8 de outubro de 2016

Capítulo 28

Kylie abriu a boca para falar, mas não soube o que dizer. Pelo menos com relação ao comentário de Derek.
— Oi, Cara — Derek a cumprimentou, olhando para Burnett como se para ter certeza de que poderia iniciar a conversa. Burnett assentiu com a cabeça e Derek continuou: — Estamos atrás de algumas informações sobre Cara M.
Ela apontou para o nome no crachá.
— Eu sou Cara M. M de Muller.
Kylie analisou o rosto da garçonete e tentou compará-lo ao do espírito. Não era ela. Ou será que era? Kylie tentou puxar pela memória, mas só se lembrava do cabeço loiro e dos olhos azuis. Os quais essa garçonete também tinha, mas...
— Desculpe — Derek disse. — Tínhamos a impressão de que Cara M. não trabalhava mais aqui.
— Bem, eu ainda trabalho. Desde que tinha 15 anos, dois anos atrás. Por quê?
— Será que outra Cara M. trabalhou aqui? — Kylie tentou não encará-la, mas sentia uma necessidade tão desesperada de descobrir a verdade que não resistiu.
— Não. — A garota olhou para Kylie. — Do que se trata?
Kylie notou que o crachá não estava bem fixado no uniforme.
— O que acontece se você perder o crachá?
Cara olhou de relance para os fundos do restaurante.
— O gerente tem um chilique.
— E o que você faria para evitar que ele tivesse um chilique?
Kylie se inclinou para a frente.
— O que quer dizer? — Cara perguntou.
— Ela quer saber se você já emprestou o seu crachá para uma das outras garotas — Derek explicou.
A garçonete se inclinou mais para perto dele, como se tivesse medo que alguém pudesse ouvir.
— O patrão nem percebe. Mas não sei por que vocês querem saber isso. — Ela sorriu para Derek como se... bem, como se ele fosse um cara muito atraente e ela fosse uma loira muito atraente. O que de fato ela era. E ele também. Kylie franziu os lábios, contrariada.
Holiday tocou o braço da garota. Sem dúvida para lhe enviar um fluxo de energia calmante e incentivá-la a se abrir.
— Alguma garçonete deste restaurante simplesmente... desapareceu?
Kylie viu Burnett inclinar a cabeça, como se para ouvir melhor os batimentos cardíacos da garota e detectar uma mentira; Kylie fez o mesmo.
— Elas vivem desistindo do emprego... a dona é uma mocreia! — A moça tinha falado a verdade.
— Alguém já foi embora sem pedir demissão oficialmente? — Holiday perguntou.
Cara fez uma pausa.
— Sim. Uma garota fez isso. Cindy alguma coisa. Não me lembro do sobrenome dela.
— Cindy alguma vez pediu o seu crachá emprestado? — perguntou Burnett, juntando-se à conversa.
— Cindy era loira? — Kylie perguntou de súbito.
— Sim — Cara respondeu para Burnett, e depois olhou para Kylie. — E era loira. Por quê?
Com o toque casual de Holiday no braço da garota e os sorrisos sedutores de Derek, Cara respondeu a todas as perguntas sobre Cindy. Antes de irem embora, Burnett perguntou se podia falar com o gerente ou a dona do restaurante.
Cara ficou nervosa.
— Fiz algo errado?
— Não — Burnett assegurou. — Mas pode avisar que precisamos conversar com um deles? — Ele tirou da carteira o distintivo. Kylie não sabia direito o que ele poderia significar para os humanos, mas não pareceu fazer diferença.
Cara ficou pálida.
— Ah, droga. Aconteceu alguma coisa com a Cindy?
Isso mesmo, Kylie pensou. Algo aconteceu. Algo muito ruim.
Antes de saírem, Burnett descobriu o nome completo de Cindy, Cindy Shaffer, e uma cópia do seu currículo, onde havia seus contatos para casos de emergência. Quando ele mandou as informações para a UPF por telefone e perguntou pela carta de motorista dela, eles responderam em poucos minutos. Quando ele voltou com a imagem de uma jovem loira e sorridente, os olhos de Kylie se encheram de lágrimas. Era ela. E Cindy Shaffer nunca sorriria daquela maneira outra vez.
Enquanto o vampiro dava ordens pelo telefone a alguém da UPF para que entrasse em contato com a família Shaffer, Holiday pediu bolinhos de canela à garçonete. Eles chegaram, quentes e cobertos de açúcar. Derek comeu dois, Holiday beliscou um. Kylie e Burnett pegaram os seus com menos entusiasmo. Embora o estômago de Kylie estivesse roncando, ela nem conseguiu sentir o gosto, pois a imagem de Cindy não saía de sua cabeça.
— Você está seguindo uma dieta “líquida” nas refeições? — Holiday perguntou a Kylie em voz baixa, sem querer pronunciar a palavra “sangue” em voz alta.
— Não regularmente... mas vou começar. — Ela não esperava ansiosamente por isso.
Burnett pagou pelo café da manhã. Quando foram para o carro, Kylie teve novamente o pressentimento de que alguém a observava. Ela se virou e viu um homem desaparecendo entre as lojas. Ela mal teve um vislumbre de um ombro e um braço, mas os reconheceu.
Kylie atravessou a rua em disparada.
— O que foi? — Burnett disparou atrás dela.
Kylie parou em frente a uma loja. Seu olhar voou para uma placa de madeira onde se lia “Leitura de Mãos”. Ela abriu a porta.
— Pensei ter visto alguém.
Burnett pegou-a pelo braço, os olhos agora verdes, no modo proteção.
— Quem?
Kylie ouviu Derek chamando seu nome da calçada do outro lado da rua.
— Vou descobrir. — Ela irrompeu pela loja.
Burnett entrou com ela.
A primeira coisa que Kylie notou foi uma boneca de vodu pendurada no teto, cravada de alfinetes. A segunda foi um odor repugnante. Ela cobriu a boca e o nariz com a mão. Embora estivesse com náuseas, procurou pelo homem que viu entrar no prédio. Ao perceber que o lugar parecia vazio, ela olhou para Burnett.
— Alho. — Ele franziu o nariz. — É só respirar normalmente que o cheiro começa a ficar suportável. Não vai nos matar.
— Posso ajudar? — uma voz perguntou por detrás do balcão, no canto da loja.
Kylie forçou-se a tirar a mão da boca e olhou para a mulher usando um vestido solto, de cores berrantes, que devia ser a tal clarividente. Mas só para confirmar, Kylie checou o seu padrão cerebral. Humana – mas com um padrão sombrio. Ela apostava que era uma charlatã.
Kylie inclinou a cabeça para ouvir se havia mais alguém na casa antiga. Nenhum som. Ninguém além deles respirava entre aquelas paredes, e Kylie desejou não ter que respirar. O cheiro estava impregnado em sua garganta. Ela fitou a porta. Para onde tinha ido o homem que vira entrando correndo na loja? Notando que a porta dos fundos estava entreaberta, ela apurou os ouvidos para ouvir se havia alguém do lado de fora. Se ele tinha saído por aquela porta, já devia estar longe.
— Hã... — Kylie forçou a voz a sair pela garganta apertada, mas, antes que conseguisse pronunciar qualquer palavra, ela notou a placa sobre a máquina registradora.

Proibido entrar com sapatos, sem camisa e com acompanhante.
E não aceitamos, em nenhuma circunstância, vampiros de coração frio.

Ela olhou para Burnett e de volta para a placa.
Ele franziu o cenho.
— Você gostaria de fazer uma consulta? — a mulher perguntou.
— Não. — Kylie ignorou sua vontade de vomitar. — Um homem acabou de entrar aqui. Eu acho que o conheço.
— Sim. A campainha tocou, mas eu estava nos fundos. Quando cheguei, a pessoa já tinha ido embora. Provavelmente um espírito. Eles vêm aqui o tempo todo.
Kylie tentou detectar a presença de algum fantasma. Não sentiu o frio característico dos mortos. E quem podia culpá-los? O fedor de alho provavelmente os afugentava também. Ela olhou para a mulher novamente, encarando-a agora como se ela fosse completamente louca. Uma louca muito burra se pensava que uma placa e uma réstia de alho podiam de fato afugentar vampiros.
A mulher notou que Kylie reparara na placa.
— Não tire conclusões apressadas. Eu os vejo rondando a loja o tempo todo. Eles têm um cheiro diferente.
— Sério? — Burnett perguntou com um ar debochado. — Você acredita em vampiros?
— Vocês não são os únicos que não acreditam — ela disse. — Mas eu tenho provas. Na propriedade de minha avó, os índios desenhavam vampiros nas paredes das cavernas.
— Material interessante para um livro de contos de fadas. — Burnett olhou para Kylie. — Podemos ir?
Tão logo saíram da loja, Burnett grunhiu:
— Quem diabos você pensa que viu?
Ela nem pensou em esconder. Ia mesmo contar a ele antes, só não tinha tido tempo.
— O que você sabe sobre Hayden Yates?
— O novo professor?
Ela assentiu.
— Eu mesmo fiz uma extensa investigação sobre todos os novos funcionários. Por quê? Você acha que deixei escapar alguma coisa?
— Ele não me inspira confiança.
— Não inspira confiança?
Kylie confirmou com a cabeça.
— E esta manhã, antes de o sol nascer, Della estava me acompanhando até o escritório quando o flagramos nos seguindo. — Ela parou de falar, ao perceber que aquilo não era totalmente verdade. — Talvez não estivesse exatamente nos seguindo, mas estava rondando por ali. E Hannah insistiu em dizer que seu assassino, seja ele quem for, estava perto do acampamento.
— E foi ele que você acha que Hannah viu?
Ela assentiu.
Ele franziu a testa.
— Mas Blake, o ex de Holiday, está na região também. Hannah pode ter se referido a ele.
Burnett queria que Blake fosse o culpado, e Kylie não tinha certeza de que não era, no entanto...
— Eu sei, mas eu só... Talvez eu esteja exagerando.
— Ou não. — Burnett sacou o celular do bolso e teclou um número.
— Della — ele disse ao telefone. — Localize Hayden Yates no acampamento.
— Posso dar um chute no traseiro dele também? — A voz de Della ecoou do outro lado da linha.
— Não, não o deixe perceber que você está atrás dele. Só quero saber onde ele está. E quero isso agora!
— Já estou a caminho! — ela respondeu.
O telefone ficou mudo por um segundo.
— Pronto... Estou do lado de fora da cabana dele, olhando pela janela. Ele está lendo jornal, sentado no sofá. Tem certeza de que não quer que eu chute seu traseiro? Kylie contou que achamos que ele estava nos seguindo?
— Contou.
— Isso é uma permissão para eu chutar o traseiro dele? — perguntou Della, com uma risadinha.
— Não — disse Burnett, sem achar graça. — Obrigado. — Ele desligou e voltou os olhos para Kylie.
— Eu não acho que ele teria conseguido chegar ao acampamento tão rápido — disse Burnett.
— Eu sei — concordou Kylie. — Então talvez não fosse ele.
O semblante de Burnett ficou sério.
— Mas, para garantir, vou fazer outro relatório detalhado sobre o sujeito.
Kylie apreciaria muito.
— Aonde é que vocês foram, afinal? — Derek parou ao lado deles.
— Pensei ter visto alguém. — Kylie localizou Holiday, atravessando a rua.
— O que aconteceu? — perguntou ela.
— Kylie achou ter reconhecido alguém. — Burnett fez um gesto para que atravessassem a rua. — Precisamos voltar para o acampamento antes que os pais comecem a chegar.
Ah, mas que ótimo! Agora Kylie teria que enfrentar todo o seu drama com os pais.
Holiday consultou o relógio.
— É melhor nos apressarmos.
Eles atravessaram a rua para chegar ao carro. Todos os cinco.
Isso mesmo, cinco.
Burnett acionou o controle para abrir as portas. Holiday entrou no banco da frente. Kylie parou ao lado da porta traseira, quando Hannah se inclinou na direção dela e sussurrou:
— Eu quero me sentar na janela.
Hannah, Derek e Kylie entraram no carro. Tão logo Burnett se acomodou atrás do volante, seus ombros ficaram tensos e ele olhou ao redor. O pânico em seu olhar deu a Kylie a certeza de que ela não era a única a ouvir e, o que era mais provável, ver Hannah.
Burnett dirigiu em silêncio, olhando toda hora pelo retrovisor. Kylie estremeceu com o arrepio causado pela presença de Hannah.
Você descobriu alguma coisa? Kylie falou mentalmente.
Hannah ignorou a pergunta de Kylie. Em vez disso, olhou para Derek.
— Ele é uma graça!
— Nossa! Está frio neste carro. — Derek pousou o braço sobre os ombros de Kylie. O calor do seu toque era agradável, e sua proximidade, suficiente para que o odor natural do seu corpo encobrisse o cheiro de alho, não era nada mal também. Justamente por essa razão, Kylie se afastou um pouco e lhe lançou um olhar de advertência que dizia, “Não abuse da sua sorte”.
Às vezes ela achava que ele se esquecia de que não estavam mais juntos. Mas era compreensível que ele se esquecesse, visto que Lucas nunca estava por perto...
— Você com certeza devia ter ficado com ele. — Hannah se inclinou na direção do ombro de Kylie. O toque gelado do espírito fez a garota enrijecer. — E, falando em romance, é melhor que esse palhaço no banco da frente tome cuidado. Se ele magoar a minha irmã...
— Não vou... — murmurou Burnett.
— Não vai o quê? — Holiday e Derek perguntaram ao mesmo tempo.
— Nada. — Burnett travou o queixo de tal maneira que deve ter rachado alguns dentes.
Hannah se inclinou para a frente e olhou para Burnett pelo retrovisor. Uma crosta de gelo se formou sobre o espelho.
— Se você partir o coração dela, eu juro, corto fora as suas bolas enquanto estiver dormindo.
A mandíbula de Burnett endureceu mais ainda. Holiday olhou, pasma, para o retrovisor e então encarou Burnett com os olhos arregalados. Um segundo depois, ela se virou para trás e lançou um olhar intrigado para Kylie.
— É ela? É Hannah que está aqui?
Kylie gelou, literalmente devido à presença de Hannah, mas também por não saber o que dizer.
Quando Kylie não respondeu, Holiday voltou a encarar Burnett.
— Você pode vê-la? Pode ver fantasmas? Como consegue?
— Temos um fantasma no carro? — O timbre de voz de Derek estava ligeiramente mais agudo.
— “Tinham” um fantasma no carro — disse Hannah. Seus olhos úmidos encararam Holiday, e então ela desapareceu, deixando no ar, como fumaça, sua tristeza profunda.


No momento em que Kylie vislumbrou a mãe e John, o novo namorado estranho, entrando no refeitório abraçados como dois adolescentes apaixonados, descobriu que estava com inveja da capacidade de Hannah de se desvanecer no ar. Por que a mãe achava que trazer John era uma boa ideia? E, se ele tinha mesmo que vir, ela não podia manter as mãos longe do traseiro dele enquanto a visitava?
Sim, porque a mãe de Kylie estava com a mão direita enfiada no bolso de trás do jeans do namorado. E, francamente, o homem nem tinha um belo traseiro!
É claro que a mãe não estava levando a sério a implicância de Kylie e achava que essas visitas eram necessárias para que a filha o conhecesse – antes... antes que fizessem algo estúpido como se casar.
O pensamento deixava Kylie quase morta de medo. Respirando fundo, ela disse a si mesma que estava exagerando. Como Nana dizia, estava fazendo tempestade em copo d’água.
A mãe não tinha respondido à pergunta dela sobre terem feito sexo. E o mais provável era que não fosse respondê-la hoje também.
A mãe de Kylie se virou, localizou Kylie do outro lado do refeitório e sorriu. Kylie acenou, esperando que a mãe fizesse o mesmo, tirando a mão do traseiro de John, mas não!
Respirando fundo, Kylie fingiu um sorriso.
A mãe sorriu para John e o homem se abaixou e beijou-a. Um beijo... de língua! E bem na frente de todos os colegas de Kylie.
— Ah, por favor, alguém me mate... — Kylie murmurou.
— Acho que formam um belo casal. — Holiday se inclinou na direção de Kylie como se percebesse seu tumulto emocional.
— E eu acho que vou vomitar. — Kylie jurou para si mesma que ia ter uma conversa séria com a mãe e descobrir exatamente o que estava acontecendo. Quando viu que o beijo não ia acabar tão cedo, Kylie concluiu que, de fato, ela queria sumir dali. Simplesmente virar fumaça.
— Respire fundo e se acalme — disse Holiday. — Você está em pânico.
Kylie olhou para Holiday.
— Minha mãe está dando um beijo de língua na frente de todo mundo — ela murmurou. — Claro que eu estou em pânico!
— Ah, meu Deus! — Holiday deixou escapar.
— Meu Deus por quê? — perguntou Kylie, alarmada com o pânico na voz de Holiday.
— Oh, Kylie... — murmurou Holiday. E então ela olhou para o outro lado do recinto e acenou para Burnett, com um ar preocupado.
— O que foi? — perguntou Kylie, olhando para a porta, certa de que alguém indesejado, possivelmente Mario, tinha entrado no refeitório.
Não era Mario.
— Merda! — Holiday sussurrou. — Kylie, aonde você foi?
— Como assim? Eu estou aqui. Bem ao seu lado.
Kylie olhou para os próprios pés, mas tudo o que viu foi o chão. Nenhum tênis, nenhuma perna. Nenhuma Kylie.
— Ah, droga! — ela murmurou e, embora não pensasse nisso havia algum tempo, ela se lembrava do pai dizendo que eles iriam descobrir as coisas juntos. Seria isso? Morrer seria assim?

3 comentários:

  1. Acho que era virou neblina, assim como os avôs dela.

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  2. Santo Deus! Eu estou confusa.
    O que está havendo agora, hein?!

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