14 de outubro de 2016

Capítulo 35

— O que foi? — perguntou Della, aparecendo atrás dela.
— Nada — Kylie mentiu, ainda no chão, onde tinha caído.
— Tente outra vez — disse Della, obviamente ouvindo a mentira no coração da amiga.
— Deixa pra lá. E, por favor... me dê um pouco de privacidade para conversar com... ele.
— Eu sou a sua sombra — disse, observando Kylie se levantar.
— Eu sei. Mas estou te implorando. Por favor. Preciso de um pouco de privacidade.
— Para fazer o quê? Está a fim de uma sessão de amassos com Derek?
Kylie nem se deu ao trabalho de responder.
Della virou-se e saiu pisando duro.
Kylie içou-se ao parapeito da janela, pendurou-se ali com uma mão e bateu na vidraça com a outra. As duas pessoas na cama pularam de susto.
O olhar sonolento de Derek voou em direção à janela. Kylie não sabia ao certo como Jenny – pois era de fato a irmã de Hayden, Jenny – tinha reagido ao susto. Ela havia desaparecido!
Passando a mão no rosto, Derek foi até a janela. Kylie saltou para o chão quando ele levantou a vidraça. Ele a olhou com um olhar de interrogação enquanto oferecia a mão para alçá-la para cima.
— Mas que hora para aparecer! — ele murmurou enquanto a puxava. — Por que, afinal, demorou tanto?
Com os pés no chão do quarto, Kylie fez uma careta.
— Você me viu no jantar e não disse nada.
— O que eu podia dizer num lugar cheio de vampiros?
Droga, ele estava certo.
— O que está acontecendo? — Ela olhou ao redor. — E, Jenny, você pode ficar visível. Eu já te vi.
Jenny apareceu e seu rosto enrubesceu.
— Não é o que você está pensando. Nós não... — Ela apontou para o chão, onde um cobertor e um travesseiro estavam jogados.
— Você devia estar dormindo no chão! — disse Jenny, olhando para Derek.
— Eu não consegui dormir, então eu só... — Ele olhou para Jenny. — Eu nem encostei em você.
Kylie balançou a cabeça.
— Eu não me importo com isso.
— Eu me importo! — disse Jenny, olhando para Derek.
— Eu nem toquei em você! — repetiu ele.
Kylie gemeu.
— Jenny? O que você está fazendo aqui? — Nesse momento Kylie lembrou-se do alarme. — Foi você quem pulou a cerca!
Jenny fez uma careta.
— Eu não sabia que o lugar tinha um alarme. Nem o complexo tem um.
Mas os camaleões não estavam à espera que um psicopata delinquente os atacasse!
Kylie balançou a cabeça, lembrando-se de se concentrar num assunto por vez. E esse era um grande problema, também.
— Mas que droga... — ela murmurou. — Hayden sabe que você está aqui?
Derek e Jenny negaram com a cabeça.
Kylie olhou para Jenny.
— Você fugiu, não é?
Jenny assentiu e apertou as mãos.
— Por favor, não... não fique brava.
Derek olhou para Jenny com pena e, em seguida, fitou Kylie como se estivesse frustrado.
— Por que está tão contrariada? Você não disse que queria ajudá-la?
Kylie olhou para ele, séria.
— Eu quero, mas... fugir não resolve o problema.
— Ah, qual é, Kylie? — Derek contestou. — Para alguém que fugiu algumas semanas atrás, não acho que você esteja em condições de julgar.
— Eu não fugi! Eu disse a todos que estava indo embora. E não estou julgando ninguém. — Frustrada e um pouco surpresa ao ver Derek defendendo Jenny, Kylie suspirou e olhou de Jenny para Derek. — Se um camaleão foge antes de estar maduro é expulso da família.
Derek desviou os olhos para Jenny, e examinou-a de cima a baixo.
— Ela parece bem madura pra mim.
Kylie revirou os olhos.
— Eu não estou falando do corpo dela. Estou falando da capacidade de mudar de padrão. — Desviando o olhar para Jenny, Kylie percebeu uma coisa. — Você é capaz de ficar invisível. Isso não acontece só mais tarde?
— Normalmente, sim. Treinei muito por conta própria nos últimos anos para conseguir ir embora mais cedo. Mas ainda não consigo controlar meu padrão. — A tristeza era visível nos olhos da garota.
— Você está mesmo preparada para deixar sua família?
Jenny se sentou na cama e alisou o pijama folgado de Derek com as mãos.
— É muito difícil pra mim, mas aquela família está tentando me forçar a casar com alguém que eu não amo. E o cara não me ama, também. Eu não quero viver assim.
A mente de Kylie disparou. Ela havia dito a Holiday: o que os camaleões anciãos faziam era quase tão ruim quanto o que faziam os lobisomens. Agora ela percebia que estava certa. Os mais velhos estavam fazendo a Jenny o mesmo que o pai de Lucas fazia ao filho.
Isso significava que Lucas estava certo ao enfrentar a alcateia e o pai? Tudo parecia tão confuso!
Percebendo Derek e Jenny olhando para ela, ela concluiu que aquele não era o momento de pensar em Lucas. Um problema de cada vez.
Problema no 1 : o avô e toda a comunidade de camaleões iriam culpar Kylie, porque ela era a razão de Hayden estar ali. Como, pelo amor de Deus, ela ia consertar aquilo? Ela olhou para Jenny novamente.
— Ok, então agora me explique por que você não procurou Hayden.
— Porque toda vez que eu falava com ele sobre ir embora, ele me dizia que era errado. Que eu devia ficar lá até amadurecer. Mas todo mundo sabia que no dia em que eu amadurecesse, cairia fora de lá, então os anciãos estavam tentando encontrar outra maneira de me deter. Eles iam me obrigar a casar com Brandon na semana que vem. — A expressão da garota ficou mais solene. — Além disso, eu não vim aqui por causa de Hayden. Eu vim aqui por sua causa. Achei que você ia entender. Mas acho que eu estava errada.
A culpa encheu o peito de Kylie.
— Você não está errada, eu só... Eu não sei bem o que fazer... — Kylie olhou em volta. — Como você acabou aqui com Derek?
— Você estava sempre rodeada de pessoas. Eu vi Derek e achei que, se você confiava nele, então eu poderia confiar também.
Kylie suspirou.
— Você está realmente preparada para perder o direito de ver a sua família?
Lucas estaria?
Lágrimas encheram os olhos da garota e Kylie sentiu a mesma emoção se agitar dentro dela.
— Não — respondeu Jenny. — Mas eu não estava pronta para me casar com Brandon, também.
— Eu sei — disse Kylie. — Nós só temos que descobrir um modo de resolver isso. — O mesmo valia para Lucas. Mas que Deus a ajudasse, porque ela não fazia ideia de como fazer essas duas coisas.
Ela olhou para Derek e se lembrou do motivo que a levara até ali.
— Nós temos um bocado de coisas para conversar — ela murmurou.
— Que coisas? — perguntou Derek.
Kylie não tinha percebido que falara em voz alta. Em seguida, partes da visão surgiram na cabeça dela como um filme de horror.
— Você se lembra de quando me contou sobre Roberto, o neto de Mario? Você não disse que ele testemunhou o assassinato da mãe?
— Disse.
— Você se lembra de como ela foi assassinada?
Ele passou a mão pelo cabelo castanho.
— Acho que um artigo dizia que ela foi esfaqueada.
Kylie franziu a testa.
— Eu temia isso.
— Por quê?
— Ela é o meu fantasma.
Derek pareceu preocupado.
— A mãe de Roberto é o seu fantasma?
— Por favor, não me diga que ela está aqui agora. — Jenny puxou os joelhos até o peito e os abraçou.
— Está tudo bem. — Derek se aproximou da garota. Ele descansou a mão no ombro da garota para aliviar o medo dela.
— Tire a mão daí! — Jenny deu um tapa na mão dele. — Eu não gosto que você me toque. Você... me faz sentir coisas que... eu não sinto.
Derek franziu a testa.
— Eu estava tentando fazer você se sentir melhor.
— Talvez eu não queira me sentir melhor — ela retrucou, e eles se entreolharam.
Por alguma razão, as brigas dos dois faziam Kylie se lembrar de Burnett e Holiday, ou mesmo de Kylie e Derek no começo, e ela sabia por quê. A tensão sexual. Se Kylie fosse um vampiro, ela apostava que conseguiria sentir o cheiro dos feromônios.
Derek olhou para Kylie.
— Está vendo o que eu tive que aguentar nas últimas 24 horas?
A única coisa que impedia Kylie de sorrir eram os fragmentos da visão e a constatação de que ela não tinha a menor ideia do que fazer com Jenny. Se fosse procurar Holiday, ela não tinha certeza se a líder do acampamento permitiria ou até mesmo poderia permitir que a menina ficasse. Mas por quanto tempo eles poderiam escondê-la?
De repente, a vidraça de Derek se abriu e Della pulou para dentro.
— Ok, vejam só! Acabei de receber um telefonema de Burnett. Ele estava fazendo uma ronda pelas cabanas e percebeu que não estávamos. Está a caminho daqui. Você tem um segundo para esconder a Mulher-Maravilha aí, ou ele vai saber que ela está aqui.
Jenny desapareceu. Della, vendo pela primeira vez alguém desaparecer daquele jeito, ficou atordoada. Burnett entrou com tudo pela janela aberta.
— Que diabos está acontecendo agora?
— Eu tive uma visão. — Kylie contou uma parte da verdade. — Eu quis perguntar a Derek sobre isso.
— E você não poderia ter me ligado primeiro?
— Você sabe como eu fico depois de uma visão... Eu estava fora de mim; tudo em que eu consegui pensar foi em descobrir a verdade.
— Que verdade?
— Eu sei quem é o fantasma da mulher agora. Ela tem... uma ligação com Mario. Ela era nora dele, mãe de Roberto. Mario mandou matá-la. — O coração de Kylie se contraiu quando ela se lembrou dos últimos minutos da vida da mulher. Quando se lembrou de como Roberto tinha testemunhado a morte horrível da mãe.
Burnett suspirou.
— E a espada? É dela, também?
— Não, ela diz que é dos... anjos da morte.
Uma longa pausa encheu o quarto, como se todos precisassem de alguns segundos para acreditar.
— Você sabe por que eles a enviaram? — Burnett finalmente perguntou.
Kylie franziu a testa. Ela suspeitava que era porque ela teria de enfrentar Mario. E, no fundo, sabia que Burnett suspeitava disso também. Mas ninguém queria dizer.
— Não, na verdade, não. — Não chegava a ser uma mentira. Havia uma diferença entre saber de algo e suspeitar disso.
— Vamos lá, vamos falar com Holiday sobre essa visão — disse Burnett.
Kylie deixou a cabana de Derek para enfrentar um problema, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, teria que lidar com o outro que estava deixando ali. Jenny.
Por quanto tempo eles conseguiriam esconder um camaleão em fuga? Ela esperava que por tempo suficiente para Kylie conseguir pensar num plano.


Burnett e Holiday levaram Kylie de volta para a cabana depois da conversa. Ela conseguiu enfrentar a conversa sem mentir não deixando que o tema se desviasse da visão. Kylie não lhes disse nada sobre Jenny ou sobre o pai ter tornado a dizer que eles estariam juntos em breve. Para ser franca, ela estava tentando não pensar na mensagem do pai. Holiday não tinha falado que uma pessoa que começa a se preparar para a morte engana a si mesma convencendo-se de que sua vida não vai durar muito? E... em algum lugar no fundo do seu coração, ela se agarrava ao fato de que o pai poderia estar confuso. Que sua definição de “logo” poderia significar algo em torno de 80 ou 90 anos.
A primeira coisa que Kylie fez depois que Burnett e Holiday foram embora foi pegar o telefone.
Derek atendeu no primeiro toque.
— Sobreviveu?
— Mais ou menos — disse Kylie.
— Como é que você mentiu para Burnett?
— Evitando falar a verdade.
Ele suspirou.
— Falando em verdade, reli os artigos sobre a mãe de Roberto. As causas da morte foram vários ferimentos provocados por um objeto perfurante. Ah, e o nome dela era Lucinda Esparza.
— Obrigada. — Kylie repetiu o nome da mulher mentalmente.
— Então, qual é o plano com relação ao meu problema? — ele perguntou.
Então ele considerava Jenny problema dele, hein?
— Eu não sei, mas você se importaria em continuar a escondê-la até que eu pense num plano? Já que você não tem um vampiro dividindo o quarto com você nem Burnett vigiando a sua cabana. Ela tem menos chance de ser encontrada se ficar aí.
— Meu plano era que ela ficasse aqui — Derek disse, soando quase insistente.
Foi então que Kylie soube com certeza. Sua antiga paixão tinha conseguido esquecê-la e estava a caminho de se apaixonar por outra... Kylie sentira a ligação entre eles, assim como captara a que havia entre Burnett e Holiday, Perry e Miranda, e Jonathon e Helen.
Ela quase podia ouvir Derek e Jenny contando aos filhos como eles se conheceram. “A mãe de vocês simplesmente pulou nas minhas costas de repente, esperando que eu lhe desse uma carona de cavalinho!”
Jenny tinha sorte. E Derek merecia ser feliz.
E eu também! E a felicidade dela dependia de Lucas. Era como se algo tivesse mudado dentro da sua cabeça e ela tivesse percebido o quanto estava equivocada. Ela não deveria ter tentado afastá-lo. Deveria ter insistido para que ele encontrasse uma maneira de fazer a coisa da maneira certa.
— Ei..., hã, eu acabei de perceber que preciso fazer uma coisa. Podemos conversar amanhã?
— Fazer o quê? — perguntou Derek, obviamente captando os sentimentos dela.
Convencer alguém de que vale a pena lutar por mim.
— Tchau. — Ela desligou, e depois discou o número de Lucas. Um instante antes de digitar o último número, ela mudou de ideia. Havia outro jeito. Um jeito melhor.


Levou dez minutos para ela cair no sono, e mais alguns para adquirir controle e ter um sonho lúcido que a levasse até a cabana de Lucas e ao quarto dele. Ele parecia adorável dormindo em sua cama. O lençol estava abaixo da linha da cintura e ela não pôde deixar de se perguntar se ele estava usando alguma coisa por baixo. Ela achava que não.
Mentalmente, ela o vestiu com uma bermuda e entrou na mente e depois nos sonhos dele.
— Lucas — ela sussurrou o nome dele. Embora ela pudesse levá-lo para qualquer lugar, não fez isso. Eles permaneceram no quarto dele. Ela olhou para o peito nu do lobisomem novamente e se perguntou por que não tinha sonhado com ele vestindo uma camisa. Provavelmente porque gostava de ver seu peito nu.
Então Kylie olhou para a cama e a mente dela foi se juntar a ele ali. Foi quando ela decidiu que eles precisavam sair do quarto.
Lucas sentou-se.
— Oi! — Sua voz estava grave e sonolenta.
— Vem, vamos sair daqui — disse ela.
— Sair para onde? — ele perguntou.
— Para um lugar onde a gente possa conversar — ela respondeu.
Ele deu um tapinha na cama e olhou para ela com um sorriso sexy. Será que ele tinha lido os pensamentos dela?, ela se perguntou.
— Poderíamos conversar aqui — ele disse com voz rouca.
Ela revirou os olhos.
— Boa tentativa.
Ele riu. Então puxou o lençol e olhou para baixo.
— Pelo menos a bermuda não tem carinhas sorridentes — disse ele, referindo-se ao dia em que ela o vestira em outro sonho lúcido.
Ela se concentrou e transferiu o sonho para a clareira atrás do escritório, onde muitas vezes eles tinham ido conversar.
Ele olhou em volta e depois voltou a olhar para ela. A noite estava escura, apenas algumas estrelas brilhavam no céu.
— Eu acho que gostei mais do sonho no lago — ele disse, referindo-se ao sonho lúcido em que eles tinham nadado nus.
Estendendo as mãos, ele a segurou pelos ombros e a puxou de encontro a ele. O peito dele estava tão quente... Tão convidativo... Ela teria gostado de ficar ali. Para explorar todas as coisas que queria explorar entre eles. Mas ainda não.
— Comporte-se! — disse ela, e se soltou.
O sorriso dele desapareceu.
— Tem alguma coisa errada?
— Não. Bem, sim, tem algo errado. Tudo está errado. — Ela suspirou. — Você tem que entrar para aquele Conselho, Lucas.
— Eu não vou me casar com Monique — ele disse com rispidez.
— Não se casando com Monique. Você tem que encontrar outra maneira.
— Eu preciso do meu pai para interceder por mim, Kylie. Ele não vai fazer isso agora.
Ela rangeu os dentes.
— Fale com ele. Você disse que ele é protetor com você. Ele obviamente se importa. Talvez se você...
— Você não conhece meu pai — disse ele.
A fúria inflou o peito de Kylie.
— Então encontre outra maneira! Encontre alguém para interceder por você. Ou fale você mesmo com o Conselho. Você me contou sobre tudo o que os jovens querem mudar. Faça os anciãos verem isso. Eles foram jovens um dia. Você não pode fazê-los se lembrar de como era? Quer dizer... quem foi que disse que, se a porta está trancada, encontre uma janela? Se a janela está fechada, também... quebre-a. Se ela não quebrar, então ache uma marreta e faça uma nova.
Ele balançou a cabeça.
— Você não sabe como eles são.
— Sim, eu sei! Os anciãos dos camaleões são como os seus anciãos. Eles querem arranjar casamentos e dizer a todos os jovens camaleões o que fazer. Não sei como vou mudar as coisas, mas pode apostar que não vou deixar de tentar.
— Não é a mesma coisa! — disse ele, como se estivesse ofendido com a acusação.
— Talvez não seja exatamente a mesma coisa. Mas você está desistindo.
— Eu não vou desistir de nós — insistiu ele. — Isso é o que importa.
Ela balançou a cabeça.
— Mas você está desistindo de nós. Se não conseguir entrar no Conselho, Lucas, não existirá nenhum “nós”.
— Você não está falando sério! — disse ele, a raiva engrossando sua voz.
— Não pense que eu quero — disse ela. — Mas eu sei que, se você abrir mão de quem você é e de tudo o que sempre quis, você vai me culpar por isso. Talvez não agora, mas um dia vai. E eu não posso entrar nessa sabendo que você vai me odiar um dia. Eu não posso.
Num piscar de olhos, Kylie pôs um ponto final no sonho lúcido e atirou-se na cama. Então dormiu chorando. Mas um pouco antes disso, ela ouviu o pai mais uma vez.
— Em breve. Em breve estaremos juntos.
Ela não pôde deixar de se perguntar se, quando estivesse morta, ela ainda ia sofrer por Lucas.


Na manhã seguinte, depois de apenas uma hora de sono, Kylie estava em meio aos outros campistas, à espera de Chris fazer seu showzinho no início da Hora do Encontro. Perry, sua sombra oficial naquela manhã, estava ao lado dela, com Miranda apoiada nele. Della estava numa reunião de vampiros e não ia participar do Encontro.
Lucas não estava ali. Mas ele tinha enviado uma mensagem para ela do celular que dizia: Acho que encontrei uma janela. A esperança lhe deu energia. Energia para relembrar o quanto tinha sido bom observar Lucas na cama na noite anterior e como ela tinha ficado tentada a se enroscar nele e deixar que as coisas simplesmente acontecessem. Afastando o lobisomem sexy da sua mente, ela procurou outra coisa em que pensar – como descobrir como proceder com Lucinda, que estava de pé no meio da multidão, como se pertencesse a Shadow Falls, mas não estava falando com Kylie.
Será que de fato tudo de que o espírito precisava para seguir em frente era que Kylie lutasse contra Mario? Para que ele pudesse seguir para o inferno?
Uma coisa era encorajar as almas destinadas a cruzar os portões do céu a deixar a sua existência solitária na terra e seguir em frente. Mas como ela poderia encorajar alguém a ir para o inferno?!
Kylie estremeceu com o pensamento.
— Você está quieta — comentou Miranda. — Está tudo bem?
Kylie acenou com a cabeça e localizou Derek andando no meio da multidão. Os pensamentos dela saltaram para Jenny e como iria resolver aquilo. Sua intuição lhe dizia que a coisa certa a fazer era confrontar Hayden.
Ela sabia que Jenny estava com medo que ele insistisse para ela voltar para casa, mas Kylie não tinha tanta certeza se Hayden faria isso.
A conversa no grupo de estudantes se acalmou. Kylie olhou para a frente.
Chris tinha se posicionado na frente da multidão, desviando a atenção de Kylie de suas próprias desgraças.
— Hoje nós temos... — Ele olhou para baixo, na direção do chapéu e, em seguida, para cima.
Diretamente para Kylie.
Ah, mas que inferno, pensou Kylie, quem seria dessa vez?
— Kylie Galen. — Chris sorriu. — A garota que rendeu mais sangue do que qualquer outra campista em Shadow Falls!
Ele hesitou.
— Você, minha cara, vai ter o prazer... — ele fez uma pausa para causar um efeito dramático — de passar uma hora na companhia de Steve!
Kylie viu Steve, o metamorfo de traseiro bonito, o mesmo que tinha dado um chupão em Della, começar a andar na direção dela. Nem por um minuto Kylie pensou na hipótese de que Steve tivesse algum interesse nela. Ela sabia que ele só queria alguns conselhos no campo do amor.
Conselhos que Kylie não tinha. Que diabos ela poderia dizer a ele? A resposta normal que ela daria a alguém que está tentando chamar a atenção de outra pessoa era “tenha paciência”. Mas Della era a pessoa mais inflexível e teimosa que Kylie conhecia e seria preciso a paciência de um santo para dobrar a vampira.
— Ter paciência? Isso é tudo que você tem pra me dizer? — reclamou Steve dez minutos mais tarde.
Kylie olhou para Perry, voando em círculos enquanto eles conversavam sentados na clareira atrás do escritório, e então franziu o cenho para Steve.
— Não sei por que todo mundo pensa que sou o guru do amor.
— Vamos lá, me dê algo que possa me ajudar. Você conhece Della melhor do que ninguém.
Kylie sentou-se ao lado da árvore.
— O que eu posso dizer? Della é uma figurinha difícil. — Tão difícil que, se descobrisse que Kylie tinha oferecido conselhos a Steve, a vampira abriria mão do título de uma das melhores amigas de Kylie.
— Você acha que eu não sei disso?
Kylie fitou os olhos desesperados do metamorfo.
— Ela ficou muito machucada por causa de alguém.
— Eu sei disso, também. — Ele cruzou os braços sobre o peito largo. — Ela merece muito mais do que aquele sujeito.
— Ah, que se dane! — exclamou Kylie, e decidiu jogar a precaução no lixo. — Ok, isso é tudo o que eu posso te dizer. Della adora uma boa briga.
— Eu não quero lutar — disse Steve. — O que eu quero é... — Ele corou como se estivesse pensando sobre o que realmente queria.
Mas, caramba!, Kylie gostava de Steve.
— Olha, eu não estou dizendo para você brigar com Della. Lute por ela. Quando ela disser que você não pode se sentar com ela na hora do almoço, sente-se de qualquer maneira. Quando ela disser para ir embora, não vá. Ela vai ficar irritada. Della é assim, mas eu acho que dessa maneira você vai conquistar alguns pontinhos com ela.
O metamorfo fez uma pausa, como se estivesse pensando.
— Quer saber? Você está certa. Quando estávamos na missão, ela tentou me afastar, mas eu não deixei. Eu não podia fazer isso porque Burnett me avisou que, se alguma coisa acontecesse com ela, ele arrancaria a minha cabeça. E foi aí que nós... Ei! Já sei o que tenho que fazer!
— O quê? — perguntou Kylie, com medo do que tinha desencadeado.
— Espere só pra ver. — Um sorriso se espalhou pelos lábios dele. Fagulhas começaram a surgir em torno do metamorfo. Ele se transformou num pássaro, não tão grande ou magnífico quanto aquele que circulava mais acima, mas ainda assim impressionante.
Batendo as asas duas vezes, ele voou para longe, gritando para Perry ao fazer isso.
Perry se preparou para uma aterragem rápida.
— Você é boa nisso! — disse ele, ainda em forma de pássaro. — Ela vai comer na mão dele agora. Claro que antes ela já terá rasgado o seu coração por traí-la.
— Não fale comigo enquanto não estiver na forma humana! — Ela deixou cair a cabeça sobre os joelhos.
Merda! Perry estava certo. Della ia matá-la. Mas, como o destino já podia tê-la marcado para morrer, ela não tinha certeza se isso realmente importava.

Um comentário:

  1. Credo! Kylie tá tão pessimista que tá deixando a gente tensa!

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