4 de outubro de 2016

Capítulo 34

Trinta minutos depois, Jonathon estava sentado sob uma árvore a poucos metros de distância, enquanto Kylie estava na varanda de Holiday, espantando insetos e ouvindo a líder do acampamento, o médico e Burnett conversando dentro do escritório.
— Ele pediu para você tirar a camisa — Holiday disse.
— Eu não preciso tirar a camisa — Burnett contestou. — Estou bem.
Sua voz era alta e clara, e ele de fato parecia bem. Não que isso fizesse Kylie se sentir melhor.
— Pode ser que sim. Pode ser que não — ponderou Holiday. — Nós vamos saber assim que você se despir e deixar que o médico o examine.
Em poucos minutos, Holiday saiu e se sentou na varanda ao lado de Kylie. Tinha lágrimas nos olhos.
— Eu não sei por que estou tão preocupada. Ele é muito teimoso e cabeçudo pra morrer.
Kylie entrelaçou as mãos.
— Eu sinto muito.
Holiday balançou a cabeça.
— Não foi culpa sua.
— Você disse pra eu me livrar dela logo que te contei que ela estava aqui. Eu me recusei, e ela poderia ter matado Burnett.
— Ela não queria matá-lo. Só queria afastá-lo de você.
— Talvez eu estivesse errada o tempo todo. Talvez ela seja má.
Holiday colocou o braço em volta do ombro de Kylie.
— Ela não é má. Eu senti a presença e as emoções dela. Ela estava preocupada com você. Fez isso para protegê-la, Kylie.
— Sim, mas me proteger do quê? Será que ela realmente achou que Burnett ia me machucar?
Holiday suspirou.
— Ela provavelmente captou o que eu estava sentindo. Eu exagerei. — Ela apertou o braço de Kylie. — Quero dizer, eu me recuso a deixar você ser testada pela UPF. Mas eu não deveria ter surtado daquele jeito.
— Você não confia em Burnett? — Kylie perguntou.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não confio na UPF.
— Por quê? E se não confia neles, então por que eles estão envolvidos com o acampamento? Além disso, se podem realmente fazer alguns testes simples e me dizer o que sou, eu quero fazê-los.
Holiday fechou os olhos por um segundo.
— Não me leve a mal, Kylie. Eu não sou contra a UPF. Deus sabe que precisamos deles para manter as coisas nos trilhos. Mas eles não têm o direito de ficar testando as pessoas.
— Mas e se eles realmente puderem...
— Eu não posso deixar você fazer isso. Se eles quiserem me dizer o nome do teste que pretendem fazer, vou perguntar ao nosso médico se ele pode prescrevê-lo. Mas você o fará sob a supervisão dele e apenas dele.
Kylie sentiu pela voz da líder do acampamento que havia muito mais por trás daquilo. Coisas que ela não tinha dito.
— Ok, o que você não está me dizendo?
Levou um minuto até que Holiday finalmente suspirasse e começasse a falar.
— Foi mais de quarenta anos atrás. Tratava-se apenas de um ramo pequeno da UPF que foi fechado, e muitas acusações foram feitas contra muita gente. Eles estavam fazendo testes científicos em seres sobrenaturais. Algo sobre pesquisas genéticas. Os sujeitos eram obrigados a fazer os testes e algumas pessoas nunca se recuperaram completamente. Não é que eu ache que eles estejam fazendo isso novamente, mas eu me recuso a te deixar ir até lá para que possam picar e examinar você para encontrar respostas.
Kylie olhou para Holiday. Fragmentos da visão de Jane começaram a se repetir em sua mente como um filme antigo. E de repente tudo começou a fazer sentido.
— A UPF matou Jane Doe. Eles a mataram e depois a enterraram com Berta Littlemon no Cemitério de Fallen.
Os olhos de Holiday se arregalaram.
— Você não pode ter certeza.
— Eu posso! — disse Kylie. — Na visão, Jane foi chamada de sujeito. O marido também. E o médico era vampiro. Eles mencionaram que ela não tinha um padrão cerebral.
Kylie puxou os joelhos de encontro ao peito e abraçou-os, tentando desvendar o quebra-cabeça. Não entendia como o bebê de Jane se encaixava na história, mas alguns detalhes estavam claros para ela.
— Não é à toa que ela atacou Burnett — Kylie disse. — Ela pensou que ele estava tentando fazer comigo o que a UPF fez com ela.
Kylie ficou desapontada por Jane Doe não ter aparecido na manhã seguinte. Kylie tinha esperança, agora que sabia sobre a UPF, de que poderia ajudar Jane a se lembrar de outras coisas, como seu nome. Então, juntas elas poderiam descobrir o que Jane precisava fazer para realizar sua passagem.
Mas os mortos, assim como os vivos, raramente faziam o que Kylie queria.
Uma batida soou na porta.
— Entre.
A porta se abriu e Miranda e Della se espremeram através da abertura e fecharam a porta rapidamente atrás delas.
— O que foi? — Kylie perguntou.
— Três carinhas estão na cabana instalando o aquecedor — disse Della.
— E eles são uns gatos — disse Miranda. Os operários que trabalhavam na reforma de Shadow Falls haviam se tornado um tema popular entre todas as garotas do acampamento. Especialmente quando tiravam a camisa à tarde.
— Gatos como Perry? — Kylie brincou. Ultimamente, Miranda passava quase todos os momentos livres com o metamorfo.
— Não tão gatos — admitiu Miranda, e depois sorriu. — Mas quase.
— Bem, obrigado pelo aviso. Já vou dar uma olhadinha.
— Só não vá sair enrolada numa toalha — disse Della, também sorrindo. — A menos que esteja a fim de que role alguma coisa.
Alguns minutos mais tarde, Kylie saiu completamente vestida, cabelos penteados, e a única coisa que tinha acrescentado para incrementar o visual fora um toque de gloss nos lábios.
Miranda estava sentada à mesa, tomando um copo de suco de laranja. Della tinha um copo de sangue, e dois dos rapazes estavam ajoelhados no chão, com serras de um lado e algum tipo de cano de ventilação do outro.
Kylie detestava admitir, mas Miranda estava certa. Eles eram uns gatos. Ambos estavam com seus vinte e poucos anos, tinham cabelos castanhos e usavam camisetas justas que destacavam o bronzeado e os músculos sólidos.
Eles olharam para cima e encontraram os olhos de Kylie. Kylie ficou tensa quando franziram a testa para ela, mas ela fez a mesma coisa. Os dois eram lobisomens. Ela viu seus olhares chocados quando viram seu padrão cerebral.
— Eu sou uma aberração — explicou ela.
Della e Miranda riram. Os dois rapazes sorriram e voltaram ao trabalho. Sem dúvida, tinham ordens de Burnett para não fazerem gracinhas com as campistas.
Kylie foi até a geladeira para pegar um copo de suco. Ouviu a porta do quarto de Miranda se abrir e o terceiro operário se juntou aos outros. Kylie se virou e olhou para ele disfarçadamente. Era igualmente atraente. Cabelo preto. Ombros largos. Cintura delgada.
Seu olhar encontrou o de Kylie, que, chocada, deixou o suco escorregar por entre os dedos e o copo espatifar-se aos seus pés.
Seu cabelo tinha mudado. Seu nome, Ruivo, provavelmente um apelido, não fazia mais sentido, mas seus olhos eram os mesmos. A imagem dele aparecendo em seus sonhos, e olhando para ela no espelho com sangue escorrendo do queixo surgiram na cabeça de Kylie. Então a imagem mudou e ela o viu estampado em seu para-brisa, batendo a mão através da janela do seu carro. Como se isso não bastasse, viu a imagem dele olhando para Kylie enquanto ela estava presa à cadeira, quando ele e o avô a raptaram.
— Della? — Kylie disse numa voz calma, esperando poder avisá-la antes que fosse tarde demais.
Mas Della não respondeu. Kylie se voltou. A vampira ainda estava sentada à mesa, com o copo nos lábios. Algumas gotas de sangue pairavam no ar entre os lábios e a borda do copo. Della não respirava. Não se movia. Parecia congelada.
Era tarde demais.
O olhar de Kylie desviou-se para Miranda, que também estava congelada, um dedo atrás da orelha, como se estivesse arrumando um fio de cabelo.
O mesmo podia-se dizer dos dois rapazes ajoelhados no chão.
— É só você e eu, Kylie — disse o vampiro.
Ela voltou a olhar para Miranda e Della.
— Não sei o que fez com as minhas amigas, mas é melhor desfazer agora! — ela rosnou, o sangue pulsando nos ouvidos, com fúria.
— Não se preocupe. Elas estão bem. Assim que eu libertá-las, vão voltar ao normal e não vão se lembrar de nada. — Ele olhou de volta para a mesa e depois para ela.
— Então faça isso! — Kylie disse.
Ele suspirou.
— Eu nunca vi ninguém se preocupar tanto com os outros.
Embora não soubesse bem por quê, Kylie verificou seu padrão cerebral. Ele era um lobisomem! Mas como era possível? Antes ele era um vampiro. Ela tentou não demonstrar sua surpresa, mas ele percebeu.
— O que você é? — Kylie perguntou.
— Sou a mesma coisa que você. Nasci poucos minutos depois da meia-noite. — Ele deu um passo para a frente. — É por isso que devemos ficar juntos. Nós somos almas gêmeas, Kylie. É isso o que somos.
Ela apertou as sobrancelhas novamente e desta vez viu que ele era humano. Seu coração pulou no peito.
— Eu não sou sua alma gêmea. Prefiro morrer!
— É por isso que estou aqui. — Ele deu mais um passo na direção dela.
Kylie recuou.
— Está aqui para me matar?
— Não. — Ele parou de se mover. Alguma coisa na sua resposta e no seu tom de voz pareceu verdadeiro. — Estou aqui para protegê-la. Embora você não facilite as coisas.
O som de um trovão retumbou lá fora. Ele olhou pela janela e, quando o seu olhar se voltou para o dela, Kylie percebeu outra coisa.
— Você era a águia! — ela percebeu. — E o cervo! Você é um metamorfo?
E se eles fossem iguais, como Ruivo disse, isso fazia dela um metamorfo, também?
— Não. Quero dizer, sim. Eu era o cervo e a águia, mas eu não sou um metamorfo.
Então outro pensamento ocorreu a Kylie.
— Você me protegeu, mas matou aquelas garotas inocentes em Fallen. Por quê?
Ele olhou para o chão.
— Será que você ficaria muito aborrecida se eu dissesse que foi para impressioná-la?
— Me impressionar? Você é doente.
— Mas elas foram antipáticas com você e suas amigas.
— Elas não mereciam morrer.
— Eu sei que você se sente assim agora. Eu não te conhecia bem na época. Agora, eu sei. Eu não teria feito isso se...
— Você ainda não me conhece.
Ela encolheu os ombros.
— Às vezes eu não entendo você. Mas a tenho observado. Você é um estudo interessante. Sempre me pergunto como teria sido... se eu tivesse nascido à meia-noite. Engraçado como poucos minutos num relógio podem fazer tanta diferença. Eu às vezes me pergunto se talvez... — O barulho de um trovão abalou a cabana novamente.
Kylie poderia jurar que viu arrependimento em seus olhos. Mas talvez não. A iluminação da cabana tinha sido expulsa por sombras escuras. Kylie percebeu que as sombras estavam ali por ela.
Um relâmpago brilhou na janela.
— Eu não tenho muito tempo — ele disse. — Mas quero te dizer que...
— Eu não vou com você! — Ela podia não vencer a batalha, mas morreria lutando.
— Não, não desta vez. Eu vou voltar para te buscar mais tarde. Como eu disse, estou aqui para te proteger.
— De quê?
Ele olhou para os dois operários congelados, sem respirar, assim como Della e Miranda.
— Eles querem vê-la morta.
Ele estaria se referindo aos dois rapazes?
— Quem quer me ver morta?
— Os outros. Meu avô e seus amigos. Outros como nós.
— Como assim? Como nós? E por que eles me querem morta?
— São impacientes e estão com medo do que você possa ser capaz de realizar se não se juntar a nós. Mas eu vou impedi-los até você decidir. Mas você tem que mudar de opinião em breve.
Ele apontou para o operário mais alto ajoelhado no chão, ainda congelado, como se estivesse trabalhando na instalação do aquecedor.
— Esse cara foi enviado aqui para te matar. Um amigo meu que é feiticeiro viu o futuro e descobriu que seus outros amigos teriam chegado aqui a tempo de salvá-la. Mas — ele apontou para a mesa — a bruxinha não teria sobrevivido. E por alguma razão irracional, me senti compelido a impedir que isso acontecesse. Eu sabia o quanto ia te machucar se ela morresse. — Suas sobrancelhas se franziram como se ele estivesse confuso. — Foi uma sensação estranha querer salvá-la, me importar com o risco de a sua amiga morrer, porque não costumo me preocupar com ninguém. Mas... por sua causa, eu fiz isso. Eu me preocupei.
As palavras Alguém vive e alguém morre surgiram na mente de Kylie novamente.
— Não! — Isso não podia estar acontecendo. Simplesmente não podia.
Então o som de passos nos degraus da varanda fez o chão vibrar sob os seus pés.
— Até mais tarde. — Ele desapareceu.
A porta se abriu num estrondo e bateu na parede ruidosamente. Burnett, Lucas, Perry e Derek entraram correndo.
— Que foi? — Della pulou da cadeira. Miranda deixou cair o suco, que derramou no chão. Kylie suspirou de alívio quando viu que elas estavam bem. E no entanto... em algum lugar lá no fundo, ela tinha acreditado em Ruivo quando ele garantiu que estavam.
Mas será que isso queria dizer que ela também acreditava em todo o resto? Será que ela era como ele? Kylie olhou para Miranda e pensou que a amiga podia ter morrido se Ruivo não tivesse interferido.
— Vocês dois! — Burnett disse, apontando para os dois homens ajoelhados no chão. — Venham comigo.
Eles se levantaram devagar. Então o mais alto, aquele para quem Ruivo tinha apontado, saltou pela janela fechada. A vidraça se estilhaçou, lascas de madeira voaram para todos os lados e então ele se foi. Burnett e Lucas foram atrás dele.

4 comentários:

  1. Cara nunca na minha vida tive tão confusa. To quase querendo que ela fique com o Ruivo... Sério, e isso ta me assustando. Melhor livro ever

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  2. Hehehe... Sinto o mesmo, estou muito confuso.

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  3. eu acho que sei quem é a mãe do ruivo

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  4. MDS do céu, agora tudo faz sentido. Gente tô pasma, já sei o final do livro

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