14 de outubro de 2016

Capítulo 34

A mulher, com Kylie vendo a cena através dos olhos dela, virou-se para lutar. Não porque pensava que poderia ganhar, mas pelo pouco tempo que o filho precisava para escapar. Ela sabia que morreria, mas lutava pelo seu filho.
Eles entraram. Havia três deles. Usavam preto, sem máscaras, e ela os reconheceu.
Conhecia-os bem.
Ela tinha comido em suas mesas.
Rido de suas piadas.
Ela também reconheceu o olhar nos olhos deles, o ímpeto para cumprir sua tarefa. Matá-la era a incumbência que eles tinham.
Ela levantou a espada e lutou. Lutou pelo filho dela. Por alguns segundos, ela realmente superou-os, bloqueou as tentativas de derramar seu sangue. Ninguém poderia dizer que ela tinha se entregado facilmente.
A primeira dor penetrante atravessou suas costelas. Kylie gritou para que ela parasse. Tentou dizer a si mesma que não era real, que não era ela quem sofria os golpes, mas parecia real. Ela sentiu a dor que o espírito sentira naqueles últimos momentos terríveis da sua vida. Sentiu as lâminas perfurando sua pele, atingindo os ossos.
Seu corpo ficou flácido, a dor era excruciante. Ela caiu de joelhos e depois para a frente, tombando no chão. Seu sangue escorria. O fluxo espesso do líquido aqueceu o frio repentino. Ela não o conteve. Queria que o sangue fluísse mais rápido. Quanto mais rápido fluísse, menos ela sofreria.
O cheiro acobreado do sangue encheu seus sentidos. A viscosidade dele escoou sob sua bochecha pressionada no chão frio. A última coisa que ela viu foi a porta do armário aberta e seu filho assistindo com horror enquanto ela dava seu último suspiro.
Ele não tinha fugido. A fúria encheu sua alma.
Será que ele sabia? Será que ele sabia que a morte dela era para mantê-lo seguro e protegê-lo do tipo de vida que ela e o pai dele tinham vivido?
Um segundo antes de a morte levá-la, ela jurou vingança. Não vingança sobre aqueles que a mataram, eles nada mais eram do que peões a serviço de um demônio. Ela sabia disso, porque tinha sido um deles.
A vingança que ela buscava era para quem os enviara, o próprio demônio. Bem como para aquele que tinha permitido, o filho do demônio.
— Não fique muito perto. Ela pode te degolar com essa coisa.
A voz estridente de Miranda ficou registrada na mente de Kylie, mas soava a certa distância.
— Ela não vai me matar — Della respondeu.
— Eu não estou dizendo que ela queira. — A voz de Miranda voltou. — Mas, que droga, você viu como ela estava manejando essa espada.
Sua consciência lutou contra o vazio da escuridão. Ela queria mergulhar no vazio. Ele não guardava nenhuma lembrança. Oferecia uma fuga do que ela tinha acabado de viver. A maldita voz, a que ela não conseguia de fato identificar falou novamente.
— Você precisa se lembrar.
Tomando fôlego, ela abriu os olhos.
Os olhos pretos e ligeiramente amendoados de Della entraram em foco.
— Ela voltou! — disse numa voz alarmada, como saída de um filme de horror.
Kylie tentou se erguer, mas se sentia muito fraca.
Della ajudou-a a se sentar. Kylie olhou em volta. Estava na cozinha da cabana. Ainda segurava a espada na mão. A visão devia tê-la feito buscar a arma. Lembrando-se de partes da visão, largou a espada e passou a mão sobre a barriga para verificar se havia algum corte.
Nenhum. Apenas a lembrança da dor permanecia. Tinha acabado. Tudo, menos o choro. Lágrimas brotaram nos olhos dela. Como a vida podia ser tão brutal? Tão cruel?
— Você não vai nos matar, não é? — perguntou Miranda. Kylie balançou a cabeça. Por mais doloroso que fosse se lembrar dos detalhes, ela precisava se lembrar; precisava de respostas.
A imagem do menino no armário encheu sua mente, algo conhecido despontou na sua memória. Sim, ele era conhecido. Mais do que isso: fragmentos da história voltaram num déjà vu à sua mente.
Alguém tinha lhe contado essa história. Mas quem? De repente, ela se lembrou.
Kylie se levantou, mas seus joelhos se dobraram. Della a segurou.
— Temos que ir — disse Kylie.
— Vai ser meio difícil se você não consegue nem se levantar — provocou Della.
— Eu consigo. — Kylie se forçou a ficar de pé sozinha e empurrou a mão de Della.
— Ok, você está de pé — disse Della. — O segundo passo é conseguir andar.
Kylie deu alguns passos e olhou para a vampira novamente.
— O terceiro passo é fazer sentido. E não faz sentido para mim sair desta cabana antes de eu saber para onde estamos indo.
Kylie inspirou.
— Ver Derek. Eu preciso de Derek.
— Derek? — perguntou Miranda. — E eu que pensei que ela tinha desistido dele e estava quase voltando com Lucas.
Kylie lançou para a bruxinha um olhar suplicante, pedindo que ela lhe desse um tempo.
— Estou falando sério.
— Posso pôr meu sutiã primeiro? — pediu Della.
— Você não precisa dele... — Miranda riu.
Della fez uma cara feia.
— Você é a bruxa mais babaca que eu conheço.
Kylie, perturbada demais para enfrentar uma discussão, foi para a porta. Ela tinha que saber.
Della deve ter decidido que Miranda estava certa sobre não precisar do sutiã, porque seguiu Kylie até a porta. De pijama e tudo.
— Você sabe que Burnett vai me esganar se eu deixá-la fazer isso sem ligar para ele.
Kylie começou a correr, sua necessidade de respostas impulsionando-a. Ela sentiu o vento no cabelo e as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Em menos de dois minutos, Kylie parou ao lado da cabana de Derek.
— Ok, sabichona, não vai bater na porta? — Della olhou para ela, a expressão sarcástica substituída pela de preocupação ao ver as lágrimas de Kylie. — Sinto muito — disse ela. — Deve ter sido bem ruim.
Kylie assentiu.
— Vou tentar a janela. — Ela correu para o lado da cabana. As janelas eram muito mais altas do que ela. Dando um salto, ela agarrou com os dedos a parte superior do parapeito e suspendeu o corpo para olhar lá dentro.
E o que ela viu deixou-a... deixou-a... confusa.
Perplexa.
Chocada.
Ela piscou, como se isso pudesse mudar o que estava vendo.
Mas depois de piscar uma, duas, três vezes, ela ainda podia ver não uma, mas duas pessoas na cama de Derek. Uma delas era Derek. Ela podia ver claramente sua forma masculina. Mas a outra era... Kylie não podia ver o rosto.
Mas era definitivamente um corpo feminino. Tinha longos cabelos negros e um bumbum muito feminino e saliente, coberto com um pijama e projetado para fora da manta. E Kylie conseguiu reconhecer aquelas calças de pijama como sendo de Derek.
A garota se mexeu. Kylie prendeu a respiração, esperando que ela se virasse para que pudesse ver quem estava aquecendo a cama de Derek.
Kylie levou um segundo para se perguntar se estava com ciúme. Em algum lugar lá no fundo, dentro do seu peito, ela sentiu uma pontada de ciúme. Mas com ele veio o sentimento de que estava tudo certo. Derek precisava seguir em frente.
Mas ele tinha que seguir em frente tão rápido assim?!
A menina se virou.
Kylie viu seu rosto e...
— Merda! — Seus dedos acidentalmente escorregaram da janela e ela caiu, se esborrachando com tudo no chão.
Como? Como era possível?!

2 comentários:

  1. kylie ta tarablahando melhor que o cupido kkkkkk

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  2. E o primeiro camaleão sai do armário..

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