4 de outubro de 2016

Capítulo 27

Por um segundo, Kylie sentiu como se alguém tivesse apagado as luzes. Ela podia sentir a mão de Holiday sobre a dela, mas a caverna estava mergulhada na escuridão.
Então as luzes se acenderam. Kylie olhou ao redor, confusa. Elas não estavam mais na cachoeira. Em vez disso, estavam sentadas em cadeiras de metal dobráveis e muito desconfortáveis, numa clareira, sob algum tipo de tenda de cor escura. O vento tinha cheiro de chuva. Era um dia nublado e ela se sentiu triste. Muito triste.
Para onde tinha ido a serenidade da cachoeira? O que estava acontecendo, afinal?
Levou um segundo para ela perceber que era uma visão. Não sabia bem o que deveria ver desta vez, mas não se importava com o que seria. Ela não queria ver.
Kylie tentou sair daquele cenário. Queria voltar, voltar para onde tudo parecia certo, onde a calma reinava à sua volta, onde o som da água tranquilizava a sua mente.
Quando isso não funcionou, ela tentou descobrir onde estava. Perdeu o fôlego ao ver um caixão na sua frente. Lágrimas silenciosas inundaram seus olhos e ela soube que ali dentro havia alguém de quem ela gostava.
— Não — ela sussurrou. — Por favor, não.
Alguém tocou sua mão. Kylie reconheceu o toque de Holiday antes de olhar em volta e ver a líder do acampamento sentada ao lado dela. Ela usava roupas pretas sóbrias, nenhuma maquiagem e lágrimas não derramadas faziam seus olhos verdes parecerem mais brilhantes do que de costume.
Então alguém começou a falar em algum lugar próximo ao caixão. Kylie olhou para a frente e viu Chris, o líder dos vampiros, responsável pelos sorteios da Hora do Encontro, de pé ao lado do caixão.
— Perdemos um dos nossos hoje. É nosso costume quando um vampiro morre...
— Não — Kylie sussurou novamente, e de repente percebeu que estava em pé, de volta à cachoeira. A tristeza que encheu seu peito nesse instante era uma emoção um pouco menos dolorosa, o que tornava a respiração mais fácil, embora ainda machucasse.
Ela olhou para Holiday, que estava sentada na rocha, com os braços em volta das pernas. As lágrimas em seus olhos lhe diziam que Holiday não fora apenas parte da visão de Kylie. Ela também a vivenciara.
Alguém vive e alguém morre. As palavras pareceram fluir da própria rocha e ricochetear nas paredes de pedra.
Kylie olhou para Holiday.
— O que isso significa?
Holiday piscou e Kylie viu que ela tentava parecer corajosa.
— Seja o que for, vamos ficar bem.
— Nós vamos — disse Kylie, lutando contra o sentimento de calma e deixando que sua dor assumisse o controle. — Mas alguém aqui não vai ficar bem. Temos que fazer alguma coisa para salvá-la. Ou salvá-lo.
É nosso costume quando um vampiro morre...
As palavras de Chris aguilhoaram o seu coração. Quando um vampiro morre... Ai, Deus! Por favor, que não seja Della, ou Burnett!
Holiday balançou a cabeça.
— Não há nada a fazer, Kylie. — Ela respirou fundo. — Não consegue sentir? Aceitação. — As lágrimas inundaram os seus olhos outra vez. — Deixa o meu coração em pedaços, mas é isso que eles estão dizendo. Alguém que amamos vai morrer e temos que aceitar isso.
— Mas eu não quero aceitar! — Kylie se virou e atravessou a cortina de água em direção à luz do sol.
No instante em que seu olhar pousou em Burnett, toda a calma da cachoeira se estilhaçou à sua volta. A aceitação que ela tinha sentido antes não passava agora de uma vaga lembrança.
Por favor, que não seja Burnett! Por favor, que não seja Della! Por favor, que não seja Burnett!...
Ela repetiu o mesmo mantra várias e várias vezes mentalmente, como se apenas a sua vontade bastasse para evitar a tragédia. Ela queria correr até ele, pegar suas mãos e fazê-lo jurar que tomaria cuidado, que não correria riscos desnecessários.
Mas no mesmo instante em que esse pensamento lhe ocorreu, ela soube com certeza que nada nem ninguém impediria Burnett de ser quem ele era. E isso significava correr riscos.
Kylie sentiu Holiday parando ao lado dela. Olhou para ela, que fitava Burnett, e soube que a amiga estava pensando a mesma coisa com relação à segurança dele.
Alguém vive e alguém morre. As palavras se repetiram na sua cabeça.


— Estão prontas? — Miranda gritou da sala, na sexta-feira à noite.
Kylie suspirou. A amiga estava nervosa. Aquela noite era o grande encontro com Todd, o bruxo gatíssimo, e Kylie e Della iriam com ela até o portão principal, esperá-lo.
— Quase! — Kylie pegou a escova de cabelo e deu algumas escovadas nos fios loiros, sem se preocupar, na verdade, se o cabelo parecesse mais um ninho de passarinho.
Os últimos dias tinham se passado como se envoltos numa névoa. Aceitar que alguém estava tentando matá-la era ruim, mas tentar aceitar que alguém de quem gostava, um vampiro, estava prestes a morrer era impossível.
Ela e Holiday tinham discutido sobre a possibilidade de tentar impedir que a visão se concretizasse e haviam se desentendido. E se fosse Della? Holiday não se importava que fosse Burnett? Kylie fizera mentalmente uma lista de todos os vampiros do acampamento. Alguns deles ela não conhecia muito bem, mas nenhum merecia morrer. Kylie quase chegou a contar a Della sobre a visão, mas, quando estava prestes a fazer isso, teve o pressentimento de que deveria continuar calada. Ela não podia contar.
Por razões que Kylie não entendia, ela simplesmente sabia que não seria uma boa ideia.
Holiday continuava insistindo em dizer que Kylie se esquecia de que a mensagem era composta por duas partes. Alguém iria viver. Mas o que dizer da pessoa que morreria?
— Você não pode mudar o destino — Holiday tinha avisado.
Mas Kylie não dava a mínima para o destino. A aceitação que tinha sentido na cachoeira voltava de vez em quando e tentava amenizar a dor que ela sentia. Amenizar, não acabar com ela.
— Estou esperando! — gritou Miranda novamente.
Eu também. Kylie olhou para o fantasma sentado na beira da sua cama.
— Mais um minuto! — Kylie respondeu a Miranda. A mulher em espírito parecia grávida novamente e estava simplesmente sentada ali, segurando a barriga arredondada, como se quisesse protegê-la.
— Temos que conversar, sabe? — Kylie sussurrou.
O espírito não respondeu.
— Se você quiser ajuda, temos que conversar.
Ela continuou calada.
— Eu sei que os outros espíritos acham que você fez coisas horríveis, mas eu realmente não acredito. Estou tentando provar isso, mas não sei se vou conseguir sozinha. Preciso da sua ajuda.
A única resposta para o apelo de Kylie foi o silêncio. Então ela ouviu Miranda chamando novamente.
Kylie olhou para o fantasma.
— Eu tenho que ir agora.
Ela estendeu a mão para girar a maçaneta da porta e suspirou, sabendo que precisava fingir alegria pela amiga, que estava animada com o encontro, apesar de ter pedido a Kylie, pelo menos umas dez vezes, para contar a história sobre como Perry a tinha salvo do sumidouro, junto com Ellie.
Miranda precisava escolher entre os dois. Mas quem mora em casa com teto de vidro não deve atirar pedras... E Kylie já tinha passado um bom tempo morando numa dessas, enquanto tentava decidir entre Derek e Lucas.
Mas isso era passado...
E ela estava falando sério! Estava mesmo!
Ela sentia falta de Lucas. E, quando ele voltasse, Kylie ia lhe dizer sem titubear que queria ser namorada dele.
Na noite anterior, tinha até tentado em vão encontrá-lo em seus sonhos. Será que Lucas estava acordado àquela hora ou a alcateia a tinha impedido de chegar até ele? Ela não sabia. Então, naquela manhã, ela se lembrou de outra maneira de entrar em contato com ele. Por meio daquele artefato todo-poderoso chamado “celular”.
No momento ele não podia falar sobre o que estava acontecendo. Kylie não podia lhe contar sobre os problemas dela com o destino. E aceitar seu pedido de namoro era algo que ela queria fazer pessoalmente. Mas eles conversaram por cerca de vinte minutos sobre outras coisas, como as férias que tiravam quando eram crianças.
Ele tinha visitado quase todos os países estrangeiros que Kylie conhecia e alguns que ela não sabia que existiam. Mas Lucas nunca tinha ido a Disney World ou a um parque de diversões de verdade, e por isso ela lhe contou tudo sobre eles. Eles resolveram que o passeio a Disney seria o primeiro encontro de verdade que eles teriam.
E aconteceria logo que o nome de Kylie fosse retirado da lista negra de alguém e ela estivesse livre para andar por aí sem uma sombra.
Ao sair do seu quarto, Kylie encontrou Miranda andando de um lado para o outro em frente à porta. Ela estava bonita; usava o cabelo preso no alto da cabeça, com apenas alguns fios loiros e macios caindo em torno do pescoço. As diferentes cores do seu cabelo tingido mal apareciam quando ela o usava preso.
Usava um vestido de alcinhas amarelo, um pouco franzido na saia, e sandálias amarelas combinando. O traje estava muito feminino, sem parecer chamativo demais; era sexy sem parecer vulgar, e elegante sem parecer excessivamente glamoroso. Por apenas um segundo, Kylie invejou Miranda e seu encontro. Desejou que Lucas estivesse ali e eles pudessem ir a algum lugar fora do acampamento.
Algum lugar em que ela pudesse esquecer que o destino iria lhe roubar um dos seus amigos.
Della se levantou da mesa do computador. O coração de Kylie se apertou só de pensar na mera possibilidade de que fosse a amiga naquele caixão. Mas ela logo se lembrou de trechos da conversa que tivera com Holiday aquela manhã.
— Todo mundo vai morrer um dia, Kylie.
Kylie podia apostar que Holiday só estava tentando parecer valente para tranquilizá-la. Mas pelos olhos inchados da líder do acampamento, sabia que Holiday tinha chorado tanto quanto ela e também não tinha dormido muito bem.
— Tudo bem — Kylie tinha respondido. — Mas por que nos fizeram essa revelação? Por que, se não podemos impedir? Só para nos torturar contando-nos antecipadamente?
— Por alguma razão, eles acham que precisávamos ser avisadas.
— Bem, eles pensaram errado!
— Os Anjos da Morte raramente erram, Kylie.
— Há sempre uma primeira vez, não é verdade?
— Terra chamando Kylie! — Della gritou, trazendo a amiga de volta ao presente. — O que há com você? A sua pequena viagem ao inferno te deixou fora de órbita? — disse Della com um sorriso.
— Do que você está falando? — Kylie perguntou.
— Você fica olhando pra mim como se não me visse! Está fazendo isso há quase dois dias e isso está me deixando meio assustada.
— Sinto muito.
— Deve ser porque ela sente falta do lobisomem bonitão — disse Miranda, colocando uma mão no peito e suspirando. — Está com saudade. Sua aura está toda cinzenta. Está sem os beijos dele há quase dois dias. — Então Miranda abriu a porta da frente e acenou para elas.
— Pobrezinha... — provocou Della.
Kylie revirou os olhos e seguiu-as para fora. Ainda bem que gostava de suas colegas de dormitório, do contrário as gozações poderiam deixá-la de fato irritada.
Elas ainda não tinham saído da varanda quando Ellie, com dois outros vampiros, passou na frente da cabana.
— Como vão os arranhões? — Ellie perguntou para Kylie.
— Já sararam — ela respondeu, estendendo o braço.
— Ainda bem! — De repente o clima ficou meio estranho e Ellie pareceu notar. — A gente se vê por aí.
— Tá legal — respondeu Kylie, e Ellie virou-se para ir embora. Ocorreu então a Kylie que, na visão, a pessoa no caixão poderia ser a garota. — Ellie?
A vampirinha se virou e Kylie não soube o que dizer; só não queria deixar Ellie pensar que ela estava sendo rude.
— Obrigada — Kylie deixou escapar.
Ellie pareceu intrigada.
— Pelo quê?
— Por... Pela gentileza de perguntar sobre meu braço. — Ok, aquilo soou bem ridículo.
— Ah. Não há de quê. — Ellie deu alguns passos de costas, acenou, então se virou e correu para alcançar seu grupo.
— O que deu em você? — Della perguntou, quando Ellie já não podia ouvi-las e elas desciam os degraus da varanda.
— É — concordou Miranda. — Quer dizer, se eu descobrisse que alguém tinha caído em cima do meu namorado, não seria tão simpática.
— Derek não era meu namorado... — disse Kylie.
— Claro! E os ursos não mijam na floresta — disse Della com sarcasmo.
Kylie levantou as mãos.
— Parem com isso, ok? Eu não estou nem aí com o que aconteceu entre Ellie e Derek!
Della pronunciou a palavra “mentirosa” só mexendo os lábios.
— A verdade é que eu não gosto dessa garota. Detesto o jeito como ela é simpática e agradável o tempo todo. Me dá vontade de dizer uns desaforos.
Kylie franziu a testa para Della.
— Não tem nada a ver tratá-la mal por causa disso. Estou falando sério, Della. Ela não sabia sobre mim e Derek quando tudo aconteceu.
— Tudo bem — disse Della. — Isso significa que ela não é sacana. Mas não que não seja uma piranha...
Miranda riu e Kylie gemeu.
— Eu não acho que ela seja uma piranha. — Kylie hesitou e depois acrescentou: — Ela pulou no buraco, disposta a arriscar a vida para salvar Perry e eu.
— Tudo bem, ela fez isso — disse Miranda. — O que não muda o fato de ela ter transado com...
— Que droga! Podemos apenas não falar mais sobre esse assunto? — disse Kylie.
— Caraca! — exclamou Miranda. — Você deve estar na TPM lunar, porque Della tem razão. Você anda muito esquisita ultimamente. Parece que está sempre de mau humor.
Kylie queria muito que Miranda estivesse certa. Que o seu mau humor fosse só resultado do fato de ela ser um lobisomem, e não por causa da sua longa lista de problemas.
E se ela fosse um lobisomem, pelo menos Lucas ficaria feliz. Realmente feliz.
— Merda! — Miranda murmurou, trinta minutos depois.
Elas ainda estavam esperando Todd, que tinha se perdido e ligado para Miranda, dizendo que estaria ali em três minutos.
— Merda por quê? — Della perguntou, mas então acrescentou: — Ah, merda...
— O que foi? — Kylie perguntou, obviamente a única alheia ao que estava acontecendo.
Então ela também viu o que era – ou melhor, quem era – e concordou plenamente com as amigas.
— Ah, merda.
— Oi! — Perry cumprimentou, enquanto se aproximava. Kylie não pôde deixar de notar que ele tinha cortado o cabelo e usava uma camisa que lhe caía bem e calça jeans.
O corte de cabelo fazia com que parecesse mais velho; mais um homem do que um adolescente. A forma como a camisa se moldava ao peito acentuava os ombros largos. Seus olhos estavam azuis, e o modo como eles brilharam quando olhou para Miranda derreteu o coração de Kylie. O sorriso do metamorfo parecia exalar autoconfiança. Até mesmo sua postura corporal demonstrava uma segurança que Kylie nunca tinha visto nele. Pela primeira vez, ela percebeu por que Miranda o achava tão atraente.
— Você está um arraso! — elogiou Della, obviamente percebendo a mesma coisa.
— Ora, muito obrigado. — Seus olhos azuis cintilaram quando ele desviou o olhar para Miranda. — Mas eu não sou o único que está bem esta noite. Muito bem.
— Obrigada. — Miranda olhou para Kylie, como que implorando para que a amiga fizesse alguma coisa.
Kylie olhou para Della, que apenas sorriu.
— Hã, Perry... — Kylie começou a falar, sem saber como resolveria a situação. — A gente só estava conversando, em particular, sobre...
— ... sobre o encontro de Miranda — completou Perry
— Ah, merda... — murmurou Della novamente.
Disse tudo, pensou Kylie.
Perry fitou Miranda.
— Eu sei sobre o seu encontro.
Miranda fulminou Kylie com o olhar, como se a acusando de ter contado a Perry.
Kylie negou com a cabeça e voltou a encarar Perry. Seus olhos tinham mudado de cor, indo do azul para um verde brilhante, mas, se ele estava prestes a surtar e se transformar em algum tipo de monstro devorador de bruxos, não demonstrou.
— Eu só queria dizer, embora não goste disso, que só espero que você me dê a mesma chance que está dando a esse filho da... Quero dizer, a esse cara.
Della deu uma risadinha.
— Saia comigo amanhã à noite — continuou Perry. — Me deixe provar que eu sou o cara que você quer.
Miranda abriu a boca para dizer alguma coisa, mas nenhum som saiu. Kylie não conseguiu falar também, porque sentiu um nó na garganta, um nó de emoção e orgulho de Perry.
— Eu... Eu acho que poderia sair amanhã à noite. — Miranda parecia chocada e totalmente surpreendida com a atitude de Perry.
Então, com o canto do olho, Kylie viu algo se mover na janela do escritório. Quando virou a cabeça, viu Burnett e Holiday comemorando. Sem dúvida, Burnett estava ouvindo a conversa e contara os detalhes a Holiday.
Kylie deveria ter adivinhado que alguém estava ajudando Perry. E ficou um pouco envergonhada por não ter tentado fazer o mesmo. Ele merecia uma chance com Miranda.
Perry acenou com a cabeça, aproximou-se, em seguida deu um beijo rápido na bochecha de Miranda. Foi a coisa mais romântica que Kylie já tinha visto.
Ela só não esperava ver uma picape marrom, com uma placa personalizada onde se lia TODD, estacionando ali no mesmo instante.
— Ah, merda — lamentou Della novamente.
Falou e disse.

3 comentários:

  1. Mandou bem Perry. Arrasou com o pedido!

    ResponderExcluir
  2. — Saia comigo amanhã à noite — continuou Perry. — Me deixe provar que eu sou o cara que você quer.Ah merda Todd vai morrer

    ResponderExcluir
  3. Geeeeente... o casal que eu mais shippo em muito tempo!
    E esse típico 'ah, merda...' ... só digo: se fodeu!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!