14 de outubro de 2016

Capítulo 38

Alguém estava segurando a mão dela. À distância, vozes raivosas se sobrepunham. Uma ela reconheceu. A de Burnett. Kylie abriu os olhos, sem saber onde estava. No momento em que viu o teto branco, lembrou-se da sala sem cor. A grande máquina branca.
A dor.
Não a sentia mais.
— Graças a Deus! — Kylie virou-se para o lado de onde vinha a voz de Holiday. Ah. Era Holiday quem segurava a mão dela. Com um ar de preocupação no rosto, a amiga apertou o botão de um controle remoto e chamou a enfermeira.
— Ela está acordada.
— O que aconteceu? — perguntou Kylie.
— Você desmaiou. — Holiday tinha lágrimas nos olhos. — Assustou todo mundo! Você está bem?
— Consigo sentir os dedos das mãos e dos pés — disse Kylie.
A porta se abriu e Burnett, com uma expressão de grande irritação, irrompeu no quarto. Logo atrás dele estava um homem vestindo um jaleco branco. E atrás do médico estava o agente grisalho.
Depois dele estava Lucas – parecendo muito preocupado. E por último, Hayden Yates, com uma aparência igualmente preocupada.
— Eu disse que ia ficar tudo bem. — O médico olhou para Kylie e depois para Holiday. — Ela está falando?
— Sim — disse Holiday.
— Está se mexendo? — ele perguntou a Holiday.
— Sim, e eu posso ouvi-lo também — adiantou-se Kylie.
Ele franziu o cenho para Kylie.
— Claro que pode.
— Espere aí — disse Kylie. — O teste já acabou?
O médico balançou a cabeça.
— Ele estava acabando quando você começou a sentir dor.
— Não sabemos nada ainda? — ela perguntou ao outro agente.
— Precisamos de outros especialistas para interpretá-lo — disse ele. — Mas parece que você tem as marcas de todos os seres sobrenaturais, assim como o senhor Yates.
Kylie sentou-se um pouco.
— Isso nos qualifica como uma nova espécie?
— Tenho a impressão de que sim, mas, como eu disse, o exame tem que ser analisado por especialistas.
Kylie mordeu o lábio.
— Quanto dessas marcas vocês já conheciam graças aos testes no passado?
A sala ficou em silêncio. Kylie viu os ombros de Burnett ficarem tensos.
O agente fez uma pausa.
— Os resultados que tínhamos apontavam para a mesma coisa, mas noventa por cento das evidências foram destruídas pelos médicos e administradores responsáveis pelo estudo, para esconder os erros cometidos. Quanto às evidências que tínhamos, não sabemos se eram válidas.
— Se vocês suspeitavam do que foi feito, por que não tentaram fazer da forma certa até agora? — perguntou Hayden.
— Nós tentamos — explicou o agente. — Talvez não com empenho suficiente, mas em nossa defesa posso dizer que, se tem uma coisa em que a espécie de vocês é imbatível é em se esconder! Procuramos pelos familiares dos poucos que ainda tínhamos em nossos arquivos. Eles e as famílias haviam desaparecido. A certa altura, pensamos em colocar avisos pedindo às pessoas que entrassem em contato, mas, por mais que pensássemos, iria sempre parecer mais uma caça às bruxas. E considerando o que já tinha acontecido, simplesmente não parecia a coisa certa a fazer.
— E quanto tempo vai ser preciso para que essa informação seja divulgada no mundo sobrenatural? — perguntou Kylie.
— Provavelmente algumas semanas, no máximo. Também vamos anunciar a investigação interna sobre a UPF e nossos erros do passado. Qualquer pessoa afetada pelos estudos ou seus familiares vão receber uma indenização se eles se apresentarem.
Kylie pensou na avó.
— O dinheiro não vai trazer de volta a vida dessas pessoas.
— Não — concordou o agente. — Mas é a maneira humana de reconhecer as irregularidades da organização. E como vivemos num mundo humano, é o que de melhor podemos fazer.
— Por quê? — perguntou Kylie.
— Por que o quê? — O agente pareceu não entender.
— Vocês não iriam admitir suas irregularidades e oferecer indenizações se não houvesse uma boa razão. Alguém está ameaçando expor vocês. Quem é?
A reação do agente foi fria.
— O importante é que isso está sendo feito.
Kylie teve a sensação de que eles não conheciam a pessoa que os pressionava. Mas ela tinha a sensação de que conhecia. Poucos minutos depois, o médico e o agente saíram.
Kylie olhou para Burnett.
— Você não sabia nada sobre isso, não é?
Ele balançou a cabeça.
— Nadinha. — Era mentira, ela podia ver. Ele estava tentando fazer a UPF agir direito com ela o tempo todo. Ela sabia que amava aquele homem.
Kylie olhou para Hayden e sorriu. Hayden retribuiu o sorriso. Eles tinham conseguido. Bem, com a ajuda de Burnett. Ela sabia que não tinham terminado completamente ainda; ainda tinham que convencer os anciãos a confiar que as coisas seriam diferentes, e ainda teriam que contar sobre Jenny, mas pelo menos agora os camaleões não teriam que se esconder.


Na manhã seguinte, Lucas apareceu às cinco horas da manhã. Kylie ainda estava dormindo quando ele pulou pela janela. Ele tinha remarcado a reunião com a avó para aquela manhã e só queria ver como Kylie estava antes de sair. Quando ele começou a se afastar, ela o puxou de volta para um beijo.
Quando o beijo terminou, ele estava emitindo o zumbido familiar.
— Você está tentando me convencer a ficar? — ele perguntou, com os olhos brilhantes de desejo e paixão.
— Não — ela disse, e riu. — Vá. Podemos fazer isso mais tarde.
— Promete? — ele perguntou.
— Prometo — disse ela, com sinceridade. Ela não disse a ele que a situação agora era outra, que ela tinha resolvido aceitá-lo de qualquer maneira. No Conselho ou fora dele. Se ele não entrasse e ficasse ressentido com ela mais tarde, ela teria que enfrentar o ressentimento dele. Mas ela o amava demais para afastá-lo.
Quando Kylie escolhia as roupas no armário, Della entrou no quarto de Kylie.
— Essa foi rápida! — disse Della, referindo-se à breve visita de Lucas.
— Ele só veio para me dizer que está indo se encontrar com a avó.
— Eu sei, eu ouvi — ela respondeu com um ar petulante.
Kylie fez uma careta.
— Você sempre pode cobrir os ouvidos e não ouvir, você sabe.
— E você poderia parar de bancar a amiga de Steve — ela sibilou.
Kylie apenas balançou a cabeça.
— Olha, eu preciso me vestir. Vou com Hayden contar a Burnett e Holiday sobre Jenny.
— Burnett vai ficar possesso!
— Eu sei. Mas normalmente, quando não está mais possesso, ele até que é razoável.
— Verdade — concordou Della. — Mas é quando está possesso que ele me assusta.
Kylie riu. Della olhou para ela.
— Por que você conversou com Steve pelas minhas costas?
De cara feia, Kylie perguntou:
— O que eu deveria fazer? Ele pagou aquela hora com sangue.
— Dizer pra ele que não ia. Acredite ou não, isso é geralmente suficiente para fazê-lo desistir.
Talvez isso tenha mudado, Kylie pensou.
— O que ele queria, afinal? — Della se jogou na cama de solteiro de Kylie.
Kylie revirou os olhos.
— Você sabe o que ele queria. Conselhos sobre como tratar você.
— E o que você disse a ele? E lembre-se que eu vou saber se você mentir.
Kylie pegou a escova e começou a pentear o cabelo.
— Eu disse para ele ter paciência. Para lutar por você, porque você vale a pena.
— Conselho idiota.
Kylie baixou a escova.
— Não é idiota. É verdade. Você vale a pena.
Aproximando-se da cama, ela abraçou a vampira.
— Por que tantos abraços ultimamente? — reclamou Della.
— Eu te amo — disse Kylie, e sorriu.
— Você já me disse. Não. Sério. O que aconteceu?
Ela não podia mentir para Della, então amenizou a verdade.
— Você diz às pessoas que as ama porque, se alguma coisa acontecer, elas vão saber o que você sentia. — Se ela ao menos conseguisse encontrar coragem para dizer isso a Lucas...
Della fez uma cara de suspeita.
— O que você acha que vai acontecer?
— Espero que nada — disse Kylie, pensando que tinha sobrevivido aos testes da UPF, que não tinham sido tão assustadores quanto ela imaginara, mas ainda tinha que enfrentar Mario, e isso podia não ser tão fácil assim.
— O que você quer dizer? — perguntou Della.
Uma leve batida soou na porta da cabana e salvou Kylie de dar qualquer explicação.
— Hayden chegou. Tenho que ir.
Quando Kylie saía, ouviu o comentário de Della.
— Perry está certo. Você tem segredos. Mas não pode escondê-los de nós!
Sim, ela poderia, pensou Kylie.
Em breve vamos estar juntos. As palavras do pai sussurraram na sua cabeça. Ela mordeu o lábio.
Se você não se importa, papai, eu gostaria de ficar por aqui por uns cem anos antes disso...


Hayden e Kylie entraram no escritório. Burnett os recebeu na porta. Holiday estava de pé atrás de sua mesa, parecendo preocupada.
— O que foi? — eles perguntaram ao mesmo tempo.
— Nada, na verdade — disse Kylie.
— Precisamos conversar — disse Hayden.
Com um olhar preocupado, Burnett fez sinal para que eles se sentassem. Tão logo Kylie e Hayden se sentaram, Burnett falou.
— Por acaso os anciãos não gostaram de saber que vocês dois foram testados?
— Não é isso — disse Hayden. — Supostamente eles entraram em contato com todos os anciãos dos outros complexos e o consenso é que isso foi bom. É claro que eles ainda desconfiam muito da UPF. Isso não é algo que mude da noite para o dia. Existem muitas brechas ainda. Confiança a ser conquistada. — Ele olhou para Kylie. — Eu, pessoalmente, acho que alguns anciãos têm apenas vergonha de ter sido preciso uma jovem de 16 anos para nos forçar a enfrentar nossos medos.
— Eu não fiz isso sozinha — Kylie disse, dando a Hayden seu crédito.
— Não, mas eu não teria ido se você não tivesse me acompanhado. — Hayden olhou para Burnett e Holiday. — Mas não é por isso que estamos aqui.
— Por que eu acho que não vou gostar do que vou ouvir? — Burnett se sentou na borda da mesa de Holiday.
— Não comece a fazer conjecturas. — Holiday tocou a perna dele.
— Primeiro, quero dizer que assumo total responsabilidade por isto — disse Hayden.
— Não — contestou Kylie. — Se alguém é culpado aqui, sou eu.
— Ainda não estou gostando — Burnett disse com rispidez. — Mas gostaria de saber do que é que eu não estou gostando, então eu poderia fazer o que Holiday disse e parar de fazer conjecturas!
— Lembra quando eu disse que um dos camaleões ajudou Derek e eu a fugir?
— Sim — disse Burnett, e Holiday assentiu.
— Essa garota era a irmã de Hayden.
— E...? — disse Burnett.
— Ela fugiu.
— E...? — Burnett retrucou, acenando para Kylie acelerar.
— Ela correu para cá — disse Kylie.
— Para cá? — perguntou Burnett. — Ela está aqui agora?
Kylie e Hayden assentiram.
— Como ela poderia ter... — Ele fez uma careta. — A noite em que o alarme disparou?
Ambos assentiram mais uma vez.
Kylie viu um dos cristais da sala cintilar. Por alguma razão inexplicável, sentiu que Jenny tinha passado.
Kylie encontrou os olhos de Burnett.
— Por favor, não fique muito bravo nem comece a gritar. Não por minha causa ou de Hayden, mas por Jenny. Você vai deixá-la nervosa.
— Ela estava aqui este tempo todo e só agora é que vocês decidiram me contar? Vocês me deixaram vasculhar todo este maldito acampamento por quase 24 horas sabendo o tempo todo que era ela? — Ele se levantou da mesa e começou a andar para um lado e para o outro.
Holiday se levantou e, quando ele passou por ela, ela colocou uma mão apaziguadora no braço do vampiro, fazendo-o parar.
— Nós não soubemos imediatamente. Ela estava escondida, ela... — Kylie não via nenhuma razão para envolver Derek. — Eu só soube que ela estava aqui no dia seguinte, e Hayden não sabia até eu contar pra ele.
— Ela ainda está aqui? — perguntou Burnett num rosnado.
— Sim — disse Kylie. — E ela gostaria de ficar. Para terminar a escola.
— Será que os pais a matriculariam? — ele perguntou.
Hayden cerrou os dentes.
— Eu não sei como eles vão se sentir quando descobrirem que ela está aqui. Com a notícia da UPF, talvez permitam. Se não permitirem, vou tomar medidas legais para conseguir a custódia dela.
— Ela está aqui agora? Nesta sala? — perguntou Holiday.
Kylie assentiu.
— Jenny.
Jenny apareceu, de pé contra a parede mais distante de Burnett. Kylie não sabia se era apenas a expressão acalorada e indecifrável de Burnett, ou se era porque Jenny sabia que ele fazia parte da UPF, mas ela viu o mais puro pânico no olhar da garota.
Burnett deve ter reconhecido o olhar, porque imediatamente a sua postura se suavizou. Ele a cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Olá, Jenny. Bem-vinda a Shadow Falls.
Kylie viu Holiday sorrir com orgulho da transformação do seu futuro marido. Sem dúvida ela o estava ensinando a moderar sua abordagem. E estava funcionando.
Kylie só esperava que isso significasse que as chances de Jenny ficar em Shadow Falls eram boas.
Holiday e Hayden teriam uma videoconferência com o avô de Kylie para falar sobre a possibilidade de Jenny permanecer no local. Por ora, ela iria ficar com Holiday, que pretendia apresentar Jenny a todos na hora do almoço.
Kylie sugeriu que ela apresentasse Jenny aos seus próprios amigos primeiro. Talvez assim a garota não achasse que todos em Shadow Falls eram pessoa rudes que não paravam de encará-la.
Kylie fez alguns telefonemas e pediu a todos que a encontrassem no escritório às 10h45. Ela não contou a ninguém o que era, mas tinha fé de que todos iriam ao encontro.
Quando Kylie deixou o escritório, Della a encontrou lá fora e elas foram esperar pela Hora do Encontro. Miranda chegou correndo com Perry.
— Então, para que é essa reunião?
— Logo vão saber — Kylie disse, não querendo explicar com tantos ouvidos ao redor. Como Della já sabia sobre Jenny, ou sobre a Mulher-Maravilha como Della apelidara a moça, ela lhe disse a verdade.
— Eu sei! — disse Della, provocando Miranda.
Kylie franziu o cenho para Della.
— Por que você contou a ela e não a mim? — perguntou Miranda.
— Eu prometo que você vai entender mais tarde.
Miranda fechou a cara.
— Você não vai embora de novo, não é? Porque você me prometeu que não faria isso. — Lágrimas apareceram nos olhos da bruxa.
— Eu não vou embora — Kylie assegurou. Não por vontade própria, Kylie pensou, e então pensou novamente na espada e no que aquilo significava.
— Você vai abrir o jogo e contar que você e Hayden são amantes — disse Perry.
Kylie fez uma careta para ele.
— Ei, estou apenas supondo. Sei que há algo acontecendo entre vocês dois.
Lucas apareceu logo em seguida e rosnou para o metamorfo pelo comentário. Em seguida, Lucas se inclinou e a beijou.
— Como foi na casa da sua avó? — ela perguntou baixinho.
— A janela está aberta! — Ele a beijou novamente. — Ela vai falar com ele para convencê-lo a me receber. Ele pode dizer não, mas já é um começo.
— É um grande começo! — Kylie soltou um gritinho de felicidade e, por apenas alguns minutos, teve certeza de que tudo em sua louca vida ia dar certo.
Então Chris, apresentador do grande evento, tirou a cartola de trás das costas e seu olhar começou a varrer a multidão, parando em Kylie. Ela queria gritar, Já chega! Mas então o olhar dele se desviou um pouco mais para a direita.
Ele estava olhando para ela? Ou ele estava olhando...
— Ok — disse Chris. — Um dos nossos próprios vampiros contribuiu com um pouco de sangue. Já não era sem tempo.
Ah, inferno, Kylie pensou, e ela teve a sensação de que sabia quem tinha pago com sangue pela hora com Della. E ela não tinha certeza se isso era uma coisa boa.
— Della, minha cara, você vai ter a satisfação de passar uma hora com Steve, o incrível metamorfo!
O queixo da vampira caiu. Ela olhou ao redor, com os olhos brilhantes de fúria, em busca do culpado.
Steve atravessou a multidão e caminhou até a vampira contrariada com um andar confiante.
Kylie sabia que tinha dito a ele para lutar por Della, mas não esperava que ele fizesse isso na frente de todo mundo. Della, que estava detestando a exposição, provavelmente revidaria a afronta.
— Está pronta? — perguntou Steve.
Della fez uma careta.
— Não vou passar uma hora com você!
Steve nem se mexeu.
— Eu doei sangue bom para ficar com você.
— Então você o desperdiçou!
— Não. — Steve olhou para Chris e depois para os quarenta e tantos estudantes que apreciavam o espetáculo.
— Quais são as regras, Chris? Se não me engano todos concordaram em honrar o pagamento com sangue, não é verdade?
Chris parecia chocado ao ver que Steve se atrevia a discutir com Della. Mas ele balançou a cabeça.
— Sim, todos concordaram.
Steve virou-se para Della.
— Está pronta?
Della ergueu o queixo e seus olhos desferiram dois punhais na direção do rapaz.
Perry se inclinou e cochichou para Kylie:
— Se ela matá-lo, a culpa é sua.

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