4 de outubro de 2016

Capítulo 3

Kylie ergueu o braço para proteger o rosto, mas não sentiu nada, nenhuma garra cortando sua pele. Nem no rosto nem no braço. Então ouviu um farfalhar aos seus pés, acompanhado de um barulho de chocalho. Descobriu o rosto e olhou para baixo. Sua respiração ficou presa na garganta. Ela cambaleou para trás quando a águia usou o bico afiado e as garras para atacar uma cobra que estava a poucos centímetros dos seus pés. O ruído de chocalho se fez ouvir novamente. Ela notou as manchas em formato de losango na parte de trás da cobra em vários tons de marrom, então seu olhar acompanhou o corpo do réptil enrodilhado até chegar num apêndice seco e castanho na cauda.
Uma cascavel.
Kylie pulou para trás. O pássaro enterrou as garras no corpo roliço e grosso da serpente. As asas da águia se esforçavam mais do que o normal com o peso, enquanto carregava a cobra se contorcendo a poucos metros do chão. O adejar das asas, a agitação do ar e o chocalho característico do réptil encheram seus ouvidos. A águia subiu alguns metros acima do solo, as asas se agitando no ar.
Kylie ficou ali, no meio da trilha, enquanto o grande pássaro voava para longe com a sua presa entre as garras. Olhando para os próprios pés, ela viu no chão de terra as marcas onde a cobra tinha lutado pela vida e perdido a batalha. Ao lado das marcas, um par de pegadas no chão. Seus sapatos. Se a águia não tivesse arremetido, ela teria visto a cobra? Ou agora teria veneno de cascavel injetado na perna?
Ela tinha tido muita sorte ou isso significava alguma coisa? Pensou na hipótese de voltar à cabana de Holiday, mas a lógica interveio. Ela estava nos bosques do Texas. Seu pai, quer dizer padrasto, nunca cansava de avisá-la para tomar cuidado com as cobras.
Convencida de que tinha sido apenas um momento sinistro, vivido só porque ela passara por uma experiência extrema em meio à natureza, deu mais um passo para a frente. No entanto, olhou para cima mais uma vez. A águia, com a cobra ainda entre as garras, voava em círculos acima dela. Ela a fitou com a respiração presa na garganta. E por mais surreal que aquilo parecesse, podia jurar que a águia olhava para ela.
Kylie ficou ali de pé, protegendo os olhos do sol com a mão, até que o pássaro se tornou uma mancha escura se desvanecendo no céu azul. Ocorreu-lhe que ela devia ser grata à águia, mas o olhar frio do pássaro surgiu em sua mente e causou-lhe um arrepio na espinha.
Tirando a mão do rosto, recomeçou a andar em direção à sua cabana quando seu olhar cruzou com outro par de olhos frios. Fredericka. Kylie se lembrou de como a garota tinha ficado irritada ao encontrar ela e Lucas atrás do escritório, embora não estivessem fazendo nada além de olhar as fotos de Daniel e conversar.
— Como é a sensação de ser um brinquedinho? — A voz de Fredericka soou cheia de raiva, o tipo de raiva que poderia fazê-la expor as garras. E o tom alaranjado dos olhos escuros da garota indicava que as garras não estavam fora de questão.
Kylie respirou fundo e lembrou a si mesma para não demonstrar nenhum receio.
— O ciúme não lhe cai muito bem.
— Eu não estou com ciúme. — Fredericka abriu um leve sorriso de satisfação. — Especialmente agora.
Agora o quê? Kylie queria perguntar, mas para isso teria que dar ouvidos à encrenqueira, e recusava-se a dar a ela esse gostinho. Em vez disso, começou a se afastar, dizendo a si mesma para esquecer Fredericka, pois tinha outros problemas em que pensar no momento. Kylie tirou o telefone do bolso para ver se Derek tinha retornado a ligação sobre o detetive. Ele não tinha.
— A linhagem de Lucas é pura, ele valoriza isso — Fredericka disse, atrás de Kylie. — Os antepassados dele valorizam, também. E deixam isso bem claro. Então, quando chegar a hora de procurar uma companheira de verdade, ele não vai contaminar sua linhagem com alguém como você.
Besteira, Kylie disse a si mesma, e continuou andando. Fredericka estava apenas falando bobagem. Já tinha os avós ou supostos avós com que se preocupar, por isso não deixaria essa loba incomodá-la. Então a lembrança da águia encheu sua mente. Talvez ela devesse se preocupar com isso também.
Menos de uma hora depois, ainda sem notícias de Derek, Perry ou Burnett, Kylie se sentou à mesa da cozinha de sua cabana com Miranda e Della. Contou sobre a cobra e a águia e suas suposições de que o episódio significava, de algum modo, mais do que parecia.
— Eu teria percebido pelo cheiro se tivéssemos intrusos — garantiu Della.
— E eu teria sentido se tivessem usado magia para encobrir as pegadas de alguém — disse Miranda.
— Estão vendo? É por isso que eu preciso de vocês — disse Kylie. — Vocês não deixam que eu me perca. — Ela se recostou na cadeira, desejando que a confirmação das amigas tivesse afugentado todas as suas dúvidas. Então, mais uma vez, talvez não fossem as dúvidas que a incomodavam, mas todo o resto que acontecia em sua vida.
O animal de estimação de Kylie, Socks Jr., o gatinho que Miranda tinha acidentalmente transformado em gambá, pulou em seu colo. Embora Kylie continuasse presa ao seu tumulto emocional, algo tão corriqueiro quanto as conversas com as amigas à mesa da cozinha, regadas a refrigerante diet, traziam-lhe algum consolo.
Miranda, a primeira a se lamentar dos seus problemas de fim de semana com os pais, voltou a descrever com pormenores a competição entre bruxos, em que ficara em segundo lugar.
— Eu fiquei superanimada, por conseguir uma posição tão boa — disse ela. — Achei que minha mãe ficaria feliz. Mas não... — Miranda hesitou. — “Segundo lugar significa apenas que você é a primeira perdedora”, a minha mãe me disse. — O tom de voz de Miranda deixou transparecer o quanto ainda estava magoada. — Eu queria impressioná-la, e por um minuto, pensei que de fato, finalmente, tinha conseguido. Mas vi que nunca vou deixar aquela mulher feliz.
Della revirou os olhos.
— Por que quer deixá-la feliz?
— Porque ela é minha mãe! — Miranda respondeu com tanta sinceridade que Kylie sentiu uma ponta de tristeza. Lembrou-se de que se sentia assim também com relação à mãe antes que as duas começassem a se entender.
— Vou te contar uma coisa... — disse Della, fazendo um gesto com a mão. — Sua mãe é mesmo uma bruxa, mas no pior sentido da palavra. Pelo menos os meus pais só têm medo que eu esteja me prejudicando, consumindo drogas; não é que não estejam satisfeitos comigo.
Lágrimas brilharam nos olhos de Miranda e a raiva endureceu sua expressão enquanto fitava Della.
Kylie sentiu a tensão aumentando no ar.
— Acho que o que Della quer dizer é que...
— Sinto muito — Della interrompeu Kylie. O olhar sarcástico no rosto de Della logo se desvaneceu e se transformou numa expressão séria. — Isso pode parecer cruel, e eu... O fato é que, se meus pais soubessem a verdade, eles provavelmente iam preferir que eu fosse uma viciada em drogas em vez de vampira. — Della estudou o rosto de Miranda e suspirou. — É que eu fico furiosa com a sua mãe. Eu sei o quanto se esforçou para impressioná-la. E você conseguiu o maldito segundo lugar, o que é incrível!
— Obrigada — disse Miranda, a raiva se dissolvendo, mas os olhos se enchendo de lágrimas.
— Pelo quê? — Della se reclinou na cadeira, como se tomasse consciência de que tinha mostrado um lado mais suave de sua personalidade. Della raramente deixava esse lado à mostra. Não que Kylie e Miranda já não o tivessem visto. Bem, Kylie pelo menos tinha. Miranda tivera que se esforçar muito antes de conseguir ver Della baixar a guarda.
Miranda passou a mão no rosto para limpar as lágrimas e sentou-se com a coluna ereta.
— Chega dessa conversa. Eu tenho outras notícias. Todd Freeman, um bruxo que eu conheci, me procurou para perguntar se eu daria a ele o número do meu celular. Ele é tipo o cara mais gato da minha antiga escola. Então, pelo menos alguém percebeu que eu me dei bem na competição. — Ela sorriu. — Não que eu ache que ele esteja interessado no meu troféu... Eu o peguei pelo menos umas três vezes de olho nos meus peitos.
— Que babaca... — murmurou Della. — Espero que só tenha dado a ele o dedo do meio.
— Dã, não está me ouvindo? O cara mais gato da escola! Além disso, peitos grandes são ímãs naturais para os garotos... não tem jeito. Por que eu não daria o número do meu celular pra ele?
— Ah, sei lá. Talvez porque você ainda queira dar uns amassos num certo metamorfo...
— Ah, pelo amor de Deus, já superei Perry há muito tempo! — falou Miranda com rispidez.
Della bateu na ponta do nariz.
— Os feromônios não mentem.
— Não comecem a discutir outra vez como no primeiro dia! — pediu Kylie. — Amanhã vocês duas podem arrancar a pele uma da outra, mas hoje... só me deem um pouco de paz! — Ela tirou Socks do colo e colocou-o sobre a mesa. — Além disso... vocês estão aborrecendo Socks e desse jeito vamos acabar fedendo a gambá.
Della e Miranda olharam para Socks. O gato/gambá, pouco à vontade ao ver que era o centro das atenções, correu para mais perto de Kylie.
— Que tal uma trégua? — perguntou Kylie, acariciando o corpo trêmulo do animal assustado. Graças a Deus, Miranda e Della concordaram.
Miranda se aproximou um pouco mais.
— Eu acho que descobri como transformar nosso pequeno gambá num gatinho outra vez. Mas preciso dos primeiros raios de sol da manhã para fazer isso. — Ela estendeu a mão para acariciar Socks, mas o animal se afastou do seu toque e, em seguida, pulou novamente no colo de Kylie.
— Gambazinho esperto... — comentou Della, sorrindo. — Em que será que você vai transformá-lo acidentalmente da próxima vez?
Miranda fez uma careta.
— Talvez eu transforme você num gambá!
— E talvez eu arranque o seu coração para alimentar o animal de estimação da casa!
 — O que aconteceu com a trégua? — choramingou Kylie. O focinho de Socks se enfiou mais embaixo da axila de Kylie.
— Tudo bem! — bufou Miranda e depois olhou para Della. — Sua vez. Conte tudo sobre o seu fim de semana.
— Você quer dizer além de ter que fazer xixi na droga da vareta antidoping? Eles me obrigaram a fazer quatro testes. Acho que um deles era de gravidez. Como se eu estivesse dormindo com alguém. — Della pegou sua taça de sangue e lhe lançou um olhar duro. — A única coisa que fizemos em todo o fim de semana foi ver um filme, um clássico que a minha mãe adora. Chatíssimo. Pelo menos pude dormir sem ter que explicar por que eu parecia tão cansada no meio do dia. — Ela suspirou alto. — Então, esse foi o meu fim de semana. Nada emocionante pra contar. Nada mesmo. — Ela voltou a olhar para a taça.
Não foi tanto o fato de evitar o contato visual direto, mas a ênfase no segundo “nada” que deu às amigas um indício da verdade.
Miranda lançou para Kylie uma rápida olhada que deixou claro que ela também tinha percebido. A vampira estava escondendo alguma coisa... como de costume.
Enquanto Kylie se perguntava se convinha pressionar Della para que falasse um pouco mais, Miranda, que sempre falava primeiro e pensava depois, não se preocupou em saber se convinha ou não e foi direta.
— Mentirosa — acusou Miranda. — Se eu pudesse ouvir as batidas do seu coração agora, aposto que iria comprovar isso também. O que aconteceu? O que não está querendo contar?
Della olhou feio para Miranda. Kylie podia sentir que a frágil trégua estava indo para o brejo.
— Chan não apareceu? — Miranda perguntou.
Kylie não tinha pensado nisso.
— Ele apareceu? — ela perguntou, repetindo a pergunta de Miranda não por curiosidade, mas por preocupação.
Chan, primo de Della, também era vampiro e tinha ajudado a prima em sua transformação. No entanto, ele também era considerado suspeito de homicídio pela UPF. Depois de conhecê-lo, várias semanas antes, ele tinha violado a política da escola aparecendo para uma visitinha, e Kylie não estava completamente certa de que não era culpado pelos crimes. Mas Kylie nunca diria isso a Della.
— Não, ele não apareceu — disse Della. — Mas me mandou um e-mail.
Miranda fez um barulho engraçado com a boca. Kylie olhou para ela.
— É só catarrinho na garganta — disse Miranda, e voltou a encarar Della.
Ao ver que ninguém dizia nada, Della olhou para Kylie.
— Sua vez. Seu fim de semana foi muito mais emocionante do que o que aconteceu comigo.
— O que quer dizer com “o que aconteceu com você”? — Kylie perguntou.
— Eu sabia! — Miranda se inclinou para a frente. — Alguma coisa aconteceu. Confesse. Tem a ver com algum garoto? Conta! Desembucha, vampira!

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