31 de outubro de 2016

Capítulo 28

Mensagem de April May para J. Rutherford Pierce, encaminhada para Segurança 1:

CCTV mostra os alvos passando pela estação Kings Cross. Pegaram novamente a Euston Rd. Perdidos em algum lugar entre as estações Euston e na Pancras. Quatro hotéis no trecho de dois quarteirões. Sugiro busca por terra.

* * *

Pony estava cercado por biscoitos, chantilly cremoso, geleia e bolo quando Amy, Dan e Ian chegaram no restaurante do Hotel Greensward. Jonah descansava nas proximidades, com o rosto famoso obscurecido por um boné torto e óculos escuros. Ele deu um salto quando os viu.
— Manos! — Jonah abraçou Amy e bateu os punhos com Dan e Ian. Ele apontou para o Pony. — Esse é o segundo chá dele. Ele curte creme.
Embora as palavras de Jonah fossem leves, Amy podia ver como ele ficou aliviado ao vê-los. Pony pulou, limpando a boca, e eles o apresentaram a Ian.
Eles puxaram as cadeiras, mas Amy mantinha os olhos ansiosamente nas portas de entrada. Jonah tinha escolhido bem. Eles estavam em uma varanda, podendo inspecionar o lobby, com vista aberta para todas as direções. De onde estavam, poderiam descer as escadas até a entrada principal, ou procurar uma saída lateral seguindo por um corredor curto. O hall de entrada estava repleto de turistas, mas o restaurante estava relativamente vazio. Eles tinham privacidade, e ainda assim uma visão completa. Perfeito.
— Bora mostrar as novas tecnologia, mano — Jonah disse ao Pony.
Pony sorriu com orgulho e deslizou os novos smartphones pela mesa.
— Estes estão totalmente seguros quanto uma fortaleza. Encriptação, et ecetera – seus fossos básicos, arame farpado e cercas elétricas. Um programa executará verificações de segurança constantemente. Colocarei a mesma função nos celulares de Atticus e Jake.
— Este é o celular de Jake — Amy disse, passando para ele. — Eles devem chegar logo.
Ela cruzou os dedos por baixo da mesa. Sabia que era um gesto infantil, mas estava ansiosa demais para se importar.
Ian e Dan rapidamente contaram a Jonah e Pony o que haviam descoberto na Irlanda.
Amy se sentia muito nervosa para prestar atenção. Ela descruzou os dedos e olhou para o relógio. Onde eles estavam? Se alguma coisa acontecesse com Jake e Atticus...
Então, de repente, lá estavam eles, atravessando rapidamente as portas e entrando no lobby. Amy sentiu um alívio maravilhoso tomar conta dela. Ela queria pular e gritar, mas em vez disso, esperou calmamente até Jake começar a esquadrinhar o espaço, os olhos logo varrendo a varanda. Ela ergueu a mão.
Eles subiram as escadas rapidamente e se juntaram a eles na mesa.
— Vocês foram seguidos? — Amy perguntou.
— Nós os despistamos — Jake respondeu, sentando-se. Ele atirou um jornal em cima da mesa. Amy fez uma careta quando viu a manchete FINALMENTE O AMOR VERDADEIRO sobre ela e Ian, mas Jake apenas passou as páginas para apontar para outra manchete. PRESIDENTE PIERCE? Uma foto de J. Rutherford Pierce apertando as mãos de um primeiro-ministro apreensivo dominava a página. — Eu li o artigo. Pierce está em sua turnê de apresentação, que terminará numa conferência de imprensa em sua ilha no Maine. Daqui duas semanas. Espera-se que ele anuncie sua candidatura à presidência. Fará esse enorme coquetel para os seus apoiadores.
— Essa pode ser a oportunidade perfeita para lhe dar o antídoto. — Amy observou. — Ele vai estar se misturando, apertando mãos, comendo e bebendo...
— Ótimo plano — Dan concordou. — Exceto que nós não temos o antídoto. Não deciframos o código ainda.
— Ou descobrimos a fórmula — Jonah acrescentou.
— Ou juntamos os ingredientes — Ian adicionou.
— Vamos rezar para que não sejam trinta e nove — Amy disse, e eles sorriram com tristeza um para o outro.
  Amy olhou nos olhos de Jake. Ele rapidamente desviou o olhar.
— Duas semanas? Sem problemas — Atticus disse. — Vamos começar.
Pony tirou os olhos do seu bolo de creme.
— Cara, vocês são maneiros — ele falou.

* * *

Nellie tinha reservado para eles um quarto de hotel, só por precaução. Pony tinha descido ao lobby para pegar a chave. Eles todos se enfiaram nos elevadores e seguiram até o décimo quarto andar e montaram o acampamento. Empurraram a mesa para o meio da sala e colocaram o livro de Olivia sobre ela juntamente com uma pilha de papel e lápis.
Amy observou quando Atticus tirou os tênis e apontou um lápis. Jake se debruçou sobre o livro. Ele não tinha olhado para ela sequer uma vez. Ele nunca a perdoaria por tê-lo mandado embora da casa na Irlanda.
Em seu coração, ela prometeu pra si mesma que nada aconteceria com eles. Ela morreria primeiro.

* * *

Mensagem de texto do Segurança 1 para Segurança 3:

Vigilância do Hotel Renaissance concluída. Passar para Hotel Clarke na Pancras Rd.

* * *

— “Agora pegue o que é teu de direito, conte oito e no sexto, pause. / Pegue esse sexto, combine com o primeiro que os Romanos trouxeram”... O que quer dizer, “o que é teu de direito”? — Dan perguntou.
— Eu tenho direito sobre o meu avião — Jonah apontou. — E sobre três chalés. Mas não totalmente. Um deles está hipotecado.
Jake sorriu ironicamente para Jonah e eles deram um toque.
— Pelo o que Amy me contou, quando Olivia Cahill perdeu a propriedade da família em um incêndio, eles tiveram que seguir seus próprios caminhos. Então, se ela está falando com a filha, elas talvez não tivessem nada.
— Nós temos direito ao que somos — Dan disse. — Quero dizer, basicamente, quando você não tem nada, pelo menos você tem isso — ele bateu no peito. — Eu, Dan. Você, Atticus.
Atticus riu, mas Jake olhou para Dan por um longo momento. Amy olhou para Jake. Seu olhar se desviou de seu irmão para ela.
— O nome dela — eles disseram juntos.
— “O que é teu de direito” – é o nome dela — Amy explicou para os outros.
— Madeleine. Nove letras — Jake continuou.
Amy balançou a cabeça.
— Não pode ser, então. Olivia diz “oito”.
Dan trotou até eles sem sapatos, só de meias.
— Sua alegria, sua Canção — ele lembrou. — Não há uma canção madrigal?
— Uma canção medieval sem instrumentos — Jake disse. — De quatro a seis vozes...
— Olivia tinha cinco filhos — Amy disse. — Ela queria que Madeleine reunisse a família. Madrigal podia ser um apelido para ela!
— Oito letras — Jake contou.
O lápis de Atticus se movia furiosamente.
— É um código de alfabeto simples! — ele exclamou. — “combine com o primeiro que os Romanos trouxeram” – os romanos nos trouxeram o alfabeto!
— Pare no sexto — Jake disse.
— M-A-D-R-I-G — Amy contou. — Começando com um G. Combine com o primeiro, significa...
Atticus já estava trabalhando, seu lápis voando.
— Substituir G por A como a primeira letra — ele murmurou. — Isso significa que G na verdade é A, e a próxima letra, H, é na verdade B, e por aí vai...  moleza.
Ele levantou o papel.
— Esse é o novo alfabeto. Agora eu posso trabalhar de verdade.


Jake estava ocupado decodificando.
— Espera... há uma nulidade — ele disse a Atticus.
— Uma nulidade? — Dan perguntou.
— Um termo de criptografia. É uma letra ou um número, normalmente, que não significa nada. Só é jogado na mistura para confundir. Neste caso é apenas uma letra consecutiva. Fácil de perceber. — Jake se inclinou sobre sua página de novo.
— Não faço ideia do que ele quer dizer — Pony falou, estendendo-se na cama — mas ele é meu herói, mano.
— O resto está em italiano. Jake, você é melhor traduzindo. Eu sou melhor com línguas mortas — Atticus disse.
— Isso é porque você é um estudante zumbi da destruição — Dan disse a ele.
Atticus atravessou cambaleando o quarto até onde Dan estava e eles começaram a ter uma luta zumbi, mas pararam e se aproximaram quando Jake começou a ler em voz alta, traduzindo enquanto o fazia.
— “Após a morte da minha mãe, a tristeza que sentimos foi tão profunda que meu pai decidiu viajar para a terra em que estudou quando jovem. Aos quatorze anos eu viajei primeiro para Milão, onde conheci o companheiro de sua juventude, agora grande e famoso professor. Ele me fez secretamente a sua aprendiz, apesar de ser uma garota, depois de ter visto alguns desenhos e esboços meus. Estudamos em segredo, e talvez fosse a conspiração do aprendizado que nos levou à amizade mais profunda da minha vida.” — Jake olhou por cima do papel. — Ela o chama de maestro di vita, como no poema. É Leonardo, é claro. Ela continua dizendo que ele lhe ensinou botânica, anatomia, desenho, pintura... E então, quando ela tinha dezessete anos, “Meu destino apareceu um dia na porta do estúdio. Meu Gideon.”
Jake pausou, traduzindo enquanto falava.
— Eles casaram quando ela tinha dezenove anos. Havia algum tipo de dote...
— O dote! — Ian exclamou. — Eu sabia! De quanto?
— “Legado a mim pelo meu professor, que sabia que Gideon iria usá-lo bem. Urbes Perditae Codex” — Atticus traduziu por sobre o ombro de Jake. — O Códex das Cidades Perdidas. “Copiado e aqui escrito.”
Jake passou a mão pelo cabelo.
— Isto é inacreditável. Um manuscrito perdido de Leonardo, transcrito pela sua antepassada!
— Mas o que isso é? — Amy perguntou. — E o que tem a ver com o antídoto?
— Nos dê um minuto — Jake pediu.
Ele estendeu os papéis sobre a mesa, em seguida, consultou o livro. Atticus ergueu um espelho, e, juntos, falando em voz baixa, eles traduziram as páginas de Olivia enquanto Amy andava pra lá e pra cá, Dan ficava de pernas para o ar, Jonah observava a janela, Ian tentava ajudar e a cabeça de Pony tombava e ele soltava um ronco alto.
Finalmente, Jake largou a caneta e passou a mão pelo cabelo mais uma vez.
Atticus sentou-se.
— Ok. Minha cabeça está oficialmente explodindo.
— Aparentemente... — Jake parou e respirou. — Isso é tão difícil de entender...  mas este documento dado a Olivia trata das grandes civilizações perdidas do mundo – sete delas. Até o fim eles mantiveram suas maiores sabedorias – suas curas, poções, medicamentos – e as escreveram. Os escritos foram passados para os últimos sobreviventes, e ao longo de anos foram compilados em um documento – que passava de mão em mão para o maior estudioso da época. Até que, finalmente, chegou a Leonardo da Vinci.
— Que deu para sua antepassada — Atticus contou a eles. — Olivia Behan Cahill.
— Então esse códex – Olivia copiou toda a informação para seu livro? — Amy perguntou.
— Para escondê-lo — Jake explicou. — Suponho que cada proprietário copiou as informações de modo que fosse mais fácil de manter e passar adiante.
Amy já tinha memorizado o poema.
— “e virar a batalha não com armas, mas com sabedoria adquirida da antiga região / mantida próxima e passada de mão em mão” — ela recitou baixinho.
Dan continuou. 
— “por mio maestro di vita, a ti, mulher atemporal, homem universal. / Então ele me legou, e a sabedoria ofereceu / e eu, através de seus próprios métodos, escondi.”
— “Através de seus próprios métodos” – isso significa a escrita espelhada. Leonardo usou isso, também — Atticus observou. — Mas tem um problema.
— Sempre tem um problema, mano — Jonah notou. — Bem-vindo à Terra dos Cahill.
Jake bateu na mesa.
— Pelo o que li, o códex é apenas o que diz. Sob cada civilização há textos curtos que dão conselhos, lista de medicamentos, até venenos – todos os tipos de coisas. Diz como curar picada de cobra, matar um inimigo, até como induzir um coma. Mas não há nada aqui que pareça ter sido adicionado por Olivia. Então...
— Não há fórmula para o antídoto — Amy terminou.
— Pelo menos não uma fórmula óbvia. Também há listas enumeradas embaixo de cada civilização — Jake explicou. — Por exemplo, Cartago tem quinze, Angkor Wat tem vinte e dois, Tikal tem doze. Mas... sem fórmula.
— Mas por que isso estaria no códex de qualquer forma? — Ian perguntou. — Gideon usou os segredos do livro para fazer o soro, e Olivia o usou para o antídoto. Tem que estar em uma parte do livro dela.
— Mas eu já o li de capa a capa! — exclamou Amy. — Mais de uma vez.
— Espera um segundo — Dan falou energicamente. — Nós já descobrimos o que todo o poema significa, exceto por uma linha. E quanto a “sem bordas entrevendo, o esboço sombrio do segredo concedido”?
— Você está certo, Dan — Amy concordou, animada.
Ela virou as páginas dos livros.
— Escuro sombrio... as páginas negras, talvez?
Amy olhou para elas, e então para a página com o de Madrigal.
— Espere um minuto. Olivia disse que usou os próprios métodos de Leonardo, certo? Alguém tem uma lupa?
Atticus procurou em sua mochila e lhe entregou uma. Amy estudou a página com o M de Madrigal através da lupa. Era uma página escura, manchada de tinta, com o M no centro, e com folhas entrelaçadas, ervas e flores em volta dele.
— Eu li sobre Leonardo no celular do Jake — ela falou. — Ele trabalhou na Mona Lisa por quase vinte anos. Os historiadores de arte acham que é porque ele usou uma pequena escova e uma lente de aumento. A técnica é chamada de sfumato, “fumaça de Leonardo.” Tem camadas e camadas e camadas na pintura. Ele não queria que você visse quando as cores mudavam para outras – as bordas.
O rosto de Amy estava perto do livro agora. 
— Estou vendo! — ela exclamou. — Olivia escondeu letras na hachura. Tem um texto que serpenteia em volta do M. Está escondido nas folhas. Não dá para vê-lo a olho nu! Eu vejo a palavra Cartago – a cidade perdida. “Extraia uma medida”. E o número oito. Você não disse que os ingredientes eram enumerados, Jake?
— Espere aí — Jake virou as páginas do livro. — Número oito na sessão Cartago é...  silphium. Seja lá o que for.
— Continue, Amy — Dan pediu. — O que vem depois?
Amy pegou a lupa novamente. Trabalhando com cuidado, porém rapidamente, ela encontrou as sete civilizações, números de ingredientes e quantidades. Jake as escreveu.

Troia: seis bigodes do leopardo de Anatólia, moídos até o pó
Cartago: Silphium, extrair uma medida
Tikal: cristal despedaçado, uma medida transformada em pó
Angkor: meio jigger de veneno da cobra Tonle Sap aquática
Pueblo: uma cabeça de @
Britannia: asa da borboleta Paralucia spinifera
Abissínia: raízes fervidas de três plantas dingetenga

— Em que país fica Cartago? — Dan perguntou.
— Na Tunísia dos dias de hoje — Atticus respondeu.
— Angkor é a Camboja — Ian disse. — E Tikal?
— Uma das maiores civilizações da história do mundo — Atticus falou. — Remonta ao quarto século a.C  Você pode visitar as ruínas na Guatemala.
— Aí esta — Dan apontou. — Outra busca mundial. Pelo menos são apenas sete civilizações, não trinta e nove. Mas onde fica Troia? Eu não sabia que ela era real. Quero dizer, era real no filme, mas...
— É um lugar de verdade. — Jake respondeu. — As ruínas estão na Turquia.
— Talvez devêssemos começar lá. — Amy disse. — Turquia não fica a um voo longo daqui.
— Seis bigodes de um leopardo? — Dan perguntou. — Fico feliz que seja tão fácil. O que devemos fazer, correr atrás dele com um par de pinças?
  Jake franziu a testa sobre seu laptop.
— Espera. Tenho má notícias. Silphium é uma planta usada na antiguidade clássica. Está extinta. Assim como o leopardo de Anatólia.
— Ah, cara. — Jonah disse do chão, onde estava deitado, com um travesseiro sob a cabeça. — Isso é sacanagem.
— Como podemos fazer um antídoto com coisas que não existem mais? — Ian perguntou.
O clima na sala desinflou instantaneamente. Era como se a busca tivesse acabado antes de ter começado.
— Ei, manos — Jonah disse, saltando de pé em um movimento suave que lhe rendeu o título do videoclipe mais visto de todos os tempos. — Só porque é difícil ,não significa que não podemos resolver o problema. Nós achamos trinta e nove pistas, caras. Nós podemos achar alguns bigodes.
— O Jonah está certo. Nós não podemos receber um não como resposta — Amy declarou. — Eu digo que vamos para Turquia e veremos o que conseguimos achar. E veremos sobre o silphium, também, quando o tempo vier. Nós não temos escolha. Temos que tentar.
— YOLO — concordou Jonah. Os outros pareceram confusos. — Explique, bróder. — Jonah pediu, apontando para Pony.
— You Only Live Once, Você Só Vive Uma Vez em inglês — Pony traduziu.
— Precisamente — Ian concordou. — Se formos e exploramos, daremos um  jeito.
— E a melhor coisa que podemos fazer agora — Jake falou — é sair de Londres.
— Avião abastecido e pronto para ir, mano — disse Jonah. — Próxima parada, Istambul.

* * *

Mensagem de Texto de Segurança 1 para Segurança 3:
Hotel Clarke limpo. Próxima busca: Hotel Greensward.

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