4 de outubro de 2016

Capítulo 37

Nenhum dos dois falou durante o trajeto. O silêncio parecia pesado, mas não tão incomum, ou foi o que Kylie disse a si mesma. Burnett nunca fora de falar muito.
Mas, a cada giro dos pneus, a incerteza de Kylie aumentava. Ela olhou mais uma vez para Burnett, sentado em silêncio no banco do motorista.
— Você parece nervosa — disse ele.
— Eu deveria estar?
Ele parecia confuso.
— Pensei que você queria vê-los.
Ela assentiu, mas a lembrança de Jane e da sua cirurgia surgiu ainda mais forte. Ah, claro, o coração de Kylie dizia que Burnett era um bom sujeito, mas ela se lembrava de Holiday dizendo que a UPF não hesitaria em sacrificar uma pessoa se achasse que era por uma boa causa.
Quando Burnett estacionou o Mustang em frente a uma pequena casa de molduras brancas nas janelas, a mesma casa que Kylie tinha visto em suas visões, uma onda de vergonha se abateu sobre ela por ter duvidado de Burnett.
— Eu tentei ligar para eles, mas ninguém atendeu — explicou Burnett. — Claro que vou entrar com você, mas vou deixar que explique as coisas do seu jeito.
Dois minutos depois, após baterem na porta e perceberem que não havia ninguém em casa, uma mulher, aparentando uns 90 anos, saiu da casa vizinha.
— Posso ajudar? — Ela andou na direção deles, movendo-se incrivelmente rápido para alguém da idade dela.
Kylie, pensando ter sentido uma lufada de ar frio, imediatamente verificou o padrão da mulher. Burnett fez o mesmo. A mulher era humana.
— Estamos procurando o senhor Summers — disse Burnett.
— Bem, chegaram tarde. Ele e a cunhada pegaram o avião esta manhã. Foram para a Irlanda.
Irlanda? Seria uma coincidência os Brightens estarem naquele mesmo país?
Kylie olhou para Burnett e viu a mesma pergunta estampada em seus olhos.
— Por que eles foram pra lá? — Burnett perguntou.
A vizinha sorriu.
— Ele disse que estava procurando algo que tinha perdido há muito tempo. Disse que era algo mais valioso do que ouro e que ele tinha descoberto que podia estar lá.
— A senhora sabe quando ele pretende voltar? — Kylie perguntou.
— Eu fiquei de regar as plantas e dar comida para o gato durante uma semana.
Burnett começou a voltar para o carro.
— Obrigado, senhora.
— Vocês querem deixar um recado? — A vizinha perguntou.
— Nós vamos voltar. — Burnett sorriu e acenou.
Kylie entrou no carro e afundou-se no assento, com vontade de chutar e gritar de frustração. Mais perguntas e nenhuma resposta. Ela já estava cansada disso.
Burnett ligou o carro.
— Vamos até o próximo quarteirão e então podemos voltar a pé.
— Voltar pra quê? — Kylie perguntou.
— Achei que você ia gostar de entrar lá dentro — disse ele. — Ver se conseguia descobrir alguma coisa.
— Não é contra a lei? — Kylie perguntou.
Os olhos dele se arregalaram.
— Só se formos pegos.
Kylie mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue.
— Você tem algo como um “passe livre” para sairmos da cadeia se formos pegos? Não acho que eu ficaria muito bem num uniforme de presidiária.
Ele bateu no bolso.
— Acho que tenho dois comigo.


A casa cheirava a ervas. Alecrim. Talvez um pouco de tomilho. E os móveis eram velhos. Muitas antiguidades, objetos que pareciam caros, mas nada muito chamativo. Quando Kylie entrou na sala, viu o armário de onde Jane tinha tirado a mala. Logo em seguida, sentiu o frio descendo sobre ela.
Ela parou abruptamente. Burnett parou atrás dela.
— Algo errado? — perguntou ele.
— Você quer dizer algo além do fato de estarmos invadindo a casa de alguém? — Ela tinha certeza de que ele não iria querer saber que tinham companhia espiritual.
— Não tem problema — disse ele.
— Certo.
Ela entrou no quarto. Jane Doe, também conhecida como Heidi Summers, estava sentada na cama, e olhava para as fotos sobre a mesa de cabeceira.
Kylie estudou o rosto da mulher na moldura.
— É você.
— O que disse?... Esquece, vou esperar lá fora.
Burnett devia ter percebido que ela não estava falando com ele e não queria nada com o fantasma. Considerando o que lhe tinha acontecido da última vez, Kylie não o culpava.
— Eu e Malcolm — disse Heidi, pronunciando o nome com imenso carinho. — Eu me lembro.
Kylie pegou a foto. Lembrou-se de ter sentido algo estranho quando viu o rosto do homem na visão. A mesma sensação a envolveu novamente. Calafrios percorreram sua espinha. Não de frio desta vez, mas com o choque da constatação.
— Burnett?
— O quê? — Ele invadiu o quarto como se estivesse pronto para lutar com alguém.
Ela estendeu para ele a fotografia.
— É ele.
O vampiro pegou a foto.
— Quem?
— É o mesmo homem que foi ao acampamento. Aquele que se passou pelo meu avô.
Burnett analisou a foto.
— Você tem certeza?
— Absoluta.
Heidi se levantou.
— Era ele, não era? Eu me lembro. E aquela era minha irmã.
A irmã dela? Kylie lembrou-se da mulher, lembrou-se de sentir uma ligação com ela.
— Por que eles foram ao acampamento e fingiram ser meus avós adotivos? — Kylie perguntou, e a pergunta era tanto para Burnett quanto para Heidi.
— Eu não sei — respondeu Burnett.
Heidi ficou em silêncio como se tentasse pensar.
— Espere. Eles eram da Irlanda. E a vizinha disse...
— Quem era da Irlanda? — Kylie perguntou, e viu Burnett sair de novo.
— As pessoas que adotaram o meu menino. Eu permiti que o adotassem. Fui a um médico que arranjava bons pais para as crianças. O médico era humano, mas ele sabia sobre os sobrenaturais. Lembro-me de que houve complicações, eu tive que fazer uma cesariana, e o médico não queria fazer porque não tinha anestesia; eu o obriguei a fazer de qualquer maneira. Eu não podia deixar meu bebê morrer. Sabia que nenhuma dor seria pior do que roubar do meu filho a chance de viver. Então eu me certifiquei de que ele iria para uma boa família. — Ela se sentou mais ereta. — Malcolm está olhando pelo nosso filho.
Lágrimas umedeceram os olhos de Kylie quando a verdade atingiu seu coração, provocando-lhe uma vertigem. Heidi Summers era a mãe biológica de Daniel. Ela era avó de Kylie. E Malcolm Summers, seu avô de verdade e a irmã de sua avó tinham se passado pelos pais adotivos de Daniel. Por quê? Por que não disseram a ela? Mais perguntas.
— Ele vai achar nosso menino. E eles serão uma família, do jeito que nós deveríamos ter sido.
A dor por tudo o que sua avó tinha sofrido de repente a inundou. Saber que ela teria que contar a Heidi sobre a morte de Daniel dilacerava seu coração.
Mas ela tinha que contar, não tinha?
— Ele não vai encontrá-lo — disse Kylie.
— Como você sabe?
Kylie enxugou as lágrimas dos olhos.
— Ele não está na Irlanda.
— Por que outro motivo Malcolm teria ido para a Irlanda?
— Ele foi para encontrar os Brightens.
Heidi afundou na cama, como se estivesse tentando compreender o que Kylie dizia.
— Sim, esse era o nome deles. Eles adotaram o meu menino.
Kylie balançou a cabeça.
— Mas seu filho não está com eles.
— Onde ele está? — Ela pulou da cama. — Leve-me até ele. Eu quero vê-lo.
Kylie prendeu a respiração.
— Ele morreu há muito tempo.
— Não! — ela gritou. — Ele está vivo! Eu fui vê-lo pouco antes de nos forçarem a ir para aquele lugar dos testes. Foram alguns meses depois de eu dar à luz. Meu filho estava bem. Tão saudável!
— Ele não morreu quando era bebê — disse Kylie. — Ele cresceu, conheceu uma mulher por quem se apaixonou, e, em seguida, ingressou no exército. Ele morreu aos 21 anos, durante uma missão, tentando salvar uma mulher. Ele foi um herói. Você devia se orgulhar.
Heidi desabou na cama.
— Você tem certeza?
— Sim. — Outra onda de lágrimas transbordou dos olhos de Kylie. — Eu aposto que ele está esperando para conhecê-la do outro lado
Heidi olhou para cima, como se pudesse ver o céu.
— Você o conheceu?
Kylie confirmou com a cabeça.
— Só o seu espírito. — Ela sentiu as lágrimas começarem a rolar pelas suas faces. — Ele é meu pai.
Os olhos de Heidi se arregalaram.
— Isso significa que você... — Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Kylie. — Eu devia ter adivinhado. Você se parece com Malcolm. Cabelos loiros, em vez de ruivos, mas os olhos... — Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — Eu acho que... uma parte de mim já sabia.
Kylie piscou.
— Eu tenho tantas perguntas para fazer, tantas coisas que gostaria de saber. Primeiro, o que somos?
— O que você quer dizer?
— Somos sobrenaturais, certo?
Ela hesitou, como se tivesse que pensar.
— Sim. Foi por isso que eles nos levaram para fazer aqueles testes horríveis.
— Então, o que somos? — Kylie prendeu a respiração, esperando que ela respondesse.
Heidi franziu a testa como se tentasse pensar novamente.
— Eu... não consigo me lembrar. Sinto muito. Mas... — Ela apontou para a foto. — Malcolm vai se lembrarEle nunca se esquece de nada. — Heidi se levantou. — Eu tenho que ir ver meu filho agora. Preciso lhe dizer que eu o amo. É por isso que fiquei aqui. Para lhe dizer o quanto lamento que eu o tenha dado a outra família.
— Por que você fez isso? — Kylie perguntou, esperando que ela se lembrasse de algo. — Por que você o deu a outra família?
Ela inclinou a cabeça como se estivesse pensando novamente.
— Porque eles queriam os pequeninos ainda mais do que a nós.
— Quem? — Kylie perguntou. — A UPF?
— Sim — disse ela. — Foi a única maneira de mantê-lo seguro. Se eu fugisse com ele, eles me encontrariam. Então eu o dei. E disse a Malcolm que perdi o bebê. Tive que fazer isso. Ele confiou neles. Disse que não iam ferir o nosso bebê; iam simplesmente estudá-lo por pouco tempo. Mas eu não acreditei neles. Então dei o bebê, menti para Malcolm e depois voltei porque o amava muito.
— Por que queriam estudar o bebê? — Kylie perguntou.
— Eu não me lembro... Espere, era porque éramos diferentes e eles não gostavam nada disso.
— Em que éramos diferentes?
Ela balançou a cabeça. Sua testa se enrugou.
— Tudo ainda está muito confuso. Lembro-me de algumas coisas e de outras, não. Malcolm saberá dizer.
Ela se inclinou e colocou a mão no rosto de Kylie.
— Eu vou ver o meu menino. Mas você, Kylie Galen, é tudo o que eu queria numa neta. Eu preciso ir agora.
Kylie queria gritar e implorar para Heidi ficar, porque ela tinha mais perguntas. Mas era tarde demais. Ela já havia desaparecido.
Quinze minutos mais tarde, Kylie estava sentada em silêncio no Mustang enquanto Burnett o estacionava em frente ao acampamento. Ela contara tudo a Burnett. Que Jane Doe era na verdade sua avó, e ela tinha dado o pai de Kylie a outra família porque a UPF estava estudando crianças como ele. Burnett colocou o carro na vaga e olhou para ela.
— Então você acha que ele foi procurar os Brightens?
Kylie confirmou com a cabeça.
— Vou ver se consigo encontrar Malcolm Summers na Irlanda. Mas é bem provável que você tenha que esperar ele voltar.
Kylie assentiu, não gostando de estar tão perto das respostas e ainda tão longe. Ela estendeu a mão para a maçaneta da porta e, em seguida, olhou para Burnett.
— Você não vai entrar?
Ele franziu a testa.
— Não.
Kylie hesitou em perguntar, mas então foi em frente.
— Você não vai voltar mais?
Ele apertou o volante.
— Eu não sei.
— Por quê?
Ele olhava para a frente.
— É o que ela quer. Não confia mais em mim.
Kylie engoliu em seco.
— Nem eu confiava.
Ele arqueou uma sobrancelha para ela.
— Quando você estava me levando pra casa de Heidi, tive medo que estivesse me levando para fazer os testes na UPF.
Ele franziu a testa. A mágoa era visível em seus olhos.
— Mas isso é porque eu vi o que a UPF fez com a minha avó. Revivi fragmentos da vida dela através dos seus olhos e, quando alguém passa por algo tão ruim, é difícil confiar. Eu não sei exatamente o que aconteceu entre Holiday e o outro vampiro, ela não fala nem comigo a respeito disso, mas deve ter sido muito ruim. Isso a magoou e agora ela está com medo de amar novamente. Mas se você apenas insistir um pouco mais...
— Eu não tenho feito outra coisa. Agora chega.
Eles ficaram ali sentados, olhando um para o outro durante vários segundos.
— Eu tenho que ir — disse ele finalmente.
Kylie saiu do carro. Enquanto observava Burnett se afastar, percebeu que as emoções em seu peito eram as mesmas que sentiu no dia em que viu Tom Galen sair de carro com suas malas.
Shadow Falls era sua família. Eles já tinham perdido Ellie. Não precisavam perder Burnett, também. Mas, por mais que tentasse encontrar uma solução, ela não sabia como poderia mudar isso.
Lucas encontrou Kylie no portão. Mais do que tudo, ela precisava de um abraço. Queria lhe contar o que havia descoberto, mas tudo o que recebeu dele foi sua raiva.
— Por que você não esperou por mim? — ele perguntou.
Talvez fosse porque suas emoções já estavam no limite, mas ela simplesmente começou a andar para longe dele.
— Droga! — gritou Lucas, seguindo-a no mesmo passo. — Por que, pelo amor de Deus, você voltou àquele cemitério, afinal? E por que deixaram que Derek fosse com você?
— Porque eu precisava de respostas. E porque Derek é meu amigo. Assim como Fredericka é sua amiga!
Ele a pegou pelo braço.
— Você sabe o quanto fiquei preocupado?
— Posso imaginar — Kylie respondeu rispidamente. — Você ficou tão preocupado comigo quanto eu fico com você quando corre por aí na forma de lobo a noite toda.
Ele pareceu atordoado.
— Eu não posso mudar o que sou, Kylie.
— Nem eu, Lucas. — Lágrimas brotaram dos seus olhos. — Eu não sei o que sou, mas sei que o que eu faço é falar com fantasmas. E, se você não pode aceitar isso, então talvez não possa me aceitar.
— Eu não disse isso — ele insistiu. — Eu só quero...
— Você quer que eu seja um lobisomem — disse ela. — Quer que eu seja um lobisomem para sua família e sua alcateia me aceitarem. Mas no momento, a probabilidade de conseguir o que deseja não parece muito boa. Então talvez precise pensar nisso também.
Ela recomeçou a andar.
Ele a alcançou.
— Sinto muito — desculpou-se. — É que eu não suporto pensar que algo pode te acontecer. E... nada vai mudar o que existe entre nós, não importa o que você seja. — Ele levantou o queixo dela e fitou seus olhos. — Você não sabe o que eu sinto?
Lucas a puxou contra o peito e Kylie não fez nada para impedi-lo. Ela enterrou a cabeça no seu corpo quente e tentou acreditar que ele estava falando a verdade, mas não podia mentir para si mesma. Sabia que Lucas queria acreditar, mas não estava completamente convencida de que nada mudaria entre eles no caso da avó dele realmente se envolver. E Kylie não sabia se era justo que ela lhe pedisse para fazer essa escolha.


Kylie acordou muito cedo na manhã de terça-feira. Seu primeiro pensamento foi o de que era o dia do funeral de Ellie. Ela se lembrou da visão que tivera e se perguntou se era justo ter que reviver tudo aquilo.
Passou a mão no rosto. Seu despertador não tinha tocado. Então, por que ela estava acordada?
O frio de repente a envolveu como um cobertor de gelo.
— Heidi? — ela se sentou tão rápido na cama que sua cabeça girou. — É você? Tenho mais perguntas a fazer.
Nenhuma resposta. Kylie ficou ali, esperando. No quarto escuro, viu uma figura aparecer em meio a uma névoa, nos pés da cama.
— Heidi? — perguntou novamente.
Kylie ligou o abajur. A luz clareou o quarto e iluminou o espírito, que estava de costas para a cama. Não era Heidi. Kylie não conseguia nem sequer dizer se o fantasma era um homem ou uma mulher.
De algum modo ele/ela parecia... mais morto do que os outros. Claro, eles estavam todos mortos, mas, por algum motivo, até mesmo o cabelo emaranhado parecia mais sem vida do que o cabelo dos outros espíritos.
— Olá — Kylie sussurrou.
O espírito se virou e Kylie perdeu o fôlego. Vermes, larvas e insetos assustadores rastejavam para dentro e para fora das órbitas, corroendo o pouco de carne que ainda se agarrava às faces.
Gritando, Kylie recuou até bater os ombros contra a cabeceira da cama.
— Você pode me ajudar? — Uma enxurrada de vermes caiu em cascata dos lábios do espírito quando ele falou, e eles se espalharam pelo cobertor de Kylie.
— Eu... — Kylie chutou as cobertas para impedir que as criaturas de aparência gosmenta rastejassem em sua direção. — Eu poderia, mas você se importaria de fazer algo com o seu rosto? Agora!
Della irrompeu no quarto.
— Está tudo bem?
Kylie olhou para os pés da cama. O fantasma tinha ido embora. Ela suspirou de alívio.
— Está — falou, com a voz fraca. Lembrando-se dos vermes... e sem muita certeza de que o fantasma os tinha levado com ele..., Kylie ficou de pé, arrancou as cobertas da cama e jogou-as no chão. Depois se afastou da pilha de roupa de cama.
— É. Você parece muito bem, mesmo... — Della disse com sarcasmo.
Kylie deu alguns pulinhos, tentando afastar os vermes imaginários que sentia rastejando sobre sua pele.
Della ficou ali de pijama do Mickey Mouse, olhando para ela como se não soubesse se deveria rir ou correr.
Kylie parou de dar pulos e tentou respirar normalmente.
— Se eu morrer, prometa que vou ser cremada.
Della franziu a testa.
— Morrer?
— Não que eu esteja planejando morrer tão cedo. — Ela esfregou mais uma vez o braço. — Mas, mesmo assim, prometa.
Della balançou a cabeça.
— Eu não sei por que você está fingindo que está tudo bem.
Kylie colocou os braços ao redor dos próprios ombros.
— Nem eu.
Kylie não voltou a dormir. Ela não tinha certeza se um dia conseguiria dormir naquela cama novamente. Em vez disso, vestiu-se e esperou Della e Miranda para irem ao funeral ao nascer do Sol.
A cerimônia aconteceu exatamente como na visão. Apenas a tristeza parecia mais profunda, especialmente quando Kylie viu Derek, com lágrimas nos olhos, segurando o boné de Ellie.
Holiday ficava olhando por cima do ombro. Kylie sabia que ela estava esperando Burnett. Só quando Chris começou a falar que ele apareceu e se sentou na cadeira ao lado de Holiday.
Kylie viu os dois se entreolharem. Não sabia ao certo que tipo de olhar era aquele – não era apenas de tristeza compartilhada. Mas a tristeza pareceu imperar na atmosfera do dia. Bem, para todos, exceto para a gralha azul, que ficou pairando por ali, cantando como se quisesse impressioná-la.
Só que ela não estava impressionada.
Quando a cerimônia terminou, Lucas pegou a mão dela e levou-a para o refeitório, onde eles planejavam fazer uma celebração da vida de Ellie. Todo mundo ia contar histórias que sabia sobre ela.
Mas Burnett a deteve.
— Eu preciso falar com você e Holiday um minuto.
Lucas disse que iria encontrá-la no refeitório. Então Holiday, Burnett e Kylie entraram no escritório.
— Algum problema? — Kylie perguntou quando Burnett fechou a porta.
Ele puxou um envelope do paletó e entregou a Kylie.
— O que é isso? — Holiday perguntou. Pelo seu tom de voz, ela parecia pensar que tivesse a ver com os testes que Burnett queria que Kylie fizesse.
— É a localização do corpo da sua avó.
— Você a enterrou numa sepultura própria? — Kylie perguntou.
— Não exatamente. — Ele fez uma pausa. — Digamos apenas que, se a UPF tentar forçá-la a fazer testes que não se sente à vontade para fazer, você pode usar isso para... dizer que prefere não participar.
— Então você acha que eles vão pressionar Kylie para que ela seja testada? — Holiday perguntou.
Burnett franziu a testa.
— Eu tenho a impressão de que sim.
— Você contou a eles o que aconteceu?
— Eu não disse nada porque você me pediu para não dizer.
— Então a UPF não sabe que você removeu o corpo? — Holiday perguntou.
— Não. — Seu olhar encontrou o de Kylie. — O que eles fizeram com a sua avó foi errado. E, embora a agência tenha admitido alguns erros cometidos com certos testes realizados nos anos sessenta, este é um esqueleto que eles não gostariam que tirassem do armário.
— Por que eles fizeram aqueles testes? — Kylie perguntou.
Burnett encolheu os ombros.
— As informações que consegui foram muito vagas. Supostamente, havia um pequeno grupo de sobrenaturais que era geneticamente diferente do restante.
— Então ainda não sabemos o que eu sou?
A expressão de Burnett ficou mais tensa.
— Receio que não.
— Exceto que eu sou uma aberração genética — ela murmurou.
Holiday se sentou ao lado de Kylie no sofá e pegou a mão dela.
— Não diga...
— Eu estou presumindo que seja exatamente o oposto — Burnett interrompeu-a. — Eles não estariam interessados em algo que não funcionasse direito. Só o fato de que você pode parecer humana seria considerada uma vantagem. Talvez essa seja a razão, ou talvez exista muito mais.
— Qual é a vantagem de parecer humana? — Kylie perguntou.
— Muitas. Atualmente, seres sobrenaturais não têm permissão para concorrer a nenhum cargo político.
— Isso não parece justo — disse Kylie.
— E não é. Mas o que eles fizeram com a sua avó não era justo também. No entanto, eu tenho algumas novidades. — Sua expressão pareceu mudar, mas para quê, Kylie não tinha certeza. — Eu conversei com Malcolm Summers. Seu avô de verdade — Burnett disse. — E antes que você pergunte, nós não discutimos todos os detalhes. Eu estava com receio de começar a fazer perguntas demais e assustá-lo. Disse a ele que você queria conhecê-lo.
— E o que ele disse? — Kylie pegou a mão de Holiday. E se ele disser que não quer me conhecer?

4 comentários:

  1. É ainda melhor do que eu pensei!!! Pensei que ela fosse mãe do Ruivo só pelos dois serem sobrenaturais diferentes, mas...Uau!!!

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  2. Esse lucas vou te falar em ta facil vai acabar que a kylie vai continuar virgem no final dos livro serio tenho certesa hahah

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  3. Eu num disse que ela era a avó de Kylie?!
    Eeeeeeeita laiá! Sabia! Ganhei meu dia!

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  4. E sou #teamDerik ! PQ esse cara tá me cativando! Lucas tá me assustando.

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