8 de outubro de 2016

Capítulo 30

Burnett tirou do refeitório todo mundo que estava envolvido na briga. Kylie se movia como um robô, um pé na frente do outro, sem querer deixar que suas emoções viessem à superfície, por medo do que poderia acontecer. Ou seja, ou ela começava novamente a proferir seus comentários malcriados – canalizando a atitude rebelde de Della – ou ficava invisível. As duas coisas poderiam causar danos irreversíveis.
Justamente quando ela saía pela porta do refeitório, seguida por Lucas e Derek, ouviu o pai de alguém dizer:
— É claro, são sempre os humanos que causam confusão.
Inspirando o ar da manhã ensolarada, tentando não se sentir insultada pela mãe e o padrasto, e tentando controlar a mortificação que tudo lhe causara, ela observou Holiday levar a mãe e John até o escritório. Burnett esperou um segundo, então com uma voz nem um pouco simpática, mandou que o padrasto de Kylie o seguisse até lá dentro, obviamente para outra sala. Kylie sentiu que todos ali iriam ouvir um sermão. Não que não merecessem, mas... ela se sentiu estranha assistindo aos pais sendo levados para a “diretoria”, em vez do contrário.
Ao se lembrar de algumas palavras que tinha dito à mãe e a John, Kylie suspeitou que não demoraria até ela mesma também ouvir um sermão.
Depois que a porta do escritório se fechou atrás de Burnett e do padrasto, Kylie se virou com a intenção de se jogar nos braços de Lucas. Ela precisava de alguém que a confortasse. Olhou na direção do refeitório e o viu entrando, sem dúvida voltando para a sua alcateia. Deus ajudasse que a alcateia não estivesse pensando que a ajuda de Lucas para acabar com a briga fosse mais do que uma boa ação ou significasse que ele se preocupava com ela.
Certo ou errado, seu coração se apertou. Derek, no entanto, apareceu de repente ao lado dela. Os olhos de Kylie ardiam, havia um nó em sua garganta e, antes que ela percebesse, estava nos braços dele. Braços quentes e fortes a envolveram e confortaram.
Era errado. Tão errado! Ela precisava parar. Parar de contar com Derek.
— Não precisa se sentir culpada — ele sussurrou no ouvido dela, lendo perfeitamente as suas emoções. — Sou só um amigo ajudando uma amiga.
Não, ela pensou. Ele era um amigo que um dia fora muito mais do que isso, um amigo que lhe confessara seu amor por ela e queria ser muito mais outra vez. Ele era alguém de quem, em algumas ocasiões, ela ainda queria muito mais também. Alguém que ela podia procurar quando precisava de ajuda. E, no entanto, não era pelos braços dele que ela ansiava, não era ele que ela precisava que a abraçasse.
Um pouco depois, Holiday saiu na varanda do escritório e fez um gesto para que Kylie se aproximasse. Ótimo, agora era sua vez de ser punida. Sabendo que merecia isso, ela se empertigou e enfrentou o seu destino.
Mas o olhar no rosto de Holiday não era de reprovação. Ela imediatamente abraçou Kylie.
— Santo Deus, menina! Por favor, me diga que você está bem.
— Eu estou bem — Kylie mentiu.
Holiday respirou fundo.
— Você quase me matou de susto. O que...? O que aconteceu?
Quando Kylie encontrou os olhos verdes da líder do acampamento, seu olhar preocupado, soltou o ar dos pulmões com um tremor.
— Eu também quase morri de medo de mim mesma. Eu... simplesmente desapareci. Podia ver e ouvir você, mas você não sabia que eu estava ali. Eu... virei fumaça. — Assim como meu avô e minha tia.
Holiday tocou o braço de Kylie para lhe oferecer um pouco de serenidade.
— Tudo bem, precisamos conversar sobre isso, descobrir o que aconteceu, mas primeiro vamos cuidar dos seus pais e mandá-los para casa.
O peito de Kylie se apertou com a constatação de que, por mais que Holiday tentasse, ela não conseguiria ajudar Kylie a descobrir o que tinha acontecido. Ela precisava do avô e da tia. Um camaleão sozinho não sobrevive. Venha conosco. Você precisa aprender quem é e o que é.
Ao reparar que Holiday a analisava, Kylie desabafou:
— Eu disse coisas terríveis. Não gosto nem um pouco de John.
— Bem, se isso a faz se sentir melhor, neste momento, nem eu. — Holiday pressionou as palmas das mãos sobre os ombros de Kylie. — Só vá falar com eles. Acho que todos concordam que eles é que estavam errados. Seu pai está no meu escritório e a sua mãe e John estão na sala de reunião. Pode fazer isso?
Kylie assentiu.
Quando ela deu um passo em direção ao escritório, Holiday a puxou de volta e lhe deu mais um abraço.
— Vai dar tudo certo, ok? Não há nada que não possamos descobrir juntas.
Se pelo menos isso fosse verdade...
Kylie entrou no escritório de Holiday. O pai, sentado no sofá, levantou-se e a encarou. Em seu rosto estavam estampadas as suas emoções. Remorso. Tristeza. Muita tristeza.
— Eu lamento muito, querida. Eu me comportei como um idiota. Não vai acontecer outra vez, eu prometo.
Kylie assentiu mais uma vez.
— Tudo ficou fora de controle.
Ele concordou.
— Mas não foi em vão. Isso me forçou a encarar a verdade. Eu precisava disso.
A voz dele tremeu ou foi imaginação de Kylie?
— Que verdade?
— Eu vou conceder o divórcio à sua mãe. Ela o quer; agora conseguiu.
Os olhos do padrasto expressavam seu sentimento de derrota. Derrota como ela nunca vira antes. Uma palavra lhe ocorreu. Destruído. Ele era um homem destruído. Vê-lo assim doía muito!
— Pai, acho que a mamãe só...
— Não. — Ele levantou as mãos. — Eu não quis dizer... não estou culpando a sua mãe... Eu sei que sou o responsável por estragar tudo. Não entendo como pude fazer isso, amando-a tanto quanto a amei da primeira vez em que a vi no colegial. — Seus olhos marejaram quando ele pressionou a mão contra a bochecha de Kylie. — Nunca se apaixone, princesa. Machuca demais.
Suas palavras ecoaram na cabeça de Kylie quando ela se lembrou da dor que sentira quando procurou por Lucas e ele não estava mais lá. Ela se perguntou se não seria tarde demais para o padrasto lhe dar esse conselho. Mas ela deixou suas emoções de lado para poder apoiá-lo. Ele precisava dela.
Ele respirou fundo.
— Saber que a perdi me deixa arrasado, mas sei que mereço, e vou aprender a conviver com isso. Só não vou conseguir viver se... perder você. Desde o dia em que o médico a colocou nos meus braços, na maternidade, eu amei você.
Os olhos de Kylie se encheram de lágrimas.
— Você não vai me perder.
— Ótimo, porque eu sou o seu pai e não quero que você jamais se esqueça disso.
Mas ele não era o pai dela. As palavras “não vou me esquecer” estavam na ponta da sua língua, mas ela não conseguiu dizê-las. Desviou os olhos. Mas não queria que isso significasse alguma coisa.
Embora significasse. Kylie o ouviu respirar fundo. Ela o olhou de relance e viu nos olhos dele. Ele sabia. E ele sabia que ela sabia.
— Sua mãe contou a você — ele disse.
A mágoa toldou os olhos dele e o mesmo sentimento oprimiu o peito de Kylie.
— Não. — Meu verdadeiro pai veio me ver depois da morte. Ela tinha que inventar uma mentira e rápido. — Eu achei sua certidão de casamento e descobri que ela já estava grávida quando se casou, e todo o resto se encaixou.
— Eu não poderia amá-la mais se fosse minha. Nunca quis que você pensasse que eu não a amava por causa disso.
— Eu sei — disse ela. — E o fato de você ter me amado mesmo eu não sendo sua filha significou muito. — Ela falou com a intenção de tranquilizá-lo, porque o sofrimento do padrasto era palpável, mas então percebeu quanto isso era verdadeiro. Ele a amava mesmo sem ter obrigação nenhuma.
Ele tinha desempenhado plenamente seu papel de pai: vendido rifas para a turma de escoteiros de Kylie, ajudado a construir carrinhos de rolimã para que Kylie participasse das corridas na escola e planejado viagens com ela. Houve também os abraços, quando a mãe não tinha muito jeito para isso. Ela se inclinou para se aproximar dele, precisando de um abraço agora, e achou que ele apreciaria um também.
Ela saboreou o abraço. Ele era muito bom nisso. Ouviu a respiração dele tremer e chorou em seu ombro como tinha feito tantas vezes quando criança. Foi nesse momento que ela percebeu que já o perdoara. Ele não era um homem ruim; só tinha cometido erros muito ruins.
Ele era simplesmente humano, no final das contas.
Depois que o pai foi embora, Kylie se recompôs e entrou na sala de reunião para enfrentar a mãe e John. Gostando ou não, ela tinha que pedir desculpas, portanto, quanto mais rápido acabasse com aquilo, melhor.
A mãe de Kylie levantou-se da cadeira num pulo. John a seguiu.
— Sinto muito — disse Kylie. — Eu...
— Nós também sentimos muito. Não é, John? — a mãe arriscou.
— Sim, falei o que não devia. — A desculpa saiu dos lábios de John, mas não transpareceu em seus olhos. — Foi um erro que não se repetirá.
— Vocês são apenas humanos — relevou Kylie, mas sem muita confiança. Então estudou o rosto deles para ver se ele reagia ao comentário. Não reagiu. Ela ainda insistiu em verificar o padrão dele outra vez.
O que mais a assustava era pensar que, se ele não fosse humano, deveria ser um camaleão. Ela se lembrou de Ruivo, que tinha dado a própria vida para salvá-la, dizendo que ele era da mesma espécie que ela, só não tinha nascido à meia-noite. Então... Mario devia ser um camaleão também. E se John era um camaleão, poderia ser comparsa de Mario?
Ela estava exagerando, disse a si mesma. Seus sentimentos provavelmente eram causados pelo fato de John ser a razão de seu padrasto não ter mais chance de voltar com a mãe. No entanto, ela decidiu que pediria a Burnett para investigar os antecedentes do “seu querido” John.
A mãe de Kylie se aproximou.
— John, você pode me dar um minutinho a sós com Kylie?
E lá vinha a bronca! Kylie mordeu a língua e disse a si mesma que deveria estar feliz pela mãe ter decidido poupá-la do constrangimento de ser repreendida na frente do seu namoradinho.
No entanto, o namoradinho parecia bem insatisfeito quando se afastou em direção à porta. Kylie mordeu a língua ainda mais forte. Cruzes! Esse homem trazia à tona o que havia de pior dentro dela.
No momento em que John fechou a porta, Kylie se desculpou:
— Eu sinto muito. Eu não deveria ter falado tudo aquilo. — E ela de fato lamentava, não por causa de John, mas porque provavelmente tinha magoado a mãe. Essa não era a sua intenção.
— Não, Holiday está certa. Aparecer aqui com ele não foi uma boa ideia. Eu só... — Ela corou. — Ele me faz feliz, Kylie. Eu nem consigo explicar, mas é quase o que eu sentia quando estava com o seu verdadeiro pai.
Kylie se lembrou do que o avô havia dito, que os seres humanos dotados de algum dom se sentiam atraídos pelos sobrenaturais. Suas suspeitas com relação a John aumentaram.
— Eu queria que você o conhecesse melhor, porque... porque ele é importante para mim. E...
Santo Deus, era muito difícil para ela ouvir aquilo. Antes de saber o que planejava dizer, ela começou a falar.
— Papai lamenta muito tudo isso, também, mãe. Se você trouxe John aqui para provocar ciúme nele, funcionou. Eu sei que papai a magoou, mas, se você ainda o ama... saiba que ele ama você.
A mãe fechou os olhos como se buscasse as palavras certas. Quando ela fitou Kylie, uma grande emoção toldava seus olhos.
— Eu de fato queria que seu pai nos visse, mas não posso... Seu pai e eu não vamos voltar a ficar juntos. — Ela pegou a mão de Kylie. — Me desculpe, querida, eu não posso...
Kylie apertou a mão da mãe.
— Eu entendo.
A mãe suspirou.
— Entende mesmo?
Kylie acenou com a cabeça, concordando. Aquilo ainda doía muito, mas ela entendia.
A mãe respirou fundo como se estivesse prestes a dizer algo muito difícil.
— Por favor, procure ver o lado bom de John. Não foi por causa dele que seu pai e eu nos separamos.
— Eu sei. — Isso foi tudo o que Kylie conseguiu dizer. Ela não tinha certeza se conseguiria ver algo de bom em John.
A mãe mordeu o lábio e fez uma careta.
— Agora, sobre a pergunta que você me fez... Se John e eu... se nós...
— ... estão fazendo sexo? — Kylie terminou a frase por ela, pois só Deus sabia quanto tempo a mãe ia ficar ali, tentando em vão dizer a palavra.
A mãe enrubesceu.
— Eu sou adulta e capaz de tomar esse tipo de decisão. Você é jovem e... — Os olhos dela se arregalaram. — Você não... você já...?
— Não, mãe. Ainda não — disse Kylie. — Mas isso vai acontecer algum dia e eu não quero que você tenha um aneurisma quando descobrir.
A mãe olhou para ela horrorizada.
— Não vou ter. Contanto que você já tenha 30 anos.
Kylie revirou os olhos.
— Mãe!
— Tudo bem, 29. — A mãe fez uma pausa. — Você sabe, é difícil ver você crescer.
— Eu sei; também é difícil ver você crescer.
A mãe franziu a testa com uma expressão aturdida.
— O quê?
— Eu quis dizer que dói saber que vocês estão transando, mas eu achei que você iria preferir um eufemismo.
A mãe deu uma risadinha ao mesmo tempo que a sala foi varrida por uma onda de frio, um frio muito familiar. Daniel? Um olhar rápido pela sala revelou a Kylie que ele não tinha sido capaz de se manifestar. Mas ela sabia que ele tinha tentado.
A mãe sorriu. Então ela estendeu os braços e abraçou Kylie.
— Eu juro, às vezes, quando estou com você, posso quase sentir o seu pai por perto.
— Eu também — concordou Kylie, perguntando-se até que ponto a mãe conseguia realmente senti-lo.
A atmosfera gelada da sala aumentou, mas estranhamente ela veio acompanhada de um leve sentimento de raiva e frustração. Será que o pai tinha ouvido a conversa e estava expressando a sua opinião sobre o fato de a mãe estar fazendo sexo com John?
Eu sei, pai, Kylie falou mentalmente. Eu também não gosto dele.


Antes mesmo que a mãe e John tivessem deixado o estacionamento, Holiday e Burnett pegaram Kylie, cada um por um braço.
— Vamos conversar — disse Holiday.
Kylie olhou para trás, na direção do refeitório.
— Não podemos conversar lá dentro?
— Primeiro alguns esclarecimentos — explicou Holiday enquanto Burnett conduzia Kylie até o escritório.
— Como, pelo amor de Deus, você desapareceu daquele jeito? — Não havia ninguém melhor do que Burnett para ir direto ao ponto.
— Eu não sei. — Kylie entrou na cabana. — Eu queria desaparecer como um fantasma quando vi minha mãe e John se beijando, e então... desapareci.
— Você desejou ficar invisível? — Holiday perguntou.
— Acho que sim — disse Kylie.
— Então como conseguiu voltar a ficar visível? — Burnett fechou a porta.
— Eu desejei o contrário. — Sabendo o quanto aquilo parecia esquisito, ela olhou de lado para Holiday e se jogou no sofá. — Foi parecido com aquela vez em que você me ensinou a me fechar para os fantasmas.
— Visualização. — Holiday arqueou as sobrancelhas como se estivesse impressionada.
Não que Kylie também não estivesse.
— Foi assustador demais! Eu me lembrei do que o meu pai disse sobre descobrirmos as coisas juntos e pensei que estava morta. — Ela fez uma pausa. — Como vou impedir que isso aconteça de novo?
Holiday olhou para Burnett como se esperasse que ele tivesse uma resposta.
— O quê? — Ele ergueu os braços como que para se defender. — Eu não sei nada sobre isso. Só agora estou aprendendo a lidar com fantasmas.
Holiday revirou os olhos.
— Você leu os relatórios da UPF. Eles não esclareciam nada sobre isso, nem o levaram a concluir alguma coisa sobre os dons dos camaleões?
— Não. A única coisa que encontrei foram alguns estudos de caso que, para eles, eram de camaleões. — Ele franziu o cenho. — Deve haver mais alguma coisa em outros relatórios, mas eles convenientemente desapareceram.
Nesse momento, Kylie não pôde deixar de se lembrar do alerta do avô contra a UPF.
— Precisamos ler esses outros arquivos — disse Holiday. Seus olhos continuaram fixos em Burnett. — Como podemos fazer isso?
Kylie fechou os olhos. Ela não sabia o que eles iam fazer, mas sabia o que ela faria. Primeiro, iria encontrar um jeito de voltar a entrar em contato com o avô e então...
Uma onda de dor a envolveu. Será que o avô estava certo? Ela tinha que deixar Shadow Falls e ir embora com ele para conseguir as informações de que precisava?
Depois de Holiday e Burnett passarem alguns minutos tentando chegar a uma solução, eles finalmente concluíram que Kylie deveria ter muito cuidado com o que desejava.
Certo! Como se ela mesma já não tivesse chegado a essa conclusão!
O celular de Burnett tocou e ele atendeu.
— Alô...? Quanto tempo faz que ela desapareceu? — Holiday e Kylie tentaram fingir que não estavam ouvindo o que diziam do outro lado da linha, mas como podiam não querer ouvir se a ligação era obviamente sobre Cindy, a garçonete do restaurante, a jovem sorridente na foto da sua carteira de motorista e que agora estava apodrecendo numa cova junto com a irmã de Holiday. — Tudo bem — disse Burnett. — Traga-me os arquivos. Você conseguiu descobrir alguma coisa sobre aquele outro assunto? — Os olhos de Burnett se desviaram para Kylie, o que indicava que o “outro assunto” a envolvia também.
Burnett ouviu e de repente algo ocorreu a Kylie. Ela não conseguia ouvir a voz do outro lado da linha... O que estava acontecendo com ela...?
— Ei! — Kylie gritou para Holiday. — Eu ainda sou uma vampira?
Holiday franziu as sobrancelhas. Uma expressão de choque surgiu em seus olhos.
— Não.
— O que eu sou agora? — Kylie perguntou.
— Bem-vinda ao meu mundo!
— Sou fae? Ah, Deus... Mais momentos de “Kylie é uma aberração”, vindos de outros campistas, estavam a caminho. Como se o caos familiar não fosse suficiente para alimentar o falatório sobre ela.
As palavras da tia ecoaram em sua mente. Os poucos que não se esconderam foram vistos como párias, aberrações que não pertenciam a espécie alguma.
Holiday assentiu e deu um sorriso cheio de compaixão, que Kylie não só viu como também sentiu.
Burnett deve ter ouvido a conversa, porque tão logo tirou o telefone do ouvido, olhou para a testa de Kylie e soltou um palavrão baixinho.
— O que você descobriu? — Holiday perguntou, como se sentisse que Kylie não queria falar sobre o seu padrão mental sempre em mutação.
— Cindy Shaffer desapareceu seis meses atrás, aproximadamente.
— Logo depois de Hannah — completou Holiday.
— Sabemos com certeza que Hannah não foi simplesmente embora e depois... — Ele se interrompeu e dos seus olhos irradiou-se uma onda de compaixão.
— ... e depois eles a mataram — completou Holiday, as palavras fluindo de seus lábios junto com a dor que oprimia ainda mais o peito de Kylie. Kylie sempre fora empática com relação à dor das outras pessoas, mas agora isso era muito mais intenso.
Não era algo fácil, Kylie pensou. Ela demoraria um pouco para se acostumar a ser fae, mas pelo menos podia voltar a comer comida outra vez. Então pensou em Derek e em quando ele lhe disse que sentia as emoções dela com muito mais intensidade. Devia ser muito difícil para ele.
Burnett se aproximou.
— A polícia está investigando o desaparecimento dela. Eles têm um suspeito, um antigo namorado, mas não podem provar nada. Eu vou verificar os arquivos, mas, considerando o que sabemos, não acho que isso esteja relacionado ao desaparecimento dela.
— O que mais você ficou sabendo? — Kylie perguntou, lembrando-se do olhar de Burnett na direção dela, enquanto falava ao telefone.
— Mandei que investigassem Hayden Yates mais uma vez.
— E? — Mesmo antes que Burnett respondesse, Kylie já sentiu o descontentamento dele por ter que contar a ela.
— A ficha dele está limpa. Não há nada em seus antecedentes que nos faça suspeitar dele.
Kylie soltou o ar dos pulmões, sem saber ao certo se acreditava. Ela tinha tanta certeza de que ele tinha algo de suspeito! Então ela se lembrou...
— Você pode mandar investigar o namorado da minha mãe?
— Você acha que ele está por trás do assassinato de Hannah? — Burnett perguntou, confuso.
— Não, nada a ver com Hannah. Eu só... não gosto dele.
— Eu também não — Burnett rebateu. — Mas isso não significa que ele seja um criminoso. Existe um monte de gente por aí de quem eu não vou com a cara.
Kylie franziu a testa.
— Ele me causa arrepios e eu me sentiria melhor se...
— Eu vou providenciar isso — tranquilizou-a Burnett, mas ela sentiu as emoções dele e sabia que o vampiro achava que era perda de tempo.
— Há uma coisa que eu quero lhe dizer — disse Kylie.
— Por que eu tenho a impressão de que não vou gostar? — Burnett perguntou.
Kylie relanceou os olhos para Holiday, que parecia igualmente preocupada.
— Acho que é hora de dar um basta em toda essa coisa de sombra — disse Kylie.
— Não! — A expressão de Burnett ficou mais severa.
Kylie sentou-se ereta e sentiu sua coluna se empertigar.
— Eu estou cansada de nunca poder ficar sozinha.
— Você fica sozinha no seu quarto, quando está na sua cabana — ele retrucou.
— Della ouve cada movimento que eu faço. Eu não aguento mais. Quero a minha vida de volta. Mario não tentou mais nada nessas últimas semanas. Miranda disse que ela não sente mais nenhuma presença indesejável. Eu não sinto a presença dele. Talvez ele tenha desistido.
— Pessoas como ele não desistem. Só está esperando uma oportunidade para atacar.
— Eu prometo ser cuidadosa e, se sentir alguma coisa, você será o primeiro a saber.
— Não! — ele insistiu.
Kylie sentiu um estranho tipo de energia se avolumando em suas entranhas. Tudo dentro dela dizia que ela estava certa, que eles não podiam obrigá-la àquilo. Ela não entendia o ímpeto ou o destemor que crescia dentro dela naquele momento. Se não estivesse tão furiosa com a insistência dele em não acatar a sua vontade, talvez estivesse preocupada com a possibilidade de algo muito estranho estar acontecendo com ela agora.
— Eu não sou uma prisioneira aqui! — ela retrucou. — A minha vontade também conta!
— A sua vontade sobre se vai deixar que te matem ou não? — perguntou ele com raiva.
— Eu não vou deixar que me matem. — Ela baixou o queixo e olhou para Holiday, esperando ver um pouco de bom senso nos olhos da líder do acampamento.
— Está fazendo isso porque quer ver seu avô de novo, não é? — perguntou Holiday. Embora ela percebesse a desaprovação de Holiday, Kylie também via compaixão em seus olhos.
— Em parte, sim. — Kylie nem pensara na possibilidade de mentir. Ela achava que seu pedido era justo. — Mas não é só por isso. Estou cansada de andar por aí com uma babá.
Burnett ia começar a falar outra vez, mas Holiday interveio.
— Você promete ficar longe dos bosques?
— Ela já quebrou essa promessa — gritou Burnett.
— Eu prometo. — Kylie ignorou Burnett.
Holiday se inclinou na direção dela.
— Você promete nos avisar quando for encontrar o seu avô?
— Vocês prometem não me impedir? — perguntou Kylie.
— Eu prometo avaliar a situação e só impedi-la se isso representar algum risco de vida.
— Mas risco de vida aos olhos de quem? — perguntou Kylie. — A ideia que algumas pessoas têm de segurança não é razoável. — Ela nem sequer vacilou quando olhou para Burnett que, aliás, parecia ainda mais furioso. E ela sentia cada partícula dessa raiva.
— Isso é loucura. Minha função é proteger você — Burnett rosnou.
— Não — Holiday corrigiu-o. — Nossa função como administradores desta escola é ensinar Kylie a sobreviver no mundo humano. Gostemos ou não — ela olhou para Kylie — ela tem o direito de partir. E essa é a última coisa que queremos que aconteça agora.
De algum modo, o ímpeto que Kylie sentia dentro dela estava associado à seriedade com que ela encarava aquela questão. Será que aquele era um talento dos faes ou tinha mais a ver com as capacidades dos camaleões? Kylie não sabia. Mas a sensação era maravilhosa, apesar de assustá-la um pouco.
— Tenho escolha? — perguntou Burnett, com rispidez.
— Não — responderam Kylie e Holiday ao mesmo tempo.
Um bipe estranho soou do telefone de Burnett. Ele puxou o aparelho do bolso e apertou alguns botões.
— Alguém acabou de pular o portão da frente. — Ele se virou para ir investigar, mas parou quando uma figura se postou no umbral da porta.
Blake, o ex-noivo de Holiday, suspeito de assassinato, estava parado ali.
— Ouvi dizer que você estava procurando por mim.
Kylie ficou de pé num salto e se posicionou ao lado de Burnett, pronta para defender Holiday.
Mas Holiday agiu como se não precisasse de proteção. Ela ficou de pé e olhou Blake nos olhos.
— Foi você? — perguntou, a raiva exsudando de todos os seus poros.
— Fui eu o quê? — ele perguntou.
— Que matou Hannah?

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