celebridades de Hollywood, então escolheram um alvo novo. O que não entendo é por que vocês dois. E por que o ataque de hoje.
— Você acha que eles estão conectados? — Amy perguntou.
— Os dois são ataques, não são? — Nellie disse, tirando o teclado de Dan. Ela começou a clicar e descer a tela. — Um foi físico, e o outro em suas reputações.
  Nellie rapidamente compilou as histórias em uma planilha. Dan a viu clicar e arrastar, em busca de um padrão.
— Vamos colocar esses sites e tabloides num site de busca e ver quais são as empresas-mãe deles — Nellie disse. Em minutos, eles tiveram o resultado.
— Eles são todos de propriedade de um aglomerado de mídias. — Amy leu. — Founders Media.
— Nunca ouvi falar — Dan respondeu.
— É de um cara rico chamado J. Rutherford Pierce — Nellie disse. — Eu não sabia que ele era proprietário de sua própria companhia de mídias.
— Você já ouviu falar dele? — Amy perguntou.
— Claro. — Nellie disse. — Quero dizer, não é minha praia – se você não está em um programa de cozinha, eu não sei quem você é, basicamente – mas ele é tipo um grande comentarista político. Ele tem seu próprio programa de TV e rádio, e seu Twitter tem mais de um milhão de seguidores. Nunca ouviu falar dos “Piercers”?
Ao ver os rostos completamente confusos de Amy e Dan, ela voltou ao teclado novamente.
— É como ele chama seus seguidores. “Piercers”. Seu programa se chama Intelecto Perfurante. Eles tem essa veneração pelos Fundadores e blá blá blá. Olha, não me entenda mal, os Fundadores eram caras legais, mas se você pensar sobre isso, o que eles saberiam sobre, você sabe, as mudanças do clima, as dívidas europeias...
— Nellie? — Dan deu um giro em sua cadeira. — Está perdendo a gente.
— Aqui, a biografia do Pierce. 
Amy a olhou rapidamente.
— Nascido no Maine, foi a quarta geração a entrar em Harvard... mas olha, seu currículo de negócios não é tão bom se você ler nas entrelinhas. Três companhias no qual ele trabalhou faliram. E então ele concorreu para o senador do estado e perdeu...
— Dois filhos, Galt e Cara, e olha, eles tem as nossas idades, treze e dezesseis. E uma esposa, Debi Ann — Dan leu. Ele estudou a foto dela. — Cabelo estilo capacete.
— Ele comprou um jornal e foi assim que ele conseguiu sua fortuna. — Nellie continuou. — Olha, é só relatório parlamentar padrão. Não nos dá a coisa verdadeira. Nós vamos ter que cavar fundo para isso.
— Olha as datas. — Dan disse. — Ele comprou esse jornal há dez anos. Mas, de repente, nos últimos seis meses ele vem adquirindo coisas como revistas e emissoras de TV e sites...
— Você está certo, Dan. — Nellie notou. — Ele construiu um império da mídia em menos de um ano. Como se faz isso? Ele deve ser um megagênio.
— Um megagênio que não terminou Harvard — Dan observou. — Ele terminou na Faculdade Comunitária Politécnica de Springfield. Onde seu pai construiu o novo centro aquático moderno.
— Isso é um monte de informações — Nellie disse. — Mas não diz muita coisa. E definitivamente não diz porque ele está atrás de vocês.
Dan girou na cadeira três vezes. Então parou, colocando uma mão na mesa.
— Nós não vamos descobrir só ficando sentados aqui — ele disse. — Nós devíamos apenas perguntar para o cara.
— Você não simplesmente parte para cima de um cara assim — Amy respondeu. — Você tem que passar por uns sete assistentes e por um monte de recepcionistas, e então ele diz não.
— Então nós o emboscamos — Dan disse.
Amy assentiu.
— Nós vamos ter que seguir sua rotina... escolher um local provável... É factível, mas precisaremos de alguma vigilância.
— Eu amo quando você começa a falar como uma espiã mirim — Dan disse. — Ou, nós podemos simplesmente aparecer aqui.
Ele estendeu a mão por sobre o ombro de Nellie para ampliar uma das janelas no computador.

RUTHERFORD PIERCE LEVARÁ REPÓRTERES NUM TOUR NA SEDE DA FOUNDERS MEDIA NO CENTRO DE BOSTON
Protestos planejados.

— Conseguiremos chegar a Boston a tempo? — Amy perguntou.
Nellie sorriu.
— Se eu dirigir, conseguiremos.

Um comentário:

  1. Halloween falando... Cara legal, meu tipo de pessoa
    P.: Vaza projeto de vilão, o pior de tipo de vilão, que ataca com a mídia
    Órion diz: SAIAM DO MEU NOTEBOOK

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!