14 de outubro de 2016

Capítulo 37

A respiração de Kylie ficou presa nos pulmões. Ela deixou cair a espada. A espada de Lucas escorregou da mão dele e caiu ao lado dela. Ele deu um passo para trás. A camiseta dele estava aberta, rasgada pela lâmina dela.
— Ah, meu Deus! Você...
— Está tudo bem. Foi só um arranhão. — Ele pressionou a palma da mão sobre o estômago.
— Quero ver. — Ela deu um passo na direção dele.
— Estou bem. — Ele deu outro passo para trás. — A culpa é minha. Eu te fiz perder a concentração.
— Quero ver! — ela insistiu.
— É só um arranhão — ele repetiu.
Ela deu os últimos passos que os separam e estendeu o braço para a camiseta dele. Seu coração se contraiu, com medo do que veria. Lágrimas encheram os olhos dela e o ar escapou de seus pulmões quando viu a marca vermelha sobre o umbigo de Lucas.
— Um arranhão, viu? — A voz dele saiu profunda.
Ele estava certo. Não era muito mais do que um arranhão, mas ainda assim parecia dolorido. Ela apertou dois dedos sobre a pele nua do estômago. Inspirando, concentrou-se na cura. As mãos dela ficaram quentes e, lentamente, ela moveu a mão em torno da ferida.
Kylie o ouvira gemer ou tinha sido um grunhido? Ela encontrou os olhos dele.
— Estou te machucando? — Então ela reconheceu o ardor nos olhos dele.
— Não — disse ele, o zumbido hipnótico vibrando, sinalizando que seu corpo procurava uma parceira em potencial.
Com audácia, ela passou a mão para cima e para baixo sobre o abdome dele.
As ondulações suaves e quentes do músculo e da pele provocavam uma sensação maravilhosa contra a palma da mão dela. Ela queria mais. Mais dele. Mais do seu toque. Ela queria ser tocada.
Como se lesse a mente dela, as mãos dele rodearam sua cintura, puxando-a contra si. Seus lábios encontraram os dela e o beijo foi ardente. Profundo e exigente desde o momento em que os seus lábios se encontraram. Ela não soube muito bem como acabaram no chão, mas de repente estavam ali.
A grama macia fazia cócegas no seu pescoço, mas ela sentia Lucas mais do que qualquer outra coisa. Sentiu a mão dele sob sua camiseta. Seu toque suave e carinhoso em seus seios. Sentiu parte do corpo dele pesando sobre ela, a perna dobrada entre as dela.
Em todos os lugares uma parte dele a tocava; o corpo dela ardia e ansiava por mais. O zumbido de Lucas enchia os seus ouvidos como música e ela se entregou. Entregou-se ao momento, aos instintos. Entregou-se com um desejo ardente.
Kylie não tinha medo. Ela queria isso, queria Lucas. Ela deslizou a mão sob a parte de trás da camiseta dele.
Então o ouviu emitir um murmúrio, uma mistura de dor e prazer. Mas num instante o peso do corpo dele e todo o prazer se foram. Ao abrir os olhos, ela viu Lucas parado aos pés dela, com os olhos em chamas e olhando para ela com uma expressão quase selvagem. Suas mãos estavam cruzadas atrás do pescoço e ele respirava com dificuldade, como se precisasse de mais oxigênio.
— Nós não podemos... Não vim preparado... Não tenho...
Tão ofegante quanto ele, ela levou um segundo para entender o que ele estava tentando dizer. Ele não tinha uma camisinha.
Mesmo se tivesse, não deveria acontecer daquele jeito, por acidente.
— Nós precisamos... Não é assim que... — disse ele.
— Eu sei. — Ela se sentou e um sentimento incômodo tomou seu peito; ela sentiu o rosto arder. Levantando-se, sentiu o nó na garganta. — Desculpe, eu não deveria ter... — Ela desviou o olhar, sem saber como dizer. Ele diminuiu a distância entre eles e gentilmente virou o rosto dela para ele.
— Você não fez nada errado. Nós não fizemos nada errado. Só precisamos planejar...
Ela assentiu com a cabeça. Seu celular tocou. Ela ainda não tinha estendido a mão para pegá-lo quando o de Lucas também começou a tocar.
Ela suspirou, sabendo muito bem o que aquilo significava. A UPF estava ali. Antes da hora marcada. Ela tirou o telefone do bolso e viu que a ligação era de Burnett; ela estava certa.
— É Burnett — disse ela. — Tenho certeza de que Holiday está ligando pra você, também. — Ela pegou as espadas. — Não atenda. Só precisamos ir para o escritório.
Ele olhou para ela atentamente. E ela sentiu um redemoinho de culpa no peito. Ela deveria ter contado. Agora era como se tivesse mentido para ele.
— Por que não devo atender? — Ele abriu o saco e tirou dali os panos para embrulhar as espadas.
— Eu ia te contar, mas... — Eu sabia que você ia brigar comigo.
— O que está acontecendo, Kylie? — ele perguntou enquanto guardava as espadas no saco e o colocava no ombro.
— É a minha janela — explicou ela.
— Qual é a sua janela?
— O motivo por que Burnett e Holiday estão ligando. É a UPF, eles estão aqui por minha causa.
— Por que diabos eles estariam aqui por sua causa?
Ela engoliu em seco e começou a andar. Ele a agarrou pelo cotovelo, com uma interrogação nos olhos.
— Concordei em fazer os testes.
Ele balançou a cabeça, os olhos passaram de azul para um abrasador tom de laranja em questão de segundos.
— Não!
— Eu tenho que fazer isso, Lucas! É a minha missão. Assim como a sua é mudar as coisas da sua espécie. Eu tenho que fazer isso.
— Não, você não tem! — Ele se colocou na frente dela e impediu-a de dar mais um passo. — Esqueceu que eu vi uma parte da visão do que fizeram com a sua avó?
— Isso foi há mais de quarenta anos. As coisas são diferentes. — Era o que Kylie estava dizendo a si mesma, no que ela tinha que acreditar. Ela contornou Lucas e continuou seguindo em frente.
— Não! — Ele agarrou o braço dela.
Ela olhou para ele, pedindo compreensão.
— Eu tenho que fazer isso, Lucas. E você tem que me deixar.
— Burnett e Holiday não vão permitir — ele respondeu entredentes.
— Burnett não acredita que eles iriam me machucar — insistiu ela, sentindo uma brisa fresca roçar na pele. Ela sabia que não estava sozinha.
O pai dela estava ali. Ela rezou para que ele aprovasse o que ela estava fazendo.
— Ele acha que poderia haver riscos, ele mesmo me disse isso. Me disse que escondeu o corpo da sua avó por causa disso.
— Em tudo há um risco, Lucas. — Ela tocou o estômago dele. — Em aprender a lutar. Em não aprender a lutar. Eu estou fazendo a coisa certa. Eu sei.


— Nós não telefonamos para ela. — A voz masculina vinha do escritório de Holiday. — Ela entrou em contato conosco.
Kylie e Lucas entraram no escritório. Lucas continuava furioso. Ela podia dizer pela postura dele, o seu silêncio, mas ele não tentou detê-la. Ela sabia que ele tinha percebido o quanto ela levava aquilo a sério.
— Kylie não teria feito isso. Ela nem sequer sabe como entrar em contato com vocês — contestou Holiday.
Kylie parou na porta de Holiday.
— Eu liguei para minha mãe e ela tinha o número. Eu disse que precisava falar com eles sobre um trabalho que estava fazendo pra você, Holiday. — Kylie fitou o olhar preocupado da líder do acampamento. Burnett estava ao lado dela, os olhos mostrando sinais de raiva. Ela só esperava que toda aquela raiva não fosse direcionada a ela.
Holiday balançou a cabeça.
— Eu me recuso a deixar isso acontecer!
Kylie atravessou a sala, com Lucas atrás dela. Ela olhou para Burnett, esperando encontrar nele um aliado.
— Desde o começo, Burnett disse que eles não iriam me prejudicar intencionalmente.
Holiday se levantou.
— Ele também admitiu que poderia haver riscos, que foi por isso que ele... concordou que você não precisa fazer os testes.
— Ela está certa — disse Burnett. — Eu não quero arriscar...
— Os riscos são praticamente inexistentes — disse o agente grisalho da UPF. — É o que queríamos dizer desde o início. Mas você se recusou a ouvir.
Kylie ignorou o agente e falou para Holiday.
— É a minha missão. Você mesmo disse que era uma busca que valia a pena.
— Mas não significa que você deva colocar sua vida em perigo.
— Ela não está em perigo — disse o agente da UPF novamente.
— Então por que um médico comum não pode realizar os testes? — Holiday perguntou, o tom de voz parecendo o de um pai zangado. Sem dúvida, ela seria uma ótima mãe.
— Eu já disse isso a você quando nos falamos alguns meses atrás. Não é nada mais do que uma tomografia do cérebro e alguns exames de sangue. E esses testes só não podem ser feitos num hospital qualquer porque não foram projetados para seres humanos.
— Mas ela poderia fazer uma tomografia e exames de sangue num hospital qualquer — Holiday retrucou.
— É diferente — respondeu o homem. — A digitalização é definida para procurar coisas que uma tomografia comum não procuraria. O mesmo vale para o exame de sangue. Um laboratório comum não poderia fazê-los.
— E quantos desses testes já foram feitos? — perguntou Holiday.
— Milhares — respondeu ele. — Há vários anos a UPF os tem feito.
— Para quê?
Ele franziu a testa.
— Pesquisas.
— Em quem? Que tipo de pesquisas?
— Principalmente para estudar casos criminais. Mas...
— Vocês fazem esses testes em criminosos e acha que podem usá-los numa adolescente? — ela perguntou, com ar acusatório.
— São seguros.
— Vai me dizer que não houve nenhum efeito negativo?
— Não que saibamos.
— Então deve haver alguns que vocês não saibam! — Holiday disse com rispidez.
— Eu tenho que fazê-los, Holiday. É a coisa certa. Eu sei disso. Por favor, não tente me deter, porque eu não vou deixar.
Kylie viu lágrimas aparecem nos olhos de Holiday e ficou arrasada ao ver que estava fazendo a amiga sofrer, mas tudo dentro dela dizia que era a coisa certa a fazer.
Ela olhou para o agente.
— Você trouxe os papéis que eu pedi?
— Que papéis? — perguntou Burnett.
— Um documento da UPF com a promessa de que, se provarem que eu pertenço a uma raça especial, vocês vão fazer com que nossa espécie seja reconhecida pelo mundo sobrenatural.
— Mas e depois? — Hayden apareceu de repente, parando de pé num canto. — Vocês vão insistir para que todos se apresentem como voluntários para fazer esses testes?
O agente da UPF pareceu perplexo com a aparição de Hayden, mas não se deixou abalar.
— Vamos precisar confirmá-los com pelo menos outro membro da mesma espécie. Mas depois que tivermos Kylie e essa outra pessoa em nossos registros, tudo o que exigiremos será um exame de sangue para que a pessoa seja registrada.
Hayden olhou para Kylie e ela sabia no que ele estava pensando.
— Você não tem que fazer isso — disse ela. Colocar a sua própria vida em risco era uma coisa, pedir que alguém fizesse isso era outra.
— Sim, eu tenho. Você estava certa. É hora de mudar as coisas. — O olhar de Hayden se voltou para o agente. — Você já tem mais uma pessoa.
O agente apertou as sobrancelhas ao mesmo tempo em que Lucas olhou com admiração para o padrão de Hayden.
— Eu ainda não gosto disso. E se eles não mantiverem a palavra? — Lucas perguntou.
Kylie olhou para Lucas, depois para Burnett e implorou com o olhar para que ele falasse alguma coisa. Ele nunca tinha deixado de ser leal à UPF e ela confiava mais na opinião dele do que ele imaginava.
— Eles não fariam isso — disse Burnett.


O quarto estava frio e lembrava muito a visão que Kylie tivera com a avó. Mas ela procurou se apegar à certeza de que Lucas, Burnett e Holiday esperavam do lado de fora. Primeiro, ela teve que vestir uma camisola de hospital. Horrorosa.
A enfermeira se aproximou.
— Vou ter que aplicar algumas injeções para entorpecer você. É mais ou menos como a anestesia que você tomaria para tratar um dente. Precisamos tirar sangue de sua artéria radial para fazer esse teste, por isso é um pouco mais desconfortável do que um exame de sangue comum. Mas essas injeções devem ajudar.
A enfermeira estava certa, era mais desconfortável. Kylie não sabia se as injeções tinham ajudado, mas assim mesmo doeu muito. Ela fechou os olhos com força, esperando que o exame acabasse.
Em poucos minutos, tudo terminou. Antes de Kylie ser levada para outra sala, onde fariam a tomografia do cérebro, deixaram Lucas, Holiday e Burnett entrarem. Ela sabia que tinham feito o exame no cérebro de Hayden primeiro.
— Hayden está bem? — Foi a primeira coisa que ela quis saber quando eles entraram.
— Acabei de vê-lo — disse Burnett. — Está bem, disse que foi moleza.
Kylie assentiu. Holiday ainda não parecia feliz.
— Você ainda pode desistir.
— Holiday, eu vou fazer.
fae suspirou como se estivesse exasperada e colocou a mão sobre a barriga.
— Espero que este bebê não seja tão teimoso quanto você.
Kylie olhou para Burnett e sorriu.
— Com o pai sendo quem é, eu diria que você não tem a menor chance de que ele não seja
teimoso.
— Ei, eu não sou tão ruim assim! — Burnett sorriu, mas ela tinha certeza de que o sorriso era forçado. Ele estava tentando aliviar o clima, mas a preocupação brilhava em seus olhos também.
Em poucos segundos, Burnett e Holiday saíram da sala. Lucas ficou para trás e aproximou-se da cama. Ele pegou a mão dela em que havia um pequeno esparadrapo e roçou o polegar sobre o curativo. Ela podia apostar que ele estava pensando na cura que ela ministrara nele.
— Quando tudo isso acabar, precisamos conversar. Não me agrada que você não tenha me contado o que planejava fazer, ou que o outro professor fosse um camaleão. E, eu sei, eu não merecia que você me dissesse nada na época. Mas você estava certa quando você me disse naquele dia que não precisávamos ter segredos um com o outro. Eu não quero que mais nada se interponha entre nós.
Ela engoliu em seco.
— Eu também não.
De repente, Kylie se lembrou de algo.
— Você ia se encontrar com a sua avó para o chá!
Ele balançou a cabeça.
— Isso é mais importante.
— Não, não é, Lucas. Você tem que entrar para aquele Conselho.
Ele franziu a testa.
— Eu não desisti. Só adiei o momento de falar com ela. — Ele suspirou. — Mas não me importo com isso. Sobre entrar para o Conselho ou não. Eu não vou te perder.
— Tudo bem.
Uma enfermeira entrou
— Nós vamos levá-la agora.
Lucas fez uma expressão preocupada, mas soltou a mão dela.
Kylie se recusou a ser levada numa cadeira de rodas para o laboratório onde o exame seria feito.
Ela não estava doente. Mas se certificou de que a camisola estava amarrada para não dar a chance de que todos vissem a sua calcinha cor-de-rosa.
Holiday apertou a mão dela antes que entrasse no laboratório. Burnett lhe apertou o ombro. Lucas, parecendo em parte contrariado, em parte muito preocupado, ficou para trás. A enfermeira entrou na frente dela numa sala, Kylie virou-se para segui-la e foi puxada de volta.
Sentiu a boca de Lucas pressionada contra a dela por um instante. As palavras “eu te amo” estavam na ponta da língua, mas ela não as disse. Não queria que ele pensasse que o medo do que estava para acontecer fosse a única razão para que ela as dissesse. E depois havia aquela pequena dúvida de que, se ele soubesse disso agora, talvez não se esforçasse tanto para entrar no Conselho.
A porta se fechou atrás dela. Um arrepio percorreu sua espinha, mas não por causa da presença de um espírito; a sala estava simplesmente gelada. Kylie olhou ao redor, notando as paredes descoradas da sala. Não havia nem um pingo de cor ali. Tudo era branco ou cinza esbranquiçado.
— Me diga — disse a enfermeira —, alguma vez você já fez uma ressonância magnética?
Kylie assentiu.
— Quando tinha pesadelos.
— Bem, essa é muito parecida. A máquina faz um barulho um pouco alto e você pode sentir um certo desconforto, mas vai precisar permanecer completamente imóvel. Vai demorar cerca de dez minutos para acabar o teste. Você não tem claustrofobia, tem?
— Na verdade, não — disse Kylie, mas depois se lembrou de quando esteve no pequeno túmulo com as três garotas mortas. Mas, na realidade, tinham sido mais as garotas mortas do que o pequeno espaço que a assustara.
— Ótimo! — disse a enfermeira. — Aqui estão os tampões de ouvido. Agora suba aqui e vamos acabar logo com isso.
Kylie colocou os tampões de ouvido e engoliu uma súbita sensação de ansiedade.
Nos recônditos da sua mente, ela ouviu as palavras do pai. Mas logo. Logo vamos descobrir isso juntos.
O coração de Kylie disparou, batendo no compasso do medo, mas ela subiu na maca e se deitou, tentando lutar contra o frio, e mesmo assim desejando poder sentir um outro tipo de frio. O de seu pai. Ouvir uma palavrinha dele dizendo que ela não estava prestes a morrer seria muito bom.
Ela foi levada para dentro da máquina. Seu nariz estava a poucos centímetros do teto e seus braços tocavam as laterais. Era uma máquina, não um caixão, ela disse a si mesma. Mas foi para lá que a mente dela a levou: para um caixão fechado.
O barulho começou. Mesmo com fones de ouvido, o som ficou tão alto que ela mal conseguia ouvir os próprios pensamentos. Ela fechou os olhos. Tentou não ouvir. Tentou não pensar. Ela não tinha certeza de quanto tempo estava lá quando sentiu uma leve cócega na cabeça. As cócegas aumentaram até que se tornaram uma dor. Uma dor aguda.
Ela abriu a boca para gritar, tentou se mexer, mas não conseguiu.
De repente, sentiu como se uma luz explodisse em sua cabeça e tudo o que pôde ver foi escuridão.
Logo, querida, logo vamos estar juntos.

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