8 de outubro de 2016

Capítulo 38

O frio fantasmagórico finalmente começou a interferir no ritmo de Kylie e ela relanceou os olhos para ver qual era o espírito que acompanhava seus passos.
O fantasma, a mesma mulher que tinha aparecido na sala de aula um pouco antes da visão, dava passadas vigorosas. Sua camisola branca flutuava em volta dela, e o longo cabelo castanho dançava com o vento.
Com a atenção de Kylie no espírito, ela tropeçou numa raiz e caiu de bruços com tudo na terra.
Apoiando-se nos braços para se levantar e respirando o aroma de terra molhada sob o seu corpo, Kylie fitou o espírito pairando um pouco acima dela.
— Quem é você?
— Isso não importa. Você é que é importante. — Ela levantou as mãos e instantaneamente uma longa espada ensanguentada apareceu. — Você precisa matá-lo.
Kylie se levantou e fitou as mãos ensanguentadas do espírito; o líquido vermelho fluía para a espada e gotejava lentamente no chão. Uma gota de cada vez.
Pela primeira vez, Kylie entendeu o símbolo ligado ao mundo espiritual. Esse fantasma tinha sangue nas mãos. E agora queria que Kylie seguisse suas ordens.
Colocando-se totalmente de pé, Kylie falou mentalmente:
Eu não sei o que você ouviu por aí, mas eu não... eu não matei ninguém, e pretendo continuar assim.
Ela fitou Kylie com seus olhos acinzentados e sem vida. Eles não exprimiam nenhuma emoção, pareciam sem alma. O medo transpassou a sua espinha. Alguma coisa nesse espírito era diferente dos outros. Alguma coisa assustadora.
— Então você também morrerá — disse o fantasma, como se isso na verdade não fosse grande coisa. Sem aviso, ele se desvaneceu. Mas o lugar onde estava ficou coberto de gelo. Um gelo negro e tenebroso.
— Você não poderia ter avisado antes? — Kylie murmurou, e então respirou fundo. — Não! — Ela fechou as mãos em punho. — Eu não vou pensar nisso agora.
Seu coração martelava no peito e ela recomeçou a correr, correr para Lucas, ou melhor, para a verdade sobre Lucas.
Ela se lembrou da última vez em que ele a beijara, da maneira como a abraçara, como ela tinha se sentido apaixonada. Fredericka tinha mentido! Ela tinha que estar mentindo!
Alguns minutos depois, Kylie sentiu outras pessoas ao seu redor.
Outros lobos.
Ela não sabia direito como sabia, mas o fato era que sabia. Sem querer chamar atenção, parou de correr e começou a andar. Esperando disfarçar o cabelo despenteado pelo vento, ela tirou um elástico do pulso e fez um rabo de cavalo.
Quando chegou mais perto do parque, ouviu vozes. Vozes alegres. Achou que tinha reconhecido a voz de Will. Ela parou atrás de uma árvore para não cruzar o caminho do lobisomem ou de qualquer outro campista de Shadow Falls. A última coisa que Kylie queria era ser reconhecida.
Só quando não conseguiu ouvir mais nenhuma voz por perto, ela prosseguiu. Quando ultrapassou a fileira de árvores que margeava a floresta, viu uma multidão de pessoas enfileiradas. Uma centena de lobos, ou mais, estava reunida ali. Alguns da fileira de trás se viraram para olhar para ela. Graças a Deus não eram de Shadow Falls.
O aviso de Fredericka soou nos seus ouvidos. Só procure manter o seu padrão de lobisomem ou alguém vai arrancar o seu coração antes de começar a fazer perguntas.
Ela percebeu alguns dos presentes verificando o seu padrão e rezou para que ainda fosse um lobisomem. O ar ficou preso em seus pulmões até que eles voltaram a olhar para a frente, como se estivessem convencidos de que ela era um deles.
Mas Kylie não sentia que pertencesse a esse lugar. Seu coração sofria por saber que Fredericka não estava mentindo. Ela quase foi embora, mas se deteve. Talvez essa cerimônia não tivesse nada a ver com Lucas. Talvez Fredericka a tivesse enviado até ali para que ela visse todos aqueles lobos e acreditasse na sua mentira.
Empertigando-se, ela avançou um pouco mais e parou na última fila. Obviamente os lobos não precisavam se sentar, pois não havia assentos no local. Sua visão da frente estava bloqueada, mas isso significava que as pessoas que realizariam a cerimônia também não poderiam vê-la.
De repente uma voz começou a falar, dando as boas-vindas a todos. O peito de Kylie ficou oprimido quando ela reconheceu a voz grave.
Não era de Lucas, mas sim do pai dele.
Seu coração se contraiu ainda mais com a ideia de Lucas ficando noivo de alguém.
— Hoje, apresento a vocês meu filho e sua futura esposa — disse o pai de Lucas. — Vocês vão testemunhar os seus votos, o juramento que farão um ao outro.
Kylie fechou os olhos. O sentimento de traição encheu seu peito, enquanto uma música preenchia o ar da noite escura. A lenta música de sinos era diferente de tudo o que Kylie já tinha ouvido.
Uma jovem de cabelos pretos ornado com uma coroa de flores, usando um longo vestido de noite preto, entrou por um corredor. Ouviram-se murmúrios e exclamações entre os convidados, admirados com a beleza da moça. Nem Kylie podia negar que ela era bela de fato.
A massa de pessoas à sua frente de repente se abriu e Kylie viu o pai de Lucas. E de pé ao lado dele... Lucas. Kylie perdeu o fôlego. Ele usava um smoking cinza escuro que lhe caía à perfeição, moldando sua compleição forte. Lágrimas arderam nos olhos de Kylie quando ela o viu estender os braços e pegar as mãos da futura noiva.
A multidão se moveu novamente e ela não conseguiu mais vê-lo, embora ainda pudesse ouvi-lo. Palavras foram proferidas.
Votos.
Promessas.
Lucas Parker oferecia sua alma a Monique. Sua alma.
O som da voz de Lucas transpassou o coração de Kylie como uma faca sem corte. Ela queria correr, sumir dali, mas isso só chamaria a atenção dos outros.
Ela esperou. Com a respiração presa, continuou olhando para a frente. Os convidados se moveram e Lucas apareceu novamente à sua frente. Nenhum som se ouvia no parque quando Lucas envolveu a garota em seus braços e a beijou. Beijou-a como ele beijava Kylie.
Kylie mal conseguia respirar. Raiva e traição avolumavam-se dentro dela.
Ela se virou para fugir dali. Não sem perceber que outra fileira de lobisomens tinha se formado atrás dela, ela trombou com alguém.
— Desculpe — murmurou.
— Kylie? — Ela ouviu alguém dizer seu nome mais atrás.
Ela tentou se virar, mas de repente a multidão pareceu se fechar em torno dela, enquanto todos aplaudiam o beijo.
— Com licença — ela pediu, forçando passagem entre os lobisomens.
— Kylie?
Ela ouviu seu nome outra vez. Dessa vez, olhou para trás e viu Clara se aproximando.
Kylie tentou avançar mais rápido entre os convidados, mas se viu em meio a outro grupo compacto de lobisomens. Ela olhou para trás outra vez. Lucas estava com os braços em volta da garota. Ele parecia feliz. Verdadeiramente feliz.
Mais do que tudo, Kylie queria desaparecer dali, desvanecer-se no ar. Então percebeu que podia fazer justamente isso. Ela desejou, desejou com todas as suas forças. Clara abriu caminho entre a multidão e parou ao lado de Kylie. Então olhou em volta... e depois diretamente através de Kylie.
— Você viu a garota loira que estava aqui agora mesmo? — Clara perguntou.
Kylie inspirou e depois soltou o ar. Agora, transformada numa lufada de ar, ela começou a correr.
Nem olhou para trás novamente. Não conseguiria.
Ela estava chorando quando entrou nos bosques e também quando saiu deles.
Talvez fosse o seu destino, ela disse a si mesma. Porque agora sabia o que deveria fazer.
Quando saltou a cerca de volta para Shadow Falls, não foi para a sua cabana; foi para a cabana de Hayden. Não sabia que estava visível até que ele abriu a porta e olhou para ela. Para ela, não através dela.
— O que aconteceu? — ele perguntou, num tom urgente.
— Amanhã. — Ela forçou as palavras pela garganta apertada. — Amanhã eu vou partir.
Ele passou a mão pelos cabelos, os olhos ainda sonolentos.
— Podemos ir agora. Será mais fácil.
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Eu tenho que me despedir.
Ele franziu a testa.
— Eles não vão deixá-la ir.
Ela respirou fundo, decidida.
— Não vão poder me impedir.
Quando ela chegou à sua cabana e viu quem a esperava na varanda, seu coração parou.
Ela começou a se afastar correndo, mas percebeu que correr de nada adiantaria.
Ele ainda usava o smoking, mas a camisa estava desabotoada e a gravata-borboleta não estava mais no lugar. Quando seus olhos azuis encontraram os dela, estavam cheios de remorso.
Ela subiu os degraus e ele observou cada um dos seus movimentos. Provavelmente sabia que ela tinha chorado, mas ela se recusava a chorar na frente dele agora.
— Pode voltar, Lucas — ela disse. — Você está perdendo a sua própria festa.
— Não faça isso — ele implorou. — Eu disse a você que estava fazendo o que era preciso, mas que isso não significava nada. Não significa nada.
Aparentemente significava, sim.
— Bem, deveria significar alguma coisa. Você ofereceu a sua alma a ela. — Kylie fez um gesto para que ele lhe desse licença. — Estou cansada, você se importa de me deixar passar?
— Droga, Kylie! Assim que eu passar a fazer parte do conselho, rompo esse noivado. Eu tinha que fazer isso para que o meu pai não desistisse de aprovar a minha candidatura. Você disse que entendia.
Ela mordeu o lábio.
— Há quanto tempo vocês se veem?
Ele fechou os olhos.
— Meu pai planejou isso há alguns meses. Ele está tentando me convencer a respeito dela, mas eu não...
— Pare! — Ela sacudiu a cabeça. — De todas as coisas que eu imaginei que você escondesse de mim, nunca imaginei isso.
— Tente ver a situação do meu ponto de vista — ele implorou.
— Eu estou vendo — ela disse, e que Deus a ajudasse, porque ela estava falando a verdade. — Você fez o que tinha que fazer. Por mais difícil que seja, eu entendo isso. — Lucas pertence à sua alcateia, ao seu povo.
E eu também pertenço ao meu.
Ele estendeu a mão para pegar a dela. Kylie recuou. Ela não suportaria que ele a tocasse. Doeria muito. Ela levantou uma mão.
— Não.
Ele balançou a cabeça.
— Por favor, não faça isso. Droga! — Ele agitou um punho no ar, fechou os olhos e, quando os abriu, olhou para ela. Dentro dos olhos dela. — Eu te amo.
Agora ele fala isso. Agora! Ela levantou o queixo.
— Eu acho que você já prometeu o seu amor e a sua alma para Monique esta noite.
Ela contornou Lucas, entrou na cabana e bateu a porta. Então, apoiando-se na porta fria, abraçou a si mesma. Em seu coração havia uma ferida inflamada.
Nunca se apaixone, princesa. Machuca demais. As palavras do padrasto ecoaram no seu coração partido. Como ele estava certo...
Quando ela ouviu Lucas indo embora, prendeu a respiração.
— Esse lobo de merda... — grunhiu Della. Kylie olhou para a frente. Miranda estava ao lado de Della na cozinha. Será que elas tinham ouvido tudo? Mais lágrimas umedeceram os seus olhos.
— Sente-se. — Miranda puxou uma cadeira. — Vou pegar sorvete pra você.
— Não... agora não. — Kylie não tinha forças para explicar, muito menos para conversar. — Amanhã.
Ela foi para o quarto. Socks olhou para ela, do seu esconderijo embaixo da cama, e desapareceu. Até seu gato a traía. Aquela foi a gota d’água. Kylie desabou na cama e chorou até dormir.
Não que tenha ficado acordada por muito tempo. Às quatro da manhã, Kylie bateu na porta do quarto de Miranda.
— Preciso falar com você.
Della já estava de pé, parada na porta da cozinha, olhando para Kylie com olhos sonolentos e cheios de suspeita.
Quando Miranda saiu do quarto usando suas pantufas de coelho, afastou uma cortina de cabelos do rosto.
— Que horas são?
— Cedo — respondeu Kylie. — Sinto muito, mas... eu tenho que falar com vocês duas.
Seja breve e delicada. Breve e delicada. Ela tinha repetido aquilo para si mesma a manhã toda.
Kylie tinha tentado dissuadir a si mesma, mas não conseguira. Deixar Shadow Falls era a coisa certa a fazer. Mas a coisa certa nem sempre parecia certa. Vir para Shadow Falls tinha parecido errado, no entanto com o tempo ela percebeu que era um passo para que ela encontrasse a verdade. Agora seria simplesmente outro passo – um passo necessário.
Algum dia, Kylie esperava que suas escolhas coincidissem com o que ela queria, e não com o que precisava fazer. Mas esse dia ainda não chegara.
— Não! — disse Della.
— Não o quê? — perguntou Miranda.
— Ela vai nos dizer que vai embora. — Os olhos de Della estavam cheios de emoção.
— Não, ela não vai — disse Miranda, com firmeza.
Breve e delicada, Kylie pensou novamente.
— Della está certa. Eu preciso viver com o meu avô por um tempo. Não para sempre. Eu vou voltar. — Deus, ela esperava que sim.
Miranda olhou para ela com uma expressão de descrença.
— Você não pode fazer isso. O que a sua mãe vai dizer?
— Nem pensei nisso. Mas vou pensar. Só preciso que vocês duas entendam e não fiquem furiosas. E... — Lágrimas afloraram em seus olhos. — E que cuidem de Socks para mim, porque ele não quer... ir comigo.
— Você está nos deixando — concluiu Miranda. — Você não pode nos deixar. Somos colegas de alojamento, somos grandes amigas.
Della ficou parada ali, firme, com lágrimas brilhando nos olhos, e secando cada gota que ameaçava cair.
Kylie abraçou Miranda primeiro. A bruxinha começou a chorar e o coração de Kylie ficou tão apertado que ela mal conseguiu respirar. Quando Kylie se voltou para Della, a garota estendeu a mão na sua frente. A raiva inflamava os seus olhos.
— Ah, droga, não! — Della gritou. — Você está nos abandonando. Eu não abraço pessoas que me deixam pra trás. — A vampira, então, irrompeu para dentro do quarto. Kylie sentiu a porta bater no fundo da sua alma e aquilo doeu demais.
Ela foi para o quarto, pegou sua mala de viagem e partiu, antes que ficasse difícil demais. Por dentro, Kylie se sentia em carne viva. Um dia pararia de doer, ela disse a si mesma.
Derek estava do lado de fora da cabana. Sua aparência era de quem tinha acabado de acordar, se vestido às pressas e corrido até ali. Seu jeans não estava abotoado, tampouco a camisa.
Kylie não sabia como ele tinha descoberto, mas evidentemente ele sabia. Ela viu isso em seus olhos verdes.
— Por quê? — Derek perguntou quando ela andou até ele.
— Porque eu tenho que descobrir algumas coisas.
— Mas você já descobriu muitas durante o tempo em que ficou aqui.
— Eu sei — concordou Kylie. — Mas é hora de dar o próximo passo.
Ele não tentou convencê-la a não ir. Não falou nada no caminho até o escritório. Mas Kylie sentiu que ele captava as emoções dela. Quando chegaram ao escritório, Kylie olhou para ele. Por alguma razão ela se lembrou da primeira vez que o vira – sentado nos fundos do ônibus, nada feliz de estar ali.
Ela largou a mala no chão e o abraçou. Apertado. Havia algo especial entre eles. Ela não tinha certeza do que era, ou se deveria ter se tornado algo maior, mas sabia que ele era muito importante para ela. Provavelmente sempre seria.
Derek tocou o rosto de Kylie. Não disse nada, mas seu toque expressou muito. Ele ainda a amava.
Kylie pegou sua mala e andou até a varanda. Deixou a mala perto da porta, então olhou para trás. Ela tinha telefonado para Hayden mais cedo e pedido que ele a encontrasse às quatro e meia. Ela suspeitava que ele já estivesse lá. Ele não parecia o tipo de sujeito que se atrasasse.
— Holiday — chamou Kylie ao entrar na cabana.
— Estou na minha sala! — Holiday gritou. — Acabei de te servir uma xícara de café.
Kylie foi até a porta. Holiday estava sentada à escrivaninha, os cabelos ruivos soltos sobre os ombros. Ela parecia... feliz. O amor por Burnett lhe fazia muito bem.
— Você levantou cedo... outra vez — comentou a líder do acampamento.
Duas xícaras de café esperavam sobre a mesa. Será que Holiday sabia que ela viria? Kylie entrou e se sentou na cadeira.
— Como você...?
— Lucas me procurou ontem à noite — Holiday confessou.
Kylie engoliu em seco. Breve e delicada. Ela não queria falar sobre Lucas naquele momento.
— Eu preciso ir morar com o meu avô por um tempo. Só até descobrir quem eu sou.
Kylie viu desespero nos olhos de Holiday.
— Mas você não pode...
A emoção formou um nó na garganta de Kylie.
— Eu preciso descobrir.
— Nós podemos descobrir isso juntas — insistiu Holiday, embora sua expressão fosse de triste aceitação. Mas não era do feitio de Holiday não lutar pelo que acreditava. A menos que...
Kylie lembrou-se de que, quando Holiday morreu, ela tinha falado com Heidi, a sua avó.
— Ela contou a você que eu iria, não contou?
Quando viu a expressão confusa nos olhos de Holiday, Kylie perguntou:
— Heidi, ela contou a você sobre isso?
— Não, não contou... — Holiday fez uma pausa. — Ela disse que eu não deveria impedi-la de fazer suas próprias escolhas.
— E essa é a minha escolha. — Droga, como doía dizer isso... — Mas eu volto. Você sabe disso.
Holiday pressionou as palmas das mãos sobre a escrivaninha.
— O que eu vou dizer aos seus pais?
Kylie fez uma pausa.
— Eu vou pensar nisso e ligo pra você.
Holiday suspirou.
— Burnett vai ficar tão furioso...
— Eu sei. É por isso que eu espero que você conte a ele. Eu não acho que vou conseguir encará-lo agora.
— Eu não gosto nada disso. — A voz de Holiday estava embargada.
Lágrimas afloraram nos olhos de Kylie e ela se colocou de pé.
— Della não me deu um abraço de despedida. Por favor, não diga que vai fazer o mesmo.
Holiday levantou-se de um salto.
— Eu vou abraçá-la por mim e por Della. E por Burnett.
O abraço durou vários longos segundos.
— Eu amo você — disse Holiday. — E espero um telefonema seu esta tarde. E todos os dias. De manhã e à noite.
Kylie concordou com a cabeça.
— Obrigada por não brigar comigo por causa disso.
Holiday colocou uma mão de cada lado do rosto de Kylie.
— Não pense que não tenho vontade.
— Mas você sabe que é a coisa certa a fazer? — Kylie perguntou, detestando a ideia de que ainda precisava de mais confirmação. Mas, droga, por que a coisa certa parecia tão errada?
Holiday suspirou.
— Eu não sei se é a coisa certa. Mas não vou impedi-la de ir. — Ela franziu a testa. — Mas vou dizer uma coisa. Se é por causa do que aconteceu com Lucas...
Kylie soltou o ar dos pulmões.
— Não é por causa dele. — E de fato não era. Ele era só a proverbial gota d’água que fizera o copo transbordar.
Holiday suspirou.
— Às vezes, quando estamos magoadas, fazemos escolhas que normalmente não faríamos.
Kylie balançou a cabeça.
— Lembra-se de que o meu pai me disse que descobriríamos tudo juntos? Acho que, quando disse “nós”, estava se referindo aos camaleões.
A expressão de Holiday ficou mais séria.
— Você não sabe o que ele quis dizer com isso. Você achou que ele estava dizendo que você ia morrer. Talvez se fôssemos à cachoeira, você poderia...
— Não, eu tenho que ir — insistiu Kylie, e uma parte dela acreditava mesmo nisso.
Holiday suspirou, a respiração trêmula.
— Então eu tenho que deixá-la ir, mesmo sem concordar.
Elas se abraçaram novamente. Breve e delicada. Kylie deixou a cabana.
A bendita gralha azul arremeteu. Mais lágrimas toldaram a visão de Kylie.
— Xô! — ela disse para o pássaro. — É hora de deixar o ninho. E isso serve para nós duas.
Ao se virar, Kylie viu Hayden esperando ao lado do portão. Ela pegou a mala, a mesma que tinha trazido para Shadow Falls em junho. Começou a andar e, quando estava a apenas alguns metros do portão, sentiu uma repentina lufada de vento, um movimento rápido e familiar passando por ela. Kylie parou.
Os braços de Della envolveram seu pescoço.
— Prometa que vai voltar logo. Me prometa, droga!
Lágrimas escorreram pelo rosto de Kylie e ela abraçou Della ainda mais forte, do jeito que fazem grandes amigas.
— Eu prometo — disse Kylie. — Eu prometo.
Era uma promessa que Kylie pretendia cumprir. Della, obviamente alguém que também acreditava na filosofia do “breve e delicada”, foi embora tão rápido quanto chegou. Kylie olhou para trás mais uma vez. Ela viu Perry e Miranda, ainda chorando, vindo correndo pela trilha até a clareira principal. Ela parou ali e simplesmente acenou. Kylie sabia que Miranda tinha ajudado a convencer Della a vir. Nossa, como ela iria sentir falta das suas amigas!
Então os olhos de Kylie se desviaram para a varanda do escritório. Holiday estava parada ali. Mas não estava sozinha. Burnett estava ao lado dela. Mesmo a essa distância, ela pôde ver a desaprovação nos olhos dele, mas também viu que o braço dele envolvia com ternura a cintura de Holiday. Kylie experimentou uma sensação de calor em seu peito. Ela tinha contribuído para que isso acontecesse. E, de algum modo, sentia que isso era parte do seu destino.
De repente, ela viu Derek parado ao lado do escritório. Ele a olhou nos olhos e sorriu.
Se aquilo tudo não estivesse lhe causando tanta dor, ela teria retribuído o sorriso. Um pouco antes de se virar para ir embora, ela sentiu outra presença. Sentiu, mas não viu. De algum lugar atrás da fileira de árvores que margeavam o bosque, um lobisomem de olhos azuis a observava. Ele estava sofrendo, mas ela também estava.
Ela se virou para o portão. Hayden tinha se aproximado.
— Pronta? — ele perguntou.
Não, respondeu seu coração, mas seus olhos disseram que sim. Ela não sabia o que lhe aguardava na casa do avô, mas nada, nada substituiria Shadow Falls.
— Não é fácil dizer adeus — disse Hayden.
— Eu vou voltar — afirmou Kylie. — Juro que vou.
E ela queria acreditar naquilo mais do que tudo.

17 comentários:

  1. ahhhh!!! chorando muuuuito.. Lucas seu fdp por que fez isso!!

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  2. Meu Deus !!!n acredito q as coisas chegaram a esse ponto... Super ansiosa para o 5 livro.

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  3. Karina posta logo o último pq estou sofrendo abstinência! E posta MAGNUS também...bjusss ti adoruu❤😍😘😘😘

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  4. Nossa meu tô chorando aqui....
    Eu juro que se eu pudesse entrar no livro eu mataria o Lucas!!!!!Kanalha!!!!! Como ele pôde?????

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  5. Lucassssss eu vou te matar oq vc fez perdeu a cabeça isso n é legal em um relacinameto fud@# tudo to ate preferindo o Derek q vc

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  6. Meu_Deus_eu_so_faltei_morrer_de_tanto_chorar_serio_esse_capitulo_acabou_comigo_parecia_que_os_sentimentos_da_Kylie_tavam_brotando_em_mim_to_me_sentindo_louca

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  7. naaooooo!! T-T , poxa eu entendo o Lucas , nao esta fazendo isso so por ele mais pela alcateia toda , pra se livrar dessas obrigaçoes de lobo

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  8. Nossa!!! Ela foi mesmo.... chorando aqui...

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  9. OMG! eu esperava q acontecesse varias coisas pra ela ir morar com o avo mas essa de Lucas...!

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  10. Karina to apaixonada pela saga😍 vi umas imagens de 3 livros extras se eu não me engano você vai postar?
    Ah e quando sai o próximo? Super anciosa😂

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    1. Tem outra série dessa mesma saga, dessa vez narrada por Della. Devo postar só ano que vem, infelizmente. Os 5 livros já foram postados

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  11. filha da put@@@@@ manoo socorro não consigo parar de chorar meu Deus.

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  12. q odio desse garatoooo, leva derek com vc :/

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  13. Otimo! Eu esperava esse fim mesmo!!! Tou pronto para ler o 5 livro.

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  14. Como se chamará essa saga da Della que você vai postar?

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  15. Eu sabia q ela deveria ter ficado com o Derek, tadinho, Lucas seu fdp, eu te entendo mas como vc pode pedir para ela entender q o namorado dela vai se casar, nossa esse final acabou comigo a della indo abraçar ela meu deus, estou chorando muito aqui, odeio despedida, me senti como se fosse eu me despedindo

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  16. That's my girl!
    Acho que esse livro... teve um lugar especial no meu core! Não sei porque...
    Ansiosa pra começar o próximo... porém, com medo de terminar e não saber o que fazer da vida... 😬😭

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Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!