4 de outubro de 2016

Capítulo 31

— Por que vocês não vão na frente, meninas? — sugeriu a mãe de Kylie tão logo saíram do refeitório. — Eu sei que Sara está morrendo de vontade de conversar com você.
Kylie não se deixou enganar. Sua mãe não via a hora, obviamente, de conversar em particular com Holiday. Provavelmente sobre Kylie ter dois namorados.
Quando Sara e Kylie começaram a andar, Sara apertou o braço dela.
— Dois caras? Você tem dois caras apaixonados por você? Comece a falar, garota!
— O pai de Kylie veio esta manhã? Estou muito preocupada com o relacionamento deles.
As palavras da mãe pareciam pronunciadas num tom extremamente alto.
Kylie parou e olhou para trás. Elas estavam a uns trezentos metros de distância e não havia como ela estar ouvindo a conversa. Mas ela estava. A audição hipersensível estava de volta, e desta vez ela ficou agradecida.
— Sim — respondeu Holiday. — Ele veio. Parece que foi uma visita agradável.
— Kylie? — Sara disse. — Vamos, me diga o que está acontecendo.
Kylie olhou para Sara e começou a andar novamente.
— Eu... É difícil de explicar.
— Ótimo — disse a mãe. — Estou um pouco preocupada com Kylie e, bem, os meninos. Eu li que, quando uma garota tem problemas com o pai, ela acaba... se envolvendo com garotos.
Bem, pelo menos agora Kylie sabia que não era só com ela. A mãe não conseguia dizer a palavra “sexo” a ninguém.
— Você os supervisiona e se certifica de que não está acontecendo nada que não deveria acontecer?
— Bem, tente — Sara insistiu. — Me conte. Estou morrendo de curiosidade.
— Contar o quê? — Kylie perguntou, sem conseguir manter a atenção nas duas conversas.
— Já perdeu? — Sara perguntou.
— Sua filha tem uma cabeça muito boa — Holiday respondeu. — Acho que a senhora não precisa se preocupar com ela.
— Perdi o quê? — Kylie perguntou a Sara, mas de repente soube o que a amiga estava perguntando.
Aparentemente, as duas conversas simultâneas eram sobre a mesma coisa. Sexo.
— Não. Eu não perdi. — Incomodada com a pergunta, Kylie se lembrou do quanto ela e Sara tinham sido íntimas um dia. Contavam tudo uma para a outra e não tinham segredos. Mais ou menos como ela era agora com Della e Miranda.
O sentimento de estranheza ao ver sua antiga vida se cruzar com a nova voltou. E em cerca de quinze minutos, Della e Miranda as encontrariam na cabana. Será que ia ser muito estranho?
Provavelmente, sim.
— Mas os dois são tão gatos! — disse Sara.
— É, eles são.
— Então, de qual dos dois você realmente gosta?
Dos dois. A verdade ecoou em sua cabeça. Kylie suspirou.
— Lucas — ela disse.
— Hum... — Sara sorriu, depois deu de ombros. — Agora, você pode, por favor, me dizer o que fez para me curar?
Kylie se lembrou dos conselhos que Holiday lhe dera. Apenas negar.
— Eu não sei do que você está... — Ela começou a ouvir a conversa entre Holiday e a mãe novamente.
— Posso lhe fazer uma pergunta estranha? — Holiday perguntou à mãe.
— Claro — ela disse.
— Vocês têm sangue indígena em sua árvore genealógica?
— Por que Holiday estaria perguntando isso? — Kylie murmurou.
— O que você disse? — Sara olhou para ela, intrigada.
Kylie balançou a cabeça.
— Não é nada.
— Então, comece a falar — disse Sara. — E nem tente negar. Eu me lembro claramente que você esfregou as minhas têmporas e as suas mãos ficaram quentes quando fez isso. E eu senti. Senti algo acontecendo dentro de mim.
Sara fez uma parada brusca e pegou as mãos de Kylie nas dela.
— Elas não estão quentes agora. Então só ficam quentes quando você cura as pessoas? Mas por que... Qual o nome dele? Lucas? Por que as mãos dele estavam tão quentes?
Kylie tirou as mãos das de Sara, tentando se lembrar de que mentira tinha contado a Sara sobre por que tinha esfregado suas têmporas.
— Essa realmente é uma pergunta estranha — disse a mãe de Kylie. — Por que você quer saber?
Sara soltou um suspiro de frustração.
— E não me diga que é porque sua mãe costumava fazer isso. Porque eu perguntei a ela no trajeto pra cá e ela negou. Disse que não conseguia se lembrar de já ter massageado as suas têmporas para aliviar a sua dor de cabeça.
— Psiu — Kylie pediu a Sara, não querendo perder a resposta de Holiday.
Mas Sara não ficou quieta. Em vez disso soltou um grito horripilante capaz até mesmo de despertar os mortos.
E continuou a gritar. Um grito que quase perfurou os tímpanos de Kylie. Ela entrou em estado de alerta instantâneo, mas não sabia por quê. Seu olhar começou a varrer a trilha de lado a lado, tentando encontrar a fonte do perigo.
Seria a águia outra vez? Ou o cervo de olhar cruel? Será que era outro sumidouro, ou Perry tinha se transformado em unicórnio novamente? Kylie estava preparada para qualquer coisa.
Rígida de tensão, ela não sabia se devia se preparar para lutar ou correr. Então algo bateu na sua perna.
Ela olhou para baixo.
Ok, Kylie estava preparada para qualquer coisa, menos para Socks. Seu gato/gambá deveria estar trancado na cabana de Holiday. E só para piorar as coisas, sua mãe e Holiday vinham correndo para ver o que havia de errado.
Em dois segundos, a mãe começou a gritar junto com Sara, enquanto Kylie olhava para Holiday.
— Esse bicho deve ter raiva — a mãe gritou. — Afaste-se, Kylie. Afaste-se!
— Está tudo bem — tranquilizou-a Holiday, mas obviamente a mãe não ouviu.
Kylie seguiu as ordens da mãe e recuou. Mas Socks não entendeu a deixa. Ele a seguiu e se deitou sobre o tênis de Kylie.
Sara gritou e correu pela trilha, escondendo-se atrás da mãe de Kylie. Socks, de repente assustado com o tumulto, deu um pulo e escalou a perna de Kylie. Sem saber o que fazer, ela segurou o animal assustado com cautela.
— Largue isso! Kylie! — A mãe gritou. — Largue esse bicho agora!
Então ela disparou na direção de Kylie como se fosse bater no animal em seu colo.
— Mãe, está tudo bem — disse ela, embora nada estivesse bem.
Socks sibilou, em seguida se contorceu e enterrou o focinho comprido na axila de Kylie, que não estava completamente em pânico até ver Socks levantar a peluda cauda preta e branca no ar e apontá-la para a sua mãe.
— Não! — Kylie se virou e começou a falar numa voz doce com Socks. — Não faça isso. Não faça isso — ela sussurrou.
— Todo mundo, um passo pra trás — Holiday disse, falando com mais firmeza desta vez. — O gambá não tem raiva. Ele é o meu animal de estimação.
Kylie olhou para trás, por cima do ombro, para ver sua mãe encarar Holiday, perplexa, com um olhar de puro horror.
— Você tem um gambá de estimação?
— Tenho — mentiu Holiday, quase parecendo sincera. — Eu sei, parece meio estranho.
— Meio?! — A mãe perguntou, os olhos ainda arregalados com o choque.
Kylie puxou Socks para mais perto e continuou a sussurrar o que ela espera que fossem palavras tranquilizadoras, perto do ouvido do bichinho. Mas quem, ela se perguntava, iria sussurrar palavras tranquilizadoras para ela? Era exatamente por isso que unir sua antiga vida à sua nova vida tinha sido uma ideia muito, mas muito ruim.
— No final, tudo acabou bem — Holiday disse uma hora mais tarde, enquanto assistia a mãe de Kylie e Sara saírem de Shadow Falls pelos portões do estacionamento.
Kylie, com o peito tão apertado que achava que algumas costelas tinham se quebrado, olhou para Holiday em choque.
— Você deve estar brincando. A avó de Lucas praticamente me disse que não sou boa o bastante para o neto dela. Meu pai está infeliz. Minha mãe acha que eu estou transando com dois caras. E pensa que você é uma idiota que tem um gambá como animal de estimação.
— Eu tive que inventar alguma coisa — justificou-se Holiday. — Ele deve ter escapado quando eu saí e eu não vi.
— Não se esqueça de que as coisas não podiam ter sido mais estranhas entre Sara, Miranda e Della. Elas mal se falaram. E... — Lágrimas inundaram os olhos de Kylie. — E se eu um dia pensei que você não escondia nada de mim, sei a verdade agora. Por que você está querendo saber se eu tenho sangue indígena?
A culpa estampou-se no rosto de Holiday.
— Eu ia te contar. Juro. Apenas não tive tempo.
— Sim, você sempre vai me dizer alguma coisa depois de já ter acontecido. — Kylie secou as lágrimas que molhavam seu rosto. — Eu estou farta de todos esses segredos por aqui, Holiday. Estou cansada de ser deixada na ignorância. Estou cansada de não saber o que eu sou. Não é justo, e não vou mais tolerar isso.
Era noite de quarta-feira. Os últimos dias tinham se passado num borrão. Kylie tinha começado uma busca frenética para descobrir sua árvore genealógica. Holiday tinha explicado que havia uma lenda indígena segundo a qual alguns descendentes de uma tribo tinham sido tocados pelos deuses. E que esses meros seres humanos carregavam esse dom com eles há gerações.
Se Kylie tivesse esse sangue correndo em suas veias, isso explicaria por que ela podia ser protetora e ainda metade humana. Kylie não sabia por que era tão importante para ela descobrir sua herança familiar. Não era como se isso fosse levá-la a descobrir o que era. Mas podia explicar por que ela parecia ter certos dons. Talvez porque essa fosse a única pista que tinha para investigar agora.
O fantasma aparecia três ou quatro vezes por dia, mas ainda não estava falando. Lucas aparecia duas ou três vezes, também. Só que eles não tinham chance de conversar muito. Mas o lado positivo é que eles estavam se beijando muito mais.
Ela não tinha contado nada sobre o que a avó dele lhe dissera. Em parte porque ele já parecia tenso – sem dúvida por causa da aproximação da Lua cheia – e em parte porque ela tinha medo da resposta.
Ela tinha receio de que ele dissesse que a avó tinha razão. Que ele nunca poderia considerar a possibilidade de se casar com ela se ela não fosse um lobisomem.
Sim, ainda parecia uma idiotice se preocupar com casamento naquela fase do relacionamento. Mas Kylie vivia pensando no fato de que o namoro nada mais era do que uma tentativa de encontrar uma pessoa com quem você gostaria de passar toda a sua vida.
Ela deveria só viver o presente ou fazer planos para o futuro? E deveria começar algo quando sabia que não iria nem poderia durar? Deveria correr o risco de entregar seu coração a alguém que nunca seria realmente dela?
Mais cedo naquela noite, quando Lucas veio vê-la, eles se sentaram na varanda, se beijaram e contemplaram a Lua.
— Você não sente nada quando olha pra ela? — ele perguntou a Kylie.
Lucas não tentou esconder o quanto queria que ela fosse um lobisomem. E estava ficando cada vez mais difícil fingir que ela não se incomodava com isso. Não que esse incômodo mudasse o que ela sentia por ele. Tudo, desde o seu sorriso até seus olhos azuis e a maneira como ele a beijava, tudo a agradava. Os momentos que ela passava perto dele eram os únicos em que realmente se sentia em paz.
Kylie se lembrou de que dissera a Holiday que precisava de uma base, algo que a fazia se sentir em equilíbrio. Lucas havia se tornado sua base. Em alguns aspectos, ele era como a cachoeira. Quando estava com ele, quando sentia seu toque quente, todos os problemas pareciam muito menores.
Mas quando ele não estava perto os problemas voltavam a pesar sobre os seus ombros e desafiar a sua sanidade. Por fim, Kylie percebeu que eles precisavam conversar sobre o assunto da linhagem de sangue. E também sobre o pedido de namoro. Embora ela tivesse a sensação de que ele tinha concluído que ela aceitara. Olhando em retrospectiva, percebeu que, considerando a conversa entre eles no dia em que ele pedira, Lucas podia ter até razão de pensar assim. Então, ela podia deixar essa questão para lá, mas a linhagem não era algo tão fácil de esquecer.
Mas, por enquanto, ela decidiu simplesmente deixar as coisas como estavam.
— Olá! — A voz de Della trouxe Kylie de volta ao presente quando ela saiu do seu quarto. — Miranda já voltou da sua sessão de amassos com Perry? — Ela se sentou à mesa da cozinha enquanto Kylie estava sentada na do computador.
— Ainda não. — Kylie olhou para trás. Della parecia entediada ou deprimida. Ela andava muito quieta ultimamente. Desde o Dia dos Pais.
— O que você está fazendo? — Della perguntou.
Me preocupando.
— Minha mãe finalmente me deu o nome de solteira da minha bisavó. Eu pensei em colocá-lo no banco de dados do site de genealogia e ver se consigo alguma coisa.
— Por que você simplesmente não coloca uma pena no chapéu e diz que tem sangue indígena?
Kylie franziu a testa.
— Isso não foi muito simpático.
— Desculpe — a amiga murmurou. — Estou meio irritada.
— Por quê? — Kylie se levantou e pegou dois refrigerantes na geladeira e depois se sentou na cadeira da cozinha.
Della pegou a bebida que Kylie lhe oferecia e abriu-a. O conteúdo escorreu da abertura e ela apertou os lábios na borda da lata para evitar que transbordasse. Quando olhou para a frente, tinha lágrimas nos olhos.
— O que foi? — Kylie perguntou.
Della deu um pequeno soluço, e Kylie percebeu que a vampira estava chorando. Kylie teve que reprimir a vontade de contornar a mesa e abraçar Della, porque sabia que a amiga detestaria isso.
— Della? Me diga qual é o problema. — E Kylie logo ficou com lágrimas nos olhos também.
Della passou a mão nas bochechas.
— Eu tenho saudade. É como Ellie disse. Eu sinto falta de ser normal. Sinto falta de estar com a minha família. Eu sei que tenho sorte de estar aqui. Sorte de ter você e Miranda como minhas melhores amigas. E estou feliz que você tenha Lucas e Miranda tenha Perry, mas sinto falta de Lee, e isso dói muito às vezes. E eu sei que devia tentar com Steve, mas eu não estou pronta ainda. — Ela soluçou novamente e mais lágrimas surgiram em seus cílios escuros e escorreram pelas suas bochechas. — Eu sinto falta de... tudo isso. Sinto falta de ser humana.
Kylie começou a chorar de verdade. Não apenas por Della, mas por si mesma.
— Eu sei — disse ela. — Sinto falta disso também.
Na manhã seguinte, Kylie abriu os olhos e viu a parte de trás da cabeça de Della. Como Della era a única que tinha uma cama de casal, elas acabaram indo para a cama dela na noite anterior e conversado até caírem no sono. Algo se moveu às costas de Kylie e ela rapidamente se virou e viu Miranda bocejando.
— O que você está fazendo aqui? — Kylie perguntou.
— Eu pensei que era uma festa do pijama e quis participar também — ela disse. Então fez um biquinho. — Vocês duas nem esperaram por mim.
— Você chegou tarde — disse Kylie, bocejando.
— Eu sei. — Miranda sorriu. — Passamos um tempo maravilhoso. Ficamos nadando no lago. Só nós dois. É quase Lua cheia e foi tão romântico...
— Vocês nadaram nus? — Della perguntou se virando para as amigas, com cara de quem ainda não tinha acordado direito.
— Não. Mas ele nadou. Só porque pensou que eu ia tirar a roupa também. — Miranda riu. — Eu coloquei o maiô por baixo da roupa, porque ele disse que íamos até o lago. E quando eu comecei a tirar a calça jeans, ele pensou que eu estava tirando toda a roupa, tirou a dele e mergulhou rápido.
Kylie e Della começaram a rir.
— Mas eu não vi nada. Além disso, ele me fez virar de costas quando saiu e colocou o calção de novo.
As três ficaram na cama, rindo, até quase se atrasarem para o café da manhã.
Foi uma manhã agradável. Não tão descontraída quanto os dias que ela passava com Lucas, mas Kylie teve que admitir que Della e Miranda estavam se tornando bases também. Agora, ela se sentia capaz de enfrentar mais um dia solucionando problemas.
Mas seu bom humor foi para o espaço quando ela entrou no refeitório e todo mundo se virou e olhou para elas.
Não, não para todas elas. Apenas para Kylie. Ou melhor, olhavam boquiabertos para a testa dela enquanto franziam a testa. Obviamente, seu padrão cerebral tinha enlouquecido novamente.
— Que estranho! — alguém exclamou. Ouviram-se várias pessoas ofegando, algumas sussurrando, e algumas até deixando cair seus garfos. Então seguiu-se um silêncio sepulcral, do tipo que indicava a mais completa descrença.
Della e Miranda se viraram para ela e franziram as sobrancelhas.
Os olhos de Miranda se arregalaram de choque.
— Ai, meu Deus!
— Merda! — disse Della.
— O que foi? — Kylie perguntou.
Della engoliu em seco e se inclinou na direção de Kylie.
— Você finalmente se abriu. Seu... Seu padrão está legível.

5 comentários:

  1. OMG!!! morrida de curiosidade, pulando pr o próximo capitulo urgentemente������

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  2. Só falta agora dizerem que o padrão da Kylie é um nunca visto antes e que isso não vai ajudar na busca pela especie dela...

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  3. PQ eu tô comentando sendo que eu deveria ir pro próximo cap? Eu não sei!

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