4 de outubro de 2016

Capítulo 36

A gravidade puxou Kylie para baixo. Sua respiração ficou presa na garganta ao mesmo tempo em que sentiu a mão de alguém agarrar seu braço. Seu coração saltou no peito ao ver o rosto do seu salvador. Ruivo.
Ele a puxou de volta para a terra firme.
Ela ficou de pé, ao lado dele, e teve um sobressalto ao se dar conta de que ele salvara sua vida.
— Olá, Kylie — disse Ruivo.
Ela apenas olhou para ele, sem saber o que dizer.
— Ela já fez sua escolha — disse o homem de barba ao lado de Mario. Seu manto marrom escuro flutuou ao vento quando ele levantou a mão e apontou os dedos longos e envelhecidos na direção dela. Kylie viu com horror quando chamas azuladas saíram das pontas dos seus dedos.
Ruivo pulou na frente dela, e as chamas desapareceram.
— Eu disse que ia fazê-la mudar de ideia. Dê um tempo a ela. Seria um desperdício matá-la.
— Ela fez sua escolha — disse Mario. — Seu tempo acabou. Saia do caminho. Deixe-a despencar para a morte.
— Não! — gritou Ruivo.
Kylie olhou para ele, confusa com a sua disposição para protegê-la. Mas Ruivo não tinha feito isso o tempo todo?
— Ousa me desobedecer na frente dos meus colegas? — Mario grunhiu.
— Ouso! — disse Ruivo, com atrevimento. — Vivi minha vida toda de acordo com as suas regras. Você matou a minha mãe. Forçou meu pai a fugir. Eu aceitei isso toda a minha vida e nunca pedi nada a você, além disso. Poupe-a. Por mim.
— Ela não pode ser poupada — disse o outro homem de idade. — Ela será nossa ruína.
— Não será. Eu cuidarei dela — disse Ruivo. — Vou fazê-la mudar de opinião. Vou convencê-la. — Havia um tom de súplica em sua voz.
— A decisão já foi tomada — disse o barbudo.
Então o outro velho levantou a mão e uma lufada de vento levantou Kylie do chão, fazendo-a bater as costas na borda do despenhadeiro.
Ela sentiu que estava caindo. Sentiu o vazio quando parte de seu corpo deslizou pela pedra. O medo a deixou tensa, mas a tristeza por todos que ela amava expulsou o medo. Ela viu rostos, em sua mente, de quem sentiria muita falta. Coisas que nunca faria. Ela viu o rosto de Lucas e de Derek. Viu seus amigos – novos e antigos. Então piscou, sentindo-se incapaz de respirar. Viu o Sol se pôr e sentiu um estranho tipo de calma brotar dentro dela. As cores do anoitecer preencheram sua mente com uma onda de serenidade. Ela poderia rever Daniel e Nana.
Algo ou alguém a agarrou novamente, trazendo de volta a lembrança de ser salva por Perry em pleno ar. O aperto em torno do seu pulso não era humano. O solavanco trouxe ar aos seus pulmões. Perry teria vindo salvá-la?
— Peguei você. Segure-se!
Mas a voz não era de Perry. Era de Ruivo.
Um raio passou por eles, tão perto que Kylie sentiu sua ferroada.
Em segundos, o enorme pássaro pousou na borda do desfiladeiro e pousou-a suavemente em pé no chão. Nenhuma centelha surgiu no ar quando ele voltou à forma humana. Ele era mais do que apenas um metamorfo.
— Você está bem? — perguntou ele.
Kylie olhou para ele através das lágrimas e acenou com a cabeça. Lembrou-se dele salvando-a da cobra. Salvando-a do relâmpago na floresta e tentando salvá-la do sumidouro. Ela nunca tinha agradecido, nunca considerou essa necessidade, porque tudo o que via nele era maldade. Mas então ele salvou Miranda, também.
— Eu nem sei seu nome de verdade — ela conseguiu dizer.
— Roberto. — Ele sorriu. — Consegui pegar isso. — Ele lhe entregou o boné de Ellie. Então Kylie percebeu. Ruivo... Roberto não era tão perverso assim.
— Obrigada — agradeceu.
Ele olhou para ela como se não soubesse o que responder. Então estendeu a mão e secou uma lágrima do rosto dela.
— Você é bonita mesmo quando chora.
— Não, não sou. Fico toda vermelha e...
Um raio, vindo de cima, cortou o ar. Roberto a empurrou, fazendo suas costas se chocarem contra a parede de pedra atrás dela. Ele parecia preparado para correr, mas antes disso, outro raio caiu, atingindo-o. O chão debaixo dela tremeu com o impacto. O cheiro de carne queimada chegou ao seu nariz.
Kylie caiu de joelhos, o pânico apertando sua garganta. Ela não queria ver, mas não pôde desviar o olhar. Os olhos de Roberto estavam vermelho-sangue e seu corpo se contorcia para trás, enquanto algo que parecia fumaça subia da sua boca; Kylie sabia que era sua alma. E, em seguida, ele caiu. O baque do seu corpo sem alma na terra dura foi de pura tristeza.
Ela se levantou para tentar salvá-lo.
— Não! — O som da voz dele sobressaltou-a. Ela olhou para ele. Seu espírito estava a vários metros do seu corpo, olhando em direção ao céu crepuscular. — Eu não quero ficar. — Matizes de roxo, cor-de-rosa brilhante, dourado e cinza agora coloriam o céu. — Você os vê? — perguntou ele.
Por um segundo, ela pensou que ele estava se referindo ao avô e aos dois outros homens, mas então os viu e compreendeu. Os anjos estavam dançando no céu multicolor; como pássaros, eles se moviam graciosamente ao vento.
Kylie acenou com a cabeça.
— Sim.
Mas ela ainda tinha que tentar. Colocou as mãos sobre o corpo dele e concentrou-se. Nada aconteceu. Suas mãos não se aqueceram. Desistindo, ela finalmente olhou para o espírito de Roberto.
— Por que você quer me salvar? — ele perguntou.
— Porque você me salvou — disse ela, e olhou para ele.
Ele a fitou por um instante e todo o mal tinha se desvanecido dos seus olhos. O que ela viu foi uma pessoa que nunca teve uma chance. Um garoto criado no mal, educado no mal, e que nunca tinha amado.
— Eu entendo agora — disse ele. — Eu estava errado, Kylie Galen. Você não é minha alma gêmea. Mas por causa de você, salvei a minha alma. — Então, lentamente o seu espírito foi levado, alçado para o céu.
Ele tornou-se parte das cores do anoitecer. Parte da beleza, parte de algo que era eterno. Os anjos da morte o levaram no último instante do crepúsculo.
Kylie não sabia ao certo quanto tempo tinha se passado, mas as cores do céu tinham adquirido um tom negro quando outra lufada de vento a atingiu. O que parecia um clarão em meio à escuridão da noite de repente se tornou um corpo, que se agachou a apenas alguns metros dela. Kylie deu um passo para trás e em seguida reconheceu Burnett.
— Você está bem? — perguntou ele.
Kylie acenou com a cabeça.
— Eu preciso tirar você daqui agora. — Ele a fez se levantar.
Ela olhou para o corpo perto dos seus pés. E percebeu que seus olhos, vazios, mortos, estavam abertos. Ela se abaixou e fechou suas pálpebras.
Quando ela se levantou, disse a Burnett:
— Ele morreu para me salvar.
— Então agora talvez fique mais fácil enfrentar sua nova vida no inferno. — Burnett a pegou nos braços.
— Ele não foi para o inferno — disse Kylie.
Ela não sabia se Burnett tinha ouvido. Mas não importava. Ela sabia.
Burnett carregou Kylie de volta ao escritório principal, onde Holiday esperava impacientemente na varanda. Ao chegarem, colocou Kylie no chão.
— Graças a Deus! — Holiday correu para Kylie e a abraçou. — Obrigada — Holiday disse a Burnett, mas ele mal pôs Kylie no chão e já tinha partido.
O olhar de preocupação de Holiday se acentuou, mas sua expressão mudou e ela olhou Kylie nos olhos.
— Você está bem?
Kylie acenou com a cabeça e tentou não chorar.
— Derek está bem?
— Está descansando.
Kylie assentiu.
— O que aconteceu, Kylie? Você estava lá e, um instante depois, não estava mais.
Kylie tirou o boné de Ellie do bolso do jeans.
— Voltei pra pegar isso, e... — As lágrimas que ela não queria derramar vieram assim mesmo, e ela contou a história toda a Holiday.


Kylie não estava dormindo quando alguém bateu na porta, várias horas depois. Ela ouviu Della atender. Então ouviu a voz de Lucas.
Ele entrou no quarto dela e puxou-a contra ele, e Kylie abraçou-o como quem se agarra a um salva-vidas. Ela precisava de sua força. Precisava sentir os braços dele à sua volta. Eles ficaram assim por horas, sem beijos, sem carícias, apenas abraçados.
Na manhã seguinte, o clima no acampamento era sombrio, para dizer o mínimo. Todos sentiam falta de Ellie. Sentiam falta de Burnett. Sentiam falta de Derek, que havia deixado o acampamento para passar o fim de semana na casa da mãe. Kylie estava quase com receio de revê-lo. O funeral de Ellie tinha sido marcado para a semana seguinte, porque a UPF queria fazer uma autópsia. Kylie sabia que ninguém no acampamento a culpava, mas ela não conseguia deixar de culpar a si mesma.
Holiday, captando os sentimentos de Kylie, ofereceu-se para ir com ela até a cachoeira. Foi ali, por trás da parede de água, que Kylie sentiu a maior parte da culpa se desvanecendo. Mas ela se perguntava por que aquilo tinha que ter acontecido.
A resposta veio na forma de um sentimento. O destino havia chamado Ellie para voltar para casa. Aquela história de destino ainda irritava Kylie. Mas parte da culpa se foi.
Holiday trabalhou como louca para manter o acampamento funcionando normalmente e entrevistar os professores. Era demais para uma só pessoa, no entanto. Por isso Kylie se reuniu a alguns campistas para assumirem algumas tarefas. Uma pessoa supervisionaria os contratados, enquanto outra atenderia aos telefonemas, no escritório.
Holiday quase protestou, mas depois se deu por vencida e aceitou a ajuda.
Na tarde de quinta-feira, quando Lucas assumiu o posto de sombra, Kylie perguntou se ele tinha visto Burnett.
— Não, mas ele está por perto — disse Lucas. — Está montando guarda ao redor do acampamento em caso de mais alguma coisa acontecer.
Kylie esperava que nada mais acontecesse. De acordo com Miranda, quem quer que estivesse vigiando o acampamento tinha ido embora. Aparentemente, o mesmo tinha acontecido com o fantasma de Kylie, porque ele não apareceu mais.
Na tarde do dia seguinte, Kylie estava sentada na varanda quando Derek apareceu. Ele devia ter voltado mais cedo.
A culpa insistente que ela sentia pela morte de Ellie voltou à superfície. E quando viu a sombra de tristeza nos olhos dele, ela sentiu a culpa aumentar a ponto de doer.
Ele se sentou ao lado dela.
— Foi por isso que vim vê-la.
Ela olhou para ele, sem saber a que ele estava se referindo.
— Eu sei que se sente responsável pelo que aconteceu. Só queria que você soubesse que foi escolha de Ellie perseguir o intruso. E foi escolha minha ir atrás dela. Não é culpa sua. Você teria feito o mesmo por qualquer um neste acampamento.
Kylie sentiu um nó se formar na sua garganta.
— Mas Mario estava aqui por minha causa.
— Eu sei. Tenho certeza de que Ellie sabia também quando foi atrás dele. Mas isso não a impediu. E ela ficaria muito infeliz se soubesse que você se culpa pela morte dela. Seria uma desonra à memória dela se eu deixasse você continuar se culpando. Ela gostava de você. Gostava muito.
Kylie sentiu as lágrimas transbordarem e Derek pôs o braço em torno dos ombros dela. Não foi um abraço de namorado, apenas um abraço de um amigo oferecendo um toque caloroso de conforto. E ela se sentiu muito bem.
Quando, no dia seguinte, Jane continuou sem aparecer, Kylie procurou Holiday para fazer um pedido.
— Não — disse Holiday, empurrando a cadeira para trás.
— Mas eu preciso vê-la, e eu sei que ela está lá.
— Não se lembra do que aconteceu da última vez que você foi?
— Eu lembro que sobrevivi — disse Kylie. — Lembro também que acabei ajudando uma outra alma perdida, e aprendi alguma coisa quando estava lá. Eu preciso ir, Holiday.
Holiday bateu a ponta da caneta na escrivaninha.
— Alguém está tentando te matar.
— Estava tentando — corrigiu Kylie. — Eu acho que Miranda está certa. Já desistiram.
— Por que teriam desistido?
— Eu não sei. Mas eu me recuso a viver a minha vida numa prisão.
— Não é uma prisão — contestou Holiday.
— É sim, se você não puder sair nunca.
Holiday fez uma careta.
— Se eu disser não, mesmo assim você irá, não é?
Kylie pensou um pouco e respondeu com sinceridade.
— Provavelmente.
— Tudo bem. Vou estar livre por volta de uma hora depois do almoço e então nós...
— Eu não acho que você deveria ir — disse Kylie.
— Por quê?
— Eu estive lá. Eles me conhecem e, se você aparecer, pode confundir as coisas. Eu acho que você assusta Jane Doe. Ela pode não se mostrar se você estiver lá.
Holiday expressou ainda mais preocupação.
— Não há nenhuma chance de eu deixá-la ir sozinha.
— Não digo sozinha — Kylie insistiu. — Você podia ligar para Burnett.
Holiday franziu a testa, mas Kylie sabia que ela não discordaria. Não quando isso envolvia a segurança de alguém. E, sim, ela admitia, isso podia ser um truquezinho para vê-los juntos outra vez, pois Kylie não suportava mais ver Holiday tão infeliz.
Além disso, Kylie realmente queria ajudar Jane Doe.
Burnett concordou com o plano. Mas, depois da morte de Ellie, ele achou que não deveriam ir sozinhos, apenas os dois. Lucas não estava lá. Ele havia ido a Houston para buscar material para os empreiteiros. E não voltaria antes das três da tarde. Então Burnett recomendou Derek e Della.
Derek pareceu vibrar quando ela perguntou se ele podia acompanhá-la. Concordou mesmo antes de saber aonde iriam.
— É no cemitério — disse ela. — E vai ter fantasmas lá.
— Ok, sem problema.
Della não tinha ficado tão feliz. Mas, claro, depois de resmungar um pouco, também concordou em ir.
Quando chegaram aos portões do Cemitério de Fallen, Della resmungou um pouco mais. Derek pôs a mão quente nas costas de Kylie e sussurrou:
— Não se preocupe. Estou aqui.
Obviamente, ele tinha captado a apreensão de Kylie diante dos portões imponentes. Claro, ela tinha bancado a corajosa diante de Holiday, mas isso não significava que não estivesse com medo. Ainda se lembrava muito bem de como tinha ficado apavorada quando os espíritos a abordaram todos de uma vez.
— Obrigada. — Mentalmente tentou reunir toda a sua coragem e atravessou os portões, com Della de um lado e Derek e Burnett do outro.
Luz e sombra dançavam sobre as sepulturas, enquanto um frio pouco natural impregnava o corpo deles como uma neblina invisível.
Derek inclinou-se para mais perto dela novamente.
— Eu preciso falar com você... quando tivermos um minuto. É importante.
Ela assentiu com a cabeça.
— É ela. Ela está de volta... — Kylie ouviu uma voz e, em seguida, uma fusão de vozes, masculinas e femininas, jovens e envelhecidas.
— Ela disse que ia voltar.
— E eu pensei que ela estava tentando nos enrolar.
— Eu disse que ela não estava mentindo.
A tensão causou uma pressão em seu crânio e ela pressentiu uma dor de cabeça. Mas o espírito da mulher do velho manifestou-se e as vozes se distanciaram.
— Meu marido está tomando seus remédios direito, graças a você.
— Que bom! — Kylie disse em voz alta.
— O que é bom? — Derek perguntou.
— Ela não está falando com você — explicou Della. — Assustador, não é?
— Não é tão ruim assim — disse ele, mas Kylie viu seus olhos verdes esquadrinhando o cemitério, como se indagando onde estavam os tais espíritos.
Burnett permaneceu em silêncio, muito calmo. Ele mal tinha falado desde que tinham se encontrado na frente do acampamento.
Por que você não fez sua passagem? Kylie perguntou mentalmente enquanto caminhava entre as lápides.
— Decidi esperar por ele — disse Ima. — Mas Catherine já fez sua transição. A mulher que você ajudou. Os filhos dela vieram aqui. Eu os ouvi dizer que estão planejando alterar sua lápide para inscrever o seu verdadeiro nome. Foi muito amável de sua parte ajudá-la.
Kylie acenou com a cabeça.
Você já viu a outra mulher? A que vocês chamam de Berta Littlemon?
— Ela estava aqui agora. Está arrasada desde que a levaram embora.
— Como assim? — Kylie perguntou em voz alta novamente.
O espírito apenas deu de ombros e disse:
— Lá está ela. Sentada perto do túmulo.
— Eu só vou até ali. — Kylie apontou para o local onde Jane estava sentada no chão.
— Fique onde possamos vê-la — disse Burnett.
Kylie se aproximou de Jane. A mulher olhou para cima e o sol bateu em seu rosto. Ela tinha lágrimas sob os cílios escuros. Não usava nenhuma maquiagem. Parecia jovem. E grávida.
— Você está bem?— Kylie sentou-se ao lado de Jane.
O espírito olhou para a sepultura.
— Eu quero tanto me lembrar! Mas meu cérebro não funciona. Às vezes eu sinto como se as respostas estivessem bem aqui, mas não consigo alcançá-las. Então me lembro de alguma coisa e a lembrança se desvanecePor que meu cérebro não funciona direito?
Kylie hesitou. Mas Jane merecia saber. Assim como Kylie merecia conseguir suas próprias respostas.
— Eu não sei tudo, mas sei alguma coisa.
— O quê? — perguntou ela.
— Existe uma organização chamada UPF. Eles são como o governo dos seres sobrenaturais. De acordo com a líder do nosso acampamento, vários anos atrás, a UPF estava fazendo testes, algo sobre genética. Eu não sei bem que tipo de teste era, mas, pela visão que tive, acho que você era uma das pessoas que foram testadas, e eles fizeram uma cirurgia em você. Rasparam a sua cabeça e deram pontos. Na visão, você parecia paralisada. Acho que algo deu errado com o teste que eles fizeram, então eles... a mataram.
Jane colocou a mão sobre os lábios trêmulos.
— Eu me lembro de ter mostrado isso a você. Colocaram um travesseiro sobre o meu rosto.
— Isso mesmo — disse Kylie.
— Eu não queria fazer os testes, mas... meu marido... Qual era o nome dele? — ela perguntou a Kylie.
— Eu não sei.
Jane sacudiu a cabeça.
— Ele insistiu para que fizéssemos, para que nos deixassem em paz.
— Para quem os deixasse em paz? — Kylie perguntou, querendo ter certeza de que elas ainda estavam falando da UPF.
— A organização que você disse. Se não concordássemos em ser testados, eles nos prenderiam.
— Por quê?
Jane fez uma pausa novamente.
— Eu não me lembro. Mas acho que era porque nós éramos diferentes. — Ela olhou para a sepultura. A terra ao redor da lápide tinha sido revirada. — Ele me levou embora. Cavou a sepultura e me tirou daqui.
— Quem? — Kylie se inclinou mais para perto.
— Aquele homem perverso.
— Que homem perverso?
— Aquele que queria que você fosse testada.
— Burnett? — Kylie perguntou. — Ele levou seu corpo?
Ela assentiu.
— Eu não gosto dele.
Kylie olhou para o túmulo, tentando descobrir o que aquilo significava.
— Ele não é ruim — disse, por fim. Mas por que ele desenterraria o corpo de Jane? Seria para provar o que a UPF tinha feito? Ou, pelo contrário, seria para proteger a UPF das suas acusações?
— Ele parece perverso. — Jane apontou para a trilha.
Kylie olhou para cima. Burnett estava parado na frente dela.
— Eu posso explicar.
Kylie se levantou.
— Espero que sim.
Ele franziu a testa, mas não explicou, por isso ela decidiu começar a fazer perguntas.
— Por que você tirou o corpo de Jane Doe daqui?
Ele hesitou.
— Achei que você queria saber quem ela era.
Kylie sentiu que ele não estava falando toda a verdade.
— Você sabe quem ela é?
Ele balançou a cabeça.
— Eu ia dizer assim que tivesse mais informações. — Ele fez uma pausa novamente. — Mas acho que posso dizer agora. O nome dela é Heidi Summers.
Kylie olhou em volta, procurando o espírito. Ela não o viu, mas ainda podia sentir o ar gelado. Se era Jane ou outro espírito, Kylie não sabia.
— Eu tenho um endereço, também. Ela morava a alguns quilômetros daqui. Achei que você talvez quisesse ir até lá.
— Quero — disse Kylie. — A família dela ainda mora lá?
Burnett começou a andar e Kylie o seguiu. Ela viu Derek e Della esperando por eles junto aos portões.
— A casa está no nome de Malcolm Summers — disse Burnett. — Então, estou supondo que seja da família dela.
Kylie prendeu a respiração quando mais de uma centena de almas se alinhou dos dois lados da trilha. Todas elas estenderam a mão para ela e começaram a falar de uma só vez. Sua cabeça começou a latejar. A sensação gelada de seus toques pinicava sua pele como milhares de agulhas.
Ela se sentiu sendo puxada em milhares de direções diferentes.
— Ajude-me.
— Não, me ajude.
— Parem com isso! — O espírito da mulher do velho gritou. — Se vocês não se comportarem, ela não vai voltar.
O burburinho de vozes cessou. Eles baixaram as mãos, mas não se afastaram. Ficaram completamente imóveis, observando-a com seus olhos sem vida, todos carentes, precisando dela para fazer alguma coisa por eles, para que pudessem fazer sua travessia.
Mas havia espíritos demais para ela ajudar. A culpa pesou em seu peito. Ela respirou o ar gelado e se forçou a se concentrar na única que poderia ajudar. Jane Doe.
— Família Summers. Eles são sobrenaturais, não são? — Kylie perguntou, sem ter certeza do que diria a eles. Mas se fossem sobrenaturais, talvez as coisas não fossem tão difíceis.
Burnett franziu a testa.
— Elas não são sobrenaturais registrados.
— Você acha que são de alguma gangue?
— Nem todo mundo que não é registrado é de uma gangue. Mas poderiam ser.
Derek se aproximou de Kylie, parecendo preocupado, e sutilmente roçou as costas da mão na dela. Kylie sentiu a calma que ele oferecia e agradeceu mentalmente a ajuda.
Burnett virou-se para Derek e Della logo que saíram pelos portões.
— Eu liguei para Holiday e pedi que viesse pegar vocês dois. Eu levo Kylie mais tarde.
Kylie e Burnett entraram no Mustang do vampiro. Enquanto ela observava as silhuetas de Della e Derek ficando cada vez menores no retrovisor, um pensamento maluco lhe ocorreu. E se Burnett a estivesse levando para a UPF com a intenção de forçá-la a fazer os testes? Será que Jane estava certa? E se ele não estivesse bem intencionado?

6 comentários:

  1. Minha teoria ainda não foi confirmada, mas achei que Jane poderia ser a mãe do Ruivo. Só um palpite.

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  2. Eu tive a mesma impressão de

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  3. não tem como jane ser a mae do ruivo pq ela foi morta por mario...e pelo o que eu to vendo jane foi morta pela upf num teste para saber o que ela e

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