14 de outubro de 2016

Capítulo 39

Que inferno!, pensou Kylie, preparando-se para intervir.
— Eu não vou! — vociferou Della, colocando as mãos nos quadris.
— Vamos ver se não vai. — Steve deu de ombros e fez que ia embora, mas então ele se virou, pegou Della pelas pernas e jogou-a sobre o ombro, começando a andar.
Todo mundo começou a rir e a gritar.
Kylie não riu. Ela via uma vampira furiosa escorando as mãos no traseiro de Steve e olhando para cima. Seus olhos estavam verdes de fúria, mas havia algo mais, também. Algo que dizia a Kylie que o traseiro de Steve não estava prestes a ser mastigado.
A cada fração de segundo que passava, Kylie se sentia mais confiante de que Della não iria matar Steve; ela estava, na verdade, entrando na dele.
Caramba!, Kylie pensou. Talvez ela realmente fosse boa naquele negócio de dar conselhos para casais.
— Posso ficar invisível? — Jenny perguntou a Kylie enquanto estavam na porta do refeitório com Holiday.
— Eu não recomendo — disse Kylie. — Apenas sorria. Acredite ou não, você vai se acostumar com isso.
O encontro com Jenny e os amigos de Kylie tinha transcorrido sem problemas. Todo mundo realmente pareceu gostar dela. Derek, naturalmente, mostrou mais interesse.
Lucas chegou por trás dela e disse:
— Outro segredo.
Kylie ofereceu um rápido “desculpe” e nada mais. Tinha a sensação de que mantê-lo longe até que ele se reunisse com o Conselho ia ser difícil. Para ambos. Mas ela estava determinada.
— Eles não sabem que é falta de educação ficar encarando? — perguntou Jenny.
— Sim, mas simplesmente não conseguem se conter — respondeu Kylie.
Hayden se levantou da sua mesa e veio ao encontro de Jenny.
Ele não estava sorrindo e ela viu a atitude de irmão mais velho protetor na maneira como ele olhou para todos os alunos.
— Comam e parem de olhar para ela com essas caras de idiotas! — ele ordenou.
Holiday falou em seguida.
— O senhor Yates está certo. Isso não é maneira de acolher uma nova aluna.
Kylie e Jenny olharam para Holiday com um ar de interrogação e ela sorriu e acenou com a cabeça. Então ela se virou para a multidão de campistas.
— Pessoal, gostaria que vocês conhecessem Jenny Yates. Ela é a irmã caçula de Hayden. Então, tratem-na mal e vão se arriscar a ter lição de casa extra.
— Ela é da mesma espécie que Kylie? — alguém perguntou.
Hayden deu um passo adiante.
— E da mesma espécie que eu.
Todos os olhos se estreitaram e suspiros de surpresa encheram a sala de jantar. Kylie foi se sentar com Hayden e Jenny, no que ela percebeu ser a mesa dos camaleões. Um sentimento de missão cumprida encheu seu peito. Essa era a parte da sua missão que ela tinha realizado.
Claro, todos os amigos de Kylie se juntaram a eles rapidamente. Lucas inclusive.
E isso foi excelente, porque, embora fosse bom ter alguém como ela por perto, o padrão de uma pessoa não devia ditar quem era bem-vindo em sua vida ou em sua mesa no almoço.


Depois, naquela tarde, eles foram até o lago para nadar porque, com a chegada do outono, a água logo estaria fria demais. Kylie quase recusou o convite, mas, quando viu que Della queria ir, mudou de ideia. Pôs seu biquíni e um vestidinho preto por cima. Enquanto todo mundo nadava, Kylie sentou-se na ponte de madeira e ligou para a mãe.
Ela não tinha conseguido se livrar da sensação de que John não era flor que se cheire. A conversa foi curta. A mãe e John estavam jantando fora num dos mais agradáveis restaurantes de Houston.
Ao desligar, Kylie ficou ali, contemplando o pôr do sol.
Só quando o sol sumiu, a noite veio e transformou o céu numa variedade de cores. Os pássaros voavam de uma árvore para outra, deleitando-se com os insetos. Kylie estava prestes a se juntar aos outros à beira da água quando o frio do espírito a envolveu. Kylie olhou ao redor e o espírito se sentou na beira da ponte, como se estivesse num estado de estupor, parecendo perdido, parecendo muito triste.
— Eu sei quem você é, Lucinda — disse Kylie. — Você era a nora de Mario.
— Eu sei. Já descobri essa parte da história. As peças vieram uma de cada vez, como num quebra-cabeças. Eu quase podia ver como foi toda a minha vida, mas, quando essas últimas peças se encaixaram, vi a imagem toda. — Sua voz soava tensa, como se ela estivesse a ponto de romper em lágrimas. — Eu não gostei dela.
Após uma longa pausa, ela olhou para Kylie.
Eu vivi uma vida terrível. Fiz coisas terríveis. Machuquei tantas pessoas! E o meu próprio filho pagou o preço. Eu deveria ter vivido para ser um bom exemplo para ele.
Kylie olhou para o céu iluminado. Os tons de ouro e laranja haviam desaparecido e o céu estava colorido com dez diferentes tons de rosa. Ela observou os pássaros reunidos em torno da ponte. Será que eles podiam enxergar os mortos, como ela?
Vendo a tristeza nos olhos do espírito, Kylie disse:
— Ele está no céu.
O espírito sacudiu a cabeça.
Acho que não. Tenho certeza de que o avô ensinou a ele todas as suas maldades. Ele era tão jovem e impressionável! Depois o próprio avô o matou.
O clima em torno do espírito – devastação, destruição – fez o coração de Kylie se contrair.
— Você foi um exemplo para ele. Ele morreu salvando outra pessoa, assim como você fez para salvá-lo. Você ensinou isso ao seu filho. E foi o que salvou a alma dele.
Os olhos do fantasma ficaram molhados de emoção.
— Você tem certeza? Como sabe disso?
Kylie hesitou, preocupada com a possibilidade de o espírito culpá-la.
— Ele morreu para me salvar.
O espírito ficou ali, como se perdido em pensamentos por um segundo.
— Então é por isso que eles me enviaram para cá?
— Quem te enviou para cá? — perguntou Kylie, quase certa de que já sabia, mas querendo ouvir assim mesmo.
Os anjos da morte.
— É a voz deles que eu ouço de vez em quando?
Só pode ser.
— Mas por que eu os ouço mais do que... Holiday e outras pessoas que veem ou falam com fantasmas?
— Eles vigiam os protetores mais de perto. Têm que fazer isso porque só vocês podem lutar para proteger os outros.
— Eles querem que eu mate Mario ou é só você quem quer isso? — Kylie esperava que ela estivesse errada em suas suposições.
— No começo eu pensei que fosse só eu, mas depois percebi que era o plano deles, também.
O coração de Kylie gelou.
— Ele tem de ser detido. Você é a escolhida. Ninguém mais foi capaz de detê-lo.
— Mas, se eu não posso me proteger, então... quem estarei protegendo quando lutar com ele?
— Eu não posso ver esse futuro.
— Mas e se eu não conseguir fazer isso? Não sou tão boa assim com a espada.
— Então você vai morrer tentando. Às vezes isso é tudo o que podemos fazer.
Kylie sabia que o espírito se referia a si mesma, também. Ela tinha morrido tentando salvar o filho. No entanto, por mais que Kylie lamentasse por ela, o medo a dominou.
— Não estou pronta para morrer.
Então você tem que praticar. Essa é outra razão da minha presença aqui. Para ajudar você a lutar, porque, se você falhar, coisas ruins vão acontecer para muitas pessoas. Pessoas de quem você gosta. Pessoas que confiam em você para protegê-las.
Ela sentiu seu sangue de protetora correr mais rápido.
— Então eu vou ter que vencer — disse Kylie. Porque, de jeito nenhum, ela deixaria Mario ferir ninguém que ela amava.
— O quê?
Kylie olhou por cima do ombro ao ouvir a voz de Lucas. Ela não pôde deixar de reparar que ele estava sem camisa. O cabelo ainda molhado. Algumas gotas de água espalhadas pelo peito. Ele estivera nadando, pouco antes. Devia ter vestido a calça jeans sobre a sunga. Ela podia ver a borda da sunga acima da cintura do jeans.
O olhar de Kylie ultrapassou esse ponto, na altura do umbigo, onde ela passara as mãos para curá-lo, e depois só para tocá-lo.
— Você está bem? — ele perguntou.
Ela assentiu com a cabeça, mas era mentira. Seu coração estava pesado diante da possibilidade de morrer, de outros sofrerem por ela não conseguir enfrentar o desafio. E foi então que, ao vê-lo, ela percebeu o quanto queria viver.
Ela olhou para a água e ouviu os passos quase silenciosos na ponte, enquanto Lucas se aproximava.
— Tem companhia? — ele perguntou, agora de pé ao lado dela.
Ela olhou ao redor.
— Não, ela já se foi.
O telefone dele tocou e ele tirou o aparelho do bolso, como se estivesse à espera de uma chamada. Ele franziu o cenho para a pequena tela e depois desligou.
— Alguma coisa errada? — perguntou Kylie.
— Não, é só Will.
— Ele ainda liga pra você?
Lucas assentiu.
— Ele não segue as regras antigas.
— É um bom amigo — disse ela.
— É. — Lucas colocou o celular no bolso. — Eu estava esperando que fosse a minha avó.
Ela viu a preocupação nos olhos dele.
— Para falar do encontro com o ancião?
— Isso e também porque ela me disse que não estava se sentindo bem esta manhã. Liguei agora há pouco e ela não atendeu. Provavelmente saiu para jogar bingo. Ela é fanática por bingo. Bingo e jardinagem, sua maior paixão.
— Você realmente a ama, não é? — perguntou Kylie, ouvindo a devoção na voz dele quando falava sobre a avó.
Ele suspirou do jeito que uma pessoa suspira quando está preocupada que o que está prestes a dizer vai fazê-la parecer fraca.
— Ela ficou ao meu lado quando os meus pais decidiram que eu era um problema. Ela foi a melhor coisa que já me aconteceu, mas não percebi isso na época. Eu me sentia abandonado por eles. Fiz da vida dela um inferno por um tempo. Então, quando meus pais se separaram e meu pai veio me buscar, minha avó fez de tudo para me manter com ela. Eu não seria quem sou hoje se ela não tivesse feito o que fez.
— Você tem sorte de tê-la. — Kylie se sentiu um pouco culpada por não gostar da avó dele e por tê-la evitado no domingo dos pais.
— É. Tenho sim — disse ele. Eles ficaram em silêncio. — Estou ensaiando o que vou dizer.
Ela olhou para ele.
— Dizer a quem?
— Ao ancião que espero conseguir encontrar.
Ela sorriu.
— Isso é bom.
— Eu vou ser aceito. Porque, se isso é o que preciso para ter você de volta, então é o que eu vou fazer.
Ela engoliu em seco.
— Não, você precisa fazer isso porque essa é a sua missão.
— Isso também — disse ele. Ele estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. — Mas ultimamente, ando achando que você é a minha missão.
Ele se moveu e colocou as mãos em volta da cintura dela.
Ela colocou a mão no peito de Lucas, sentiu seu calor de lobo, as batidas do coração dele.
Ele se inclinou e beijou-a. Ela sabia que não deveria deixar que isso acontecesse, mas ela queria, precisava dele. O gosto dos lábios dele e o toque molhado da sua língua a fizeram se sentir no céu, mas o tipo de céu que se encontra em vida, não na morte.
E ela queria escolher a vida. Esperava que pudesse.
Ela ouviu o zumbido vindo dele instantaneamente, e seria tão fácil se deixar atrair por ele...
Ele terminou o beijo, sorriu para ela e suspirou.
— É melhor eu ir antes que seja tarde demais.
Ela o observou se afastar e depois olhou para o céu cor-de-rosa escuro, ansiando com todo o seu ser para que não fosse levada deste mundo antes de ter conhecido a vida. E ela realmente esperava que Lucas fosse parte dessa vida.


Naquela noite, depois de ouvir Della e Miranda brigando nas últimas duas horas, Kylie saiu do banheiro enrolada numa toalha, e foi para o quarto. Mal tinha dado dois passos quando Della parou na frente dela, impedindo-a de passar.
— Não. Resolvam isso sozinhas! — disse Kylie, certa do que Della queria. — Estou cansada de ser o juiz de vocês!
Della fez uma pausa, sorriu com malícia, e então disse:
— Tudo bem.
Contornando Della, Kylie fechou a porta do quarto com um pouco mais de força do que o normal.
Jogou a toalha sobre a cômoda e se virou para a cama onde tinha deixado o pijama. Só que não era apenas o pijama que estava sobre a cama.
Lucas, com os olhos arregalados, estava sentado aos pés da cama, a cerca de quatro metros de onde ela estava, completamente nua.
Ela gritou.
Ele riu.
Ela correu para a toalha.
Quando já estava enrolada nela, Kylie olhou para Lucas, ainda sorrindo, e dele para a porta.
— Eu vou matar Della!
Ele riu de novo.
— Acho que eu vou ter que protegê-la do seu ataque.
— Eu tentei te contar! — Della gritou, rindo, e Miranda riu com ela.
A fúria de Kylie desapareceu e se transformou em vergonha, quando ela viu o jeito sensual como Lucas olhava para ela, suas emoções se transformando em outra coisa.
Ele se levantou e começou a andar na direção dela.
— Você é linda demais!
Ela segurou com firmeza a toalha.
Ele parou na frente dela.
— Eu só vim aqui para dizer que recebi um telefonema da minha avó. O ancião concordou em me receber.
Kylie sorriu.
— Mas que ótimo!
O olhar mediu o corpo dela, enrolado na toalha.
— Você não vai me deixar dar outra olhada no que há por baixo desse pedaço de algodão, vai?
Ela desviou os olhos dele.
— Não quero ser muito presunçoso, mas você sabe que, mais cedo ou mais tarde, eu provavelmente vou conseguir ver tudo isso de qualquer maneira.
— Eu sei — disse ela, e estava realmente ansiosa por isso. — Só que não com as minhas duas companheiras de quarto escutando do lado de fora.
O sorriso dele se alargou.
— Ok, então me dê apenas um beijo de despedida.
Ela assentiu com a cabeça. Ele se aproximou e em menos de dois minutos já havia partido. O beijo foi quente, molhado e delicioso. Ele tinha passado a mão por dentro da toalha e tocado as costas nuas de Kylie.
Quinze minutos depois, ela ainda estava enrolada na toalha, olhando para o teto em meio a uma aura feliz, quando o telefone tocou.
Ela o pegou, pensando que fosse Lucas.
— Não sei por que você saiu com tanta pressa! — ela brincou. Mas ela sabia, ele a queria.
— Hã, eu não saí. É Sara quem está falando.
— Ah, eu pensei que você fosse...
— Você pensou que eu fosse quem? Ou devo dizer “qual dos dois”?
Kylie corou e decidiu ser franca.
— Eu pensei que você fosse Lucas.
A linha ficou muda por um segundo e, em seguida, Sara perguntou:
— Posso perguntar uma coisa?
Será que Sara ia querer saber se ela já tinha perdido a virgindade?
— Claro, pergunte. — Pelo menos desta vez, Kylie poderia dizer que isso provavelmente iria acontecer em breve.
— Você acha que você e Trey acabaram para sempre? Tipo... no ano passado? Ou será que existe uma chance de vocês dois voltarem?
— Acabou mesmo. — Kylie agarrou o telefone com mais força. — Olha, se ele está tentando falar comigo, não vai funcionar.
— Não. Não é... isso... É que... O que você pensa a respeito de amigas que namoram um antigo namorado de outra amiga?
Kylie olhou para o teto e tentou pensar no que dizer.
— Uau! Bem, eu diria a essa amiga para ter cuidado, porque Trey tem lá seus defeitos.
Sara suspirou.
— Eu sei, mas... Ele ficou do meu lado durante toda aquela história do câncer, e você sabe... algumas pessoas merecem uma segunda chance. Eu tive. Talvez Trey mereça ter também.
Kylie ouviu algo na voz de Sara de que ela gostou. Ela ouviu a velha Sara. Kylie sorriu.
— Tem razão. Todo mundo merece uma segunda chance. E quando eu penso nisso, lembro que, antes de ele começar a surtar por causa de sexo, era um cara legal.
— Então você realmente não se oporia? — perguntou Sara, parecendo insegura.
— Não, você tem a minha bênção. Posso até cantar no casamento de vocês.
— Pelo amor de Deus! — Sara riu. — Provavelmente sou uma das poucas pessoas que sabe que você não canta nada. Lembra na sexta série, quando nossas mães nos fizeram participar dos testes para aquela peça de teatro? E você tinha que cantar. Falou duas palavras e, em seguida, vomitou no palco.
As duas riram. E Kylie percebeu que, embora ela e Sara provavelmente nunca mais fossem tão próximas quanto tinham sido um dia, Sara era uma parte da sua vida que Kylie para sempre prezaria.
Quando o riso parou, Sara limpou a garganta.
— Então, quando você vai confessar que me curou?
Kylie tentou pensar em como diria aquilo.
— Sabe de uma coisa, Sara? Se você quer acreditar que eu te curei, então pode acreditar. Mas eu não diria isso para muitas pessoas. Elas achariam que você é louca.


Na quinta-feira, Kylie treinou com Lucinda. Os três dias anteriores tinham transcorrido sem nenhum grande caos. Steve e Della estavam até se falando! Kylie não poria sua mão no fogo, mas ela apostava que a vampira e Steve estavam se encontrando às escondidas.
Jenny estava se adaptando, embora ainda se sentisse incomodada ao ver que todos a encaravam. Embora Hayden não gostasse, ela e Derek estavam andando muito juntos. Derek tinha até procurado Kylie e, basicamente, confessado que sentia alguma coisa pela garota camaleão.
A princípio, Kylie pensou que ele estava ali para ter certeza de que Kylie não queria uma segunda chance antes que ele começasse a se interessar por outra garota, mas depois ela percebeu por que ele viera procurá-la. Ele queria um conselho sobre Jenny. Ela não negou.
— Basta ser você mesmo, Derek. Você é incrível e ela só pode te adorar.
Holiday tinha ido ao médico e descoberto que a gravidez estava mais adiantada do que ela pensava. Por esse motivo, decidiram antecipar o casamento, que seria no fim de semana seguinte.
Não ia ser um grande evento. Apenas a família de Holiday, os alunos e alguns colegas de trabalho de Burnett, da UPF.
Della, Kylie e Miranda ajudaram Holiday a escolher seu vestido de casamento pela Internet. Elas riram, ficaram acordadas até tarde conversando, comendo besteiras e tentando dar nomes para o bebê de Holiday. Ela realmente não queria que ele se chamasse Burnett Bankhead James Jr., e ninguém poderia culpá-la.
Kylie e Lucas se encontraram todas as manhãs, antes da data do encontro com o ancião. O homem não só tinha ouvido o que Lucas tinha a dizer, mas concordado em ajudá-lo a aperfeiçoar o discurso que faria para o Conselho, algo que ele deveria fazer na semana seguinte. Até o momento, o ancião mantinha Lucas ocupado todos os dias, debatendo e ouvindo todos os argumentos do garoto e ajudando-o com os seus conselhos sobre o que ele devia enfatizar. O que era ótimo, mas, com exceção dos breves períodos de treino, ela não tinha visto Lucas e sentia muita falta dele.
O que deixava tudo pior era que ele não a tinha tocado ou beijado desde a noite em que a vira nua. Ela sabia por quê. Quanto mais se aproximava a Lua cheia, menos força de vontade ele tinha.
Ela notou a mudança nele, também, física e mentalmente. O corpo dele estava mais definido, os músculos dos braços mais pronunciados. Ela sentia a impaciência do namorado. Não que ele fosse rude com ela; ela só sentia isso, no modo como ele tinha que se conter, ao andar ou falar.
Os duelos entre os dois tinham ficado mais intensos. Não que isso a assustasse. Seus treinos noturnos com o espírito a deixaram preparada. As marcas vermelhas onde a espada do espírito tocava seu vestido tinham diminuído muitíssimo. As feridas abertas que a espada de Kylie deixava no espírito, por outro lado, tinham aumentado bastante.
— Eu acho que é só por hoje — disse Kylie, desviando o olhar do corte que acabara de abrir em Lucinda.
— Você está melhorando!
— Eu treinaria mais, se não tivesse que vê-la sangrando.
— A coisa toda precisa parecer de verdade — explicou Lucinda.
— Mas é — Kylie respondeu. Ela observou Lucinda examinar os ferimentos. — Você acha que eu estou pronta para lutar contra Mario? Para ganhar?
— Com a ajuda dos anjos da morte, talvez. Sem eles, você não tem chance.
— Puxa, você sabe como aumentar a confiança de alguém! — comentou Kylie.
— Eu só vi uma pessoa capaz de vencê-lo. O próprio filho.
Kylie se lembrou da história que Derek tinha contado sobre o filho de Mario ter desaparecido.
— O que aconteceu com ele?
Não sei. Espero que esteja apodrecendo no inferno. Mas é mais provável que ainda esteja vivo. — O olhar dela encontrou o de Kylie. — São sempre os bons que morrem jovens.
— Então talvez eu devesse sair por aí e fazer alguma coisa ruim — Kylie disse, meio de brincadeira.
Você não pode fazer isso. O bem já está enraizado em você. Assim como a maldade do meu marido estava enraizada dentro dele. Só por causa de você meu filho foi salvo.
— Não, foi por causa dele que eu fui salva.
— Veja só, isso é parte da sua bondade. Você nem faz questão de levar o crédito.
Kylie afastou o pensamento.
— Ele estava por trás do seu assassinato? O seu marido?
Não, mas ele o permitiu. E permitiu que o pai tomasse o nosso filho. Que ele o criasse para ser do mal. Que coisa mais louca! Meu marido odiava o pai, mas invejava tudo o que ele tinha. — Ela olhou por cima do ombro como se tivesse ouvido algo ou alguém. Então desapareceu.
Kylie foi para seu quarto, pegou a camisola e seguiu para o chuveiro. O suor escorria pela parte de trás do pescoço e pelas costas.
Mesmo com o frio do espírito, ela sempre suava.
Quando a água ficou morna, ela deixou as roupas no chão e entrou no chuveiro. Fechando os olhos, o jato morno de água atingiu sua pele e ela esperou que ele aliviasse a tensão dos músculos que ela tinha sobrecarregado durante o treino.
A mudança brusca de temperatura fez com que ela abrisse os olhos. E perdesse o fôlego.
Ela olhou fixamente para a parede do chuveiro. O frio provocou calafrios no seu corpo nu. Um vapor espesso subia ao seu redor.
Ela não estava sozinha. Alguém estava no chuveiro com ela. E o frio era diferente. Um frio que ela nunca havia sentido antes.
— Não pode me evitar desta vez, não é? — A voz, uma voz que ela não reconheceu, veio de trás dela.

2 comentários:

  1. Ok. Antes desse capítulo eu estava pensando que talvez John fosse Mário disfarçado. Tipo ele é um camaleão e eles têm poderes que nem eles mesmo comecem. Mais depois de Lucinda dizer q o marido desapareceu tenho quase certeza que John é ele.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!