31 de outubro de 2016

Capítulo 2

Amy caiu no chão de quatro, sentindo o choque fazendo seus ossos tremerem. Ela olhou para cima. A luz era bloqueada por um objeto pesado que vinha voando na direção dela. Ela se esquivou por instinto ao invés de por pensamento, se encolhendo em uma bola contra a parede do túmulo.
Dan caiu com um grito. Ela ouviu o ar deixar o corpo dele com um arquejo abafado.
— SOCORRO! — Amy gritou.
Em resposta, uma pá de terra caiu sobre seu rosto erguido. Ela cuspiu.
— Você está bem? — perguntou ao irmão.
Ele assentiu, e seu rosto ficou pálido por causa do medo e da dor.  Sua respiração estava curta, e ele enfiou a mão no bolso para pegar o inalador. Dan tinha asma, e Amy podia ver as nuvens de terra flutuando no ar, prontas para tapar suas vias respiratórias.
Ela gritou por ajuda novamente, mas tudo o que viu foi o brilho da pá enquanto mais terra chovia sobre eles.
— Ele me empurrou — Dan falou, sufocando e ofegando. — Deliberadamente...
Isso não pode estar acontecendo!
Pânico estremeceu através dela. Sua mente girava. Eles não tinham mais nenhum inimigo. Eles uniram a família, tinham dizimado uma organização criminosa global. Haviam voltado a ser duas crianças que viviam em uma mansão que era grande demais para eles, assombrados por todas as coisas que tinham feito e visto. Seus únicos inimigos eram memórias.
Então por que estava acontecendo novamente? O horror a dominou, fazendo seu cérebro zumbir em vácuo. Ela não conseguia pensar ou respirar. Amy foi atingida por mais terra. Quem quer que estivesse tentando enterrá-los trabalhava rápida e metodicamente, sem sequer espreitar por sobre a borda.
Não importa quem está fazendo isso. Você tem que sair daqui.
Amy podia sentir terra em seu cabelo, embaixo de seu colarinho e em seus ouvidos. Ela se lembrou da pilha de terra perto da cova aberta. Quanto tempo levaria até que o túmulo estivesse completamente cheio? Quanto tempo levaria para sufocar, até que a terra enchesse sua boca e seus ouvidos e seus olhos...
É a matemática da quinta série mais uma vez, ela pensou loucamente. Se um homem pode encher uma pá a cada dez segundos, e a sepultura tem seis metros de profundidade...
— Amy! — O rosto pálido de Dan de repente estava afiado enquanto o zumbido do pânico desaparecia. Ele apertou urgentemente seu braço. — Nós precisamos sair daqui!
Seu cérebro clareou. Instinto se juntando com experiência; tudo se acelerou e ela se sentiu mais calma. Ela olhou ao redor, avaliando, planejando. Mediu a sepultura com um rápido olhar. Provavelmente três metros quadrados. O lados eram íngremes. Amy tentou subir, mas a terra se desintegrou em suas mãos. Ela tentou enfiar o dedo do pé na terra, mas ela não conseguia se erguer. Ok, próximo plano.
— Cuidado! — Dan se jogou contra ela, derrubando-a de lado, enquanto a caixa de mármore era atirada dentro da cova também. Ela não atingiu o crânio de Amy por uma fração de centímetro e caiu no pé de Dan. Ele soltou um gemido de dor e se curvou.
Agora eram só os dois e as cinzas do Sr. McIntyre.
Amy olhou para a caixa. Não era só uma caixa. Era um degrau. Tinha uns 30 centímetros, só o que ela precisava. Era uma chance. E ela só teria uma.
— Dan — Amy sussurrou. — Suba na urna. Rápido!
Dan sabia o que ela queria que ele fizesse sem ela mesmo perguntar. Ele se equilibrou sobre a caixa. Flexionou os joelhos, fazendo um apoio com suas mãos.
Amy olhou para cima, cronometrando seu movimento. Um, dois, três e subiu, mãos nos ombros do irmão; em seguida, usando a parede da cova para manter-se estável, ela se equilibrou, subindo nos ombros dele. Ela sentiu o corpo de Dan tremer com seu peso. Ele precisava aguentar, apenas esperar por mais três segundos. Ela estava contando com a eficiência mecânica de seu atacante, a precisão do tempo com que ele usava a pá. Dois, um...
Ela se endireitou e saltou assim que o brilho da pá surgiu por cima da borda do túmulo. A ponta de metal se chocou contra a sua cabeça – mais dor, muito obrigada – mas ela agarrou-a e puxou com força, então caiu para trás na cova enquanto Dan se pressionava contra a parede.
Ela caiu de joelhos, atordoada e sangrando – mas ela segurava a pá.
Um rosto apareceu contra o retângulo de céu azul. O homem havia arrancado o colarinho de clérigo. Ele deu um sorriso, os dentes brancos e retos.
— Bom trabalho, mocinha. Você conseguiu seu brinquedinho. Vai se enterrar mais fundo?
O rosto desapareceu. Eles ouviram o som de passos se afastando. Ele estaria de volta logo.
Não havia tempo para hesitar, não havia tempo para pressionar algum tecido contra o sangue em sua testa, só havia tempo de tirá-lo dos olhos. Ela pulou de volta na caixa de mármore, pegou a pá pelo cabo longo, e fincou-a contra a parede da cova o mais forte que pôde. A pá caiu, a terra solta incapaz de segurá-la. Ela tinha que enfiar mais fundo.
— Me ajuda, Dan! — Ele ficou atrás dela, e, juntos, segurando o cabo, eles forçaram-na contra a parede de terra. Dan segurou a pá e assentiu para ela. Seus olhos verdes brilhavam contra a sujeira e o sangue espalhado em seu rosto.
— Eu te dou cobertura — ele disse a ela. — Vai.
Tinha que ser ela, ambos sabiam disso. Ela era uma alpinista, uma escaladora, ela sabia como encontrar os minúsculos nichos, como plantar seu corpo contra a parede e se erguer. Ela ergueu-se sobre o cabo da pá e enterrou os dedos na terra, fechando os olhos enquanto fazia uma saliência para a ponta dos dedos. Dan arrancou a pá e ela ficou pendurada ali enquanto ele enfiava a pá trinta centímetros mais alto. Ela o ouviu ofegar com força rapidamente. Ela testou o cabo.
— Pronto?
— VAI! — Dan grunhiu, e ela usou o cabo para subir até o topo do buraco.
Cada músculo de seu corpo tremia, mas ela sabia que podia conseguir. Tinha que conseguir. As mãos dela tocaram o chão sobre a borda. Seus músculos do braço tremeram quando ela rapidamente examinou o cemitério. O homem agora estava a cerca de cinquenta metros de distância. Ele corria em direção ao galpão de ferramentas. Atrás dele, outro homem apareceu, segurando uma pá.
Amy reuniu cada partícula de força que tinha e ergueu-se para fora do buraco. O rosto dela bateu no chão. Ela teve tempo para respirar – apenas uma vez – antes de se levantar.
Algo fez seu atacante se virar, algum movimento visto pelo canto do olho, e ele a viu. Os dois homens começaram a correr. Na direção dela.
Ela fez um cálculo rápido. Eles eram rápidos, muito mais rápidos do que ela esperava. Não havia maneira alguma de ela ter tempo suficiente de tirar Dan lá de dentro. Ela teria que atraí-los para longe dele.
Ela correu descendo o morro. Sentia o benefício de ter se forçado a fazer aquelas corridas como punição. Dan tinha dito que eles estavam a salvo agora, ela não tinha que ser assim tão... intensa, mas Amy encontrara consolo nas corridas matinais. Agora elas iriam ajudá-la.
Ela os levou para baixo até uma colina inclinada, saltando sobre as lápides. Durante o tempo todo ela procurara freneticamente por ajuda, seu olhar varrendo o cemitério em busca de qualquer sinal de pessoas. Eles não iriam atacá-la se houvesse pessoas ao redor.
Ela esperava.
Ela estava quase nas lápides dos Tolliver agora. Calculara mal. Eles estavam quase em cima dela. Como eles podiam ser tão rápidos? Ela tinha uma vantagem tão grande!
Amy saltou por cima de uma lápide velha caindo aos pedaços, e sentiu mais do que ouviu o deslocamento de ar quando a pá foi erguida. Com uma guinada repentina, ela se virou para trás e viu o olhar de surpresa do segundo homem quando ela mudou de direção e lhe aplicou um chute giratório clássico, bem na garganta.
Ela bateu forte.
Então por que ele não tinha caído? Ele não estava nem mesmo sem fôlego.
Ele apenas se afastou e levantou a pá, e ela abaixou no último minuto. A pá acertou o granito polido atrás dela. O cabo de madeira quebrou, mas o aço no fim da ferramenta quebrou a borda da pedra.
VAN JOSEPH TOLLIVER
A visão da lápide profanada de Evan rendeu-lhe tal surto de raiva que ela pegou o pedaço de mármore fragmentado e o atirou na cabeça do homem. Sangue jorrou de sua boca. Ele sorriu. Ela tinha uma impressão confusa de olhos da cor das lápides, sangue escorrendo dos dentes brancos e perfeitos.
Ele levantou o lado lascado do cabo. Ela se escondeu atrás da pedra de Evan enquanto o homem atacava.
Evan a protegeria uma última vez.
O cabo bateu na pedra e rachou, e ela estava correndo antes que ele pudesse pegar o cabo novamente. Ele estava em seus calcanhares. Ela podia ouvir sua respiração. Tão perto. Ela sabia que a qualquer momento ele agarraria seu cabelo, lhe daria um soco e a derrubaria... E então ela viu o outro à sua frente, os joelhos flexionados e pronto para mudar de direção caso ela escolhesse desviar do caminho. Eles iriam alcançá-la, e por algum motivo que ela nunca saberia, eles a matariam e, em seguida, voltariam para pegar Dan.
De repente, ela viu um carro entrar na estrada do cemitério, um Toyota vermelho brilhante. Era a melhor visão do mundo. Pessoas.
Amy virou no último segundo e começou a descer a colina, saltando sobre as lápides, agitando os braços e gritando, “EI!”
O carro parou. Uma mulher ainda jovem saiu. Amy ficou confusa quando, em vez de ajudar, ela começou a tirar fotos de Amy com uma câmera de lente para longas distâncias.
Outro carro parou. Agora Amy estava verdadeiramente confusa. Dois homens saíram e começaram a tirar fotos também. O que estava acontecendo?
Seus atacantes pareciam ter simplesmente evaporado. Num momento eles estavam em seus calcanhares, e no próximo eles estavam a caminho do carro preto, andando rapidamente, como pessoas de luto ansiosas para ir para casa.
Amy virou-se e correu para o túmulo de McIntyre. Ela se abaixou e olhou para o Dan.
— Eles se foram. Você está bem?
O rosto de Dan estava pálido. Ela viu a tensão em torno de sua boca e sabia quão assustado ele estava sobre o fato de que outra pessoa poderia ter voltado.
 — Claro. Eu só fui enterrado vivo. Nunca estive melhor.
  — Espera aí. Eu vou pegar uma escada. — Ela se apressou e desceu o morro até o galpão de ferramentas. Para seu alívio, havia uma escada encostada na lateral. Ela ergueu-a e voltou rapidamente para Dan. Amy escorregou a escada para dentro do buraco e um segundo mais tarde seu irmão havia subido.
— Eu estou com a aparência tão ruim quanto a sua? — Dan perguntou. — Por que você parece uma zumbi. O que faz sentido, considerando que nós saímos de uma cova...
Um jipe amarelo brilhante virou para o cemitério, vindo rápido demais. Amy sorriu. Havia apenas uma pessoa que ela conhecia que poderia se atrasar para um funeral e depois acelerar para dentro um cemitério. Nellie.

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