4 de outubro de 2016

Capítulo 29

Kylie saltou da cama e seu coração saltou com ela. Seus olhos se fixaram na janela, quando ela viu duas mãos agarradas ao parapeito.
Um grito subiu pela sua garganta, mas logo em seguida a voz de Della ecoou do lado de fora.
— Atreva-se a entrar por esta janela agora e eu vou chutar a sua bunda! E a sua posição é perfeita para isso.
As mãos desapareceram. Alguém bateu no chão com um baque surdo.
Kylie correu para a janela para ter certeza de que Della não tinha se envolvido numa luta mortal. Della, vestindo seu folgado pijama de algodão azul do Mickey Mouse, tinha as mãos nos quadris e o pé sobre alguém deitado na grama. Os olhos da vampira estavam verde brilhante.
— Merda! — praguejou Ellie, com os próprios olhos brilhando também. — Eu só queria falar com a Kylie. — Ela olhou para a janela, onde Kylie estava debruçada, e pegou do chão o boné de beisebol com a inscrição LITLLE VAMP.
— Está vendo aquilo ali? — Della apontou para a varanda da frente. — Chama-se porta. E a maioria das pessoas a usa para entrar.
— Eu não queria acordar mais ninguém.
— Então esperasse uma hora decente para fazer uma visita! — Della argumentou.
Kylie não sabia sobre o que Ellie queria conversar, mas, se tivesse alguma coisa a ver com Derek, estava ansiosa para ouvir cada palavra da vampira.
— Tudo bem — disse Kylie. — Venha aqui pra dentro.
— Ah, mas que ótimo! Recompensando um mau comportamento! — resmungou Della, olhando com desgosto para Kylie, que não podia fazer nada a respeito.
Ellie sorriu para Della, então se levantou e começou a escalar a janela novamente.
Della a puxou de volta.
— Use a droga da porta!
Quando Kylie saiu do quarto, Della tinha ido embora e Ellie sentou-se no sofá.
— O que foi? — Ela se aproximou e se acomodou na cadeira ao lado da garota.
Ellie olhou para cima.
— Eu não sei, só queria conversar.
— Sobre o quê? — Kylie perguntou.
Ellie dobrou uma perna sobre o sofá.
— Algumas coisas. Derek disse que você poderia ser uma boa pessoa para se conversar sobre problemas.
O peito de Kylie apertou.
— Se quer falar sobre você e Derek...
— Não. — Ela revirou os olhos. — Eu não estava mentindo quando disse que não existe mais nada entre nós... como casal. Eu gosto de Derek como amigo. Um amigo incrível, mas isso é tudo. E é um pouco sobre isso que eu queria falar.
— Não estou entendendo — disse Kylie.
— Estou preocupada com Derek. Ele está muito chateado com o que aconteceu entre vocês dois, e eu sinto que a culpa é minha. E, quando alguma coisa é culpa minha, eu me sinto no dever de consertar.
Kylie franziu a testa.
— Não é culpa sua. As coisas já não estavam indo bem quando ele foi embora.
— Eu sei, ele me contou... Mas mesmo assim...
— Não é culpa sua. — Kylie apoiou as mãos nos joelhos. Será que Derek estava realmente arrependido? A pergunta pairava em algum lugar entre a cabeça e o coração de Kylie.
— Sobre que outra coisa você precisa conversar? — perguntou ela, perdendo a vontade de falar sobre Derek. Não estava pronta para mergulhar nessa caixa de Pandora de emoções. Passado era passado.
Ellie deu de ombros e ajeitou o boné novamente.
— Eu só acho que não pertenço a este lugar. Me sinto mal quando penso em quanto Holiday se esforçou para conseguir que eu fosse aceita, mas... acho que é melhor eu ir embora.
Kylie se inclinou para a frente.
— Você quer deixar Shadow Falls?
— Quero. — Ellie franziu a testa. — Tudo isso simplesmente parece não ser pra mim.
As palavras dela não faziam sentido, então Kylie apenas sacudiu a cabeça em negativa.
— Tudo o quê?
Ela olhou para a porta do quarto de Della e deslizou até o canto do sofá, para mais perto de Kylie, baixando a voz.
— Todo esse mundo sobrenatural. Derek disse que provavelmente você iria compreender, porque sentia o mesmo um tempo atrás. Quer dizer, você não sente falta? Não sente falta de ser normal? De simplesmente andar por aí com seus velhos amigos? Eu quero isso de volta. Eu sinto falta de... Antes eu me preocupava com o que eu iria cursar na faculdade. Agora eu me preocupo em saber onde vou conseguir o próximo litro de sangue.
— Você não pode ir embora, Ellie. Eu não estou com raiva de você, se é por isso que quer ir. Quer dizer, a princípio fiquei magoada, mas...
— Não é isso. Mesmo — insistiu Ellie. — Nem mesmo aqui a minha espécie é muito bem-vinda — ela sussurrou. — Mas não é nem por isso. Nada com relação a isso, a ser vampira — ela acenou com a mão para cima e para baixo, mostrando o próprio corpo —, parece certo. Eu sinto falta... de ser humana. Sinto falta da minha mãe, que morreu alguns anos atrás. — Sua voz tremeu de emoção. — Talvez se eu apenas vivesse entre os humanos, me sentiria melhor.
Uma onda de simpatia por Ellie surgiu no peito de Kylie. Ela sabia perfeitamente o que a garota estava sentindo.
— É difícil — disse Kylie. — Mas você não pode sair daqui. Holiday diz que a maioria dos vampiros jovens acaba se juntando a gangues para sobreviver.
Uma pergunta ocorreu a Kylie. Ellie seria o vampiro que ia morrer? Ela estaria indo embora de Shadow Falls para acabar se envolvendo em algo terrível e perigoso?
A pergunta fez Kylie perder o fôlego.
A porta do quarto de Della se abriu e a vampira, com os cabelos em desalinho, atravessou o cômodo, parando bem na frente delas. Kylie viu mentalmente uma imagem da amiga com a cabeça enterrada embaixo do travesseiro, tentando não ouvir a conversa. Não que isso tivesse funcionado.
Ambas, Kylie e Ellie, olharam para Della.
Ellie fez uma careta.
— Você estava ouvindo, não é? Será que uma pessoa não pode ter...
— Pode, sua tonta. Eu tentei não ouvir, mas acabei ouvindo — disse ela em seu tom mais antipático. — Mas Kylie está certa. Você não pode ir embora. Não é fácil ser vampiro, muito menos se entrosar com uma nova família de vampiros, mas com o tempo acaba ficando mais fácil.
— Como? — Ellie perguntou.
A porta de Miranda se abriu.
— Você faz amigos — disse ela, entrando no cômodo aos tropeços, com cara de sono.
— Será que todo mundo ouve a conversa de todo mundo neste lugar? — Ellie perguntou, parecendo irritada.
— Mais ou menos isso. — Miranda se aproximou e caiu no sofá ao lado de Ellie. — Amigos não têm segredos uns com os outros.
— Mas vocês não são minhas amigas.
— Poderíamos ser — afirmou Kylie. E Della e Miranda balançaram a cabeça, concordando.
Ellie arregalou os olhos e desviou o olhar, mas não antes de Kylie perceber a emoção em seus olhos. Uma sensação quente preencheu o peito de Kylie e lembrou-lhe do que sentira na cachoeira; ela sabia que tinha sido a coisa certa a dizer. Então, por algum motivo irracional, teve um flash da visão do funeral.
Seria um sinal? Isso significava que Ellie era de fato a pessoa no caixão? E será que essa conversa tinha mudado alguma coisa?


Naquele sábado duas coisas aconteceriam. Bem, três, se Kylie contasse as contínuas tentativas de Miranda para transformar Socks num gato outra vez. As outras duas coisas eram: preparar-se emocionalmente para o Dia dos Pais e aprontar Miranda para o encontro com Perry.
Holiday tinha aparecido na cabana com um plano para o dia seguinte. Em vez de Socks ficar preso no armário de Kylie durante o Dia dos Pais, ela pensou que seria uma boa ideia levar o gambazinho para passar o dia na sua cabana. Desse modo, Kylie, Della e Miranda poderiam levar Sara e a mãe de Kylie para a cabana delas e ficar por ali, impedindo Sara de fazer muitas perguntas sobre todo o processo de cura.
Como Kylie tinha chegado à conclusão de que nada conseguiria prepará-la emocionalmente para ver Sara no acampamento ou para encarar de novo o padrasto, ela procurou afastar tudo isso da mente e focar sua energia na tarefa de preparar Miranda para o encontro.
Quando a bruxinha, uma pilha de nervos, vetou todas as roupas do seu próprio armário, Della e Kylie lhe deram carta branca para tentar encontrar alguma coisa nos armários delas. Até Ellie apareceu na cabana das amigas e ficou por ali durante uma hora para ajudar Miranda a se arrumar. Era meio estranho, mas... Derek tinha razão. Ellie realmente era uma boa pessoa. Além disso, Kylie não tinha conseguido esquecer o pressentimento que tivera na noite anterior, a sensação de que Ellie era o vampiro no caixão.
E talvez, apenas talvez, fazer amizade com Ellie tivesse salvado a vida dela.
Depois de experimentar cerca de seis modelitos, Miranda escolheu o vestidinho preto de Kylie.
Às sete horas, Perry apareceu na porta da cabana, tão atraente quanto na noite anterior. Burnett lhe emprestara seu Mustang e, supostamente, Perry tinha planejado uma noite sob medida para impressionar Miranda.
Quando a bruxinha chegou do passeio, um pouco depois da meia-noite, ela de fato parecia impressionada. Na verdade, impressionadíssima. Seus pés pareciam flutuar ao entrar na cabana.
Quando Kylie e Della exigiram detalhes, ela disse apenas:
— Foi muito melhor do que só “legal”. — Então seguiu flutuando até o seu quarto e foi direto para a cama.
Depois de fazer uma dancinha de comemoração com Della, Kylie foi para a cama e esperou para ver se Lucas iria ligar. Quase ligou ela mesma, mas decidiu se conter. Fora ela quem ligara da última vez. Era hora de ele tomar a iniciativa. Como deveria ter imaginado, o telefone não tocou. Mas o fantasma apareceu para outra silenciosa e gélida visita.
Kylie implorou para que ela falasse, e ela finalmente falou, mas nada de útil.
— Não é culpa sua. É isso o que eles queriam que eu te dissesse.
— O que não é culpa minha? — ela perguntou.
O espírito se desvaneceu, e o sofrimento frio que invadiu a atmosfera fez o peito de Kylie doer e lembrou-a de que não estava mais perto de resolver os problemas de Jane do que de resolver os próprios.
Domingo de manhã, quando Kylie voltou para a cabana depois do café da manhã, com Della em seus calcanhares, Lucas estava sentado na varanda. No momento em que seus olhares se encontraram, o coração dela disparou. Ele parecia muito bem. Era imaginação dela ou ele parecia mais masculino e de certa forma mais encorpado? Seria por causa da Lua cheia que se aproximava?
Ele sorriu para Kylie e ela sorriu de volta, sentindo-se derreter um pouco por dentro. Queria correr para seus braços e beijá-lo. Mas ela sabia que Lucas não ia gostar que ela fizesse isso na frente de Della.
Então todos aqueles sentimentos ardentes desvaneceram-se quando ela se perguntou se ele já tinha visitado Fredericka. Mas, dane-se!, o ciúme era uma emoção muito feia.
— Não precisa nem pedir — disse Della para Lucas ao pisar na varanda. — Eu vou pra dentro para vocês poderem se agarrar aqui fora. — Ela abriu a porta e olhou por sobre o ombro. — Mas, se você tirá-la desta varanda, vou te caçar aonde estiver.
— Pode deixar. — Ele balançou a cabeça, agradecendo.
Um instante depois que a porta se fechou, Lucas puxou Kylie para os seus braços.
— Senti sua falta — ele sussurrou, e seus lábios se fundiram com os dela.
O beijo foi leve, mas ainda assim apaixonado. Lucas a abraçou e Kylie sentiu nele as sutis diferenças que já tinha observado antes. Ele era todo músculos e masculinidade. Rígido em todos os lugares em que ela era macia.
Quando o beijo terminou, ela correu as mãos pelos ombros dele.
— Você fica mais... encorpado quando a Lua cheia se aproxima?
Ele sorriu e pressionou a testa contra a dela.
— Fico. É assim que o meu corpo se prepara para a mudança. — Ele se virou e encostou-se na parede da cabana. Então a puxou para ele e deslizou a mão pela sua cintura.
— Sentiu minha falta? — perguntou.
— Claro. — Ela sorriu para ele, sentindo o seu cheiro e adorando a proximidade.
— Nenhum novo desastre fantasmagórico desde que eu saí? — Ele arqueou uma sobrancelha escura.
— Não. Sem desastres. Exceto que tinha esperança de você me ligar de volta. Foram dois dias.
— Sinto muito. Meu pai agiu como um idiota e eu tive que ficar mais tempo do que previ. Fredericka não te contou?
O aborrecimento de Kylie chegou ao auge.
— Contou, mas teria sido muito melhor se você mesmo me ligasse.
Os olhos dele se apertaram como se estivesse tentando decifrá-la.
— Não é como se... Só liguei porque Clara queria falar com ela.
— Clara? — Kylie perguntou.
— A minha meia-irmã. Ela e Fredericka se conheceram quando ela foi embora comigo.
Que ótimo! A irmã de Lucas era amiga de Fredericka. O ciúme de Kylie aumentou um pouco mais.
Ele olhou nos olhos dela.
— Eu soube que Will teve que acalmar Fredericka. Vou falar com ela sobre isso.
Kylie imediatamente percebeu que não queria que ele falasse com Fredericka. Ela mordeu o lábio. Será que podia dizer a Lucas que ele não poderia ser amigo de Fredericka quando ela mesma não queria que ele dissesse quem podia ou não ser amigo dela?
Não. Ela não podia. Então, apenas disse:
— Não se preocupe. Eu cuido disso.
Ela olhou para o peito dele por um segundo, tentando manter sob controle o ciúme que se rebelava.
Ele levantou o queixo dela e seus olhos azuis a fitaram.
— Está tudo bem?
— Sim — ela mentiu. — É só que... estou um pouco preocupada com o Dia dos Pais. Ver o meu padrasto e, depois, Sara...
— Posso fazer alguma coisa pra ajudar? É só pedir.
O coração de Kylie se apertou com seu tom de voz preocupado. Lucas se preocupava com ela. Ela sabia disso. Ela acreditava. O que significava que ela não podia deixar que Fredericka ficasse entre eles. Simplesmente não podia.
— Você já ajuda estando aqui. — Ela lhe deu um longo abraço.
Foi só quando ele já tinha ido embora que ela percebeu que nenhum deles tinha mencionado o pedido de namoro.
Kylie e Della foram para o refeitório um pouco mais cedo com a intenção de ajudar Holiday. Miranda tinha ficado para trás se enfeitando, para o caso de encontrar Perry.
Miranda e Della – a vampira no auge do mau humor, provavelmente porque teria que ver os pais hoje – tinham implicado uma com a outra a manhã toda.
Kylie lembrou as duas de que precisavam se comportar muito bem enquanto estivessem perto de sua mãe e Sara. Mas ela sinceramente não se importava se discutissem na frente do seu padrasto.
Bem, talvez se importasse um pouquinho, mas Sara e a mãe eram mais importantes.
Elas tinham acabado de chegar no final da trilha para o refeitório quando alguém as chamou:
— Esperem! — Kylie se virou e Ellie, com um sorriso radiante, veio correndo para se juntar a elas.
Ellie sorriu e estendeu os braços como se quisesse abraçar Della. O rápido abraço fez com que o boné de Ellie caísse.
Della se retraiu.
— Eu não sou muito de abraçar, Ellie. Nada pessoal. Mas a maioria dos vampiros também não é muito chegada em abraços.
— Eu vou me lembrar disso — Ellie sorriu e pegou o boné do chão. — Della votou para me aceitarem em seu círculo. Sou oficialmente um membro da família de vampiros de Shadow Falls.
— Legal! — Kylie estava feliz por Ellie, mas, em algum lugar lá no fundo, esse foi outro lembrete de que ela mesma não pertencia a grupo nenhum.
Estranho ela ter ajudado Ellie a fazer algo que não conseguia fazer por si mesma.
Della franziu a testa.
— Não foi nada. Não pense que é grande coisa.
— Mas é uma grande coisa — disse Ellie. — Eu estava indo embora hoje, mas vocês me fizeram mudar de ideia. Ei, vocês podem ter salvado a minha vida! — Ela olhou para a frente e viu alguns outros vampiros. — Preciso correr. Mas, sério, obrigada!
Della seguiu Ellie com o olhar.
— Eu ainda acho que ela é melosa demais.
Kylie viu Ellie correr para conversar com os outros. Ela não sabia ao certo porque acreditava que Ellie era a vampira que os anjos da morte avisaram que morreria, mas uma pontinha de esperança de que tivessem salvado Ellie fez com que se esquecesse um pouco dos próprios problemas.
Pelo menos até cerca de trinta minutos depois, quando Kylie viu os pais dos campistas começarem a chegar. Todo mundo, menos o pai dela. Será que ele tinha se esquecido de novo?

3 comentários:

  1. — Você fica mais... encorpado quando a Lua cheia se aproxima?
    Ele sorriu e pressionou a testa contra a dela.Nsssss Lucas e Kyle vcs me matam

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!