14 de outubro de 2016

Capítulo 29

No dia seguinte, depois da aula, Kylie ainda estava com ressaca de chocolate. Sim, isso existia. Ela era uma prova viva, pulsante e nauseada disso. Holiday, alegando que todas as três mereciam afogar suas mágoas em cacau, não só tinha arranjado calda de chocolate, como fez Burnett comprar um litro de sorvete de chocolate e um pacote de biscoitos recheados de chocolate.
Claro, mais da metade dos biscoitos já tinha desaparecido no momento em que Burnett e Holiday desceram do carro, e Holiday ainda tinha migalhas no queixo.
— Estou comendo por dois — disse ela, desculpando-se.
Della tinha se contentado apenas com seus Bloody Marys de Chocolate, mas Kylie e Miranda tinham se empanturrado de sorvete, biscoitos e calda de chocolate. Kylie não ficaria surpresa se nunca mais fosse capaz de comer aquilo novo. Ela não podia negar que o chocolate tinha conseguido aliviar temporariamente todos os seus problemas. Mas aliviar, não resolve.
Della tinha ficado reclamando por Steve não aceitar que o relacionamento entre os dois havia acabado. Miranda choramingara sobre ter que se desculpar com Nikki. Kylie quase tinha caído no choro enquanto se perguntava por que todos os homens eram tão cafajestes. Mas quando as palavras estavam prestes a deixar seus lábios, ela se lembrou do que Derek tinha dito sobre ela ter despejado toda sua raiva do passado em cima de Lucas. Ao constatar novamente toda a verdade daquela declaração, ela mudou um pouco o seu discurso e falou sobre o quanto estava chateada por ser uma guerreira santa.
Claro que, depois de levantar a questão de ser uma guerreira, ela foi obrigada a contar tudo o que tinha acontecido com a espada, fazendo as amigas jurarem que não iriam contar a ninguém. Miranda, é claro, achava toda a coisa de ser uma guerreira santa muito legal, e Della ficou com inveja. Kylie ainda estava tão chateada que deu conta de mais uma tigela de sorvete para conseguir lidar com isso.
Ah, mas, antes que a noite terminasse, as três estavam rindo feito tontas de todo tipo de bobagem. Entre os temas que abordaram incluíam-se sexo, garotos e o que ficava melhor neles, sungas ou boxers.
As boxers ganharam.
— Ok, talvez chocolate e sangue não combinem tão bem assim — disse Della, parecendo muito triste naquela tarde também. Mas era Kylie quem estava no pior humor. Estava prestes a se encontrar com Lucas para ter sua primeira aula de esgrima. E, ainda por cima, a aula seria à beira do lago.
Por que ele tinha escolhido aquele local para o treino?
Ah, droga, ela sabia por quê – porque aquele era o lugar em que eles costumavam ir para uma sessão de amassos. Mas o que ela não sabia era se ele achava que havia alguma chance de aquilo acontecer nesse dia. Se ele achava, estava redondamente enganado. Ela iria lá para lutar, não para dar beijo de língua!
Ela viu Lucas esperando, apoiado casualmente contra uma árvore. Ela não o via desde o dia anterior no escritório, mas por alguma razão era como se houvesse se passado muito tempo. Ele tinha faltado à aula. Quando a senhorita Cane questionou a ausência dele, Fredericka ergueu o braço e disse que ele tinha ido pegar algo na casa da avó. Kylie sabia que eram os livros que Burnett queria.
Enquanto se aproximava, Kylie não conseguia desviar o olhar de Lucas, parado ali tão natural e vigoroso quanto a floresta atrás dele. Por alguma razão, ele parecia mais lobisomem do que humano, e ela supôs que o período da Lua cheia estava se aproximando. Cerca de duas semanas antes dessa fase da Lua, ela começava a perceber que ele parecia mais viril. Quanto mais perto ela chegava do ponto onde Lucas estava, mais ela percebia o quanto aquela aula seria difícil.
O cabelo preto dele precisava de uma tesoura e algumas mechas se encaracolavam. Esses pequenos cachos agitavam-se com a brisa e lhe davam vontade de correr os dedos através deles. Ele usava uma calça jeans apertada o suficiente para mostrar a parte inferior do corpo de um homem, não de um menino. A camiseta azul-clara estava justa nos ombros largos, definindo os peitorais sob o algodão fino. A bainha das mangas curtas delineava perfeitamente os braços, chamando a atenção para os bíceps. E a cor da camiseta só fazia seus olhos azuis parecerem mais indomáveis. Ele parecia saído de um anúncio de revista para vender algum produto supermasculino.
Lucas se afastou da árvore e começou a andar na direção de Kylie e Della, mas ela sentiu que ele se movia na direção dela, como se ela fosse o único destino dele. Não que ele se apressasse; sua marcha era lenta, mas confiante. O estômago de Kylie vibrou e ela sentiu que suas mãos começavam a suar.
Della inclinou a cabeça para baixo e sussurrou:
— Você sabe que os lobisomens podem farejar feromônios, não sabe?
Ah, que maravilha, ela pensou, mas então percebeu que, embora não conseguisse controlar o fato de se sentir atraída por ele, aquilo não queria dizer que teria que agir com base nesse sentimento.
— Se isso faz você se sentir melhor, saiba que não é a única poluindo o ar neste momento.
Kylie não tinha se vestido com a intenção de chamar a atenção dele. Ou tinha?
A camiseta rosa de decote canoa só revelava levemente a fenda entre os seios. Claro que estava um pouco justa, mas a maioria de suas roupas era assim desde que seu sutiã tinha aumentado um número no tamanho. A cor era feminina, mas o que ela podia fazer se gostava de rosa? Os shorts eram calças jeans que ela havia cortado, mas nada muito curto, e os tênis brancos eram simples e gastos sobre as meias cor-de-rosa, que combinavam com a camiseta. E a única maquiagem que ela usava era rímel e gloss.
Lucas parou à sua frente. Era incrível como ele cheirava a ar livre; um aroma fresco, de terra, com uma pitada de hortelã.
— Estou aqui. — Ela tentou parecer indiferente à presença dele.
— Que bom! — disse ele, e havia suavidade em sua voz.
Seus olhares se encontraram e se mantiveram assim por um segundo. O coração dela acelerou.
Della acenou com a mão para a amiga, como se dissesse que se sentia sobrando ali.
— Você quer que eu fique?
O “sim” de Kylie e o “não” de Lucas soaram ao mesmo tempo.
— Desculpe — disse Lucas, não parecendo lamentar tanto assim ao olhar para Della. — É que eu preciso de toda a atenção de Kylie para ensiná-la, e você iria apenas distraí-la.
— Certo — Della disse, num tom de descrença total.
Lucas franziu o cenho para a vampira.
— Tudo bem — disse Della. — Eu só vou dar uma volta por aí. — Ela olhou fixamente para Kylie. — Me ligue quando quiser ir embora e eu volto quando tiverem terminado.
— Eu a levo até a cabana — disse Lucas.
— Eu te ligo quando terminar — disse Kylie.
Della foi embora, deixando os dois sozinhos. Kylie olhou para a água por um segundo e tentou encontrar forças para resistir à próxima hora.
Nenhum dos dois falou durante vários minutos. Ela continuou a olhar para a água e ela pôde senti-lo olhando para ela. As borboletas, brincando de carrinhos de bater em seu estômago, aceleraram os motores e saíram em alta velocidade. Respirando fundo, e dizendo a si mesma que estava sendo tola, ela o encarou.
— Quando é que vamos começar?
— Vou pegar as coisas.
Lucas voltou a caminhar até a árvore onde havia um saco grande de pano ao lado do tronco. Ele pegou uma toalha do saco e, em seguida, estendeu-a no chão. Pegou o saco de novo e dali tirou uma espada. Ela a reconheceu imediatamente como a espada que a perseguia. Algo como um tremor em espiral percorreu a sua espinha. Mas não era medo, era outra coisa. Era como um sentimento inexplicável de reconhecimento.
Lucas pousou a espada sobre a toalha. Só o jeito como ele carregava a arma já expressava respeito, reverência. Ela não tinha a menor ideia de que ele sabia como manejar uma espada. Talvez o assunto de lutas e espadas nunca tivesse surgido nas conversas entre eles.
Kylie se aproximou e viu quando ele tirou do saco outra espada, um pouco diferente, mas parecida com a primeira. O tamanho e a forma pareciam quase os mesmos, e ambas tinham a mesma aparência de antiguidade.
Será que a outra tinha surgido de forma mágica também?
— De onde que veio essa espada? — ela perguntou.
Ele ergueu o olhar.
— Essa é a minha. Quando fui pegar os livros para Burnett, trouxe a espada também.
— Onde você arranjou uma espada? — perguntou Kylie.
— É uma relíquia de família. Está na minha família há muito tempo. Meu avô na verdade me deu antes de morrer.
Ela percebeu mais uma vez que as duas espadas pareciam ser do mesmo tipo.
— Eles eram cruzados ou guerreiros santos?
Ele sorriu para ela, um de seus sensuais sorrisos de bad boy. E os dedos de Kylie se remexeram dentro do tênis com aquele sorriso. Ela se lembrou de sentir aquele sorriso em seus lábios. Prová-lo.
Adorá-lo.
— Na verdade, eram vikings. Me contaram que eles eram uma espécie de Robin Hoods, não piratas assassinos, mas não posso jurar que isso seja verdade.
Ela passou as palmas das mãos suadas nos bolsos traseiros.
— Burnett já teve chance de olhar os livros? Será que ele descobriu alguma coisa útil?
Ele voltou a pegar o saco e tirou dali duas espadas de madeira.
— Eu o vi logo depois do almoço e ele me disse que ainda estava dando uma olhada neles.
— Você já leu esses livros? — perguntou Kylie.
— Já. Quando meu avô me dava aulas, eu os devorei. Eu costumava fazer de conta que era um guerreiro santo. — Seu sorriso se iluminou. — Salvando donzelas em perigo.
Ela podia quase vê-lo representando esse papel. Lembrou-se de quando eles eram pequenos e ele pegou a pedra que os valentões tinham atirado nela.
Aos 6 anos, ela o considerava um herói.
Aos 16 anos, ela o considerava um destruidor de corações.
— Tudo bem — disse ele. — Eis o meu plano. Primeiro vou ensiná-la a segurar a espada e, em seguida, a fazer alguns movimentos defensivos muito simples. Então vamos realmente treinar por um tempo.
Ele pegou a espada de Kylie e se moveu atrás dela. Ela imediatamente se virou.
— Fique olhando para a frente, quero te orientar sobre como segurá-la.
— Por que você não pode simplesmente me mostrar?
Ele franziu a testa.
— Foi assim que o meu avô me ensinou. Por favor, vire-se.
Ela franziu a testa para ele, mas se virou. Em seguida, ela prendeu a respiração e esperou pelo toque de Lucas. Esperou para sentir seu corpo contra o dela.
Esperou a dor que acompanharia o toque dele – a dor emocional, que era ao mesmo tempo doce e amarga.
Ela sentiu o peito de Lucas, quente e sólido, contra as omoplatas. A mão direita dele se estendeu para a frente e ele pressionou dois dedos um pouco abaixo do cotovelo de Kylie. Então ele deslizou lentamente a mão até o pulso dela. A sensação de seu toque era tanto desejada quanto indesejada. Ela engoliu em seco e o barulho que isso fez foi quase alto demais.
— Pegue a espada. — A voz profunda e rouca de Lucas sussurrou em seu ouvido.
Só então ela percebeu que tinha fechado os olhos.
Quando os abriu novamente, ela viu que ele tinha esticado o braço em torno dela e segurado a espada com a mão esquerda. Segurando a espada, ela fechou a mão em torno da arma.
— Agora, mova o pulso só um pouco para... — Ele fez uma pausa e nesse instante a espada começou a brilhar.
O jeito como ele inspirou o ar revelou que isso ainda o deixava impressionado.
Kylie ainda estava muito concentrada na sensação do corpo dele pressionado contra o seu para se preocupar com a espada.
— Assim — disse ele, girando ligeiramente o pulso dela para a direita. A cabeça de Lucas se virou também, e ela sentiu o rosto dele na parte de trás da cabeça.
Ela achava que o ouvira suspirar, mas não tinha certeza.
— Você sente como o peso da espada está nivelado na sua mão?
Ela assentiu com a cabeça, não confiando na própria voz. O aroma dele a rodeava. As ondas mais fortes de dor cessaram, mas ela ainda sentia uma dor incômoda. Ela também sentia... a maravilha que era o toque de Lucas. Sentia a pele dele onde quer que ele pressionasse o corpo contra o dela.
— Você está indo bem. É assim que precisa segurá-la.
Ficaram assim por alguns longos segundos. A forma firme do corpo dele pressionada contra ela, seu braço circundando-a, a espada na mão.
Por um segundo, ela pensou que tinha ouvido o zumbido, o som hipnotizante e poderoso feito para enfraquecer as parceiras.
— E agora? — ela conseguiu dizer, lutando contra a sensação de atração, de se sentir seduzida.
Ele respirou fundo e deu um passo para trás.
— Agora eu vou pegar a minha espada e te mostrar alguns movimentos. — A voz dele soou um pouco mais baixa.
Ele se moveu rapidamente para pegar a espada. Então voltou e ficou bem ao lado dela. Seu olhar azul-escuro desviou-se da espada e olhou para ela. Ela viu o ardor nos olhos dele, ela viu o desejo.
— Sinto muito. Eu não queria que isso acontecesse.
Ela desviou o olhar rapidamente e, embora parte dela quisesse se aproximar dele, ela simplesmente ficou ali e esperou que ele lhe mostrasse o movimento seguinte. Esperando que ele envolvesse apenas uma luta de espadas e não, sedução.

2 comentários:

  1. Aahhh pelo amor!
    Quer saber?!
    SÓ SE JOGA, KYLIE!
    Os homens são todos iguais... até a gente achar o nosso diferente...
    ele errou? Claro que sim... mas vey... só fica com ele... e lasque-se as consequências. Você sabe que ele com certeza aprendeu com a dor.

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