4 de outubro de 2016

Capítulo 28

Todd, um cara supergato com cabelos cor de areia, saltou da picape e franziu a testa. Ele obviamente não tinha deixado de reparar no quanto Perry estava próximo de Miranda, a ponto de quase tocá-la. Pelo jeito como olhou para eles, também tinha visto o beijo.
— Alguém está tentando roubar a minha garota? — As palavras de Todd podiam parecer bem-humoradas, mas seu tom de voz deixava transparecer algo bem diferente. Ele se aproximou de Miranda e colocou um braço ao redor dos ombros dela, de um jeito possessivo.
Kylie viu todo o corpo de Perry enrijecer. Seus olhos adquiriram um tom vermelho brilhante.
Todd, ainda de olho em Perry, franziu as sobrancelhas para verificar o padrão cerebral do metamorfo. Engoliu em seco quando percebeu de que espécie Perry era. Kylie quase esperou ver o bruxo molhando as calças.
A porta do escritório se abriu e se fechou atrás deles.
— Ei, Perry? Posso falar com você um minuto? — Burnett chamou.
Kylie deu um passo para ficar mais perto de Perry.
— Não estrague tudo agora — ela sussurrou.
Perry, com a raiva emanando de todos os poros, continuou encarando Todd. Kylie começou a sentir o zumbido de eletricidade em torno do metamorfo.
— Não faça isso — Kylie repetiu num sussurro.
Perry olhou para Burnett, em seguida para Kylie, e depois de volta para Miranda.
— Vejo você amanhã à noite — disse ele, mas seu tom de voz estava tão tenso que Kylie percebeu na hora o quanto lhe custava manter a compostura.
Então ele se virou, transformou-se em seu pássaro favorito e alçou voo, fazendo pequenos círculos em torno deles.
Della se inclinou para Kylie.
— Ele vai emporcalhar toda a picape do Todd com titica, fica olhando!...
Kylie de fato ficou olhando e torcendo para que Della estivesse errada. Ok, teria sido muito engraçado, porque um pássaro tão grande quanto Perry poderia fazer um belo estrago na picape de Todd, mas Kylie não achava que isso iria impressionar Miranda.
E esse, ela percebeu, era o motivo pelo qual Perry havia se transformado.
Ainda assim, Kylie não relaxou até Perry mudar de direção e voar para a floresta.
— Ei, já sei! Por que não vamos nadar no riacho hoje à noite? — sugeriu Della quinze minutos depois, quando voltavam para a cabana. — Um grupo de campistas pendurou um balanço num dos galhos de árvore mais altos, pra que a gente possa saltar na água. Estou morrendo de vontade de experimentar.
Foi a palavra “morrendo” que deixou Kylie sem fôlego. Ela tinha quase bloqueado o aviso de Jane Doe da sua mente e não fazia ideia da razão por que de repente se sentia tão apavorada.
— Não! — Ela deixou a resposta escapar tão rápido que Della fez uma careta.
— Por quê?
Porque você pode morrer.
— Porque... — Kylie lutou para encontrar uma explicação até que se lembrou de que tinha um motivo bem real. — Porque Holiday está trazendo o computador de Burnett para eu usar.
— Por que você precisa do computador dele se temos um?
— Para enviar um e-mail para... É um pedido de um espírito. Vou enviar um e-mail para a família da mulher morta e tentar esclarecer a ascendência dela, e Burnett tem um endereço eletrônico que não dá pra rastrear — explicou Kylie.
— Ah... — Della calou-se. Engraçado como mencionar a palavra fantasma era o suficiente para acabar com qualquer conversa.
— Então, que horas ela vai aparecer? — Della perguntou, finalmente. — Eu poderia dar uma corrida até o riacho enquanto você estiver com ela.
E você poderia morrer. Nada disso. Não vai a lugar nenhum.
— Mas você é a minha sombra.
— Holiday deixou Jonathon sair mais cedo, quando ela estava lá.
— Mas isso foi antes do sumidouro. — A explicação soou convincente e o nó no estômago de Kylie relaxou. Ela podia não conseguir contar a Della sobre a premonição, ou fosse qual fosse o nome que Holiday dava àquilo, mas nada poderia impedi-la de tomar conta da amiga.
— Tudo bem — disse Della, embora não parecesse nada feliz. O que para Kylie tanto fazia. Infeliz mas viva era melhor do que o contrário.
Um grupo de campistas apareceu na curva da trilha e passou por elas. Kylie sentiu o olhar frio que lhe lançaram com tamanha intensidade que pareceu levar um tapa, e quando percebeu que uma das garotas era um lobisomem, deduziu de quem poderia ser o olhar gelado que lhe dava arrepios.
Outra olhada para o grupo confirmou suas suspeitas.
Fredericka.
Kylie continuou andando, na esperança de que a ignorassem.
— Ei, loira! — Fredericka chamou.
Fechando os olhos por um segundo, Kylie tentou reunir toda a sua paciência. Quando se virou, olhou Fredericka nos olhos. A loba tinha se aproximado silenciosamente e parado tão perto que Kylie podia até contar os cílios dela. A garota sorriu de forma desagradável. E foi nesse momento que Kylie teve uma epifania.
Ela não estava com medo.
Fredericka, com aquela atitude “Vou te fazer em pedacinhos” não a assustava mais. Deixava Kylie extremamente irritada, fazia com que sentisse algo semelhante ao ciúme, embora confiasse em Lucas, mas não tinha um pingo de medo.
— Precisa de alguma coisa? — Kylie levantou a mão para impedir Della de ficar entre elas. A vampira, provavelmente furiosa por ter sido impedida, rosnou e expôs os caninos pontiagudos. Os olhos de Fredericka adquiriram o tom laranja brilhante que indicava irritação.
— Achei que você gostaria de saber que Lucas me telefonou e disse que só vai voltar amanhã à noite bem tarde — disse a garota num tom de voz enjoativamente doce. — Ele está com problemas com o pai. Estava muito triste. Pobrezinho. Precisava de alguém para conversar.
Kylie sabia que Fredericka só estava falando aquilo para irritá-la.
E funcionou.
Mas o orgulho de Kylie obrigou-a a sorrir e fingir que tudo estava às mil maravilhas. Uma parte dela, porém, queria dar um belo chute em Fredericka e só se preocupar com as consequências depois.
— Obrigada por me avisar, mas combinamos de ele me ligar daqui a pouco. — Ela retribuiu o sorriso de Fredericka com outro ainda mais doce e se afastou.
Fredericka segurou-a pelo braço. Seus dedos se cravaram no cotovelo de Kylie, que quase tentou se afastar. Então se lembrou de que, se todo mundo tinha tanta certeza de que ela era uma protetora, não teria força para vencer Fredericka. Sua força só seria maior do que a da loba se Fredericka tentasse machucar alguém com quem Kylie se importasse.
E considerando que essa outra pessoa era Della e a morte rondava a amiga e todos os outros vampiros de Shadow Falls, Kylie não deixaria Della se envolver.
Kylie teria que usar a inteligência para sair dessa. Será que ela tinha o suficiente?
— Você quer largar meu braço? — Kylie fingiu não sentir seus ossos prestes a serem esmagados sob os dedos de Fredericka.
— Na verdade, não — rosnou Fredericka.
— Ok, mas não diga que eu não avisei. Porque o espírito de uma mulher anda rondando por aí e ela já está de mau humor faz uns trinta anos. — Era mentira. Pura mentira. Mas Kylie não ia deixar de utilizar todos os meios que podia. — Desde que foi morta por um lobisomem sacana, tem sofrido horrores...
A mão de Fredericka largou seu braço.
— Vá pro inferno!
Kylie sorriu.
— Obrigada pelo convite, mas quase fui até lá ontem mesmo e não gostei tanto assim. — Kylie então franziu o nariz. — Isso que eu estou sentindo é fedor de gambá?
Os olhos de Fredericka ficaram laranja incandescente e Kylie soube que ela tinha ido longe demais. A mão da loba agarrou outra vez o braço de Kylie e apertou. Alguém correu para fora da floresta. E, com o canto dos olhos, Kylie viu que era Will, o amigo de Lucas.
Will limpou a garganta e Fredericka nem sequer olhou para ele. Apenas relaxou os dedos que apertavam o braço de Kylie e se afastou com um olhar submisso.
Kylie não tinha reparado que Will seguia seus passos sem deixar que o vissem. O fato de nem Kylie nem Della terem percebido que ele as seguia era uma prova de que ele era muito bom no que fazia.
Della encarou o lobisomem com um ar petulante, mas Kylie fez a coisa certa.
— Obrigada.
— De nada. — Ele voltou a desaparecer na floresta.
— O que deu em você pra dizer “obrigada”? A gente não precisava que ele se intrometesse. Eu poderia ter acabado com aquela cadela e ela teria saído daqui com o rabo entre as pernas.
E poderia ter matado você.
Elas tinham se distanciado apenas alguns metros quando Kylie se lembrou do que Fredericka dissera sobre Lucas ter telefonado. Ela parou e puxou o celular do bolso para ver se havia alguma chamada perdida.
Nada.
A loba podia estar mentindo. Como Kylie poderia saber?
Então lhe ocorreu... , era óbvio! Della, como o resto de sua espécie, era um detector de mentiras ambulante. Ela podia ouvir os batimentos cardíacos e a pulsação da pessoa e sabia quando alguém estava de conversa fiada. Kylie olhou para Della.
— Fredericka estava dizendo a verdade sobre Lucas ter ligado pra ela?
Della fez uma careta.
— É errado mentir quando você sabe o que a pessoa quer ouvir?
— Só diga a verdade!
Della pronunciou a palavra “desculpa” sem emitir nenhum som.
— Ela estava dizendo a verdade.
Depois que Kylie chegou à cabana, Holiday trouxe o laptop de Burnett e elas enviaram um e-mail para a família de Catherine O’Connell.
Inventaram uma história de que era uma velha amiga de Catherine e achasse que a família dela deveria saber que ela sempre quisera lhes contar a verdade antes de falecer. A ideia parecia boa. Convincente, até. E então refizeram toda a árvore genealógica da família, “recortando e colando” informações e fotos da Internet.
Com sorte, a família engoliria o truque. Não que Kylie achasse que um dia saberia. Mas ela se sentiu bem em cumprir sua parte do trato. Não importava que as informações que Catherine havia dado a Kylie sobre Berta Littlemon ainda não tivessem lhe dado nenhuma resposta. E Kylie esperava que de fato não dessem. A última coisa que ela queria descobrir era que estava errada sobre Jane Doe.
Enquanto Holiday e Della conversavam à mesa da cozinha, Kylie mandou um e-mail para o padrasto, contando sobre a mudança no cronograma caso ele quisesse visitá-la no domingo do Dia dos Pais. Ela esperava que ele respondesse ao e-mail dizendo que não poderia ir, e ela não teria que enfrentar Sara e o padrasto no mesmo dia. A resposta foi quase instantânea. Ele disse que não via a hora de vê-la no domingo.
— Droga... — Kylie murmurou.
Holiday olhou para ela.
— Más notícias?
— Não, está tudo ótimo! — disse Kylie com ironia, deixando a cabeça pender sobre a mesa. Ela não sabia se iria sobreviver.
— Você está bem? — Holiday perguntou quando Kylie acompanhou-a até a varanda, alguns minutos depois.
— Tão bem quanto possível, acho — mentiu Kylie. Holiday assentiu e elas se despediram.
Quando Kylie voltou para dentro da cabana, Della estava respondendo e-mails. Ela se sentou à mesa da cozinha. Ela queria ir para a cama, mas também queria estar acordada quando Miranda voltasse do encontro com Todd.
Kylie consultou o relógio de parede. A amiga ainda poderia demorar várias horas. Horas que Kylie tinha para se preocupar com seus próprios problemas.
Della se virou para ela.
— Isso não é nada bom. Ou talvez seja...
— O quê? — Kylie perguntou.
Della apontou para a porta e no mesmo instante Miranda entrou. Seu rosto estava insondável. Foi até a mesa e desabou numa cadeira do modo mais dramático possível.
— E então? — Kylie perguntou, e viu esperança nos olhos de Della. Kylie sabia que ela e a amiga esperavam a mesma coisa. Que o encontro tivesse sido um retumbante fracasso e Perry ainda tivesse uma chance.
Miranda apenas encolheu os ombros.
— Pode parar com isso! — Della rosnou. — Desembucha ou eu vou te pegar pelo pescoço e te obrigar a contar.
Miranda falou.
— Ele foi... legal. O jantar foi legal. Segurar a mão dele foi legal.
— Ele te beijou? — Kylie perguntou, sem saber como Miranda definia “legal”. Se Kylie se esforçasse o suficiente, poderia acreditar que “legal” significava nada de especial.
Miranda assentiu.
— O beijo foi...
— Deixe-me adivinhar... — disse Della. — Legal.
— Certo — concordou Miranda.
Della bateu a mão sobre a mesa.
— Legal é só outra maneira de dizer terrivelmente chato!
Miranda franziu a testa.
— Foi exatamente o que eu pensei.
Kylie e Della gritaram de emoção.
— O que foi? — Miranda perguntou. — Vocês estão felizes porque o meu encontro não foi nada de mais?
— Não — disse Kylie. — Digamos apenas que estamos mais empolgadas com o encontro de amanhã à noite.
Um sorriso brilhante iluminou o rosto de Miranda.
— Eu também. Acreditam que Perry fez aquilo? Quer dizer, ele foi tão...
— ... romântico — completou Kylie.
— ... sexy — acrescentou Della.
— ... doce — sussurrou Miranda. — Eu não consegui parar de pensar nele a noite toda.
E essa foi a melhor notícia que Kylie recebera o dia todo.
Naquela noite, Kylie fitou o teto durante várias horas, enquanto o sono que tanto desejava não vinha. Uma hora se passou. Duas.
Sua mente começou a enumerar os problemas. Ela ainda não sabia de que espécie era. Não conseguia impedir o destino de levar embora alguém de quem ela gostava. Tinha alguém querendo vê-la morta, provavelmente a gangue paranormal dos subterrâneos chefiada por Mario, que ainda não a perdoara por não querer se casar com seu neto assassino. Lucas estava ligando e conversando com Fredericka. Sara estava chegando para visitá-la no domingo com sua mãe. E seu padrasto ia aparecer também. Kylie ainda não tinha resolvido os problemas do espírito com amnésia, e não tinha certeza absoluta de que a mulher não era uma assassina.
Seu cérebro privado de sono remoeu cada um desses problemas e não encontrou solução para nenhum deles. Ela tinha acabado de cair no sono quando ouviu uma leve batidinha na janela do quarto.
A princípio pensou que tinha imaginado. Então achou que fosse a gralha azul novamente.
— Eu não sou sua mãe — Kylie murmurou para o pássaro.
As batidinhas pararam.
Kylie ficou ali, escutando. O silêncio de repente ficou sinistro. Ela deu um suspiro e o som voltou anormalmente alto.
A janela estava trancada, certo?
Ela se lembrou de que a abrira no dia anterior, na esperança de que entrasse uma brisa.
E, não, ela não conseguia se lembrar se havia fechado a tranca depois.
Mas..., considerando o tipo de intruso que Kylie mais temia, o tipo que poderia abrir sumidouros e se materializar do nada, qual era a chance de uma janela fechada detê-lo?
Então, por que razão, Kylie se perguntou, o som nítido de alguém abrindo a janela encheu de medo seu coração?

3 comentários:

  1. Eu também. Acreditam que Perry fez aquilo? Quer dizer, ele foi tão...
    — ... romântico — completou Kylie.
    — ... sexy — acrescentou Della.
    — ... doce — sussurrou Miranda. — Eu não consegui parar de pensar nele a noite toda. quero um perry e um lucas pra mim

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    Respostas
    1. Digo o mesmo! Mas quero incluir o Derek no pedido!

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  2. gangue paranormal dos subterrâneos
    Melhor nome de gangue 4ever...

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