8 de outubro de 2016

Capítulo 36

Os olhos de Collin se encheram de medo ao ver Kylie; uma aura de pura maldade parecia envolvê-lo.
Kylie foi para cima de Collin Warren e lançou-o no ar, através da cabana. Ela ouviu seu corpo bater no assoalho de madeira com estardalhaço. O gemido do homem atravessou o cômodo, mas Kylie não o viu cair.
Ela ouviu um tumulto atrás dela. Fredericka gritou. Kylie ignorou.
Ajoelhada ao lado de Holiday, Kylie desamarrou a corda em torno da garganta da amiga.
— Ela está morta? — Kylie ouviu Fredericka perguntar. A pergunta flutuou pelo cômodo... sem resposta.
O olhar de Kylie estava fixo em Holiday. Seu coração, preso no fato de que ela tinha tentado salvar Ellie e falhara, tinha tentado salvar Roberto e falhara também.
Os passos de Burnett soaram dentro da cabana; ela o ouviu arquejar de pura angústia. Ele sabia. Sabia que Holiday estava morta.
Kylie não olhou para ele. Tudo o que ela tinha – tudo no que queria acreditar – estava concentrado em Holiday. Aquilo não podia estar acontecendo. Não com Holiday.
— Não! — Kylie gritou.
Não com Holiday, que sempre estivera ao lado de Kylie; sempre a ouvira e sempre se importara com ela. Lembranças das duas juntas pipocaram em sua mente. Lembranças das duas rindo, sentadas lado a lado na cachoeira, até tomando sorvete enquanto falavam de decepções e garotos. Quantas vezes Holiday tinha oferecido a Kylie o seu toque carinhoso e reconfortante?
— Você não pode nos deixar! — rogou Kylie com um soluço. Lágrimas rolavam pelas suas faces e pingavam no rosto pálido da fae. Kylie passou as mãos pela pele machucada da garganta da amiga.
Quando não sentiu as próprias mãos se aquecendo; então ela fechou os olhos e rezou. Deus, me permita salvá-laVocê me deu este poder, agora me deixe usá-lo. Eu pago o preço que for preciso, até com a minha própria vida. Você está me ouvindo? Troco a minha vida pela dela!
Uma sensação de calor se avolumou no peito de Kylie e então lentamente se espalhou por suas mãos. Elas formigaram e depois foram ficando cada vez mais quentes. O corpo de Holiday parecia tão frio, tão sem vida sob as palmas de Kylie, mas ela não parou. Não podia parar.
— Kylie está brilhando outra vez. — A voz de Fredericka soava a distância.
Mas mesmo com a luz de Kylie se espalhando por todo o cômodo, Holiday não reagia. Outro arquejo de dor emergiu do peito de Burnett. Esse foi o último som que Kylie ouviu antes de sua visão escurecer.


Kylie se viu envolvida pela escuridão. Sua mente estava exaurida. Onde ela estava? Por que se sentia tão esgotada? Tão morta?
Ela tentou abrir os olhos, mas o esforço exigido foi demais para ela. Acorde! Acorde!, uma parte do seu cérebro ordenava. O sentimento de urgência se avolumou no seu peito e ela lutou para clarear os pensamentos.
Quando a confusão e a exaustão começaram a se dissipar, ela recobrou a consciência. Estava nos braços de alguém, alguém que corria a toda velocidade. O corpo de Kylie sacudia, a cada passo que a pessoa dava. Ela forçou os olhos a se abrir e olhou para cima... Fredericka?
O que ela estava fazendo?
— Me coloque no chão — mandou Kylie.
— Burnett disse para eu carregar você — Fredericka respondeu com rispidez. — Acredite, também não gostei nem um pouco.
— Me coloque no chão! — insistiu Kylie. A loba fez uma parada abrupta e largou-a sem nenhuma gentileza. A dor que sentiu ao se chocar contra o chão despertou Kylie por completo.
Collin Warren tinha matado Holiday.
Holiday... estava morta.
A dor transpassou o coração de Kylie.
Pondo-se de pé, ela viu Burnett segurando nos braços o corpo sem vida de Holiday.
Kylie correu até ele.
— Deixe-me tentar outra vez! — Kylie implorou.
— Você já tentou — ele respondeu com amargura.
— Mas talvez dessa vez...
— Kylie! Você já a salvou — disse Burnett. — Ela está fraca, mas respirando. Agora, deixe Fredericka carregar você de volta ao acampamento, para que possamos ajudar vocês duas.
— Eu estou bem — Kylie insistiu.
— Você ainda está brilhando, Kylie — Burnett observou. — E eu não sei o que isso significa.
Kylie também não sabia. Mas não se importava. Ela fitava o peito de Holiday, esperando vê-lo se expandir, enchendo-se de oxigênio. Enquanto isso, segurava a própria respiração.
Só quando Holiday respirou é que Kylie deixou que o ar penetrasse em seus pulmões sedentos.
— Vamos — murmurou Burnett. — Um médico nos espera no acampamento.
Kylie se forçou a correr, mas não conseguiu ser tão rápida quanto antes. Todos os seus músculos pareciam queimar. Não que ela estivesse reclamando. Holiday estava viva e ela também. Nada mais importava.
Kylie sentou-se na sala de estar de Holiday, em silêncio e ainda brilhando, enquanto o médico examinava Holiday no quarto. Burnett, de pé, escutava atentamente o que se passava no outro cômodo.
Todos os outros alunos se aglomeravam no refeitório. As aulas tinham sido canceladas enquanto todos esperavam notícias. Kylie se perguntou se Holiday sabia quanto era amada. Que todo mundo, até Fredericka, gostava dela.
Todo mundo exceto... Collin Warren. As perguntas se sucediam na mente de Kylie. Ela olhou para Burnett.
— O que aconteceu com Collin?
Burnett balançou a cabeça.
Kylie sentiu um nó no estômago. Ela se lembrou de ter atirado o homem no ar, lembrou-se de ter ouvido o ar escapando dos seus pulmões. Será que sua alma tinha escapado do corpo também?
Ela tinha dito que mataria por Holiday, e era verdade, mas agora o pensamento de que pudesse ter tirado uma vida a deixou com vontade de vomitar.
— Eu mat...
Burnett sacudiu a cabeça.
— Fredericka. Ela disse que ele veio pra cima de você com uma faca. Ela o atacou. Eles lutaram. Ele perdeu.
Kylie agora se lembrava de ter ouvido uma luta, mas a ideia a deixou atônita.
— Fredericka salvou a minha vida? — Ah, mas que inferno! Ela não queria ficar em débito com ninguém que a odiasse. Então não pôde deixar de se perguntar por que a loba tinha feito aquilo. Ela podia ter deixado Collin matá-la.
Burnett olhou para Kylie como se lesse seus pensamentos.
— Ela se comporta muito mal, mas não acho que seja tão ruim quanto as pessoas pensam. — Ele hesitou. — Isso acontece quando se cresce como um delinquente. As pessoas pensam o pior de você, e isso só faz com que fique mais fácil deixar que elas pensem que têm razão do que provar que estão erradas. — Ele olhou mais uma vez para a porta do quarto. — Holiday acreditava que ela podia ser salva.
Lucas também. Kylie ficou sentada ali, remoendo seus pensamentos. Sobre Fredericka e depois sobre Lucas. Ela sentia falta dele. Queria que ele estivesse ali.
Então recapitulou as palavras de Burnett e percebeu, pelo tom de voz dele, a pessoalidade do seu comentário. Isso acontece quando se cresce como um delinquente. Uma peça do quebra-cabeça sobre quem era Burnett de repente se encaixou.
— Você foi criado num lar adotivo como Perry, não foi?
O olhar de Burnett manteve-se fixo na porta.
— Ela vai ficar bem. — Um sorriso deixou seu olhar mais brilhante. — O médico acabou de dizer que ela vai ficar bem. — Ele levantou as duas mãos e entrelaçou-as atrás do pescoço. Quando olhou para Kylie, ainda estava sorrindo. — Sim, cresci num lar adotivo. Por quê? Você está se perguntando por que eu sou um filho da mãe sem coração? Se é porque cresci como um delinquente?
Ouvindo o bom humor e o alívio na voz dele, Kylie sorriu. Ela sabia que, se não estivesse tão aliviado com o diagnóstico do médico, provavelmente estaria contrariado por Kylie ter descoberto. Então a oportunidade lhe ocorreu.
— Não, mas estou me perguntando se é por isso que é tão difícil para você dizer a Holiday o que sente por ela. Admitir que a ama. E eu acho que ela realmente precisa ouvir isso.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Não sou eu quem não deixa ninguém se aproximar.
— Mas você também não disse a ela o que sente. E tem que confiar em mim quando digo que uma mulher precisa ouvir isso.
Alguns minutos se passaram em silêncio; ela sabia que Burnett estava pensando no que ela tinha dito, e aquilo era bom. Mas então o vampiro voltou a olhar para ela com um olhar interrogativo.
— Como Hayden Yates sabia sobre Collin Warren?
Kylie escolheu as palavras com cuidado. Ela não tinha contado a Burnett que Hayden era um camaleão e não tinha certeza se deveria contar.
— Quando eu fui à cabana dele, ele tinha acabado de voltar, estivera fora, correndo. Eu o acusei de estar envolvido. Ele negou. Disse que tinha visto Collin e que o homem parecia suspeito.
Burnett refletiu sobre o que ela contou.
— Supostamente, Collin nunca foi uma pessoa sociável, mas ninguém vira nenhuma maldade nele até agora. — Burnett fez uma pausa. — Como você acabou ficando com o celular de Hayden?
— Eu tinha esquecido o meu quando saí da cabana. Então... confisquei o dele. — Ela deu de ombros.
— Você sabia que ele tinha me enviado uma mensagem, dizendo que estava com uma emergência na família e que tinha que deixar o acampamento por alguns dias?
Kylie tentou não demonstrar a sua decepção.
— Não, eu não sabia.
— Você ainda acha que ele está envolvido? — Burnett perguntou. — Se acha, eu o trago para cá outra vez.
— Não — Kylie respondeu com franqueza. — Eu estava errada. Ele não tem nada a ver com Holiday. Até ajudou a salvá-la.
Burnett analisou Kylie.
— E você não acha suspeito que ele tenha saído do acampamento agora?
— Talvez um pouco — disse Kylie, para não ser pega numa mentira. — Mas tenho certeza de que ele não tem nada a ver com o desaparecimento de Holiday.
— Mesmo assim eu vou interrogá-lo quando ele voltar — disse Burnett.
Eu também. Kylie balançou a cabeça. Se ele voltar. Seu coração se apertou.
Então ela se lembrou de que estava com o telefone dele no bolso de trás. Hayden Yates tinha que estar trabalhando para o avô dela. E se isso era verdade, o avô estava provavelmente em contato com Hayden. Isso significava que ela poderia ter acesso ao telefone dele.
Se o avô não tivesse mudado seu número outra vez.


Trinta minutos depois, após Burnett ter feito uma visita a Holiday, Kylie entrou no quarto dela. Com o cabelo ruivo parecendo ainda mais vermelho em contraste com os lençóis, Holiday parecia muito pálida, mas estava viva. O hematoma em sua garganta ainda era bem visível.
Ela tocou a garganta e fez um gesto para que Kylie lhe passasse a água sobre a mesinha de cabeceira.
— Você me trouxe de volta. — A voz de Holiday estava rouca, dolorosamente rouca.
— Mas eu não curei você completamente. — Ouvir Holiday falar causava um nó na garganta de Kylie. — Você quer que eu tente, para ver se consigo...?
Holiday balançou a cabeça.
— Acho que você já fez o bastante. Parece cansada.
Kylie se sentia cansada, mas não a ponto de não poder tentar.
— Eu poderia...
— Não. Eu vou me curar. — Holiday parecia preocupada. — Você ainda está brilhando.
— Eu sei — disse Kylie. — Mas vai passar, certo?
Holiday assentiu, mas não pareceu muito confiante. Então ela fez um gesto para que Kylie se sentasse na cadeira ao lado da cama.
— Eu consegui ver Hannah antes de ela fazer a passagem. Quando eu estava morrendo, tudo pareceu desacelerar e ela veio me ver. Nós conversamos. Acertamos nossos ponteiros. — Lágrimas afloraram nos olhos verdes de Holiday. — Nada disso teria sido possível se não fosse por você. Obrigada. Eu sei o preço que teve que pagar e prometo viver a minha vida de um jeito que não custe nem uma minúscula parte da sua alma.
Kylie pegou a mão da amiga e a apertou.
— Acho que você nunca viveu de outro jeito.
— Eu posso me esforçar mais. — Holiday engoliu em seco. — Nada como morrer para aprender a viver.
Kylie sorriu.
— Espero que esteja se referindo a Burnett.
Holiday sorriu.
— Aquele vampiro idiota acabou de me pedir em casamento. Mas aqui? E agora? Como se eu quisesse receber uma proposta de casamento quando estou com a aparência de quem acabou de morrer.
O coração de Kylie deu um salto de alegria.
— E o que você respondeu?
Holiday tomou um gole de água.
— Eu perguntei a ele se não poderíamos simplesmente viver juntos em pecado.
Kylie franziu a testa, mas então ela viu algo nos olhos de Holiday.
— E então?
— Ele me disse que não seríamos um bom exemplo para os alunos. Então... concordei em me casar. — Ela passou uma mão pela testa. — Meu Deus, em que eu fui me meter? Ele não é um homem fácil de lidar.
— Eu estou ouvindo! — Burnett gritou da outra sala, com uma risadinha na voz.
Holiday revirou os olhos.
Kylie apertou a mão da fae um pouco mais.
— Ele ama você — sussurrou.
— Sim, é o que ele diz. — Ela afundou mais a cabeça no travesseiro, parecendo exausta, mas também feliz.
Kylie sentiu que tudo estava se encaminhando. Ela tinha conseguido. Ou pelo menos tinha ajudado. Burnett e Holiday estavam juntos.
Mas não pôde deixar de se perguntar se ela e Lucas teriam a mesma sorte.
Holiday olhou para o teto por um segundo.
— Eu também vi a sua avó, Kylie.
— Nana? — Kylie perguntou. — O que ela disse?
— Não, não Nana, a sua outra avó. Heidi.
Kylie viu uma sombra de tristeza nos olhos de Holiday.
— O que ela disse?
— Só disse olá. — Holiday suspirou.
Algo dizia a Kylie que não era só isso. O que Holiday não queria contar? Kylie quase perguntou, mas quando os olhos de Holiday se fecharam, percebeu que não era hora de pressioná-la. Mais tarde, ela pensou, e depois estendeu a mão e pegou o telefone de Hayden no bolso. Mais tarde.
Só depois do almoço Kylie conseguiu se esgueirar para o seu quarto. Ela tirou o celular do bolso e procurou o número do avô. Infelizmente, não havia uma lista de nomes na memória. Só números. Só três tinham recebido ligações de Hayden. Kylie se sentou na beirada da cama e ligou para o primeiro.
Ela segurou a respiração enquanto esperava que alguém atendesse.
— Já estava na hora de me ligar! — disse uma voz feminina.
— Quem está falando? — Kylie perguntou, sem saber ao certo como se apresentar.
— Aqui é Casey... Quem é você?
— Eu...
— Aquele cretino! Ele disse que não estava se encontrando com mais ninguém! Diga a ele que eu o mandei pro inferno. Ele nem é tão bom de cama assim, como tenho certeza de que você provavelmente sabe! — A linha ficou muda.
— Ai, não... — Kylie pensou em ligar novamente e tentar explicar, mas o que ela diria? Eu não sou namorada dele, só alguém que roubou seu celular depois de acusá-lo de ser um assassino serial. Isso podia piorar as coisas em vez de melhorar. Melhor deixar que ele mesmo consertasse tudo.
— Desculpe, Hayden — murmurou Kylie.
Antes que Kylie ligasse para o número seguinte, o telefone bipou, alertando sobre a chegada de uma nova mensagem. Ela ficou em dúvida se verificava ou não, pensando na possibilidade de que fosse a namorada contrariada. Então percebeu que a mensagem não era do número da moça. Kylie podia ter invadido a privacidade dele, mas, depois de roubar seu celular, que mal faria ler uma mensagem?
Demorou um segundo até ela descobrir como acessar as novas mensagens no aparelho de Hayden.
Mas ficou satisfeita quando descobriu.

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