31 de outubro de 2016

Capítulo 34

Sakid apareceu no hotel em um Jeep. Agora que chegou a hora de se separar de Pony, Jonah, Atticus e Jake, Amy se sentia incerta. Ela percebeu que não tinha sido totalmente honesta consigo mesma. Havia batido o pé na Irlanda e disse que não precisava de Jake. Tinha doído lhe dizer isso, mas ela tinha feito. Mas agora que estava aqui... de repente precisava dele desesperadamente. Ela odiava esse sentimento.
Eles se despediram de pé no Jeep.
— Nós vamos te mandar uma mensagem assim que entrarmos no museu — Jonah disse. — Então não se preocupe, caras, te daremos cobertura.
— Eu não tenho tanta certeza sobre isso — Jake falou. — Talvez nós não devêssemos nos dividir.
— Você acha que a gente não dá conta de um leopardo? — Dan perguntou. — Você já deu uma boa olhada no Sadik? Ele é o Darth Vader e o Han Solo combinados! As chances são de que nós estaremos juntos de volta ao hotel em um ou dois dias.
— Certo — Jake respondeu, embora ele não parecesse acreditar nisso nem um pouco.
— Vamos, Amy — Ian pediu. Ele pegou sua mão para ajudá-la a subir na van, e Jake se virou.
Amy olhou para frente enquanto Sadik dava a partida. Ela se recusou a olhar para trás. Não queria ver Jake diminuindo à distância. Ela não queria chorar.
De repente, a porta do passageiro se abriu. Uma mochila foi jogada para dentro, seguida por Jake, que subiu no banco, respirando com dificuldade.
— Jonah e Atticus dão conta do museu. Eu vou junto — os olhos de Amy se encontraram com os de Jake no espelho retrovisor. — Acho que você dá conta de uma escalada na montanha e de um leopardo. Mas talvez não os dois de uma vez.

* * *

Eles pararam em uma pequena aldeia para pegar dois amigos de Sadik, Orhan e Derin. Os picos da Taurus apareciam contra um céu azul brilhante, a neve acumulada nos cumes altos. Sadik pegou uma estrada na montanha que levava a uma série de ziguezagues que fizeram Amy se segurar em seu assento. Ele parou em uma pequena área de estacionamento em um pasto alto. Eles eram o único no carro.
— Se querem encontrar um leopardo, temos que tomar o caminho menos percorrido — ele falou. — Difícil de escalar.
— Nós conseguimos — Amy disse, saltando do carro.
Sadik liderou o caminho. Os três guias não falavam muito. Andaram à frente do grupo, com os pés firmes como cabras na trilha. Amy e os outros lutaram com as rochas soltas e solo escorregadio. Era difícil manter o equilíbrio. Apenas Hamilton era capaz de manter o ritmo com os guias.
Escalar era exaustivo. Eles montaram acampamento na primeira noite e os guias espalharam sacos de dormir em torno de uma fogueira.
O grupo se levantou ao amanhecer, comendo pão torrado, laranjas e um maravilhoso queijo que Sadik chamava de beyaz peynir no café da manhã. Os guias moeram o café preto forte a que Amy já estava quase acostumada.
  Eles partiram, subindo de forma constante a montanha, apontando as cabras que escalavam as rochas. O ar era limpo e frio, com manchas de neve que pontilhavam a paisagem. As árvores começaram a rarear, e coníferas definiam a paisagem. Eles se depararam com um campo de campânula-branca, e Amy começou a sentir que tinha escalado para um mundo místico e mágico.
— As montanhas da Turquia são cheias de lendas — Jake comentou. — Pode-se dizer que o primeiro concurso de beleza ocorreu no Monte Ida. Paris tinha que escolher a deusa mais bonita – Hera, Atena, ou Afrodite. Afrodite lhe disse que, se ele a escolhesse, ele poderia ter a mulher mortal mais bonita do mundo como sua esposa. Essa era Helena.
— Ah — disse Amy. — Então a guerra de Troia começou.
— Os deuses assistiram a queda de Tróia em Monte Ida — continuou Jake. — Você pode sentir as lendas aqui. A história está nas pedras e no solo. Até no cheiro do ar. As mesmas ervas selvagens crescem aqui. Você quase pode pensar que nós encontraremos um leopardo — ele sorriu.
— Com a ajuda dos deuses, é claro.
As palavras de Jake giravam em sua cabeça enquanto escalavam. Ela, também, sentia algo no ar que não conseguia explicar. Para Jake, era história e lenda. Para ela, era uma presença à espreita atrás deles. Houve momentos em que ela se sentia como se o leopardo estivesse perseguindo a eles.
Ela tropeçou no caminho, e Jake a pegou.
— Você está bem? — ele perguntou.
Ela percebeu que se sentia um pouco tonta, e sua cabeça doía.
— Eu estou bem — respondeu.
Os guias falavam em voz baixa, e ela viu-os, também, olhando por cima dos ombros.
Eles estavam perto das coordenadas do GPS agora. Dan estava tendo um pouco de dificuldade e teve que usar seu inalador. Eles estavam em uma paisagem acidentada de pedras e vegetação.  Acima havia falésias altas, subindo como uma parede à frente. Sombras estranhas apareciam sobre a superfície.
— Cavernas — Sadik explicou. — O penhasco é de calcário. A rocha é porosa. Podemos estar de pé sobre um rio subterrâneo agora mesmo.
— Tem como subir? — Hamilton perguntou.
— Há uma trilha. Mas nós precisamos acampar aqui. A trilha é estreita e é perigosa ao anoitecer. Amanhã.
Orhan disse algumas palavras em turco para Sadik e começou a andar mais acima na trilha.
— Onde ele está indo? — Jake perguntou.
— Explorar para amanhã — Sadik respondeu. — Às vezes pode haver deslizamentos de rochas que bloqueiam o caminho.
Eles começaram a montar acampamento. A noite caía rapidamente. Sadik foi inspecionar e ficou por um longo tempo observando.
— Você acha que há mais alguém lá fora? — Amy perguntou quando ele voltou.
— Sempre há mais alguém lá fora — Sadik respondeu. — Nós não somos donos da montanha. — Ele agachou-se perto da fogueira. — E também há as coisas que não vemos. Os espíritos dos deuses. Os fantasmas dos leopardos. Talvez seja isso que você esteja perseguindo. Um fantasma que anda. — Ele piscou para ela.
Amy sentiu um calafrio na espinha. Jake se aproximou. 
— Ele está brincando com você. Não deixe que a assuste.
Mas ela estava assustada. Ela se sentia cansada e esgotada, e quando colocou a mão na testa, percebeu que estava quente. Provavelmente por causa da fogueira.
Estava perto do anoitecer agora. Derin fez uma pergunta à Sadik. Sadik apontou para a trilha. Provavelmente Derin estava perguntando sobre Orhan.
De repente, eles ouviram o som de passos, de rochas deslizando pela colina. Orhan vinha rápido, correndo na direção deles. Ele disse uma palavra em turco.
— O que ele falou? — Dan perguntou.
Sadik ignorou Dan. Ele ouviu atentamente a fala rápida de Orhan. Balançou a cabeça, mas Orhan apenas falou com mais insistência.
— O que foi? — Jake perguntou.
Sadik se virou para eles. 
— Uma pegada de pata. Orhan jura que é uma pegada de leopardo. Não de um lince, não de um chacal. De um leopardo.
— Ele tem certeza?
— Sim. Nós vamos dormir com os rifles esta noite. E vocês ficarão com as pistolas de dardos também. Devemos estar todos armados.

* * *

O museu acabou por ser uma casa particular que tinha se tornado o Museu de Curiosidades Históricas e Antigas. Numa placa desgastada se lia: BEM-VINDOS, TURISTAS! Em outra: BATA NA PORTA AO LADO PARA VER O CURADOR.
— Isso parece uma furada pra mim — Jonah comentou.
— Se o Pony estivesse aqui, provavelmente diria que é um museu de araque — Atticus respondeu. — Sorte que ele ficou no hotel.
— Bem alto no medidor de araque — Jonah concordou. — Mas aqui estamos nós.
Eles caminharam ao lado de uma pequena casa e bateram com força. Depois de alguns momentos, um homem de meia-idade, com olhos vivos e cabelo escuro respingado de cinza abriu a porta. Ele carregava um jornal.
— Posso ajudá-los?
— Nós gostaríamos de ver o museu.
Seu rosto foi tomado por um largo sorriso.
— Excelente! Pegarei as chaves.
Ele desapareceu por um momento e depois reapareceu. Eles voltaram para o museu e ele ajustou a chave na fechadura. A porta prendeu, e o homem empurrou-a com o ombro.
— Segurança excelente, como podem ver — ele disse. — A porta está emperrada! — Rindo, ele os levou para dentro e acendeu as luzes.
Lá dentro parecia um museu de verdade. As paredes eram brancas e forradas com exibições. Atticus parou perto de uma exposição de artefatos romanos.
— Sabe, alguns dos artefatos mais interessantes você pode encontrar nestes pequenos museus — Atticus comentou.
— Exatamente — o curador confirmou. — Esta área é tão rica em culturas antigas. Não se pode caminhar sem tropeçar em uma moeda romana. Heh. E nós temos algumas belas peças de âmbar que preservam insetos antigos...
— Fascinante — Atticus disse.
— Cara — Jonah falou, animação em sua voz. — Eu vejo nossa presa.
Ele apontou para o fundo do museu. Um diorama tinha sido colocado com uma aproximação da paisagem ao seu redor. Um leopardo empalhado estava no meio dele.
— Sim, nosso leopardo de Anatólia — o curador disse. — Um dos últimos de sua raça.
Eles se aproximaram.
— Estou interessado em taxidermia — Atticus disse. — Os olhos...
— De vidro. Mas eles se parecem com os olhos de leopardo, não parecem? Verdes e penetrantes. Místicos...
— Os bigodes? — Jonah perguntou. — São de verdade?
— Plástico. Tão reais!
Jonah e Atticus trocaram olhares. Derrotados. Eles se viraram para ir embora.
— Temos uma loja de presentes! Não se esqueçam! — O curador correu atrás deles. — Adoráveis peças de âmbar, réplicas de moedas romanas, monte de presentes para trazerem na volta!
Eles continuaram andando.
— E se vocês estão interessados em leopardos, e quem não está, criaturas magníficas! Eu tenho alguns artefatos preservados em âmbar; bigodes de leopardo...
Eles pararam.
— Você tem bigodes de leopardo preservado em âmbar? — Atticus perguntou.
— Sim! Na exposição de âmbar antigo... — O curador parou. Ele estendeu um dedo. Empurrou a porta da frente da vitrine. Ela se abriu. Houve uma pausa curta. Então ele gritou, — Nãooooo!
— O que está faltando? — Atticus perguntou, mas ele já sabia a resposta.
— CADÊ OS MEUS BIGODES DE LEOPARDO?

Um comentário:

  1. Dan estava tendo um pouco de dificuldade e teve que usar o seu inalador.


    Quem dividiu essas equipes, eles iam mandar um atleta pro museu e arrastaram o asmático pra montanha?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!