14 de outubro de 2016

Capítulo 36

— Está aguardando uma ligação? — Kylie perguntou a Hayden Yates quando entrou em sua sala de aula, dez minutos depois, e viu que ele estava segurando o celular.
— Só estou na esperança de receber uma. — Ele franziu a testa e olhou em volta, como se para ter certeza de que estavam sozinhos. — É Jenny. Ela saiu de casa. Só Deus sabe onde está.
Kylie mordeu o lábio.
— Se você a encontrasse, o que faria?
— O que você quer dizer com isso? — A suspeita o fez estreitar os olhos.
— Você a levaria de volta para seus pais? Se ela fugiu, provavelmente é porque ela é como você quando jovem e não consegue mais suportar esse jeito de viver.
O ar de suspeita desapareceu da expressão dele.
— Ela não sabe o quanto é difícil viver completamente sozinho.
— Ela não estaria sozinha — disse Kylie. — Ela teria você.
Ele franziu a testa.
— Não sei lidar com uma adolescente.
Kylie revirou os olhos.
— Você é professor. Lida com adolescentes todos os dias.
— Eu ensino adolescentes, não sou pai deles. Há uma diferença. Mas discutir isso é bobagem. — Ele correu os dedos pelos cabelos. — Ela é jovem, ingênua.
— Ela não é tão ingênua. — Kylie se lembrou de Jenny enfrentando Derek e de quando ela os ajudou a fugir. — E se eu soubesse onde ela está?
Hayden olhou para Kylie.
— Meu Deus! O alarme?
Kylie assentiu. Hayden fez uma careta.
— Burnett e Holiday sabem?
— Ainda não.
Ele soltou o ar por entre os dentes.
— Se os anciãos descobrirem que ela está aqui, vão esperar que Burnett e Holiday a levem de volta.
— Eu sei — disse Kylie. — Esse é o problema.
Hayden entrelaçou as mãos atrás da cabeça.
— E Holiday e Burnett terão que levá-la. Legalmente, eles não podem mantê-la aqui sem arcar com sérias consequências.
Kylie suspirou.
— Essa é a outra parte do problema.
Ele apertou a mão sobre a mesa.
— É uma encrenca e tanto.
A mente de Kylie disparou.
— Eu quero contar isso a Holiday e Burnett, mas se essa coisa toda de Mario se acalmasse, acho que teria uma chance melhor de convencê-los.
— Onde ela está agora? — ele perguntou, de repente.
— Ela está na cabana de Derek.
Ele pareceu não entender.
— De Derek? — A expressão de Hayden passou de professor para o de irmão mais velho e Kylie teve a sensação de que Derek poderia estar encrencado.
— É melhor do que na minha cabana, porque Burnett está me observando como um falcão. Quando Jenny pulou o portão, ela não conseguiu chegar perto de mim, porque eu tenho sombras. Jenny e Derek se conheceram na noite em que fugi e ela achou que podia confiar nele. E ela está certa. Derek é o melhor cara que eu conheço. Ele nunca faria nada... você sabe.
— É melhor que ele não se atreva... você sabe! — disse Hayden com rispidez.
— Eu acho que seria mais seguro transferi-la para a sua cabana. Não por causa de Derek. Mas...
Ele suspirou.
— Seria mais seguro se ela voltasse e...
— Não! — exclamou Kylie. — Apenas me dê um tempo. Acho que posso resolver isso.
— Como? Ela ainda não está madura.
Kylie apontou para seu próprio padrão.
— Eu não estou completamente madura e estou me saindo muito bem.
— Você pode realmente dizer isso com tanta certeza? — ele perguntou. — Você tem um assassino atrás de você. A UPF está fazendo tudo o que pode para pôr as mãos em você e testá-la. A meu ver, isso não significa que está se saindo muito bem.
— Apenas me dê alguns dias. Por favor.
— Você não pode dar um jeito nisso, Kylie — insistiu Hayden.
As palavras de Hayden ecoaram na cabeça dela. A UPF está fazendo tudo o que pode para pôr as mãos em você e testá-la.
Pela primeira vez, Kylie encarou isso. Uma janela!
— Posso tentar dar um jeito — disse Kylie. Talvez morresse tentando, Kylie pensou, mas talvez não. Além disso, talvez seu destino não fosse continuar viva mesmo.
Ela se levantou depressa, se afastando da mesa de Hayden e começou a andar para trás, em direção à porta.
— Tenho que ir. Depois das aulas de hoje vou dizer a Derek para trazer Jenny à sua cabana.
Durante o almoço, Kylie esperou para ver se Lucas aparecia. Ela se sentou ao lado de Della, que parecia estar com raiva e implicara com ela o tempo todo, porque tinha ouvido falar que Kylie passara a Hora do Encontro com Steve. Em frente a ela estava Miranda, olhando para ela com um ar de suspeita, pois seu metamorfo e sombra de Kylie a avisara de que ela estava agindo de forma estranha.
Perry estava errado. Ela não estava agindo de forma estranha, ela estava com medo.
No entanto, mesmo com medo, sabia que era a coisa certa a fazer. Seu instinto lhe dizia isso.
A mente de Kylie deixou instantaneamente seus medos de lado quando Lucas entrou no refeitório.
Ele usava uma camiseta azul-marinho e seus jeans mais velhos, desbotados em todos os lugares em que o tecido delineava seu corpo. Seu cabelo parecia despenteado pelo vento, como se ele tivesse acabado de chegar de uma corrida. Em menos de uma semana, seria Lua cheia. Sem dúvida, ele tinha corrido para diminuir um pouco a ansiedade.
Ele olhou ao redor do salão.
Kylie encontrou seu olhar azul-escuro de cabeça erguida.
Ele começou a andar na direção dela, sem nem mesmo pegar uma bandeja de comida. Quando se sentou, o ombro dele roçou no dela. Ela pousou o garfo e olhou para ele.
— Você toparia matar aula para treinar?
As sobrancelhas dele se uniram.
— O que está acontecendo?
Ela era assim tão transparente?
— Eu já consegui a autorização de Holiday. — E a líder do acampamento tinha feito a mesma pergunta. O que aconteceu, Kylie?
Ela deu a Lucas a mesma resposta que tinha dado a Holiday.
— Estou a fim de treinar. — Ela precisava admitir, não podia dizer a verdade. Não ali. Mas estava planejando dizer quando eles estivessem sozinhos.
— Como está a sua janela? — ela perguntou.
— Ainda emperrada. Mas estou trabalhando nisso.
O otimismo na voz dele a fez sorrir. Ele pegou o pãozinho do prato dela. Quando ela olhou para ele com um olhar confuso, ele disse:
— Vou precisar estar bem nutrido para levar isso adiante. Você parece mais mal-humorada hoje.
— Você está certo. É melhor comer o resto da minha salada também — ela brincou.
Ele inclinou a cabeça para baixo e sussurrou:
— Eu te amo.
Eu também te amo, Kylie pensou, mas não teve coragem de dizer ainda. Ela queria esperar até que todas as janelas deles estivessem abertas e a vida lhes desse uma esperança. E mais do que tudo, ela queria essa esperança.
Enquanto caminhavam até a cabana de Lucas para pegar as espadas, Kylie tentou descobrir como dizer a ele o que ela estava fazendo. Instintivamente, sabia que ele iria tentar fazê-la desistir. E neste dia, mais do que em qualquer outro, ela não queria brigar.
— Então, esta janela que você mencionou, você tem um plano para abri-la? — perguntou ela.
Ele confirmou com a cabeça.
— Foi o que você disse sobre os anciãos terem sido jovens um dia. Lembrei-me de que, não muito tempo atrás, minha avó perguntou sobre um dos anciãos do Conselho. Ela disse que ele e a irmã gêmea dela tinham uma queda um pelo outro quando jovens, mas que a irmã já tinha sido prometida para outra pessoa. Eu nem sabia que a minha avó tinha uma irmã gêmea. Quando perguntei sobre essa irmã, ela disse que tinha morrido. Mas eu tive a sensação de que a história não acabava aí. Então fui vê-la esta manhã.
— E...? — perguntou Kylie.
— Ela confessou que a irmã gêmea se matou um dia antes de se casar com o outro cara.
— Então você vai falar com esse ancião?
— Não é assim tão fácil. Ele não concordaria em me ver. Mas pode concordar em ver minha avó, e talvez ela possa convencê-lo a me receber.
— Será que a sua avó concordaria em fazer isso? — perguntou Kylie.
— Não — ele disse, a frustração evidente em sua voz. — Ela é teimosa. Eu tenho que encontrá-la para o chá daqui a algumas horas. — Ele suspirou. — O chá sempre a deixa mais bem-humorada. Acho que vou conseguir convencê-la.
— Eu também acho.
Eles chegaram à beira do lago, e Kylie ainda não tinha encontrado uma maneira de contar a Lucas sobre seus planos. Então, por ora ela deixou tudo como estava. Eles se aqueceram por uns vinte minutos, praticando os mesmos movimentos que ele lhe ensinara. Kylie não precisava observá-lo para fazer os exercícios. Mas ela observou-o assim mesmo. Ela adorava ver como o corpo dele se movia, com força, controle; a maneira como seus músculos delineavam-se sob o jeans, e a camiseta nunca parecera tão atraente.
Ele interrompeu os exercícios de aquecimento e a encarou.
— Está pronta?
Ela assentiu com a cabeça. Eles ergueram as espadas e encostaram uma na outra. Ele puxou a dele para trás e investiu, a lâmina cortando o ar a uns bons quinze centímetros dela. Ela seguiu o comando dele e, depois de cinco minutos, sentiu como se estivessem realmente lutando pela primeira vez.
A sensação de perigo não a deteve; na verdade a deixava mais fascinada. Quem adivinharia que ela no fundo adorava uma emoção?
Ela sentiu o suor se espalhar pela testa. Com olhares rápidos ela o observava, via o brilho na pele dele e a camisa úmida colada ao peito. O algodão molhado parecia ainda melhor do que quando seco.
— Você é incrível quando luta! — disse ele, parecendo sem fôlego.
Ela olhou para ele e perdeu o foco, só percebendo o quanto aquele errinho bobo poderia ser fatal quando sentiu a lâmina fazendo contato com a pele dele.

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