8 de outubro de 2016

Capítulo 33

— Sentem-se! — A ordem do senhor Yates ecoou pela sala. — Podem se matar outra hora, não na minha aula.
Kylie voltou a se virar para a frente, surpresa ao ver que o professor suspeito não tinha deixado a loba levar vantagem sobre ela.
A tensão no ar ainda era palpável quando ele começou a aula. Olhando para a frente, Kylie se perguntava se Fredericka não furaria suas costas com um lápis.
Mas nada aconteceu. O senhor Yates começou a explicar que a adrenalina podia aumentar a força dos seres humanos e que isso, em parte, explicava como os sobrenaturais adquiriam seus poderes. Suas habilidades como professor estavam acima da média, e ele mantinha todos os alunos atentos às suas palavras. Até Kylie descobriu que era difícil não prestar atenção à aula. No entanto, os instintos dela lhe diziam que ele não estava ali para ensinar. E, considerando o aviso de Hannah de que o assassino estava por perto, Kylie não se permitiu baixar a guarda.
Sua necessidade de se manter atenta atingiu o auge quando a aula terminou e ela, a meio caminho da porta, ouviu-o limpar a garganta.
— Kylie, você tem alguns minutos?
Kylie congelou, ainda de costas para ele. Della, que também suspeitava do professor, aproximou-se de Kylie e sussurrou:
— Vou ficar na porta, te esperando.
Apertando seus livros contra o peito e lembrando-se de que o homem de mais de um metro e oitenta de altura podia ser um assassino serial, ela voltou a entrar na sala com cautela.
— Algum problema? — A imagem das três garotas mortas, seus corpos se decompondo na cova, surgiu na sua tela mental. Que tipo de facínora faria aquilo?
— Não... bem, sim. Como protetora, você não deveria arranjar briga com uma loba.
— Foi ela que começou — disse Kylie, percebendo quanto seu comentário parecia infantil. Mas aquele homem lhe dava arrepios e trazia à tona o pior que existia dentro dela.
A preocupação dele era “tocante”, mas ela suspeitava que havia alguma coisa por trás.
— É só isso?
— Sinto que nós começamos com o pé esquerdo. — Sinceridade, uma boa dose dela, fluía dele, mas Yates não convenceu Kylie nem por um segundo. Se uma pessoa cruel e sem consciência podia mentir para um vampiro, também podia simular emoções. Ele continuou: — Eu gostaria que você confiasse em mim.
Será que ele tinha falado a mesma coisa para Hannah e as outras garotas? Será que tinha feito com que confiassem nele e depois as estrangulara até a morte? Kylie podia jurar que ele tinha olhado para a garganta dela.
Um calafrio transpassou sua espinha. Ela ouviu o barulho dos outros campistas deixando o prédio. Della ainda estaria do outro lado da porta? Se ela gritasse, a amiga conseguiria socorrê-la a tempo?
— Eu não sou de confiar fácil nas pessoas — disse Kylie.
— Eu tive mesmo essa impressão. — Ele deu um passo na direção dela.
Kylie deu um passo para trás, a presença dele fazendo-a prender a respiração.
— Sabe o que mais eu não costumo fazer? — O coração da garota martelava de medo, mas ela lutou para não demonstrar.
Ele entrelaçou os dedos. Ela não conseguiu deixar de pensar se ele se lembrava de como se sentira ao usar as mãos para matar.
— O quê? — ele perguntou.
— Deixar que machuquem alguém que eu amo. — Kylie apurou os ouvidos e percebeu que nenhum som vinha do corredor. O único barulho que ecoava nas paredes recém-pintadas era o assobio do ventilador de teto.
Della teria ido embora?
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Do que você está me acusando?
— O que você fez? — Kylie encheu os pulmões de ar e prendeu a respiração.
— Nada.
Mentiroso! Ela podia sentir, senti-lo escondendo a verdade.
— Como eu disse, não sou de confiar fácil. — Ela virou as costas e, a cada passo, esperou que ele a agarrasse por trás, apertasse as mãos em torno do seu pescoço, tirando a vida dela como tinha feito com as outras.
Três dias depois, após ter de enfrentar outra aula de Hayden Yates e incapaz de pensar em nada que não fosse a ameaça que esse homem representava para Holiday, Kylie seguiu às pressas para o escritório. Burnett e Holiday estavam discutindo de novo; ela ouviu tudo o que falavam antes de chegar à varanda, mas não se importou.
Bem, na verdade ela se importava, só não o suficiente para aquietar o alarme que soava dentro dela. Hayden Yates estava escondendo alguma coisa. E provavelmente era um assassinato. E até que Kylie pudesse convencer Burnett e Holiday disso, a vida de Holiday corria perigo.
Entrando sem bater no escritório da líder do acampamento, Kylie bateu a porta atrás de si.
— Eu não gosto dele!
— Nem eu! — rosnou Burnett.
Holiday desviou os olhos de Kylie e olhou para Burnett.
— Vocês dois não estão nem falando da mesma pessoa.
Kylie olhou para Holiday, em busca de uma explicação. Exigindo uma explicação.
— Blake se ofereceu para ajudar na investigação do desaparecimento de Hannah. Ele foi a última pessoa que a viu viva, por isso acho que devemos aceitar a ajuda dele.
— Um suspeito ajudando na investigação; isso faz tanto sentido quanto fritar sorvete.
Holiday apoiou os cotovelos sobre a escrivaninha.
— Você não conseguiu encontrar nada que prove que ele é culpado.
— Ele dormiu com a sua irmã! — Burnett gritou.
— Culpado de cometer assassinato, não de não ter caráter!
— E eu estou dizendo a vocês — insistiu Kylie. — Hayden é culpado.
— Não há provas — disseram ao mesmo tempo.
— Ele não demonstra suas emoções. Toda vez que abre a boca para falar alguma coisa, só fala meias verdades. Eu sinto isso.
Burnett balançou a cabeça.
— Eu investiguei a vida dele tão a fundo que posso praticamente dizer que dia deixou de usar fraldas.
A cadeira de Holiday rangeu.
— Kylie, se Hayden quisesse me ferir, ele já teria tido muitas oportunidades. Eu o entrevistei pela primeira vez quando estava fora de Shadow Falls, cuidando do enterro da minha tia. Éramos só nós dois.
Kylie franziu a testa.
— Não importa. Eu ainda...
— Vocês dois estão errados — Holiday insistiu. — Blake não matou Hannah, nem Hayden. E, se continuarem tão obcecados com eles, nunca encontraremos o assassino. E talvez nunca encontremos os corpos de Hannah e das duas garotas.
Os olhos de Burnett brilharam e Kylie pôde ler a sua mente. A preocupação dele não era encontrar os corpos; era proteger Holiday. O aviso de Hannah parecia iminente e Burnett sentia isso também.
— Onde, diabos, está Hannah quando precisamos dela? — Burnett lamentou, com rispidez. Ele olhou para Kylie. — Você não a tem visto nem sentido? Nada?
Kylie deixou-se cair no sofá.
— A última vez foi quando ela viu Blake aqui no escritório.
— Estão vendo? — esbravejou Burnett. — Ela provavelmente descobriu que pegamos o desgraçado.
— Eu não acho. — Kylie quase temia discordar de Burnett quando ele estava nesse estado de ânimo, mas lhe parecia crucial convencê-los com seus argumentos. — Ela não parecia achar que estava tudo resolvido quando se foi.
Ele cruzou os braços sobre o peito largo.
— Será que não podemos ter uma sessão espírita? Dar as mãos e evocar Hannah?
— Uma sessão espírita? — Holiday revirou os olhos. — Você tem muito que aprender sobre espíritos.
— Eu não estou nem um pouco preocupado em aprender sobre espíritos. Só quero que Hannah apareça e me diga de uma vez por todas quem ela acha que quer ferir você.
Na sexta pela manhã, Kylie tinha se esquivado do café da manhã e fugido da Hora do Encontro. Ela quase chegou atrasada para a aula de inglês.
Obviamente, Burnett não era o único que precisava aprender sobre os espíritos. Kylie também não sabia o suficiente, pois, embora tivesse sentido a presença de Hannah nos últimos dias, e outra vez pela manhã, o espírito não se manifestou. Kylie tentou atraí-la da maneira como Holiday a aconselhara. Não adiantou. Ela chegou a implorar. Nada.
Sentada na sua carteira, ela apalpou o bolso da calça para ter certeza de que trouxera o celular. A leve protuberância em seu bolso a tranquilizou. Talvez ela estivesse sonhando, mas esperava que Lucas ligasse ou pelo menos lhe mandasse uma mensagem. Mas até o momento, nada. Isso a magoava.
Na frente da sala, a senhorita Kane começou a falar sobre escritores famosos e os livros que os alunos deveriam ler nas primeiras seis semanas. Quem sabe Jane Austen e tantos outros fossem sobrenaturais? Kylie com certeza não sabia.
Intrigada com a conversa, Kylie mal notou o barulho quando ele começou. Era só uma batidinha leve, com se alguém estivesse do outro lado de uma porta, querendo entrar. A batidinha foi ficando mais alta. Confusa, ela olhou ao redor e, estranhamente, ninguém mais parecia estar ouvindo nada.
Sentindo uma estranha vibração, ela olhou para a frente outra vez. Quando o barulho ficou mais alto, um leve movimento à direita da professora chamou a atenção de Kylie. A porta de uma dispensa atrás da senhorita Kane sacudiu nas dobradiças, revelando de onde vinha o barulho.
Olhando para a direita e para a esquerda, ela rezou para ver alguém, qualquer pessoa, percebendo como ela a óbvia interrupção.
Nada.
Então o frio típico dos fantasmas arrepiou os pelos dos braços de Kylie. Uma nuvem de vapor flutuou de seus lábios, prejudicando a sua visão. A senhorita Kane disse algo, mas Kylie não conseguiu ouvir sobre o barulho ensurdecedor.
— Kylie? Kylie? — Alguém chamou seu nome.
— O quê? — Kylie não conseguia pensar.
Forçando-se a olhar para a frente, Kylie viu a professora olhando para ela como se esperasse uma resposta. Kylie tentou falar, mas só conseguiu balbuciar algo, sem que nem uma palavra inteligível deixasse seus lábios trêmulos. Então ela viu. Vapor, muito vapor, esgueirando-se de debaixo da porta da dispensa.
Droga! Droga! Aquela não era uma visita normal de um espírito. Era mais como o início de uma visão.
Aquele pensamento fez com que a sua pele arrepiada se enchesse de brotoejas. Não porque as visões a enchessem de pavor, mas porque elas geralmente acabavam com Kylie inconsciente ou, pior do que isso, balbuciando coisas sem sentido.
Não aqui!, implorou Kylie. Não na frente de 25 campistas. Ela sentiu um toque gelado no ombro. Olhou para trás. Uma mulher, a pele pálida acinzentada, com escuros círculos sob os olhos no mesmo tom, fitava Kylie.
— Ela precisa ver você. — O espírito usava uma camisola branca e seus longos cabelos castanhos caíam soltos sobre os ombros. A mulher levantou uma mão e apontou para a porta da dispensa, na frente da classe.
— Quem é você? — Kylie perguntou, notando que tinha se esquecido de falar apenas mentalmente.
Todos os alunos estavam agora com os olhos colados nela. Kylie mal conseguia coordenar os pensamentos. E estava tão frio! Seus membros estavam até entorpecidos.
— Quem está aí? — ela perguntou.
A distância, como o ruído de estática, Kylie ouviu os outros falando. Outra pessoa a chamou pelo nome, talvez Della, e então ela pensou ouvir Derek, mas nada do que ela ouvia, ou sentia, parecia normal.
— Ela precisa falar com você.
De repente, percebendo que poderia ser Hannah atrás da porta, Kylie obrigou-se a ficar de pé e andar até a dispensa. Mesmo determinada, ela detestava ter que fazer isso na frente de todo mundo. Mas que escolha ela tinha? Seus joelhos vacilaram quando ela se aproximou da porta.
Ela viu a senhorita Kane atrás dela, do outro lado da sala, o medo tornando sua pele mais pálida.
Kylie entendia perfeitamente. Ela também estava morta de medo.
Ela estendeu a mão na direção da maçaneta. Antes de tocá-la, um punho atravessou a madeira da porta. A mão de um esqueleto agarrou a frente da camiseta de Kylie e puxou-a através da porta destruída da dispensa. E, no entanto, não era mais uma dispensa.
O lugar sombrio e abafado cheirava a terra, mato e morte.
Kylie gritou. Forte. Alto.
— Kylie? Kylie? — As vozes ecoaram a distância e depois desapareceram. Agora, o único som que ela ouvia além dos próprios gritos era o tinir de metal batendo contra metal.
Ela estava deitada de costas no chão. Grãos de terra caíam em sua face, vindos de cima. Ela queria limpar o rosto, mas os braços estavam presos na lateral do corpo. Mesmo antes de abrir os olhos, ela sabia onde estava.
Na cova – ela estava na cova com Hannah e as outras garotas.
E alguma coisa lhe dizia que ela talvez nunca conseguisse sair dali.

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