14 de outubro de 2016

Capítulo 31

Sábado pela manhã, de pé no refeitório, Kylie esperou que sua mãe aparecesse no dia dos pais. Ela não tinha dito nada sobre a vinda de John, mas Kylie não sabia se isso significava que ele não viria, ou se ela não sentia necessidade de perguntar se Kylie concordava. Mas Kylie realmente rezava para ele não aparecer. Agora que o relacionamento com a mãe parecia entrar num terreno movediço, ela não precisava de John por perto.
Por outro lado, o padrasto de Kylie tinha deixado a cidade por causa de uma viagem de negócios e não ia aparecer, o que era bom para Kylie. Sem ele, o nível da combustão diminuiria, no mínimo, um grau. Ela não tinha deixado de amar Tom Galen, mas nesse momento o pai que Kylie ansiava por ver era seu pai verdadeiro. Desde a visita dos Brigthens, Kylie sentia saudades de passar algum tempo com Daniel. Quase todas as noites antes de dormir, ela pegava o álbum de fotos que os Brightens haviam lhe dado, e quase sempre acabava chorando. Sentindo como se a vida a tivesse enganado.
Enganado-o, também.
Kylie observou alguns pais passarem pela porta do refeitório. Os pais de Miranda entraram e a encontraram à espera deles, toda comportada, sentada a uma mesa. Ver Miranda daquele jeito era muito estranho, como usar um sapato no pé errado.
A mãe de Miranda tirava toda a confiança e personalidade da bruxa. Isso era revoltante!
A mãe de Derek caminhava com exuberância, como se estivesse ansiosa para ver o filho. Era assim que os pais deveriam ser, Kylie pensou. O olhar da mulher vasculhou o salão, obviamente à procura de Derek. Quando seu olhar encontrou o de Kylie, ela sorriu e acenou e começou a se mover em direção a ela. Felizmente, Derek a chamou do outro lado do refeitório e poupou Kylie de uma conversa estranha. O que dizer à mãe do garoto cujo coração você acabou de partir?
Os pais de Helen entraram com um olhar de preocupação no rosto, embora houvessem trazido a filha para Shadow Falls alguns dias antes.
Jonathon não parara de sorrir desde que Helen tinha voltado. Kylie se sentava com eles quase todos os dias na hora do almoço, deixando Della e Miranda com suas próprias espécies. No dia anterior, durante o almoço, Kylie tinha observado as mesas de todas as diferentes espécies e se perguntado se algum dia haveria uma mesa de camaleões em Shadow Falls.
Em seguida, os pais e a irmã de Della entraram. O pai parecia, como sempre, contrariado e aborrecido por estar ali. Ele tinha até dito à filha uma vez que só vinha porque a mãe dela fazia questão. Parte de Kylie teria gostado de bater naquele homem até colocar alguma razão na cabeça dele.
Como ele poderia ignorar o quanto aquelas palavras machucavam a filha?
Do outro lado da sala, Della franziu o cenho para sua família que cruzava a porta. O coração de Kylie doeu pela amiga. Como se fosse possível, a vida familiar de Della era ainda pior do que a de Kylie.
— Você está bem? — perguntou Holiday aproximando-se para ficar ao lado dela.
— Sim. Só queria saber por que as famílias têm que ser tão difíceis. Por que as pessoas não podem simplesmente se amar?
Holiday roçou o ombro contra o de Kylie, oferecendo um pouco de conforto.
— Elas se amam. Dramas familiares são a consequência de se ter uma família. O que você vê nesta sala agora é provavelmente a pior fase.
— O que você quer dizer? — perguntou Kylie.
— O momento mais difícil em qualquer relacionamento é a mudança. E nada traz mais mudança na dinâmica de uma família do que o momento em que um adolescente começa a se firmar como uma pessoa independente. Isso vale tanto para os seres humanos, quanto para os sobrenaturais.
Holiday devia ter visto Kylie olhar para Miranda e Della, pois disse:
— Em poucos anos, Miranda já não vai se importar se sua mãe aprova suas escolhas. E a mãe vai gradualmente aceitar que Miranda é como é. Della vai crescer e fazer grandes coisas, porque não vai aceitar menos de si mesma. Seu pai vai ter que admitir que, embora ele não entendesse as mudanças na vida da filha, ela cresceu para ser um sucesso.
— E você não acha que esses ressentimentos vão prejudicar o relacionamento?
Holiday suspirou.
— Ah, haverá cicatrizes e algumas coisas para se consertar e, sim, existem casos que não terminam bem. — Ela fez uma pausa. — Mas, para a maior parte, os problemas que você vê aqui são coisas das quais as famílias podem e provavelmente irão se recuperar.
— Isso me dá esperança — disse Kylie.
— Você retornou a ligação dos Brightens? — perguntou Holiday.
Kylie havia recebido no dia anterior a mensagem de que eles tinham ligado.
— Sim, eu falei com eles. Queriam vir no dia dos pais e conhecer a minha mãe.
Holiday ficou tensa.
— Você não me disse que eles viriam.
— Eles não vêm. Não achei que a minha mãe estivesse preparada para se encontrar com eles. Depois da discussão que teve comigo porque eu os vi, nós mal falamos sobre eles. Ela pediu desculpas, mas agora nós duas estamos fingindo que nada aconteceu. Estou com um pouco de receio de trazer o assunto à tona.
— Vai dar tudo certo. Sua mãe não parece ser do tipo irracional.
— Obviamente, você não a conhece muito bem. — Embora Kylie tivesse dito aquilo meio brincando, em parte era verdade.
Kylie olhou para Holiday e se lembrou da visita do fantasma.
— Tive um visitante na noite passada.
— E ela falou com você dessa vez? — perguntou Holiday, sabendo exatamente o que Kylie queria dizer.
— Um pouco. — Ela mordeu o lábio. — Eu acho que está tudo ligado. A espada, o fantasma e Mario.
Holiday franziu a testa.
— Por que você acha isso?
Kylie se inclinou mais para perto.
— Algo que ela disse, e... só um pressentimento.
— Senhorita Brandon? — alguém chamou do outro lado do salão.
Holiday apertou o braço de Kylie e franziu a testa.
— A gente se fala depois.
Kylie acenou com a cabeça e, quando a líder do acampamento se afastou, ela viu Lucas entrando no refeitório. Ele cruzou o salão para se sentar com um grupo de lobisomens. Um deles disse alguma coisa e, em seguida, todos eles se levantaram e deixaram Lucas sozinho na mesa.
Estava começando, ela percebeu. Eles estavam deixando Lucas de lado. A dor que ela sentiu por ele calou fundo em seu coração.
— Triste, não é? — disse uma voz atrás dela. — E a culpa é sua.
Kylie reconheceu a voz de Clara. Kylie virou-se para encarar a irmã de Lucas, mas ela já se afastara. Com a respiração presa, Kylie olhou para Lucas. Ela queria ir até ele, confortá-lo, mas isso só iria piorar a situação.
Cinco minutos depois, a avó de Lucas entrou no refeitório, caminhando de modo dolorosamente lento. Kylie olhou ao redor. Lucas ainda estava sentado sozinho numa mesa dos fundos. O olhar da anciã percorreu o ambiente e encontrou o de Kylie.
Quando ela começou a se aproximar, o coração da garota quase parou. Ah, droga! Ela não estava com vontade nenhuma de ouvir a avó de Lucas repreendê-la por arruinar os objetivos e missões do neto.
Kylie estava prestes a disparar para fora do refeitório pela porta lateral quando ouviu a voz da mãe. Ao se virar para trás, ela viu... a mãe com John a tiracolo. Ah, meu Deus, ele veio... No entanto, ela preferia enfrentar John à avó de Lucas – especialmente se a mãe não resolvesse apalpar em público o traseiro do namorado.
Kylie saiu correndo em direção aos recém-chegados com falso entusiasmo, rezando para que isso impedisse a avó de Lucas de se aproximar.
Depois de abraçar a mãe, e ignorar John, Kylie levou-os para uma mesa vazia, tão longe de Lucas quando possível. Seu coração não voltou ao ritmo normal até que ela viu a avó de Lucas se dirigir para a mesa dele.
— Graças a Deus! — ela murmurou, fazendo um sinal para que os dois se sentassem.
— Graças a Deus, por quê? — a mãe perguntou, ainda de pé.
Kylie abriu a boca, rezando para que algo inteligente lhe ocorresse, mesmo que fosse uma mentira. Ultimamente, as orações de Kylie andavam ficando sem resposta e dessa vez não foi diferente. Os lábios dela se abriram, mas nada, coisa alguma saiu. Pior ainda, seu cérebro parecia desligado.
— Graças a Deus, por quê? — a mãe perguntou de novo.
— Porque a minha dor de estômago passou. — Kylie colocou a mão na barriga.
— Você anda com dores de estômago? — perguntou a mãe com a voz alarmada.
— Não é nada.
— Você não sabe se não é nada — ela insistiu.
— Eu sei, sim. — A voz de Kylie soou estridente, denunciando seu medo de que a mãe a arrastasse dali para um pronto-socorro. Meu Deus, ela poderia acusá-la novamente de estar grávida!
— Como você sabe que não é nada? — perguntou a mãe.
— Porque são só... gases. Só estou com um pouco de gases.
A mãe, corando, olhou para John. Kylie podia sentir seu próprio rosto tão vermelho quanto uma maçã do amor. De todas as coisas que poderia ter dito, por que escolhera dizer “gases”?
A mãe se inclinou um pouco na direção dela.
— Você quer ir ao banheiro?
— Não. Já passou.
A mãe se inclinou para mais perto ainda.
— Tem certeza?
— Absoluta. — Kylie desabou numa cadeira e rezou para que um início tão desastroso não fosse uma premonição de como seria aquele encontro.
Quarenta e cinco minutos depois, Kylie, John e a mãe ainda estavam sentados à mesa, conversando.
Bem, Kylie tinha contribuído muito pouco para a conversa, mas a mãe e John não pararam de falar um minuto. Eles falaram sobre o novo trabalho da mãe, que ela iniciaria em duas semanas, e contaram sobre a Inglaterra.
— Ah, eu te trouxe uma coisa! — A mãe tirou um saco de papel da bolsa. — Eu sei como você gosta de camisetas.
Kylie não pôde deixar de pensar, Minha mãe foi para a Inglaterra e tudo o que eu ganhei foi uma camiseta!, mas ela sorriu, tirou o presente da embalagem e, em seguida, riu ao ler os dizeres na frente: Minha mãe foi para a Inglaterra e tudo o que eu ganhei foi esta camiseta.
— Perfeito! — disse Kylie, satisfeita ao ver que a camiseta era rosa.
— Eu também trouxe isso. — A mãe tirou da bolsa uma caixinha branca.
Uma pulseira cheia de pingentes refletiu as luzes do refeitório e brilhou, de modo quase mágico, quando Kylie abriu a caixa. Seu coração deu um salto quando ela viu os pingentes. Uma espada muito semelhante à espada de um cruzado, uma cruz terrivelmente semelhante à que havia na espada e um emblema de Joana d’Arc.
— Comprei-a num dos castelos e eles não tinham uma coleção muito grande de pingentes, mas... por algum motivo estranho senti o impulso de escolher estes. Espero que você não os ache muito esquisitos.
Defina “algum motivo estranho”, Kylie queria perguntar, mas ficou calada.
— Não! Eu gostei deles. Obrigada. — Um frio familiar caiu sobre ela como uma chuva fina.
Daniel estaria ali? Será que seu pai levara a mãe a comprar aqueles pingentes?
Kylie olhou ao redor na esperança de vê-lo, mas seu desejo não se concretizou.
Logo, Kylie. Em breve. As palavras ecoaram em sua cabeça, o medo encheu seu coração.
Eu sinto sua falta, Kylie disse mentalmente. Não sei se estou pronta para morrer, mas sinto sua falta.
Passos ecoaram pela sala, e Kylie notou que os outros pais estavam indo embora.
A mãe dela olhou ao redor.
— Estas visitas passam tão rápido! Preciso dar uma corrida até o toalete, antes de ir embora. — A mãe se levantou e se dirigiu ao banheiro apressada.
Kylie estava prestes a se levantar também para acompanhar a mãe quando John colocou a mão sobre a dela. A sensação da palma dele provocou um arrepio na sua espinha. Não era frio nem quente. Apenas emocionalmente estranho. Ela retirou a mão.
— Eu estava esperando uma chance de falar com você — disse ele.
E eu estava esperando que você não tivesse essa chance. Ela olhou para o banheiro.
— Eu acho que vou...
— Existe uma razão para você não gostar de mim, Kylie?
Ela olhou para ele. Decisões, decisões. Ela ia ser diplomática ou sincera?
Quem disse que a honestidade era a melhor política? Ela não conseguia se lembrar, mas concluiu que deveria ser alguém brilhante!

Um comentário:

  1. acho que quem a kylie deve matar é john no final, ele é bem suspeito..

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