14 de outubro de 2016

Capítulo 26

A vampira fitou seu copo de sangue misturado com chocolate. Ela girou o copo e pareceu observar os dois ingredientes se misturando.
— Eu fugi de Steve na primeira noite e fui ver Lee.
Isso não surpreendeu Kylie, ela sabia que Della ainda gostava de Lee, mas não explicava como ela acabara com chupões de Steve. A menos que não fosse Steve o autor do chupão, mas Kylie não achava que ela mentiria sobre isso. E algo dizia a Kylie que Lee não era o único problema ali. O problema era um metamorfo com um traseiro bonito.
— E...? — perguntou Kylie, voltando a mergulhar a colher no próprio chocolate.
— Ele saiu para encontrar sua nova noiva. — Ela aproximou o copo dos lábios e bebeu. — Ei, essa merda é muito boa!
— É mesmo. — Kylie esperou Della continuar. Não teve que esperar muito tempo.
— Ele a levou a um restaurante chinês. Eu os segui. — Lágrimas encheram os olhos de Della.
Sentindo a dor da amiga, Kylie colocou a mão sobre a de Della. Della a puxou.
— Então eles me viram e eu percebi que estava parecendo uma idiota. Fiquei morta de vergonha. — Ela tomou outro gole de sangue com chocolate e ergueu os olhos. — Então, como um cavaleiro numa maldita armadura brilhante, Steve apareceu. Ele tinha me seguido. E me salvou de parecer uma completa idiota. Fingiu que tínhamos marcado um encontro. Ele me beijou na frente deles. Como se fôssemos uma casal apaixonado.
Kylie colocou outra colherada cheia de chocolate na boca.
— E o beijo foi muito bom, por isso vocês deram uns amassos mais tarde?
— Não. Quer dizer, sim.
Kylie apontou sua colher para Della.
— Qual é? Sim ou não?
— Sim, foi bom, mas isso só aconteceu no dia seguinte. — Della inclinou-se e fez uma careta. — A missão foi uma bosta. Eu fui esfaqueada — confessou.
Kylie olhou para a amiga, chocada.
— Mas Burnett disse...
— Eu fiz Steve prometer que não ia dizer a ele. Eu o ameacei de morte.
Kylie gemeu.
— A única coisa ruim é que Steve salvou a minha pele. Não apenas no restaurante, na frente de Lee, mas, novamente, com os bandidos e, em seguida, quando topamos com alguns lobisomens desagradáveis. Eu estava muito mal, não poderia lutar. Odiei aquilo. — Ela fez uma pausa. — Ele nos levou para um hotel e ficou cuidando de mim. Eu não sei como isso aconteceu, num minuto ele estava me medicando e no outro estávamos brincando de médico.
— Ah, meu Deus! — exclamou Kylie. — Então, vocês realmente...
— Não, não fizemos nada. Chegamos perto. Felizmente bolas azuis realmente não matam um cara.
— Bolas azuis? — perguntou Kylie.
Della revirou os olhos.
— Você não sabe o que são bolas azuis?
— Não. Devia saber?
Della sorriu.
— Pelo menos você devia saber que, se um cara um dia te disser que ele pode morrer por causa disso, vai estar mentindo. E, acredite em mim, alguns caras vão realmente dizer isso para a garota se sentir culpada e transar com eles. Eu passei por isso com um cara uma vez, antes de Lee. Eu disse que iria ao funeral dele e nunca mais nos vimos.
— Mas o que é isso, realmente? — Kylie fez uma careta. — Ou é nojento demais? Deve ser nojento, porque nunca mencionaram isso em nenhum dos panfletos que a minha mãe me deu.
Della riu novamente.
— É quando um cara fica com muito tesão e pronto para ir adiante e, então, a ação é abortada.
Kylie se inclinou para a frente.
— E as bolas ficam realmente azuis?
Della soltou uma gargalhada.
— Não sei, nunca olhei lá embaixo pra checar.
Kylie corou, mas ela não se importava de enrubescer na frente de Della, então apenas riu.
— Então você acha que Steve ficou com as bolas azuis?
Della revirou os olhos.
— Ele parecia muito desconfortável. Eu não deveria ter deixado a coisa chegar ao ponto que chegou. Eu estava... meio confusa.
— Ou talvez você realmente goste de Steve. — Kylie apontou a colher para Della. — Não estou dizendo que vocês deviam ter transado, mas o cara é louco por você e você obviamente é louca por ele, também. Então por que tratá-lo agora como se ele tivesse uma doença contagiosa?
Della tomou um grande gole do seu sangue achocolatado.
— Porque... quando eu percebi o que estava acontecendo, tudo em que consegui pensar foi que, daqui mais ou menos um ano, vou estar de pé em outro restaurante, assistindo Steve com sua noiva. Eu não posso fazer isso de novo. — Seus olhos encheram de lágrimas.
— Mas você não sabe o que vai acontecer.
— Eu não sei o que não vai acontecer, também. — Della pegou o frasco de calda e acrescentou mais um esguicho no seu copo. — Então, agora que eu abri meu coração, me diga como vão as coisas com Lucas.
Kylie mexeu a calda de chocolate em sua tigela.
— Acabou.
Os olhos de Della se arregalaram.
— Por quê? Monique disse que eles estão se vendo? Será que a gente deve falar para a Miranda provocar um caso de sarna nas bolas dele?
— Não, Monique praticamente disse que não.
Della pegou seu copo.
— Então, por que acabou?
Kylie bateu a colher contra a sua tigela. Porque se não acabar, ele vai perder tudo.
Della analisou o rosto da amiga.
— Mas ele não enganou você...
A raiva se agitou no peito de Kylie.
— Mesmo que ele não tenha feito nada, é como se tivesse. Quero dizer, ele estava assumindo um compromisso pelas minhas costas. — Ela balançou a cabeça. — Primeiro Trey. Depois meu padrasto engana a minha mãe. Então Derek e agora Lucas. Por que os homens fazem isso?
Della encolheu os ombros.
— Pelo menos Lucas não fez sexo.
Mesmo assim é uma traição. E das bem grandes.
— O que é absolutamente irritante é que eu ainda o amo. — Amava-o tanto que ela não suportaria vê-lo perder tudo por causa dela. — Mas ainda estou tão brava com ele que poderia...
— Dar-lhe um par de bolas azuis? — Della riu.
— Não, socá-lo!
— Então talvez você devesse fazer isso. — Della olhou para seu copo.
— Fazer o quê? — perguntou Kylie.
— Socá-lo. Então talvez você não ficasse tão brava e pudesse seguir em frente.
Kylie balançou a cabeça.
— Eu queria que fosse assim tão simples.
— Talvez seja. Você só saberá se tentar. É só procurá-lo como se não quisesse nada e, então, ir com tudo pra cima dele. Sério, então talvez você consiga superar isso e esquecer.
— Como você está tentando fazer com Steve? — Kylie apontou a colher para ela novamente.
— Ei, eu sou como um bom pai. Não quero que você faça o que eu faço, mas que faça o que eu digo! — Ela riu.
Kylie balançou a cabeça.
— E, além disso, agora é... — Ela fechou a boca, sem saber se queria falar sobre isso.
— É o quê? — perguntou Della.
Ela poderia muito bem colocar aquilo para fora.
— Não é apenas o que ele fez. — Se fosse, Kylie suspeitava que estaria a meio caminho de perdoá-lo. — Ele desistiu de tudo quando se recusou a assinar o papel do noivado. Ele não vai entrar para o Conselho, a própria alcateia está chateada com ele. O pai de Monique está ameaçando matá-lo. Mais cedo ou mais tarde ele vai me odiar por isso.
— Acho que você está pensando demais.
Kylie passou a colher em torno da tigela para aproveitar os últimos resquícios de chocolate.
— E eu acho que nós temos que mudar de assunto — disse ela.
Della cedeu e pegou o copo. Elas não falaram durante alguns minutos, e depois finalmente Della falou.
— Antes de eu ir para a casa de Lee aquela noite, fui dar uma espiada na minha casa.
— Como estavam as coisas? — perguntou Kylie, sentindo que não iam bem.
— Bem. Tão bem que isso me deixou muito irritada. Eles estavam jogando jogos de tabuleiro como uma família feliz. Papai contava piadas e todos estavam rindo. Acho que eles nem sentem a minha falta. — Ela olhou para a mesa por alguns minutos.
— Eles sentem, Della. Estão apenas tentando sobreviver.
Della assentiu.
— Você já pensou em contar para a sua mãe e seu padrasto? Cheguei tão perto de entrar lá em casa e despejar tudo... “Olha, pai, eu não estou sendo difícil ou preguiçosa. Eu não estou consumindo drogas. Eu sou apenas uma vampira.” — Ela balançou a cabeça.
Kylie mordeu o lábio, sem saber o que dizer, então não disse nada.
— Talvez seja medo de que eles achem a verdade pior do que a ilusão em que já acreditam.
Kylie desejou poder dizer a Della que não era bem assim, mas ela não tinha certeza.
— Pensei em contar à minha mãe, também. Só não sei se ela iria lidar bem com isso.
Della assentiu.
— Então, nós apenas nos escondemos das pessoas que amamos. Que coisa triste, não é?
— É. — Kylie passou a colher em torno da tigela. — Pelo menos você não se esconde do mundo sobrenatural.
— Você não se esconde também — disse Della.
— Tem razão, eu não me escondo. Estou basicamente me escondendo da UPF. Quero dizer, todos aqui viram o meu padrão, por isso é um pouco tarde para me preocupar com isso, mas sei que a maioria das pessoas aqui acha que a qualquer momento o meu tumor cerebral vai aparecer.
Della ofereceu à amiga um olhar triste.
— Eles estão realmente apostando nisso.
— Ótimo. — Kylie fez uma pausa. — Quando Monique entrou no banheiro, tentei mudar o meu padrão. Só não fui rápida o suficiente. Ela mesma disse algo sobre eu ter um tumor no cérebro. E eu tenho certeza de que é o que parece. — Kylie deixou cair a colher na tigela e escutou o barulho que ela fez. — A maior parte do mundo sobrenatural nem sequer sabe que a minha espécie existe. — Até Hayden esconde o que ele é, pensou Kylie.
— Então, talvez seja hora de você mudar isso. — Della recostou-se na cadeira.
— Mudar o quê? — perguntou Kylie.
— Sair do armário. Você sabe, como... “Sou gay e sempre serei”. Você precisaria de um slogan diferente. Que tal: “Sou um lagarta amarela e, se você não gostar, vou comer sua moela”. — Della riu. — Tudo bem, talvez seja preciso um slogan melhor, mas você entende o que eu quero dizer.
— Estou falando sério — disse Kylie.
— Eu sei, e eu também. Apesar do slogan bobo, quero dizer. Você não pode fazer isso com os humanos, mas pode fazer com os seres sobrenaturais.
Kylie correu o dedo ao redor da borda da tigela para recolher os últimos restos de chocolate e refletiu sobre o que Della dissera.
Ela está certa, disse a voz em sua cabeça. A mesma voz de antes. A que aparecia dentro da sua cabeça nos momentos mais estranhos.
— Quem é você, afinal? — Kylie murmurou.
Della voltou a se reclinar na cadeira.
— Ok, talvez eu devesse levar mais a sério a ideia do tumor cerebral...
— Não estava falando com você.
— Ah, merda. — Os olhos de Della se arregalaram. — Temos um fantasma aqui?
— Não, não é um fantasma — Kylie murmurou. — Apenas uma voz.
Della inclinou a cabeça para o lado.
— Eu não ouvi nada.
— Aqui. — Kylie apontou para a própria cabeça.
— Você já ouviu falar em esquizofrenia? — Della perguntou em uma voz sarcástica que significava que ela estava brincando, mas Kylie não achou muito engraçado.
— Não sou louca — disse Kylie.
Della sorriu.
— Mesmo que você fosse, ainda assim eu ia gostar de você. Se por nenhuma outra razão, por me mostrar o quanto é bom tomar sangue com chocolate. — Ela esvaziou o copo.
Kylie olhou a tigela vazia, enquanto seu cérebro se esforçava para descobrir como ela poderia sair do armário. Ela tinha estabelecido como sua missão salvar outros adolescentes camaleões de viver uma vida de reclusão, mas talvez, antes que ela pudesse fazer isso, precisasse ter certeza de que era seguro para eles sair. Talvez Della e aquela voz irritante estivessem certas. Se ela pudesse forçar o mundo sobrenatural a aceitá-la pelo que ela realmente era, então os outros camaleões poderiam imitá-la e fazer o mesmo.
Mais ou menos como Rosa Parks no ônibus, nos anos cinquenta. Alguém, algum camaleão, precisava sair da toca para que eles pudessem ser considerados como parte do mundo sobrenatural. Eles deviam ter orgulho de quem eram, em vez de ter de esconder os seus verdadeiros eus.
Instantaneamente, seu peito se encheu de emoção, ao mesmo tempo aquecendo-o e incentivando-a. Essa era sua missão. Sua nova missão ou talvez apenas parte da antiga. E parecia a coisa certa a ser feita.
Sim, tudo o que ela tinha a fazer era descobrir como sair do armário.


Naquela noite, a cabeça enterrada no travesseiro, a sensação de formigamento sinalizando outra presença manteve-a acordada. Não era uma presença fria, o que significava que quem estava ali não estava morto. Abrindo os olhos, o aroma floral doce fez cócegas em seus sentidos. Ela viu a rosa vermelha em sua mesa de cabeceira.
Apenas uma pessoa deixaria rosas.
Lucas? Seu coração sussurrou seu nome e a mágoa a atingiu em cheio.
Na noite anterior, ela ficara deitada na cama e aceitara o que tinha que ser. Deixá-lo ir. Por mais que doesse, ela não podia deixá-lo destruir a própria vida por causa dela.
Ela inspirou e escutou. Será que ele ainda estava ali? Ou tinha vindo e ido embora? Ela notou a cortina branca tremulando com a brisa suave da noite que entrava pela janela. Se ele tivesse ido embora, teria fechado a janela.
Ela cerrou os olhos novamente, perguntando-se se teria que fingir não ter acordado até que ele fosse embora.
— Sei que você está acordada — uma voz profunda falou na escuridão.
— E eu sei que você não deveria estar aqui. — Ela engoliu em seco e lutou contra a onda de emoção subindo pela garganta. Ela se virou e puxou até o peito os joelhos cobertos pelo pijama.
Levou mais alguns segundos para reunir coragem e olhar para ele, sabendo que vê-lo iria magoá-la.
Ela estava certa. O cabelo dele estava despenteado pelo vento como se ele tivesse saído para correr um pouco. Os olhos expressavam dor. A mesma dor que transpassava o peito dela. Ele doía de solidão.
— Eu não consegui dormir — disse ele. O silêncio encheu o quarto. Ele se aproximou um pouco mais. Seus joelhos tocaram a cama. Ele se sentou. O colchão afundou com o peso dele. O coração de Kylie disparou, lembrando-se das vezes em que ela tinha se aconchegado a ele ali naquela cama. Ela tinha até dormido ao lado dele e ele a abraçara, fazendo-a se sentir segura, protegida. Amada.
— Isso não pode terminar, Kylie. Você é a única coisa que importa para mim.
Ela balançou a cabeça.
— Não é verdade. — Assim como ela, ele tinha outras pessoas em sua vida. Ele tinha coisas que eram importantes para ele. Ele tinha missões. — A alcateia é importante. Foi o tempo todo. Sua avó. E você pode dizer que não gosta do seu pai, mas você o tolera, então ele tem que ter importância para você. E tem também a sua irmã. — E você vai perder a todos, se me escolher.
— Tudo bem, eu me preocupo com eles, com todos, menos com o meu pai. Nesse momento, eu não me importo se ele apodrecer no inferno. Estou cansado de vê-lo manipulando a minha vida. Mas os outros, sim, eu admito, eu me importo com eles. Mas eles não são você — disse ele, num rosnado.
— O pai de Monique está pensando em colocar um matador atrás de você — ela deixou escapar.
— Aquele asno rico e pomposo está sempre falando demais. Ele late, mas não morde. Sabe o que meu pai faria com ele se ele me ferisse. — Lucas parou de falar e apenas olhou para ela. — Mas isso só comprova. Você se importa comigo. Se você não se importasse, não ligaria para o fato de ele estar planejando me matar. Você ainda pode estar com raiva, e eu mereço isso, mas você me ama e é por isso que não podemos continuar assim.
Ela balançou a cabeça.
— O amor não basta! — Lágrimas nublavam a sua visão. Foi justamente aquilo que ela finalmente percebera na noite anterior. — Você não vê, Lucas? Somos Romeu e Julieta. Somos a pior história de amor que já existiu. Somos pessoas que só vão ferir a si mesmas e aos outros, se egoisticamente deixarmos nossas emoções nos guiarem em vez da lógica.
— Isso é besteira — ele rosnou e tentou alcançá-la.
— Não! — Ela fugiu para longe do toque de Lucas. — Você quer saber o que é besteira? Eu continuar vendo você beijando Monique na minha cabeça. Eu continuar ouvindo você prometer a sua alma a ela, e eu ficar tão magoada e com tanta raiva que me dá vontade de gritar. Mas, ao mesmo tempo, entendo completamente por que você fez aquilo. E se eu estivesse no seu lugar, teria feito a mesma coisa. Tenho minhas próprias missões, os fantasmas, descobrir como ajudar outros camaleões, e vou cumprir essas missões, não importa o que aconteça.
Ela engoliu em seco e ofereceu a ele o último fragmento de verdade, o último argumento que provava que eles não podiam ficar juntos.
— Eu vou fazer isso, mesmo que te machuque. É assim que eu sei, Lucas. É assim que eu sei que isso não é certo. Se fazer a coisa certa para mim pode machucar alguém que eu amo tanto, isso não pode estar certo! Nós não somos certos um para o outro. Então, por favor, não vamos nos ferir mais do que já nos ferimos. Por favor, vá embora.
Ela nunca tinha visto ninguém parecer tão ferido. Foi preciso toda a sua força de vontade para não chamá-lo de volta quando ele saiu pela janela.

Um comentário:

  1. Acho que quando o Derek ficou com a Ellie ele não tinha nenhum compromisso com a Kylie.
    Comprar ele com a atitude do Lucas é exagero

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