31 de outubro de 2016

Capítulo 35

Amy sonhou com Afrodite e Atena, e com Olivia, cortando ervas, embebendo-as em águas da primavera. Banhando a sua a testa. Colocando uma mão fria sobre os seus lábios. A mão era...  maior e mais áspera do que ela esperava.
Amy abriu os olhos. Jake estava com a mão sobre sua boca.
— Algo está acontecendo — ele sussurrou.
Ela lutou para acordar.
— O quê?
— Eu ouvi barulhos. Há luzes na trilha abaixo. Acho que fomos encontrados.
— O quê? Onde está Sadik e os guias?
— Eles saíram — Dan disse, se aproximando. — Nós temos que nos esconder. São os homens que nos atacaram em Nova York e em Londres. Seis deles. Eu os vi através dos binóculos infravermelho.
— Mas aonde nós vamos? — Amy perguntou.
— Há apenas uma direção — Hamilton respondeu. — Para cima.
Eles rapidamente enrolaram seus sacos de dormir. Amy sentia- como se estivesse se movendo através da água. Era como um pesadelo, exceto pelo fato de que ela estava completamente acordada. Vestiu seu casaco e seus sapatos e rapidamente seguiu Dan, Jake Hamilton e Ian, que iam o mais silenciosamente possível até a trilha.
O caminho se estreitava enquanto eles faziam curvas e davam voltas. As luzes atrás deles se moviam incansavelmente para frente. Suas respirações eram uma fumaça branca no ar gelado.
— Eles estão vindo rápido — Dan disse. — Nós podemos ficar presos no cume. Posso até ver a manchete. CRIANÇAS CAHILL PERDEM ALTITUDE RAPIDAMENTE. — Ela podia ouvir o medo debaixo do tom de brincadeira.
Hamilton olhou para a face do penhasco acima deles.
— Vocês acham que conseguiremos subir até aquelas cavernas?
— No escuro? — Dan olhou para cima.
De repente, uma bala acertou a terra apenas alguns centímetros abaixo deles. Todos mergulharam no chão e se agarram nele.
— Uh, eu consigo — Dan disse. — Com toda certeza.
— Eles devem ter escopos de infravermelho nos rifles — Hamilton disse, apontando seus binóculos para baixo da montanha.
Outra bala acertou uma pedra nas proximidades.
Hamilton derrapou de barriga pra baixo, rastejando para longe. 
— Sigam-me!
Ele os levou em segurança atrás de uma plataforma de pedregulhos pelo penhasco enquanto um bala, depois outra, acertava a terra.
Hamilton olhou para a falésia.
— Olha, acho que estamos bem no final do alcance deles. Veem o padrão das balas? Eles não conseguem alcançar a falésia, eu acho.
— Você acha? — Ian perguntou.
— Eles terão alcance logo, no entanto. Nossa única chance é escalar essa falésia agora.
— E então o quê? — perguntou Jake.
— Nos escondemos nas cavernas. Esperar que ajuda chegue.
— Nós estamos no meio do nada! — Ian protestou.
Com mais uma saraivada de tiros do rifle, eles trocaram olhares.
— Hamilton está certo — Amy disse. — Temos que tentar a sorte e escalar.
— As aberturas da caverna são pequenas. — Jake disse.
— Vamos ficar o mais próximo que pudermos, mas não vai ter uma caverna que caiba todos nós.
Amy pressionou a mão contra a testa.
— Amy? — Jake olhou para ela, preocupado. — Você está bem?
— Pare de me perguntar isso — ela disse rispidamente. — É claro que estou.
Sua cabeça doía, mas ela tinha problemas maiores. Amy se levantou e encarou a falésia. Era difícil se concentrar. Ela se sentia tonta, e não tinha certeza que poderia escalar o penhasco.
Atrás dela, outra bala bateu em uma rocha.
Eu posso escalar o penhasco.
Ela se lançou para cima e começou a subir. Agora que estava perto, podia ver que as pedras eram porosas e ofereciam lugares para apoiar os pés e as mãos. Só havia a luz da meia lua e do céu cheio de estrelas para iluminar o caminho, se ela fosse cuidadosa. Ela se obrigou a se concentrar. Pense, Amy.
Ela podia ver abaixo da encosta as luzes se movendo constantemente para cima. Dan estava bem atrás dela, Ian e Jake abaixo dele, e Hamilton escalava a parede ao seu lado, o mais rápido de todos eles.
De repente, uma bala bateu na rocha. Estilhaços voaram.
— Estamos dentro do alcance! — Hamilton gritou. — Depressa!
Ela podia ver uma caverna se abrindo poucos metros acima dela. Tinha tamanho suficiente apenas para ela.
— Dan! — ela exclamou. — Aqui!
Ela entrou ali na hora em que mais uma rodada de tiros explodiu na face do penhasco. 
— DAN!
Ela viu seu rosto branco a poucos metros de distância. Ele estava comprimido em segurança em uma caverna. Hamilton estava um pouco acima. Jake e Ian tinha encontrado uma caverna grande o suficiente para os dois.
O penhasco brilhava à luz do luar, sereno. Ela mandou uma mensagem aos outros.

Reportem. Td mundo blz? Sem machucados?

Uma por uma, as respostas chegaram. Todo mundo estava a salvo.
Amy sentou-se e olhou para fora, observando as luzes avançarem.

* * *

À medida que a noite avançava, o frio se estabelecia nos ossos de Amy. O suor tinha secado em sua pele, fazendo-a tremer. Sua pele estava quente. Ela sabia que estava febril.
Através dos olhos turvos ela viu como os homens lenta e inexoravelmente faziam o seu caminho até a montanha. Eles montaram acampamento abaixo da falésia. Arrumaram metodicamente os sacos de dormir e se sentaram em torno de uma pequena fogueira. Um deles estava sentado com um rifle sobre os joelhos, de frente para a falésia. De vez em quando ele atirava na face do penhasco, apenas por diversão.
Seu celular vibrou. Ela olhou. Era de Jake para todos eles.

Estão esperando a gente sair.

Os homens estavam à espera de luz do dia, Amy pensou, descansando a cabeça contra a pedra. Ela umedeceu os lábios sedentos. Como ela queria ter tido a chance de levar água. Ela descansou a testa quente contra a pedra fria da parede da caverna.
Hamilton lutaria. Jake também. Todos iriam. Mas ela tinha visto aqueles homem em ação. Eles tinham um reforço Tomas, e isso os levava perto do indestrutível. Ela não achava que seria uma luta que os Cahill podiam ganhar.
Ela os tinha trazido para esta montanha. Ela tinha que tirá-los.
Estavam todos separados por poucos metros no precipício. Se eles se aventurassem lá fora, seria fácil acertá-los. Fazer parecer um acidente de alguma forma, as crianças Cahill imprudentes buscando emoções em uma montanha e caindo até morte com seus amigos.
Amy podia até ver as manchetes. Ela apertou as mãos com força contra os olhos. A lua pálida reverberava na escuridão por trás de suas pálpebras fechadas, luzes sangrando e pulsando... como fogos de artifício na bruma, Amy pensou, e se perguntou se estava delirando.
Então, ela ouviu um som baixo, intenso. Algo entre um rosnado e um ronronar. Os pelos em sua nuca se eriçaram. O medo fez seu corpo inteiro paralisar. Aguçando os ouvidos, ela escutou.
Ela ouviu o rosnado novamente.
Estava atrás dela.
Amy achatou-se contra a parede da caverna. Ela inspirou e expirou, tentando se acalmar. Tentando pensar através do pânico.
Ela não podia sair da caverna. A sentinela a veria.
Tampouco ela podia ficar sentada lá a noite inteira esperando o leopardo atacá-la. Podia não ser um leopardo. Podia ser... algo não tão letal. Outros animais rosnavam assim, não? Um lince, um chacal, Sadik tinha dito.
Amy pegou a pistola de dardos paralisantes de sua cintura.
Seus olhos estavam acostumados com a escuridão agora. Ela se moveu cuidadosamente em direção ao fundo da caverna. Depois de um tempo, o chão se inclinava para cima. O ar parecia próximo e cheirava a umidade. Ela ouviu alguma coisa... um ping, ping, ping. Enquanto se movia para frente, percebeu que seus pés estavam molhados.
Havia uma corrente na caverna. Então ela devia vir de algum lugar. O chão estava inclinado de forma mais acentuada para cima agora, e ela lutou para não escorregar enquanto subia. Amy continuou andando, seguindo o som ruidoso e baixo.
Suas narinas se contraíram. Ar fresco. Ela podia sentir o cheiro. Havia outra abertura na caverna!
Amy logo começou a ver uma luz fraca à frente. Ela teve que se ajoelhar, mas se arrastou para fora da caverna, seguindo para o cume da montanha. A luz fraca era lançada pelas incontáveis estrelas.
Ela ouviu o rosnado ronronante novamente. Amy congelou. Ela só conseguia ver uma pilha de pedregulhos cerca de vinte metros à frente. Ela apertou a pistola de dardos.
De repente, na escuridão, viu um par de olhos verdes brilhando. O choque da visão e as mãos tremendo a fizeram largar a pistola. Ela a ouviu deslizar para longe, cair no xisto escorregadio direto para a escuridão.
O terror a paralisou. Ela não tinha para onde ir.
O rosnado veio novamente, gelando seu sangue.
Os olhos verdes a lembravam de algo. De seu sonho. Olivia tinha aqueles olhos, verdes e claros...
Ela pensou naquele momento em sua antepassada. Pensou na coragem e na persistência que tinha vislumbrado nas páginas daquele diário. De Madeleine, que tinha criado os Madrigal, que também nunca tinha desistido.
E Grace. Ela pensou em Grace. Sua avó estaria, assim como ela, encarando a presença do animal, e ela não recuaria.
Amy olhou na escuridão onde sabia que a outra presença estava. O terror a deixou e ela sentiu uma espécie de comunhão com a vida que estava a poucos metros de distância, sob as árvores, sendo caçado, o último de sua raça.
Eu preciso de algo seu. Não irá te machucar. Mas se você me der essa dádiva, salvará o meu povo, assim como você gostaria de ter salvado o seu.
A escuridão estava começando a sumir. Ela podia ver as silhuetas das coisas. Os troncos de árvores, as pedras, as folhas.
Enquanto a luz crescia e brilhava, ela olhou para trás e viu que estava de pé de frente a uma vista ampla. Muito abaixo ela podia ver homens correndo até a trilha. Eles usavam uniformes. Então os guias os tinham deixado, mas tinham ido buscar ajuda.
Os homens abaixo estavam rapidamente guardando seus equipamentos. Eles estavam recuando.
Dan e os outros estavam a salvo.
Ela se virou de volta para onde o leopardo tinha estado. Não havia nada lá. A luz tocou em uma pedra plana e algo brilhou. Ela caminhou para a frente.
Seis bigodes.
Ela se agachou. Eles eram reais? Ela tocou neles com a mão. Uma substância se prendia a um deles, algo com cor de caramelo, um caco bonito de pedra, e ela o limpou.
Ela se virou quando ouviu xistos deslizando. De repente, um dos capangas pulou por cima da borda da falésia. Era o baixinho e musculoso com o corte loiro raspado. Ele usou o impulso de seu salto para continuar, indo na direção dela.
Amy entrou em pânico. Ela tentou dar uma voadora. Sua perna parecia feita de chumbo. A voadora quicou no corpo duro do capanga enquanto ele dava o último passo na direção dela. Ele passou suas mãos gigantes em torno de pescoço de Amy e o apertou. Ela conseguia sentir o cheiro do suor dele e podia ver a determinação em seu olhar. Mas seus olhos pareciam tão mortos...
Pontos negros dançaram em sua visão. Seus joelhos se dobraram.
A careta de satisfação no rosto de seu captor se transformou em surpresa. Seus olhos reviraram, e ele caiu pesadamente no chão.
Jake estava atrás dele, com uma pistola paralisante na mão.
Ele correu até ela.
— Você está bem?
Amy caiu de joelhos, ofegante, e ele se agachou até ela.
— Tudo bem — ela murmurou. — Obrigada.
Seus dedos tocaram o pescoço dela gentilmente.
— Você vai ficar com uma marca.
— Não importa — ela lutou para ficar em pé.
— Amy, não! Espera... 
— Eu tenho que... te mostrar.  — Ela tropeçou em direção À rocha.  — O leopardo esteve aqui. Ele me deixou isso.  — Amy ergueu os bigodes.
Jake andou até a rocha. 
— Isso é impossível.
— Mas o impossível pode ser possível. — Ela disse e caiu contra ele. Ele a segurou.
— Eu estou tão tonta... — ela falou. Ela estava feliz em apoiar-se nele agora.
— Acho que você está enjoada por causa da altura — Jake observou. — Estou falando sério, Amy. Precisamos tirar você dessa montanha.
— Eu a vi, Jake! Vi os olhos dela...
Enquanto a luz aumentava, a confusão em sua cabeça estava começando a clarear.
— Por ali — ela falou.
Ela estava tentando julgar o local exato onde vira os olhos verdes brilhantes do leopardo.
Ela passou por Jake, procurando no chão. Era tudo pedras e xisto. 
Exceto por um fragmento transparente de terra. Ela se agachou para examiná-lo. Não era uma pegada da pata de um leopardo. Era de uma bota...

9 comentários:

  1. Ahnn... Isso foi o capítulo 32 aqui no final?

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    1. Ahn... Não sei. Talvez (ou com certeza) estivesse meio bugado quando postei. Mas tá atualizado agora 😁

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  2. Deixa eu ver se eu entendi... Alguém com olhos verdes e que ronrona roubou os bigodes preservados em ambar e os levou até a montanha? Outro homem de preto? E pq não deixar os bigodes no Hotel pro Atticus e o Jonah acharem?

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    1. É April.
      Só pode ser ela !!!

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    2. Homem de preto agora só me remete aos capangas de Pearce. E é uma ótima pergunta, Atticus e Jonah poderiam ter pego. Provavelmente foi uma espécie de prova, ver se Amy merecia os tais bigodes. Sei lá

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  3. Esses bigodes mágicos aparecendo no meio do nada dado por um leopardo q usa botas. Que história cabeluda!

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  4. Esse é o final do livro ou tem mais capitolos?obg.

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  5. Oxe! Foi bem viajado mesmo esse capitulo. Ainda bem que tem outro livro rsrs. Eii o Jake ta tao fofo nesses livros que acho que sou jakamy agr..

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