8 de outubro de 2016

Capítulo 29

Espere aí, Kylie pensou. Se ela estivesse morta, não deveria estar estatelada no chão, sem vida?
— Ah, não! — Kylie murmurou quando a mãe, com um olhar aturdido no rosto, caminhou até Holiday.
— Onde está Kylie? — perguntou.
— Ela correu para... o banheiro, eu acho, mas... não tenho certeza. — A voz de Holiday soou estridente.
Burnett parou ao lado da mãe de Kylie, seu olhar sério tentando interpretar o que estava acontecendo com Holiday.
— Algo errado? — A fachada de calma do vampiro era quase convincente, mas Kylie viu a tensão enrijecendo a sua mandíbula.
— Hã... É Kylie... Ela... desapareceu. Achei que talvez você pudesse encontrá-la.
— Desapareceu? — Todo tipo de pergunta surgiu em seus olhos.
Holiday assentiu e não desfez o contato visual, como se dissesse mentalmente a ele que a coisa era séria.
E, santo Deus!, era séria mesmo. Ela estava invisível!
— Que maluquice! — Minha mãe parecia confusa. — Ela estava aqui e de repente... virou fumaça.
Virou fumaça? Kylie subitamente se lembrou de que tinha desejado desaparecer. Desaparecer como um fantasma.
Droga! Droga! Droga! Se havia uma lição no antigo adágio advertindo para que tivéssemos cuidado com o que desejamos, com certeza era aquela.
As perguntas davam voltas na sua cabeça. Será que ela ainda era vampira? Será que tinha se transformado em bruxa e acidentalmente agitado o dedo mindinho ao fazer aquela declaração? Ou aquilo tinha tudo a ver com o fato de ela ser um camaleão? Foi então que se lembrou de que, segundo Perry, sua tia e seu avô tinham sumido, quando iam embora de carro, na primeira vez em que visitaram Shadow Falls, e também no cemitério. Será que sumir era o mesmo que virar fumaça?
As palavras do avô ecoaram na sua mente. Venha conosco. Ajudaremos você a entender tudo. Você precisa descobrir quem é e o que é.
Mais do que nunca, e não pela primeira vez, Kylie se perguntou se ele estaria certo.
— Você perdeu Kylie? — John perguntou, com rispidez. — Que tipo de lugar perde crianças?
— Nós não a perdemos — disse Holiday, mas Kylie viu o pânico brilhando nos olhos dela. — Tenho certeza de que ela vai aparecer a qualquer minuto.
A mãe pareceu relaxar, mas Kylie não sentiu o típico tom caloroso e reconfortante de Holiday. E, quando ouviu mais atentamente, percebeu, pelas batidas do coração da amiga, que ela estava mentindo.
Merda! Merda! Merda! Kylie tentou pensar no que fazer. Ela tinha que sair daquela enrascada... bem, aparentemente ela mesma tinha se colocado naquela situação.
— Eu posso fazer isso — ela disse, precisando de um pequeno incentivo, mesmo que fosse tão falso quanto um Papai Noel de shopping.
Ela tentou racionalizar. Se tinha ficado invisível desejando desaparecer, talvez pudesse reverter a situação desejando o contrário. Bastava conseguir pedir mentalmente a tudo o que fosse mais sagrado para que voltasse a ser como antes. Ela fechou os olhos e percebeu que, se funcionasse, ela apareceria como num passe de mágica. Aquilo assustaria todo mundo ainda mais.
— Vá para outro lugar — ela murmurou para si mesma. — Algum lugar reservado. — Kylie disparou na direção dos toaletes.
Quando irrompeu dentro do banheiro, ouviu vozes, mas ignorou-as, correndo para dentro de um dos reservados vazios. Inspirando e depois exalando o ar dos pulmões, ela fechou os olhos com toda a força.
— Eu gostaria... eu gostaria de ficar visível. — Ela abriu os olhos e fitou os pés. Ou o espaço onde seus pés deveriam estar... mas não estavam.
Um nó se formou na sua garganta. O medo fez seu coração disparar. E se ela ficasse assim para sempre? E se... Não! Ela já havia estado em situações piores. Já tinha sido sequestrada e acorrentada a uma cadeira e sobrevivido. Tinha sido atirada de um penhasco e contornado a situação. De repente, ela se perguntou novamente se a invisibilidade estaria relacionada ao seu lado bruxa. Ela agitou o dedinho.
— Me torne visível. Me torne visível.
Nada aconteceu.
— Mas que droga é essa que me aconteceu? — O nó na garganta dobrou de tamanho. Ela começou a chorar. — Alguém pode me ajudar, por favor? — Ela se encostou à porta do banheiro. — Daniel! — Ela sussurrou o nome do pai mesmo sabendo que não havia quase nenhuma possibilidade de ele aparecer. — Será que você pode, por favor, por favor, me ajudar?
— Pense em você visível no lugar onde está — disse uma voz.
Ela prendeu a respiração ao perceber que não se tratava de uma voz qualquer, mas a voz de Daniel. Ela se afastou da porta e viu a silhueta quase indistinta do pai, espremida entre o vaso sanitário e a porta.
— Pense. Torne isso realidade na sua cabeça.
— Como?
— Pense nisso. Dentro do seu coração. Você tem o poder... — Sua voz esmoreceu.
— Não vá! — implorou Kylie, mas ele se foi.
Secando as lágrimas, ela fez o que ele disse. Concentrou-se em ficar visível. Em estar no lugar em que estava, fisicamente.
Fechando os olhos novamente, sem nenhuma fé, mas desesperada o suficiente para tentar, ela se concentrou. Então abriu um olho e deu uma espiada. Seus pés nunca pareceram tão bonitos em toda a sua vida.
— Obrigada! Obrigada!
— Pelo quê? — alguém perguntou no reservado ao lado dela, mas Kylie mal ouviu, pois estava empolgada demais por não estar mais invisível.
Ela saiu do reservado e estancou quando viu Steve e Perry parados na frente dos mictórios, as calças arriadas. O som da urina batendo no mictório de cerâmica atingiu os seus ouvidos. Não era um som muito agradável.
Seu rosto adquiriu um vibrante tom de vermelho.
A porta do reservado atrás dela abriu-se com um assobio.
— O que você está fazendo no banheiro masculino? — alguém perguntou.
Steve, com as calças ainda arriadas, virou-se para trás. Completamente. Kylie cobriu os olhos com as mãos.
— Eu não vi nada. Eu juro. — Tudo bem, talvez ela tivesse visto, e por isso tivesse ficado vermelha.
— Que diabos? — Steve grunhiu.
Junto com a risada de Perry, ela ouviu o som de zíperes sendo puxados.
— Desculpe. — Com as mãos sobre os olhos, ela se moveu na direção da porta, mas em vez disso se chocou contra uma parede.
Perry riu mais ainda.
— Os passarinhos já estão na gaiola. Pode abrir os olhos agora.
Ela abriu, mas recusou-se a olhar para qualquer um deles. Para os passarinhos. Saiu do banheiro como uma flecha, desejando que tivesse um minuto para se recompor antes de...
Tarde demais.
Holiday a localizou. Assim como a mãe e John. Todos os três vieram correndo até onde ela estava.
Holiday a olhava com os olhos arregalados e cheios de perguntas. Perguntas que Kylie não sabia responder.
— Por acaso você acabou de sair do banheiro masculino? — A mãe perguntou parecendo levemente irritada, mas fitando-a com preocupação. John se adiantou e envolveu a cintura da mãe de Kylie. Alguma coisa no modo como a tocou fez com que a garota imaginasse os dois juntos, sem roupas. Ah, Deus... eles tinham feito sexo. Ela sabia.
Então ela viu a cena. Viu dentro da sua cabeça. E não era nada agradável!
— Você está bem? — a mãe perguntou. — Está vermelha como um tomate.
— Sim — respondeu Kylie, com a voz esganiçada. Afastou a imagem dos dois nus antes que desejasse desaparecer novamente.
— Você estava bem ali — disse a mãe num tom ligeiramente reprovador. — Eu virei a cabeça e você desapareceu.
Kylie abriu a boca para dizer alguma coisa, para se desculpar ou talvez para falar alguma coisa amena como “Que lindo dia, não?”, mas as palavras não saíram dos seus lábios.
— Você não virou a cabeça. Estava dando um beijo de desentupidor de pia nesse idiota. — Kylie respirou fundo, fechou a boca, mas ela voltou a se abrir como que por vontade própria. — Não está dormindo com ele, está? Pelo menos já leu os panfletos sobre sexo que me deu durante todos esses anos?
A mãe ofegou e seu rosto ficou vermelho brilhante. Então era daí que vinha a capacidade de Kylie para enrubescer. A mãe abriu a boca, obviamente para repreender Kylie, mas nada emergiu de seus lábios. Nem uma palavra.
John limpou a garganta num tom de censura. Mas quem, afinal, tinha lhe dado o direito de censurá-la?
— Ora, Kylie, não foi nada bonito...
— Você quer dizer o beijo? — Kylie perguntou. — Porque, francamente, eu não disse que foi bonito. Na verdade, foi extremamente constrangedor.
Foi nesse momento que Holiday limpou a garganta. Kylie aceitava a intervenção de Holiday, mas não daquele cretino, que ficava se esfregando na sua mãe.
— Eu acho melhor irmos lá para dentro — disse Holiday.
— Acho que a garota precisa de uma boa reprimenda — disse John.
A coluna de Kylie se empertigou. E dane-se se ela sentisse os caninos ficando um pouquinho mais longos. Suas emoções corriam tão rapidamente nas veias que ela não sabia nem definir como estava se sentindo. Exceto pela fome. Por sangue. Como ele tinha a ousadia de achar que podia repreendê-la?
— Espero que você seja rico, porque essa é a única razão que me ocorre para a minha mãe gostar de você.
A mãe arquejou e Kylie também. Por que ela estava dizendo aquelas coisas? Ah, merda, ela precisava ficar de boca fechada. O que havia de errado com ela? Será que ficar invisível afetara o seu cérebro? Ou ser um vampiro fazia com que ela fosse tão petulante quanto Della?
— Você está sendo muito rude, mocinha! — John falou e olhou para a mãe de Kylie.
— Ela não está sendo rude — uma voz profunda soou atrás de Kylie.
A voz lhe pareceu totalmente familiar, mas Kylie não conseguia pensar direito a ponto de reconhecer quem era, então ela se virou para dar um rosto àquela voz.
Ah, merda! Será que a situação poderia ficar ainda pior?
— Acontece que eu presenciei tudo. E, francamente, concordo com a minha filha. Foi bem impróprio. — O padrasto lançou para a mãe de Kylie um olhar de profundo desagrado.
O rosto da mãe ficou ainda mais vermelho, mas Kylie reconheceu aquela vermelhidão em seu rosto e soube que não era embaraço. Ela estava furiosa!
— Como ousa me dizer o que é impróprio? — a mãe esbravejou.
A vergonha se estampou na expressão do padrasto. Ele olhou para Kylie.
— Eu não sabia que Kylie estava lá. Eu não teria feito nada se soubesse. Eu já me desculpei centenas de vezes. Mas dois erros...
— Vamos todos dar uma volta — disse Holiday novamente. Mas ninguém saiu do lugar.
Kylie levou um segundo para perceber o que o padrasto queria dizer. Ela abriu a boca para dizer algo, mas o quê? “Não se preocupe, pai? Mamãe não sabe que eu vi a sua vadiazinha se esfregando em você e praticamente se atirando nos seus braços no centro de Fallen?
Não, não parecia a melhor coisa para se dizer. Então ela solenemente fechou a boca e começou a rezar para que acontecesse um milagre, pois seria preciso um para acabar com aquela confusão.
— Você não teria feito o quê? — a mãe perguntou, e quando o padrasto não respondeu, a fúria dela se voltou para Kylie. — O que você viu? — ela perguntou em seu tom “ou fala ou morre”.
E morrer parecia a melhor opção.
A culpa flutuou pelo peito de Kylie. Mas culpa pelo quê?, ela perguntou para a emoção indesejada. Não contar nada à mãe tinha sido o mais correto, não tinha?
— Por que não vamos até o escritório? — Holiday tentou novamente, colocando uma mão no ombro da mãe de Kylie.
A expressão desta se suavizou. Graças a Deus Holiday tinha um toque calmante. O pânico que se acumulava dentro de Kylie diminuiu. Que Holiday se encarregasse de resolver aquela situação.
Mas então Kylie viu o jeito como John olhava para o seu padrasto. E quando ele abriu a boca, Kylie questionou se Holiday seria capaz de operar esse milagre.
Não ajudou nada quando Lucas parou subitamente ao lado de Kylie, os olhos brilhando num pálido e protetor tom alaranjado. Não que ela não adorasse saber que ele se preocupava em protegê-la, mas a última coisa que queria era ter que explicar a cor dos olhos do namorado para o padrasto, para a mãe e para o homem que estava fazendo sexo com a sua mãe. E pensar nisso fez com que os olhos de Kylie ardessem. Merda! Será que seus próprios olhos estavam alaranjados agora?
— Você não tem nenhum direito de julgá-la depois do que você fez! — John deu um passo defensivo para a frente na direção do padrasto de Kylie e os próprios instintos de proteção da garota despertaram. — Não me admira que sua filha seja tão desrespeitosa! — John atacou.
Desrespeitosa?! Kylie sentiu os caninos crescerem um pouco mais e ficou tão furiosa que não percebeu Derek se unindo ao grupo; Lucas, no entanto, não deixou de reparar, pois soltou um grunhido.
Holiday se aproximou e, mantendo a mão em contato com a mãe de Kylie, descansou a outra palma no ombro de John. Por um segundo, a energia de tensão, que parecia sugar todo o oxigênio do lugar, diminuiu.
Kylie entoou uma prece silenciosa de agradecimento. Então notou a expressão no rosto do padrasto. E imediatamente se arrependeu da sua gratidão.
— Quem diabos você pensa que é? Não se atreva a insultar a minha filha — vociferou o padrasto.
Holiday olhou da mãe de Kylie para John e depois para o padrasto. A pobre Holiday só tinha duas mãos. Antes que alguém pudesse detê-lo, o punho do padrasto acertou o nariz de John. O sangue jorrou. Todos os vampiros no refeitório, incluindo Kylie, inalaram o aroma de sangue.
Lucas tentou puxá-la para trás, mas ela não saiu do lugar. A mãe de Kylie gritou. John começou a avançar para cima do padrasto, mas errou o alvo e, em vez disso, acertou Holiday.
Burnett atravessou a sala voando e arremessou John contra o chão. E todo mundo... todo mundo no refeitório, todos os campistas, todos os pais dos campistas, todos os professores, especialmente Hayden Yates, pararam para olhar o profundo caos em que se transformara a vida de Kylie.
Voltando a se concentrar no tumulto diante dela, Kylie se sentiu como a protagonista de um reality show chamado “Pais que se Comportam Mal”. Ela observava, mortificada, enquanto a cena prosseguia.
John tinha conseguido ficar de pé e se desculpava com Holiday.
A mãe parecia perturbadíssima.
O pai tentava falar com a mãe perturbadíssima.
Holiday tentava tocar todo mundo.
Burnett continuava a encarar John com fúria, provando quão difícil era para um vampiro aceitar desculpas. Não que ela o culpasse. Mate-o! Mate-o!, Kylie mentalmente incentivava Burnett.
Lucas não tinha parado de implicar com Derek e este não tinha parado de ignorar Lucas.
Todo mundo reagia de uma maneira ou de outra. Todo mundo exceto Kylie. Ela não se movia. Nem respirava. Estava congelada no lugar, concentrada... firmemente concentrada em não desejar desaparecer dali – porque, no fundo, era exatamente o que ela queria fazer.

7 comentários:

  1. Kkk_foi_tenso_o_final_mas_so_faltei_morrer_de_rir_meu_deus_que_confusao_engracado_Kylie_no_banheiro_masculino_achei_foi_bom_que_ela_falou_umas_verdades_pra_mae_dela_depois_o_Jonh_acertando_um_murro_na_coitada_da_Holiday_e_o_Burnett_quebrando_o_cacete_kkkkkk_acho_que_fui_a_unica_que_achei_esse_capitulo_maravilhoso_e_super_engracado

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  2. MELHOR CAPITULO MANO KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK GRITANDO

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  3. Nossa tava no consultório e todos me olhando rir sozinha.

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  4. "Holiday tentava tocar todo mundo"
    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Murri

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  5. Eu asdoro! Ahhh se desse pra por imagens aqui... seria hora de um meme de Girls in the House...

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  6. 😂😂😂😂😂😂😂 NUUNCA RI TANTO NA MINHA VIDA! !! DEUS DO CÉU! !!

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