4 de outubro de 2016

Capítulo 32

— O que eu sou? — perguntou Kylie, agarrando o braço do Della. — Eu preciso saber. — Mas que inferno! Ela estava esperando a resposta há meses. — Por favor, Della!
— Você... — Della balançou a cabeça. — Você é humana. Cem por cento humana.
— Não tem graça — Kylie queria acreditar que Della estava brincando, mas o olhar no rosto da amiga dizia o contrário. Mas como ela poderia ser humana depois de tudo o que tinha acontecido? Lembrou-se de ter chorado na noite anterior e dizer a Della que sentia falta de ser humana. Sentia falta de ser normal. E se ela tivesse desejado que aquilo acontecesse?
Kylie atravessou a porta do refeitório e correu o mais rápido que pôde para o escritório.
Nem mesmo a porta fechada da sala de Holiday a deteve. Ela entrou sem pedir licença. Burnett e Holiday se afastaram de repente como se... estivessem se beijando! Ai, meu Deus! A imagem do que tinha visto por um segundo ficou gravada na mente de Kylie.
Burnett e Holiday estavam mesmo se beijando. Em outro momento, Kylie teria gritado de alegria.
Mas não naquele.
— Nós estávamos... Só estávamos... — Holiday gaguejou.
Kylie não se importou. Seu coração batia forte. Sua mente tentava encontrar um sentido para o fato de ela ser totalmente humana. Como era possível?
O que isso significava?
Mesmo fazendo a si mesma essas perguntas, ela sabia a resposta para a última. Ser humana significava deixar Shadow Falls. Holiday. Burnett. Miranda. Della. Lucas. Derek. Perry. Jonathon e Helen. Todos eles. Isso significava se afastar para sempre de sua nova vida.
Lágrimas inundaram seus olhos.
— O que aconteceu? — Holiday perguntou.
Significava nunca ajudar outra alma perdida. Significava voltar à sua antiga vida, à qual ela nunca sentiu que pertencesse.
Ok, ela tinha sentido falta da sua antiga vida. Mas isso era passado. Agora ela sabia com certeza absoluta que iria sentir muito mais falta da sua vida nova.
Naqueles últimos meses, por piores que tivessem sido, ela estivera mais perto de conhecer seu verdadeiro eu do que jamais estivera antes. Talvez ela ainda não soubesse o que era, mas, de muitas maneiras, sabia, mais do que antes, quem era.
— Kylie? O que foi? — Holiday insistiu.
— Que droga significa isso? — Ela apontou para a testa.
Holiday e Burnett olharam para ela e franziram as sobrancelhas. O choque que ela viu nos olhos de ambos não ajudou a diminuir sua confusão. E o nó na garganta cresceu até ficar do tamanho de um sapo.
Trinta minutos depois, Kylie ainda estava sentada no sofá de Holiday, os joelhos contra o peito, a testa apoiada neles. E estava se sentindo seca de tanto chorar.
A líder do acampamento estava sentada ao lado dela. Sua mão pousada sobre as costas de Kylie enviava ondas de calma para ela, mas não afugentava o medo que crescia em seu peito. Ela mesma tinha causado aquilo. Tinha atraído aquilo para si mesma. Ela de algum modo tinha usado um poder que não sabia que tinha e voltado a ser humana. Seria irreversível?
Kylie levantou a cabeça.
— Eu não queria fazer isso.
— Fazer o quê? — Holiday perguntou.
Kylie sentiu a garganta raspando.
— Della e eu estávamos conversando sobre como queríamos... queríamos ser humanas novamente. Que sentíamos falta de sermos normais e... — Sua respiração ficou presa. — E eu realmente sinto falta, mas agora está claro que eu iria sentir muito mais falta desta vida nova. Eu não quero ser humana, Holiday.
Os olhos de Holiday se encheram de solidariedade e ela sorriu.
— Eu não sei o que está acontecendo. Não entendo isso. Mas se há uma coisa de que tenho certeza é que você não é humana, Kylie. Bem, pelo menos não só humana.
— Mas e se os anjos da morte estiverem tentando me dar uma lição? E se estiverem chateados comigo por eu ter sido ingrata e esse é o meu castigo?
Holiday balançou a cabeça.
— Eu nunca ouvi falar que os anjos da morte transformam sobrenaturais em seres humanos para castigá-los. E, acredite, não existe um sobrenatural que não tenha momentos em que deseje ser humano. Isso é perfeitamente normal.
— Sério?
— Claro! Vivemos num mundo humano. A grama sempre parece mais verde do outro lado da cerca. A verdade é que às vezes é mais verde. Mas nós não podemos mudar o que somos simplesmente desejando mudar.
Kylie concordou com a cabeça.
— Então você acha que isso é só uma coincidência?
— Eu não sei. Mas, se eu fosse dar um palpite, diria que isso vai mudar assim como já mudou inúmeras outras vezes.
— Não vou ter nenhum poder até que o padrão volte a mudar?
A pergunta pareceu intrigar Holiday.
— Eu... Espere! Você ainda pode me sentir tentando influenciar suas emoções? — Holiday pousou a mão no ombro de Kylie.
Ela sentiu o calor irradiando do toque de Holiday através de sua blusa e fluindo para a sua pele. Então o calor pareceu formar uma bolha que flutuou para o peito de Kylie, onde se transformou numa suave onda de emoção.
— Sim — disse Kylie.
— Então eu diria que nada mudou.
— Então os humanos não podem sentir o seu toque?
— Não.
Kylie suspirou e encontrou um pouco de paz interior. Então olhou para Holiday.
— Você acha que um dia eu vou descobrir o que sou?
— Claro que você vai! — Holiday fez uma pausa. — Eu não quero afirmar porque não é uma coisa certa, mas Burnett me disse que os Brightens verdadeiros, na Irlanda, confirmaram suas reservas de passagens de avião e estarão de volta aos Estados Unidos em meados de setembro.
O coração de Kylie deu um salto.
— Será que eles sabem de mim?
— Não que saibamos. Burnett fez alguns testes no número do telefone que os falsos Brightens usaram para falar com o detetive. Não era o telefone deles. A chamada foi feita de um telefone celular que chamam de descartável. Não é possível rastreá-lo.
— Mas Burnett sabe como chegar ao Brightens agora? Eu podia ligar pra eles, não podia?
Holiday franziu a testa.
— Eu não acho que isso seja algo que você queira falar por telefone, Kylie.
Holiday estava certa, mas Kylie estava cansada de esperar. Ela massageou os próprios ombros e desejou que Burnett ainda estivesse ali. Ele tinha saído logo depois que ela começara a chorar. Ela não tinha certeza se ele estava assustado com as lágrimas ou com medo de ela lhe perguntar o que tinha visto quando entrou na sala.
Kylie olhou para Holiday.
— Então... Você e Burnett?
Holiday revirou os olhos.
— Foi apenas um beijo, Kylie. Nada demais.
Kylie deixou um leve sorriso pairar nos lábios. Neste momento, ela precisava muito de uma boa notícia.
— Foi bom?
— Apenas um beijo e... um erro. Nós estávamos falando sobre Perry e Miranda, sobre como eles ficam fofos juntos... O clima de romantismo nos contagiou e... Definitivamente foi um erro.
— Por que, Holiday? Por que você não pode dar uma chance ao cara?
Holiday franziu a testa.
— A única razão que me levou a deixar isso acontecer foi... que eu estava com a guarda baixa, porque... — Kylie viu sombras de dor nos olhos da amiga.
— Você está com medo que Burnett seja o vampiro no caixão?
Ela confirmou com a cabeça.
— O que significa que você se preocupa com ele. Não consegue ver isso?
— Eu me preocupo, mas se preocupar com alguém não é suficiente. E nós trabalhamos juntos. Romance e trabalho nunca combinam muito bem.
— Poderia combinar se você quisesse muito.
— Então eu acho que não quero tanto assim — Holiday disse com firmeza. Mas Kylie sabia que era mentira.
E suspeitava que Holiday sabia, também.
Elas ficaram sentadas em silêncio por alguns minutos.
— Sobre a visão do funeral... — Kylie disse.
— Sim?
— Eu acho... Quer dizer, há uma chance de eu ter dado um jeito nisso.
Holiday a fitou.
— Dado um jeito em quê?
Kylie não achou certo dizer a Holiday que Ellie ia fugir.
— Eu posso ter feito algo que tirou essa pessoa do perigo. Então, talvez um vampiro não vá morrer.
Holiday franziu a testa.
— Eu adoraria pensar que isso é verdade. Mas você não pode mudar o destino.
Kylie lembrou-se que aquelas tinham sido as palavras que o fantasma tinha sussurrado, mas ela se recusava a acreditar.
— Então talvez não fosse realmente o destino — ela disse.
— Eu gostaria de poder acreditar nisso — Holiday disse.
— Eu acredito. — Mas havia uma parte dela que duvidava.
E quando ela se permitiu pensar nisso, ficou deprimida.
O telefone de Holiday tocou. A líder do acampamento pegou o aparelho, olhou para o identificador de chamadas com ar de interrogação e, em seguida, atendeu.
— Alô? — Holiday perguntou, e então olhou para Kylie. — Ela está bem — Holiday fez uma pausa. — Vou dizer a ela. — Desligou e fitou Kylie nos olhos. — Era Derek. Ele queria dizer que, se você precisar conversar, pode procurá-lo. Como amigo. Insistiu que eu acrescentasse essa última parte.
Kylie acenou com a cabeça e seu peito se encheu de emoção.
Bateram na porta. Holiday olhou para Kylie.
— Está esperando alguém? Derek não é o único preocupado com você.
Kylie negou com a cabeça.
— Entre — Holiday disse. Della e Miranda apareceram no escritório, os olhos cheios de preocupação. Atrás delas vieram Lucas, Perry, Helen e Jonathon.
— Eu estou bem — Kylie disse a eles, mas mais lágrimas inundaram seus olhos. Lágrimas porque sabia que essas pessoas não eram apenas seus amigos. Eram sua família.
— Nós amamos você — disse Miranda, com os olhos lacrimejando. — E queremos que saiba que não importa o que você é.


Mais tarde naquela noite, Kylie recebeu outro sinal de que seu padrão cerebral humano não tinha mudado as coisas. A princípio, ela pensou que era apenas um sonho. Estava olhando Jane Doe descansando na cama, passando as mãos sobre a barriga redonda, e olhando para o homem que dormia ao seu lado.
— Eu te amo — ela sussurrou. — Mas tenho que fazer isso.
Então as coisas mudaram e Kylie era Jane. Ela deslizou silenciosamente para fora da cama. Sentia seu corpo desajeitado com o peso da barriga. Seu coração estava dilacerado. Kylie não se lembrava de ter sentido tanta tristeza, como se estivesse prestes a perder o que tinha de mais precioso na vida.
Ela saiu do quarto escuro, olhou para trás mais uma vez, na direção do homem adormecido. Quem quer que fosse, Jane o amava.
— Sinto muito. — As duas palavras saíram da sua boca num sussurro. O homem se virou de lado e Kylie viu seu rosto de relance. Pele pálida, cabelos grossos e castanhos – não, na verdade, castanhos avermelhados.
Alguma coisa no rosto dele fez com que Kylie quisesse continuar contemplando-o, mas ela não tinha nenhum controle sobre o que acontecia nessas visões. Revivendo o passado de Jane Doe, ela se voltou para a porta e saiu do cômodo. Foi até um armário, pegou um longo casaco preto e o vestiu. Depois pegou uma mala de aparência antiga, sem rodinhas. O peso da mala, em acréscimo ao da barriga, tornou seu andar ainda mais desajeitado.
Por que você está abandonando esse homem se o ama? A pergunta fluiu da mente de Kylie, mas a visão continuou, deixando a dúvida no ar.
Agora com lágrimas escorrendo pelo rosto, Jane caminhou para fora da humilde casa. Um carro com os faróis apagados encostou no meio-fio. Ela entrou. Kylie queria ver quem estava dirigindo, mas Jane estava muito ocupada chorando, sentindo a dor do seu coração partido, para se preocupar com o motorista.
— Você está fazendo a coisa certa — disse uma voz feminina quando o carro arrancou. — Ele não entenderia.
Tudo ficou escuro. Kylie tentou acordar, mas a visão a puxou de volta.
E não foi para um lugar agradável.
Havia luz agora, mas ela não se importava. Estava sofrendo demais. Alguma coisa estava rasgando suas entranhas. A sensação lembrou a Kylie a pior das cólicas menstruais que já teve. Seu corpo contorcia-se de dor. Suas costas arquearam e ela gritou.
— O bebê não está vindo! — disse alguém. A dor em seu abdome diminuiu e ela se deu conta da dor emocional em seu peito novamente.
— Não deixem meu bebê morrer! — Ela levantou o tronco, apoiando-se no cotovelo.
O homem de pé entre seus joelhos abertos olhou Jane Doe nos olhos.
— Eu teria que fazer uma cesariana.
— Então faça! — Jane gritou.
— Não estou preparado para isso. Não tenho anestesia.
— Eu não me importo — disse Jane. — Não deixe meu bebê morrer. Eu aguento. Não é como se eu fosse humana.
O homem olhou para a mulher ao lado dele.
— Passe o bisturi.

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