14 de outubro de 2016

Capítulo 27

No dia seguinte, durante a aula de ciências, Kylie ficou sentada em sua carteira mal ouvindo Hayden Yates falar sobre as leis do movimento de Newton e o E = MC².
Não que ela não respeitasse a ciência, mas como essa ciência poderia explicar uma espada que podia se mover por conta própria? E Hayden não tinha dito que tanto Einstein quanto Newton eram seres sobrenaturais? Será que isso significava que eles não tinham espadas mágicas seguindo-os?
Não que ela estivesse completamente consumida com a preocupação sobre a espada agora. Sua manhã tinha sido uma droga. Começando com a conversa de dez minutos com a mãe, em que as duas ficaram se desculpando. A mãe pela sua reação exagerada à notícia dos testes de gravidez e por fazer uma cena, e Kylie por não avisá-la de que havia usado o cartão para comprá-los. Não tinha sido um telefonema ruim, mas não tinha sido bom, também, especialmente quando a mãe se pôs a falar sobre a grande possibilidade de John ser sua alma gêmea.
De algum modo, ela conseguiu fazer com que a mãe deixasse de lado suas preocupações. Seus problemas com Lucas não eram assim tão fáceis de se deixar de lado. Além de sofrer por causa dele, ela também tentava encontrar uma maneira de sair do armário.
Ela chegou até a faltar à Hora do Encontro e não tomou café da manhã para tentar formular um plano. E acabou... de mãos vazias.
Claro, ela não estava no seu melhor dia. Depois que Lucas saíra, o espírito, como se estivesse com ciúmes por Kylie não estar concentrando sua atenção nele, decidiu aparecer de hora em hora, na noite anterior. Ela não tinha trazido a cabeça decepada nem a espada, e Kylie ficou extremamente grata por isso. Mas em sua última visita, o espírito trouxe algo ainda mais perturbador. Seu sofrimento. Ela soluçou enquanto cobria o rosto com as mãos e murmurou algo sobre o filho ter sido morto.
Depois de perder tantas pessoas na vida, Kylie sabia a dor que o espírito estava sentindo e disse isso a ele, mas o espírito estava deprimido demais até para responder.
Kylie se perguntou se o fantasma queria dizer que seu filho fora morto no presente, ou se estava revendo algo do seu passado. Os espíritos não apenas são indiferentes ao tempo, como podem ser extremamente confusos aos olhos dos vivos que estejam tentando ajudá-los.
Pensando bem, nada parecia fazer muito sentido com esse espírito. Ele não iria responder a qualquer das perguntas diretas de Kylie. Como por exemplo, Quem exatamente você quer que eu mate? Ou, Por que eu? Por que você me escolheu para cometer esse assassinato?
Quando Holiday tinha passado na cabana na noite anterior, ela lembrou Kylie de que o espírito geralmente tem uma ligação com a pessoa que ele está visitando.
— Encontre essa ligação e você pode começar a entender o que ele realmente quer — Holiday a tinha aconselhado.
Mas era mais fácil falar do que fazer.
Até o momento, o espírito não tinha dito nada que tivesse levado Kylie a acreditar que ele a conhecia, ou que conheciam alguém em comum.
Ela tinha se deparado pela primeira vez com o espírito quando estava a caminho da cerimônia de noivado de Lucas. Kylie achou que talvez ele tivesse sido morto naqueles bosques e eles tivessem se encontrado por acaso. Ela ainda tinha esperança de que fosse esse o caso. Podiam chamá-la de puritana, mas ela não queria ter ligação com ninguém que cortava a cabeça das pessoas e que as levava consigo como troféus. E se Kylie tivesse conhecido alguém assim, essa pessoa não se destacaria na sua memória?
Claro, Kylie estava quase certa de que o fantasma havia trazido a cabeça apenas para chamar a atenção, mas algo um pouco menos dramático teria funcionado muito bem. Holiday também dissera para ela considerar como pista tudo o que o espírito fizesse ou trouxesse consigo. Como a espada que se parecia com a que tinha surgido na cachoeira.
A cabeça seria uma dica ou um sinal? Mas as pistas não deveriam ser sutis? Não havia absolutamente nada de sutil numa cabeça decepada. Esse último pensamento levou Kylie de volta à ideia de que se tratava apenas de um truque para chamar a atenção, principalmente porque o estratagema estava funcionando. Naquele instante, Kylie estava preocupada com o fantasma e não com a sua busca.
Não que ela não precisasse compreender ambos; ela precisava. Mas sua busca tinha prioridade no momento. Ou teria, se o fantasma não parasse de monopolizar seus pensamentos.
Hayden estava parado diante do quadro-negro e apontava para o dever de casa. Ela tinha começado a anotá-lo quando algo caiu no seu colo com um baque. Um baque bem pesado.
Assustada, Kylie deu um pulo, fazendo seu traseiro descolar alguns centímetros da cadeira. Mas sua aversão a ser apontada na classe como uma aberração a fez reprimir o grito que subia pela sua garganta e a colar o traseiro de volta na cadeira.
Considerando que o tampo da carteira estava cobrindo o seu colo, não era possível que alguma coisa caísse sobre ele.
Mas, como das outras vezes, aquilo não precisava necessariamente fazer sentido, porque nada em sua maldita vida fazia!
Kylie hesitantemente esticou o braço sob a carteira para sentir o objeto de metal frio. Assim como ela suspeitava, ele era longo e terminava com uma alça.
A espada estava de volta.
Kylie ouviu alguém limpar a garganta a alguns assentos de distância. Ela olhou para Derek, que era sua sombra no momento, e ele perguntou sem emitir nenhum som: Tudo bem?
Obviamente Derek sentira seu dilema emocional, mas não tinha visto a espada, ou ele teria pelo menos olhado para a maldita coisa. Ela assentiu com a cabeça.
Depois de apenas um minuto, Hayden dispensou a classe. Kylie fingiu estar lendo suas anotações e não se mexeu. Burnett não queria que ninguém soubesse da espada, e brandir de repente uma arma no meio da classe pareceria uma cena saída de um jogo de videogame e chamaria um pouco de atenção...
— Kylie, você vem? — Derek perguntou da porta.
— Hã, não, eu preciso conversar algo com o senhor Yates. Daqui a pouco eu vou. — Ela olhou para Hayden, que a examinava com preocupação.
— Espere do lado de fora — disse Hayden, preocupado, para Derek.
Quando Kylie olhou para Derek, ela viu Lucas de pé do lado de fora da porta. Seus olhos azuis encontraram os dela, mas que droga, ela já tinha muito em sua mente, sem mencionar uma espada em seu colo, para começar a se preocupar em perdê-lo ou em quanto isso a fazia sofrer. No entanto, quando ela viu a preocupação em seus olhos, a completa afeição com que ele a olhava, seu coração pareceu cair em queda livre de qualquer maneira. Por mais que não quisesse, ela não podia negar que havia uma parte dela que queria ficar com ele, compreender o que eles sentiam. Mas isso seria uma tolice, não seria?
— Fechem a porta — Hayden disse a eles, indo até a carteira de Kylie.
Fechem a porta. As palavras de Hayden ecoaram na cabeça dela. Ela tinha que fechar a porta aos seus sentimentos por Lucas. Mas como?
— Tem alguma coisa errada? — perguntou Hayden.
Toda a minha droga de vida está errada. Kylie encontrou os olhos do professor, afastando sua dor com relação a Lucas.
— Sim, há uma espada no meu colo.
— Aquela espada? — ele perguntou.
Ela fez uma careta.
— Bem, não olhei para ela, mas estou supondo que eu só tenha uma espada que aparece num passe de mágica e quebra todas as regras e teorias que você acabou de abordar na aula.
Hayden sorriu e se abaixou, para ver a espada. Quando ele se levantou, disse:
— É, essas teorias não valem nada às vezes, quando se trata de magia.
— A mesma espada, presumo? — perguntou Kylie.
Ele anuiu.
— Ótimo. — Então ela percebeu algo que ele acabara de dizer. — Você acha que é algum tipo de magia que está causando isso? Como magia wiccana?
— Ou outra coisa igualmente desconcertante — disse ele.
— Então você realmente não acha que sejam alguns poderes camaleônicos?
Ele torceu a boca.
— Poderes camaleônicos são, em parte, poderes wiccanos.
— Sim — disse Kylie, e sua mente voltou para a sua mais recente missão. — O que me confunde é a razão por que é tão ruim ser um camaleão.
Ele pareceu confuso.
— Não é ruim ser um camaleão — disse ele, e então: — Deixe-me pegar meu casaco; vou embrulhar a espada e podemos levá-la para o escritório.
Ele foi até o armário atrás da mesa e tirou dali um moletom; depois voltou com ele aberto nas mãos.
— Quer levantá-la?
Não. Ela não gostava de tocar a coisa, não gostava de ficar sentada com ela no colo, mas fez isso de qualquer maneira.
Ela estendeu a mão, pegou o cabo cuidadosamente e tirou-a do colo. Antes que a levantasse por completo, a espada começou a brilhar novamente. Ela deixou a arma cair sobre o moletom, em seguida ergueu os olhos.
— Se não é ruim ser um de nós, então por que você esconde o seu padrão? Você até usa um capuz para que ninguém possa vê-lo! E por que os mais velhos acham que precisam esconder todas as crianças?
— Eu escondo o meu padrão porque as pessoas não iriam entender, porque no passado, isso nos levou a ser perseguidos, mas não porque seja ruim ser camaleão.
— Mas não seria melhor se você não tivesse que escondê-lo? Se pudéssemos ostentá-lo com orgulho, como os outros fazem?
Ele olhou para a espada como se não tivesse prestando muita atenção ao que ela dizia.
— Algum dia isso vai acontecer.
— Não, não vai — Kylie insistiu. — Não se todo mundo continuar se escondendo.
Ele olhou para ela.
— Você não entende o quanto as coisas foram ruins para os nossos pais.
— Você está certo, eu não entendo. E talvez seja por isso que eu vejo as coisas com mais clareza. As mudanças precisam acontecer. Mas alguém tem que fazê-las acontecer. Isso não vai acontecer naturalmente, ou por acidente.
— Ok, parece que você de fato andou pensando bastante a respeito. Como podemos mudar isso? — ele perguntou.
— Não sei ainda, mas vou descobrir. — Ela se levantou.
Ele suspirou como se não tivesse gostado do que ela disse.
— Quando você descobrir alguma coisa, fale comigo primeiro. Sei que você não gostaria de colocar ninguém em perigo.
— Eu só quero ajudar. E vou falar com você se eu puder. — Ela desviou o olhar para a espada.
— O que quer dizer com isso... “Se eu puder”? Por que não poderia falar comigo? — ele perguntou.
Ela o fitou.
— Estou apenas tomando cuidado para não fazer promessas que não sei se posso cumprir.
Ele franziu a testa.
— Não faça nada idiota, Kylie.
— Agora, isso eu posso prometer — disse ela. — Vou evitar fazer coisas idiotas a todo custo.
Ele não pareceu contente com a resposta dela, mas olhou novamente para a espada.
— Seu avô me ligou na hora do almoço e queria saber com certeza se a espada tinha alguma marca. — Hayden virou a arma na mão. — Eu não vejo nada nela.
— Nem eu — disse Kylie.
— Você sente algum incômodo quando a segura? — ele perguntou e a fitou.
— Incômodo? Não. Se ela me assusta? Sim. Por quê?
— Você poderia segurá-la para mim de novo? Por alguns segundos, e vamos ver se alguma coisa aparece. Sabemos que começa a brilhar. Talvez algo mais apareça nela.
Kylie franziu a testa.
— Tudo bem, mas se ela ou eu sairmos do controle e matarmos você ou coisa assim, não é culpa minha. Quero dizer, a última vez que Holiday me fez tentar algo, Burnett quase ficou estéril.
Hayden fez uma careta.
— Talvez devêssemos esperar para experimentar isso quando chegarmos ao escritório e Burnett e Holiday estiverem por perto.
— Boa ideia! — disse Kylie.


— Tem certeza de que é uma boa ideia? — perguntou Kylie. — E se for como o acidente com o peso de papel? — Ela olhou de Hayden para Burnett, que tinha sido atingido com toda a força pelo peso de papel.
Não era nenhuma surpresa que o vampiro fosse o único com um ar de preocupação, mas ele também foi o único a falar.
— Você já segurou a espada antes e a única coisa que ela fez foi brilhar.
— Mas eu nunca a segurei por mais de alguns segundos.
— Se você não quer fazer isso, então não precisa fazer — disse Holiday, e Derek, de pé ao lado dela, concordou com a cabeça. Burnett, lembrando-se dos conhecimentos de informática de Derek, tinha lhe pedido para estar presente e pesquisar qualquer informação sobre a espada.
Kylie olhou para Holiday.
— Eu só não quero que ela enlouqueça e comece a matar pessoas.
— Por que você acha que ela faria isso? — perguntou Holiday.
— Eu... Eu não sei, talvez por causa da espada do fantasma — disse Kylie. — E do fato de que ela carrega por aí uma cabeça, junto com a espada.
— Você realmente acha que o fantasma e essa espada têm alguma ligação? — perguntou a fae. — Porque eu ainda não consigo entender como um fantasma poderia ter mandado uma espada para cá.
— Não sei o que pensar — disse Kylie. — Mas eu acho que as duas espadas são parecidas.
— Mas é uma espada muito comum, se levarmos em conta o que ela é — disse Burnett.
— E eu não acho que você vá fazer mal a alguém — disse Derek. — Você é uma protetora; se a espada está reagindo a você, então acho que ela está se conectando a essa parte sua. Não acho que seja algo maléfico.
— Eu concordo — disse Hayden.
— Tudo bem, é a vida de vocês que está em risco. — Kylie esticou o braço para pegar a arma.
— Mas apenas por precaução — Holiday disse, detendo Kylie. — Vamos todos ficar preparados para nos abaixar e correr se for necessário.
Kylie fez uma careta.
Holiday encolheu os ombros.
— Só por precaução.
Kylie pegou a espada. Burnett empurrou Holiday para trás e, em seguida, todo mundo deu outro passo para trás.

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