8 de outubro de 2016

Capítulo 26

Kylie foi para a cama cedo aquela noite. Ela mal tinha dormido na noite anterior e achava que dormiria como uma pedra. Bem, não como uma pedra, mais como um vampiro faminto, com uma leve aversão pela ideia de beber sangue, e com a mente em frangalhos.
Mas ela não teve tanta sorte. Ficou deitada ali, olhando para o teto, acariciando Socks enquanto o gatinho ronronava, preocupada com Holiday e desejando que Lucas ligasse. Nesse momento, Socks se ajeitou no seu peito e começou a lhe dar lambidinhas no queixo.
Kylie olhou para o filhote.
— Se eu me transformar num lobisomem, você ainda vai me amar? Lembre-se de que eu amei você quando era um gambá.
O gatinho miou, respondendo com o que ela esperava fosse um sim.
— Você acha que Holiday sabe que nós a amamos?
Falar com Socks não contribuiu muito para aliviar o peso no coração de Kylie. Desistindo, ela estendeu o braço para pegar o celular. Não sabia muito bem para quem iria ligar, se para Lucas ou Holiday.
Holiday atendeu no terceiro toque.
— Oi, está tudo bem?
— Está, eu só... estou preocupada com você, pensando que eu talvez pudesse dar uma passada aí.
Silêncio absoluto do outro lado da linha.
— É... muita gentileza sua, mas acho que preciso ficar sozinha.
— Tudo bem — assegurou-lhe Kylie, embora ela quisesse muito abraçar Holiday e lhe oferecer algum conforto.
— Ela veio vê-la outra vez? — Holiday perguntou.
— Não. — Kylie passou o dedo pelo queixo de Socks.
— Se ela vier... pode pedir que me procure? Diga a ela que não estou mais com raiva, eu só... preciso vê-la. — Havia tanta dor na voz de Holiday que Kylie ficou com os olhos rasos d’água.
— Pode deixar. — Silêncio, um doloroso silêncio, ecoou na linha. A única coisa que Kylie podia sentir era a dor de Holiday.
— Holiday...
— Sim? — A voz da fae tremeu um pouquinho.
— Eu amo você. Sei que isso vai parecer pieguice, mas você e Shadow Falls significam muito pra mim. Eu não sei se você entende quanto bem faz a todos nós que viemos para cá.
Você é uma de nós. Temos o mesmo sangue. Um camaleão sozinho não sobrevive. As palavras do avô ecoaram mais uma vez no seu coração.
— Eu pertenço a Shadow Falls — disse Kylie, e então estremeceu ao perceber que pensara em voz alta.
— Claro que pertence. — Holiday parecia confusa. — Você... está bem?
— Estou — ela mentiu. — Só preocupada com você.
— Não se preocupe — pediu Holiday. — E, Kylie, eu amo você também. Nós conversamos amanhã, ok?
Holiday desligou. Cinco minutos depois, a melancolia ainda pesava em seu coração, quando Burnett ligou perguntando se Kylie tinha falado com Holiday.
— Sim — respondeu ela. — Perguntei se podia visitá-la, mas ela disse que preferia ficar sozinha.
— Ela me disse a mesma coisa — ele murmurou.
— Então acho melhor respeitarmos a vontade dela — disse Kylie.
Burnett suspirou.
— Você acha que ela ainda ama Blake?
Embora a pergunta representasse uma completa reviravolta na conversa, Kylie entendeu perfeitamente. O fato de Burnett confiar nela a ponto de mostrar sua vulnerabilidade a surpreendeu. Essa constatação fez com que se sentisse ligeiramente culpada por esconder coisas dele. Mas ela tinha escolha?
— Não — ela disse, certa de que Holiday amava Burnett. Mas não cabia a Kylie dizer isso a ele.
— Eu vou ter que procurá-lo e fazer um interrogatório — disse Burnett.
— Eu sei — disse Kylie. — Mas você não pode tratá-lo mal ou concluir que é culpado só porque ele teve um relacionamento com Holiday.
— Você acha que eu faria isso? — perguntou Burnett.
— Acho — ela respondeu, com honestidade. — Eu vi o jeito como você olhou para ele hoje de manhã.
Burnett permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você falou com Hannah novamente?
— Ainda não.
— Seria muito útil se ela pudesse nos contar algo mais — ele disse, mordaz.
Como se Kylie não soubesse.
— É uma pena que eles nem sempre concordem em cooperar.
— Se ela aparecer, peça para que... venha falar comigo.
— Tem certeza? — Kylie se lembrou de como ele costumava reagir a toda a questão dos fantasmas.
— Claro que não, mas vou fazer isso por Holiday. — A linha ficou muda por alguns instantes. — Antes que eu me esqueça, Derek vai passar na sua cabana amanhã e levá-la ao escritório às seis da manhã. Vamos ao restaurante... ver se conseguimos descobrir alguma coisa sobre Cara M. Eu investiguei e não existe nenhuma informação sobre uma Cara M. desaparecida. Será que você não entendeu o nome dela errado?
— Não, eu vi o crachá dela várias vezes.
— Tudo bem — ele disse. — Nós vamos amanhã bem cedo e vemos o que conseguimos descobrir. Depois temos que voltar voando, antes que os pais comecem a chegar.
Ah, que divertido, pensou Kylie. Ela tinha quase se esquecido de que era dia da visita dos pais.
Assim que desligou, ouviu uma batidinha na vidraça do seu quarto. Ela pensou que ia ver a gralha azul, mas ficou surpresa e feliz ao ver Lucas abrindo a vidraça.
— Por que ninguém aqui pode entrar pela porta? — Della gritou da sala.
— Porque eu não vim ver você — respondeu Lucas, sorrindo para Kylie.
O sorriso dele fez maravilhas pelo humor de Kylie. Ele entrou no quarto dela, sentou-se na beirada da cama e então se inclinou e a beijou. Foi um beijo carinhoso, suave e, ela percebeu, propositalmente breve.
— Não posso ficar muito tempo. — Os olhos dele se demoraram nos lábios dela. — Por mais que eu queira.
— Tem algum compromisso?
— Meu pai mandou me chamar outra vez.
Ela franziu a testa.
— Eu não gosto do seu pai — ela disse e depois se sentiu mal por isso. — Desculpe, eu não quis...
Ele colocou um dedo sobre os lábios dela.
— Eu também não gosto muito dele. — Então ele sorriu. — Eu tenho que ir, mas... talvez mais tarde você possa sonhar comigo. — Lucas a fitou com um brilho de malícia nos olhos.
Ela franziu a testa.
— Eu tentei na noite passada, mas não consegui. Acho que é porque sou uma vampira.
— Eu sabia que seria péssimo você ser vampira.
Kylie revirou os olhos.
— Eu ouvi isso! — gritou Della.
— Será que pode ouvir isso também — gritou Lucas de volta, mostrando o dedo médio na direção da porta.
Kylie abaixou a mão dele.
— Não a provoque — ela murmurou para Lucas, e depois gritou: — Vá para a cama, Della.
Lucas suspirou.
— Preciso ir. — Ele se inclinou e beijou-a novamente.
A lembrança do beijo foi a última coisa que passou pela cabeça de Kylie quando ela caiu no sono. Tentou novamente provocar um sonho lúcido, mas nada aconteceu. Então, em vez disso, simplesmente sonhou. Sonhou sobre como seria quando ela entendesse tudo sobre quem e o que era. Sonhou sobre como seria quando Lucas não precisasse mais agradar à sua alcateia.


Kylie acordou na manhã seguinte às quatro da manhã. O quarto estava frio, por isso ela desconfiou que havia alguém ali; no entanto, nenhum espírito se manifestou, o que ela achou rude, como se o único interesse do fantasma fosse espioná-la. Sentando-se na cama, ela sussurrou:
— Hannah, é você?
Ninguém respondeu, mas o frio parecia um pouco diferente.
Um calafrio percorreu sua espinha. Ela se enrolou no cobertor e ficou sentada ali, respirando o ar frio. Seria uma das garotas enterradas com Hannah ou alguém que ela ainda não conhecia? A sensação era nova – desconhecida. Será que alguém a seguira desde o cemitério? Como sempre, quando um novo espírito aparecia, Kylie sentia apreensão.
Passaram-se dois minutos até que o frio começou a diminuir. Socks saiu de debaixo da cama e subiu no colchão, enrodilhando-se como uma bolinha no colo dela.
— Você também não gosta muito de fantasmas, hein?
O gatinho soltou um miado abafado que parecia dizer: “Nem um pouco”.
Kylie puxou Socks mais para perto e então se acomodou sobre os travesseiros, esperando cair no sono novamente e tentar um sonho lúcido outra vez. Mas não teve tanta sorte.
Sua mente começou a dar voltas, passando da visita da mãe para a visita do padrasto, em seguida para o namorado da mãe e depois para Hannah e a visita ao restaurante dali a algumas horas. Será que descobririam quem era Cara M.? Será que isso os ajudaria a descobrir quem a matou?
Reclinada nos travesseiros, Kylie se lembrou de como Hannah tinha fugido assustada quando vira os novos professores no dia anterior. Aquilo significaria algo?
— Hannah, se você puder vir para conversarmos, eu apreciaria muito. E a sua irmã quer conversar com você também, assim como Burnett. Você é um fantasma muito popular.
O quarto continuou em silêncio e com a temperatura amena. Percebendo que, se permanecesse na cama, aquilo só a deixaria mais angustiada, Kylie afastou as cobertas e se levantou.
Talvez Holiday já estivesse no escritório. E, com sorte, Della não arrancaria sua cabeça se ela quisesse sair da cabana mais cedo. Ela teria que ligar para Derek e avisá-lo de que já estava no escritório.


Ainda estava escuro quando Kylie e Della saíram da cabana. A temperatura estava baixa e o ar da manhã, tipicamente outonal. Della não tinha arrancado a cabeça dela quando Kylie lhe disse que queria ver se Holiday já estava na cabana, pelo menos não literalmente. Mas Kylie tinha certeza de que a amiga queria fazer isso.
Sem dúvida, aquela história de ser a sombra de Kylie já estava cansando Della. Kylie não culpava a vampira. Talvez fosse hora de Kylie falar com Burnett e pedir que ele pusesse um fim àquilo. Fazia um tempo que não tinham notícias de Mario. Ela sentia que ele não estava por perto e nem Miranda pressentia mais a presença dele. Kylie só esperava que isso durasse para sempre.
— É cedo pra caramba! — murmurou Della.
— Se você não quiser ir, tudo bem.
Della continuou andando, mas não reclamou mais.
— Pra mim, essa é a prova — sibilou Della.
— Prova do quê? — perguntou Kylie.
— De que você não é uma vampira de verdade. Quero dizer, o melhor sono dos vampiros é pela manhã.
— Eu disse a você que não sou uma vampira puro-sangue. Eu... — Kylie parou de falar quando ouviu passos se aproximando. Os olhos de Della se arregalaram ao mesmo tempo, então as duas localizaram a direção de onde vinham os passos e seguiram até a orla da floresta. Elas se esconderam atrás de um arbusto, esperaram e observaram – até que uma silhueta apareceu na curva da trilha.
Ele usava um blusão escuro com capuz, que cobria parcialmente seu rosto. Kylie não reconheceu seu semblante nem o seu jeito de andar. Se ele fosse um dos campistas, ela reconheceria, não é?
Della farejou o ar.
— Eu não reconheço esse cheiro — ela sussurrou.
— Qual é o plano? — Kylie perguntou.
— Que tal este? — Della saltou de entre as árvores, caninos à mostra, os olhos verdes e brilhantes, e aterrissou com um baque na frente do estranho.

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