8 de outubro de 2016

Capítulo 31

— O quê?! — Blake desviou os olhos para Burnett e Kylie e depois voltou a fixá-los em Holiday. A descrença transpareceu em seus olhos e irradiou-se dele em ondas. — Hannah está morta?
Kylie tentou ouvir o batimento cardíaco de Blake, mas, como não era mais uma vampira, tudo o que ela pôde fazer foi detectar as suas emoções. Blake parecia sincero, mas será que ela podia confiar nele?
— Responda, droga! — Holiday bateu as palmas das mãos com força no peito dele. Suas emoções eram uma mistura de dor e um sentimento de traição.
Burnett colocou-se ao lado de Holiday e puxou-a delicadamente para trás, mas seus olhos estavam verdes brilhantes e encaravam Blake com uma expressão de advertência.
Blake expirou, demonstrando toda a sua frustração.
— Vocês estão acusando o vampiro errado! É tão injusto!
— Não tão injusto assim! — retrucou Holiday. — Hannah me contou que você ficou furioso quando ela disse que planejava me contar a verdade.
— Claro que eu fiquei furioso! Nós íamos nos casar. Eu amava você. Ela me disse que, se eu aparecesse no meu próprio casamento, ela interromperia a cerimônia.
— Você a matou? — Holiday perguntou, exigindo resposta; sua angústia impregnando o próprio ar que Kylie respirava.
Blake fitou Holiday, a dor se irradiando dele.
— De todas as pessoas no mundo, você é a que mais me conhece. Realmente acha que eu mataria Hannah?
— O que eu acho não significa droga nenhuma! — sibilou Holiday. — Eu não achava que você poderia dormir com a minha irmã, mas você fez isso.
— Estávamos bêbados e... eu só tinha saído com você algumas vezes. Foi um grande erro. E, então, quando vi, estava apaixonado por você. Eu ainda sou apaixonado por você. E, sim, eu queria contar tudo, mas estava com medo. A princípio, Hannah agiu como se nada tivesse acontecido, então eu me convenci...
— ... de que poderia deixar tudo como estava? — Lágrimas toldaram os olhos de Holiday.
— Não, eu me convenci de que um único erro não impediria duas pessoas que se amavam de serem felizes juntas!
— Basta! — Burnett se aproximou e agarrou Blake pelo braço. — Você vem comigo.
Blake soltou seu braço e os dois homens se encararam.
— Ainda não. — Holiday olhou para Burnett. — Eu quero conversar com ele.
— Já conversou — Burnett rebateu.
— A sós. Quero conversar com ele a sós — ela repetiu.
Todo o corpo de Burnett enrijeceu. O ciúme era evidente.
— Ele pode ser um assassino serial, Holiday, que entrou em Shadow Falls ilegalmente. Eu preciso levá-lo à UPF.
— Assassino serial? — Os olhos de Blake adquiriram um tom defensivo. — Eu não fiz mal a Hannah nem a ninguém.
— Isso é o que todos dizem — atacou Burnett, tentando agarrar seu braço novamente.
O homem se esquivou, seus olhos cada vez mais ardentes.
— Qual o seu problema? — Blake vociferou para Burnett. — Tem medo de que ela ainda sinta algo por mim?
Holiday deu um passo para a frente, pousou a mão no braço de Burnett e falou com sinceridade:
— Burnett não tem motivo para temer. De você eu só quero a verdade, Blake, só isso. E depois quero que você volte para o buraco onde se escondeu esse tempo todo. — Ela acenou firmemente com a mão para que Burnett e Kylie saíssem.
A linguagem corporal e as emoções de Burnett indicavam o que ele estava pensando da ideia. Mas algo dizia a Kylie que Holiday precisava desse tempo sozinha com Blake, e Burnett precisava conceder isso a ela.
Kylie tocou o braço de Burnett, sentindo um fluxo quente partir do seu braço, e viu a expressão dele se suavizando. Ele olhou para trás, na direção de Holiday, e depois seguiu até a porta. Kylie olhou para Blake. E nesse instante, seus instintos lhe disseram que ele não era o assassino de Hannah.
Mas, se não era ele, quem era? Então Kylie mais uma vez se lembrou de Hannah afirmando que o assassino estava ali, em Shadow Falls. Kylie não pôde deixar de pensar outra vez em Hayden Yates. Não importava sequer que Burnett não tivesse encontrado nada errado no passado do professor; ela não confiava naquele cara. E também não ia, em hipótese alguma, baixar a guarda no que dizia respeito a ele.
Burnett não se afastou mais de alguns metros da porta. Kylie concluiu que ele estava ouvindo cada palavra dita na outra sala. Sua preocupação era pela segurança de Holiday, é claro, por isso não se tratava, na verdade, de uma invasão à privacidade. Pelo menos era nisso que Kylie queria acreditar.
Ela não conseguia ouvir a conversa, mas, por mais que lhe parecesse constrangedor ouvir a conversa dos outros, sua própria necessidade de proteger Holiday a levava a desejar exatamente isso agora.
— Blake está falando a verdade? — Kylie perguntou, imaginando se as emoções que ela captava de Blake eram tão reveladoras quanto o seu batimento cardíaco.
Burnett olhou para ela por sobre o ombro.
— Quanto a quê?
— Quanto a não ter matado Hannah.
— Não importa — ele respondeu, mal-humorado, e voltou a encarar a porta.
— Não importa? — Kylie estranhou.
Ele negou com a cabeça.
— O coração pode mentir. As pessoas mal-intencionadas, sem consciência, não têm dificuldade para mentir.
Kylie lembrou-se de Della lhe dizendo isso ao chegar em Shadow Falls. Mas, por mais que Kylie quisesse acreditar que Blake fosse o homem que procuravam, ela não sentia que ele fosse mal-intencionado.
— Não sei se isso ajuda, mas eu sinto que as emoções dele são sinceras.
— Você está se referindo a quando ele disse que ainda a ama? — O ciúme de Burnett era quase palpável.
Kylie engoliu em seco.
— Estava me referindo ao seu choque ao saber que Hannah está morta, mas... a isso também.
Burnett fechou os olhos e pressionou a mão contra a porta.
— Mas Holiday também estava sendo sincera quando disse que tudo o que ela queria dele era a verdade. Ela não o ama, Burnett.
Ele olhou novamente para Kylie, a tristeza irradiando dos seus olhos.
— Mas amava.
— E isso é importante?
— É, na medida em que fez com que ela passasse a evitar qualquer pessoa que se aproxime dela — ele explicou. Então o vampiro fez uma pausa, mudando de assunto. — Eu não concordo com a decisão de Holiday de retirar suas sombras.
— Eu sei — disse Kylie. — Mas, me diga, você conseguiria andar com uma sombra ao seu lado o tempo todo?
Ela o viu se contendo e sentiu sua resposta emocional. Ele não toleraria uma sombra em seus calcanhares nem por um único dia.
De repente, o ambiente ficou frio. O frio típico da visita de um fantasma. Então Hannah apareceu ao lado de Burnett; sua presença veio acompanhada de uma espessa onda de pânico.
— Ele está aqui! Ele está aqui! Você tem que detê-lo! Ele vai tentar matá-la! — ela gritou para Burnett.
— Quem está aqui? — perguntou Kylie.
Burnett não esperou a resposta. Irrompeu pela porta do escritório de Holiday, sem se dar ao trabalho de abri-la. Arrancada das dobradiças, a porta veio abaixo com um estrondo. Burnett passou por cima da madeira estilhaçada e encarou Blake.
Com a porta fora do caminho, Kylie assistiu à cena na outra sala.
Blake, já de pé, fitava Burnett com fúria.
Holiday, ainda sentada à escrivaninha, exibia uma expressão de choque. Só então ela se levantou da cadeira, provando como eram lentas as reações dos faes em comparação com as dos vampiros.
Burnett, com as duas mãos em punho na lateral do corpo, vociferou para Blake:
— Ou você vem comigo do jeito mais fácil ou vai ter que vir pelo jeito mais difícil. — Sua ameaça era sincera. — Para mim tanto faz.
O olhar de Kylie desviou-se para o fantasma. Hannah estava paralisada, pasma diante da cena que se desenrolava à sua frente. Uma terrível aura marrom a cercava. Embora morta, uma camada de emoções se agitava sob a sua rigidez cadavérica. Vergonha – uma vergonha imensa se avolumava dentro dela. Então Kylie sentiu a surpresa de Hannah. Estranhamente, todo o pânico e medo que ela demonstrara inicialmente tinham desaparecido.
Alguma coisa estava errada. Era como se Hannah nem soubesse que Blake estava ali. Mas, se ela não sabia que o vampiro estava presente, então como ele poderia estar causando nela todo aquele pânico?
— Você está falando de Blake? — Kylie perguntou a Hannah rapidamente.
Nenhuma resposta.
— Hannah? — repetiu Kylie. Mas o fantasma tinha ido embora.
— O que está acontecendo? — Holiday perguntou a Burnett novamente, e os olhos de Kylie se fixaram nas três pessoas na sala.
Blake olhou de volta para Holiday.
— Eu não fiz nada. Provavelmente não mereço outra chance com você, mas com certeza não mereço isso. — Ele se voltou para Burnett. — Eu vou com você, responderei a todas as suas perguntas, mas, se encostar a mão em mim, eu te mato.
E pelas emoções que o homem irradiava, sua ameaça era tão sincera quanto a de Burnett.


A preguiçosa tarde de domingo tinha transcorrido com muita frustração pairando no ar. Miranda estava frustrada porque havia uma nova metamorfa de olho em Perry. Holiday estava frustrada porque... bem, como se perder a irmã pela primeira vez não tivesse sido suficiente, agora seu espírito se negava a aparecer novamente. Burnett estava frustrado porque não conseguia encontrar nenhuma prova contra Blake e por isso não podia prendê-lo.
Kylie estava frustrada por causa de todo desastre que era a sua vida.
A única que não estava com um humor sombrio era Della, e Kylie, embora agora fosse uma fae capaz de ler emoções, não sabia direito com que humor ela estava; só sabia dizer que havia algo errado. A garota estava seguindo Kylie como um filhotinho perdido.
Mesmo agora, enquanto checava os seus e-mails, Kylie sentia Della espiando por cima do seu ombro. Kylie se virou e franziu a testa.
— O que foi?
— O que foi o quê? — perguntou Della.
— Você está lendo os meus e-mails por cima do meu ombro. Por que, se você nem é mais a minha sombra agora?
— Eu não estou bancando a sua sombra. E não sabia que os seus e-mails eram tão particulares — retrucou Della.
Nesse instante, Kylie sentiu uma onda de ansiedade vindo da vampira, acompanhado de um sentimento de tristeza e depois de raiva. As emoções de Della estavam se espalhando por todo o cômodo.
— O que há com você? — Kylie perguntou.
— Nada! — respondeu Della, deixando-se cair numa cadeira da cozinha.
Kylie voltou a atenção novamente para os seus e-mails e clicou em “atualizar”. Nenhum e-mail novo. Nenhum de...
— Você está esperando receber alguma coisa do seu avô, não está? — perguntou Della.
Kylie olhou por sobre o ombro.
— Talvez, por quê?
Della fechou a cara.
— Você vai morar com ele, não vai? Vai embora de Shadow Falls.
A pergunta cortou como uma faca o peito de Kylie. Como ela poderia explicar a Della que deixar o acampamento era a última coisa que ela queria fazer? No entanto, uma parte dela dizia que talvez essa fosse a única maneira de descobrir quem ela era.
Depois de ver a expressão de choque nos rostos dos campistas, ao constatarem o seu novo padrão fae, uma parte de Kylie ansiou por estar entre pessoas que não a julgassem. E quanto mais rápido ela aprendesse a controlar essa mudança de padrão e os poderes que a acompanhavam, mais rápido também poderia voltar a Shadow Falls e realmente se entrosar.
— É por isso que você está assim? — perguntou Kylie.
— É, é por isso. E não pense que não reparei que você não negou quando perguntei.
Kylie escolheu as palavras cuidadosamente.
— Não está nos meus planos fazer isso.
Isso era verdade. Ela ainda estava rezando para que essa não se revelasse a única saída.
— Mas o seu lado fae pensou nisso, não foi? — Della perguntou.
— É, meu lado fae pensou nisso, mas...
— Mas coisa nenhuma! Eu não vou deixar você ir, Kylie. — Lágrimas afloraram nos olhos da vampira. — Eu perdi Lee, perdi meus pais e minha irmã e todos os amigos que eu tinha lá em casa. Você e Miranda são tudo o que eu tenho, e a Senhorita Bruxa está tão obcecada por um certo metamorfo agora que eu não tenho tempo nem para brigar com ela.
Della ficou de pé e secou as bochechas molhadas de lágrimas.
— Já estou cheia de perder as pessoas de que gosto.
Kylie se levantou também.
— Você não vai me perder. — Seus próprios olhos ardiam. Mesmo que tivesse que ir embora, ela voltaria. Ela pertencia a Shadow Falls. Della acabaria compreendendo isso.
A vampira bufou.
— Vou deixar o acampamento na semana que vem para ir... para ir fazer o que tenho que fazer para Burnett. E tudo em que consigo pensar é que você não estará aqui quando eu voltar.
— Eu vou estar... — Kylie finalmente ouviu o que Della disse. — Aonde você vai?
Della franziu a testa.
— Não posso contar.
— Caramba! — Kylie balançou a cabeça, lembrando-se da ansiedade que sentira na amiga. Della estava assustada? Claro que estava, Kylie podia sentir, mas a amiga nunca admitiria. Kylie se aproximou dela e abraçou a vampira. Della não gostou, mas não se afastou. — Seja aonde for que você tenha que ir para Burnett, é bom que não seja perigoso.
— Abraço coletivo! Abraço coletivo! — Miranda gritou, abrindo a porta de repente.
— Não. — Della se retraiu. — Este abraço era só para Kylie — disse ela, tentando parecer durona, mas Kylie percebeu o constrangimento da amiga muito bem. — Vá abraçar Perry. — Della disparou para o banheiro e bateu a porta com violência.
— O que deu nela? Por que está nesse mau humor? — perguntou Miranda.
Kylie revirou os olhos. Então o computador emitiu um bipe, avisando sobre a chegada de um novo e-mail e ela foi verificar. Era da mãe.
Um pensamento atravessou a mente de Kylie como uma lixa. Se ela tivesse que deixar Shadow Falls, o que diria aos pais?
Kylie olhou para Miranda.
— Talvez seja melhor você arranjar uma briga com Della para ela saber que você ainda se importa com ela.


O jantar daquela noite deveria ser muito especial, para celebrar o início do novo ano letivo. Os livros e o horário das aulas já haviam sido distribuídos. Kylie e Della fariam todas as aulas na mesma classe. Miranda estava em duas das cinco aulas de Kylie. Kylie não podia deixar de se perguntar se isso não seria obra de Burnett, para que ela tivesse uma sombra sem se dar conta disso.
Não que ela fosse deixar aquele pensamento estragar a sua noite. Sentada a uma mesa com Della, Miranda, Perry, Jonathon e Helen, Kylie devorava o seu segundo pedaço de pizza. Era bom voltar a saborear comida. Não que a melhora do seu humor tivesse a ver com a pizza de pepperoni de massa fina. Não tinha a ver sequer com o clima de festa ou com a festa propriamente dita, mas com o que ia acontecer depois da festa.
Ela consultou o relógio – só faltavam duas horas.
Nesse mesmo instante, Steve aproximou-se da mesa e se sentou numa cadeira vazia ao lado de Della. Kylie quase sorriu quando viu Della corar.
— E aí? — perguntou Steve.
— Oi, Steve — cumprimentou Kylie, querendo que ele se sentisse bem-vindo. Antes do jantar, Della tinha confessado que Steve supostamente iria acompanhá-la na missão para a UPF.
Della, é claro, tinha reclamado. No entanto, ela não conseguira esconder de Kylie a sua empolgação.
Jonathon e Steve começaram a conversar sobre as aulas. Della pareceu relaxar e Kylie também. Miranda cutucou Kylie com o cotovelo e se inclinou na direção dela.
— Eu acho que ele gosta dela — cochichou no ouvido de Kylie. Mas Della, captando tudo com sua incrível audição, lançou um olhar zangado para a amiga.
— Este é um ano muito importante. — Alguém fez um brinde do outro lado da sala. Todos pareciam estar num humor festivo e, por algum tempo, deixaram de reparar nos padrões de Kylie. Essa provavelmente era outra razão do seu bom humor.
Mas ela mal tinha acabado de comemorar o fato de ninguém estar olhando para ela quando os pelos de sua nuca se eriçaram. Quando ela se virou, Hayden Yates também virou a cabeça para o outro lado. Seu coração deu um salto quando ela viu Holiday próxima a ele, em meio aos campistas. A líder do acampamento, porém, não falava com ele, mas com o tímido professor Collin Warren.
Kylie ainda não gostava de ver Hayden tão perto de Holiday. Ela ficou olhando fixamente para ele e, quando o professor voltou seu olhar para ela, obviamente sentindo-se observado, seus olhares se encontraram. Eu juro que se você machucá-la, vai pagar por isso.
Ele desviou o olhar; Kylie continuou a encará-lo por vários segundos e esperou que ele entendesse a mensagem, porque aquela não era uma ameaça vazia. Era uma promessa.
Só a possibilidade de alguém ferir Holiday já fazia o sangue de Kylie ferver – um sinal claro de que o seu padrão podia ter mudado, mas ela continuava sendo uma protetora.
Talvez algum dia ela fosse capaz de dizer aquilo com um sentimento pleno de orgulho, mas no momento só parecia mais um motivo para ser vista como alguém diferente de todo mundo.
Kylie mal tinha desviado o olhar, quando sentiu outro par de olhos sobre ela, causando-lhe, no entanto, uma sensação bem diferente, que percorreu sua espinha desde os dedos dos pés.
Mesmo estando a vários metros dela, o olhar de Lucas era como uma carícia. Ele piscou para Kylie. Depois relanceou os olhos para o relógio e ela viu que, como ela, ele também contava os minutos até a hora em que iam se encontrar.
— Droga! — Jonathon gritou, fazendo Kylie desviar os olhos de Lucas. — Você se cortou! — Jonathon segurava a mão de Helen, o sangue gotejando da sua mão.
Helen, parecendo um pouco nauseada, tinha uma maçã numa mão e uma faca cheia de sangue em seu colo.
— Tudo bem. — Suas palavras pareciam confiantes. — Não foi tão grave assim, foi?
Jonathon afrouxou o punho em torno da mão dela e deu uma olhada. Seus olhos ficaram brilhantes, sem dúvida por causa do sangue, mas seu ar de preocupação era ainda mais evidente.
— Você vai precisar levar pontos — ele concluiu.
Helen olhou para Kylie.
— Será que você pode dar um jeito nisso?
Kylie prendeu o fôlego. Já fazia algum tempo que ela não pensava nos seus poderes de cura. E nas poucas vezes em que pensara neles, lembrou-se de que não tinham sido suficientes para salvar Ellie. Kylie tinha falhado com Ellie.
— Eu... eu não sei se posso. — Ela fitou os olhos de Helen, viu a dor dentro deles, mas o medo formou um nó em seu estômago, cheio com os dois pedaços de pizza. — Eu não conseguia ter sonhos lúcidos quando era vampira; provavelmente não posso curar enquanto sou fae.
— Mas os faes são conhecidos pelos seus dons de cura — Helen a fez lembrar.
— Ah, é verdade. — Kylie soltou o ar dos pulmões, que fez seus lábios tremularem ao escapar. — E se eu fizer alguma coisa errada? — Ela ainda se lembrava de como ficara devastada quando não fora capaz de salvar Ellie das garras da morte. Olhando as próprias mãos, ela se lembrou de que tinham ficado cobertas com o sangue da garota.
— Você não vai fazer nada errado — afirmou Helen, com plena confiança.
Ao olhar para Helen, Kylie se lembrou de que ela a ajudara, examinando seu cérebro para ver se ela tinha um tumor, na semana em que chegara ao acampamento. Helen tinha ajudado Kylie e ela não podia lhe negar ajuda também.
Kylie ficou de pé e foi até a cadeira ao lado de onde estava Helen. A tímida e confiante garota estendeu a palma da mão ensanguentada. Respirando fundo, Kylie lembrou-se de que tinha que ter pensamentos de cura. Surpreendentemente, suas mãos começaram a ficar quentes. Ela correu o dedo delicadamente pelo corte. Seu toque produziu um leve sulco ao redor do sangue represado na palma.
Com receio de não conseguir curar a ferida, Kylie sobrepôs toda a sua palma sobre o ferimento. Ainda hesitante, sem coragem de ver se tinha curado a garota ou não, ela percebeu que todos no refeitório estavam em silêncio. Nenhum som ecoava no amplo aposento.
Desviando os olhos por um segundo, constatou que todos a observavam. Todo mundo! Ah, mas que maravilha!
Helen ergueu a mão e olhou a palma diante de si. Limpando o sangue com a outra mão, um leve sorriso se formou em seus lábios.
— Você conseguiu! — Helen sussurrou, parecendo tão consciente quanto Kylie de toda a atenção indesejada que tinham despertado nos outros campistas.
Kylie se inclinou na direção a garota.
— Por que todo mundo está olhando?
Helen fez uma careta e chegou mais perto.
— Porque você está brilhando.
— Brilhando?
Helen assentiu.
Kylie notou que um leve brilho parecia irradiar da sua pele.
— Merda!
— Merda coisa nenhuma! — retrucou Della. — Você está parecendo um vaga-lume. Isso é demais!
Isso de fato já é demais, pensou Kylie.
Holiday, do outro lado da sala, começou a andar na direção de Kylie, os olhos arregalados, um sentimento de perplexidade se irradiando dela em ondas.
Kylie olhou para a líder do acampamento, mortificada.
— Faça isto parar. Por favor. Por favoooor.

2 comentários:

  1. Esse é aquele momento que eu corava e falava: efeito colateral Magnus Bane...

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