4 de outubro de 2016

Capítulo 26

A escuridão cercou Kylie no segundo em que seus pés deixaram a terra sólida e ela mergulhou no poço profundo. Ela ouviu gritos, gritos torturados, vindos de baixo. Ou será que eles estavam apenas dentro de sua cabeça? Era difícil dizer. Então ela foi envolvida por um frio tão intenso que quase perdeu o fôlego. E soube imediatamente que os sons vinham do inferno. Será que Holiday estava certa? Será que ela tinha passado tempo demais com o mal puro e agora estava pagando caro por isso?
E por causa dela, Perry também?
De repente, fagulhas dolorosas agulharam seu corpo como pequenos choques, vindas de algum lugar abaixo dela. Kylie levou duas ou três agulhadas antes de perceber o que aquilo significava.
Perry. Perry estava se transformando.
Então ela bateu contra algo... meio macio, meio espinhento.
Como um monte de penas.
Ela se moveu para o lado, fez um movimento brusco e gritou, enquanto continuava sua descida, caindo mais rápido agora no vazio e de cabeça para baixo.
Uma enorme algema com textura de couro prendeu o seu braço direito e puxou-a para cima. Ela sentiu um tranco no braço. Soltou um palavrão ao sentir a dor aguda.
— Peguei você! — A voz de Perry reverberou através do buraco.
Ele disse aquilo para tranquilizá-la, mas isso não aconteceu. E se ele não conseguisse segurá-la? E se o que esperava por eles lá embaixo de repente decidisse vir para cima e fazer uma visitinha?
— Kylie!
Ela virou a cabeça na direção da entrada do grande sumidouro. Uma luz brilhante derramava-se da abertura, tornando difícil ver qualquer coisa. Então viu um corpo caindo.
Não, não era apenas um corpo. Era Ellie.
— Merda! — Perry gritou, abrindo suas asas enormes tão rápido quanto podia. — Eu não posso pegá-la! Não posso!
Uma estranha sensação de calma se derramou sobre Kylie. Ela estendeu o braço livre assim que a gravidade trouxe o corpo de Ellie até eles e agarrou o antebraço da vampira. Kylie não tinha força suficiente, no entanto, e a palma da mão começou a escorregar. Ela tentou segurar mais firme, não conseguiu, e finalmente agarrou a garota pelo pulso.
Ellie gritou e começou a se debater. Seus olhos brilhavam num tom vermelho brilhante na escuridão.
— Sou eu! — gritou Kylie.
— Todo mundo se segura! — A voz de Perry ricocheteou nas paredes de terra do poço.
Ellie se debateu novamente, e Kylie puxou-a mais para perto.
— Peguei você.
E de fato pegara. Kylie colocou toda sua força e atenção no seu objetivo de não soltar o pulso de Ellie. O barulho de uma rajada de ar e enormes asas de pássaro batendo preencheram a escuridão e, em poucos segundos, Perry levou todos os três para fora do buraco. Quando estavam de volta à luz, ele sobrevoou uns cem metros até a trilha antes de descer e pousá-las cuidadosamente sobre a terra sólida.
Ele pousou ao lado delas, as garras tocando a terra com um baque. Como Kylie suspeitava, ele tinha se transformado no pássaro de aparência pré-histórica com penas de tom cinza-escuro. Era do tamanho de um avião pequeno. Então o rugido sob o solo começou novamente.
— Corram! — ele ordenou.
Perry não teve que falar duas vezes. Kylie e Ellie dispararam, correndo a toda pela floresta, evitando árvores, esquivando-se de galhos e saltando os espinheiros espessos.
Kylie olhava continuamente para cima, para se certificar de que Perry estava bem. Ele ainda as seguia, deslizando facilmente sobre as copas das árvores, certificando-se de que estavam seguras.
Assim que saíram do bosque, Kylie desabou no chão, ofegante e com o coração aos saltos. Ela podia ouvir o sangue jorrando nas veias. Ellie caiu ao lado dela, a respiração não tão ofegante, mas ainda um pouco trêmula.
Perry pousou no chão ao lado delas e se transformou novamente em ser humano.
— Que diabos você estava fazendo? — Ele gritou para Kylie, os olhos furiosos vermelho-sangue.
Ela sorveu novamente o ar.
— Tentando te salvar.
— Eu não preciso que me salvem! — ele agitou os braços para cima e para baixo quase como se tivesse esquecido de que já não era um pássaro. Então voltou a sua ira para Ellie. — E você? Qual é a sua droga de desculpa?
Ela tossiu e então disse:
— Eu... achei que, se eu voltasse viva e vocês não, o resto do grupo provavelmente ia me matar. Eu não tive escolha a não ser ir atrás de vocês.
De repente, Burnett, com os olhos no modo “proteção total” e caninos expostos, entrou em cena.
— O que aconteceu? — perguntou, a voz pouco mais que um rosnado profundo. — Pareceu uma explosão.
— Terremoto, talvez — disse Perry. — O chão simplesmente abriu embaixo da gente.
— Mas isso é... — Burnett balançou a cabeça. — Estão todos bem?
Todos assentiram com a cabeça. O olhar de Burnett fixou-se em Kylie.
— Você está sangrando. Vá para o escritório e deixe Holiday dar uma olhada em você.
Kylie olhou para seu braço. As unhas de Ellie deviam tê-la arranhado quando a agarrou pelo braço.
Burnett continuou:
— Eu vou dar uma olhada para ver a extensão do... terremoto.
Ele se virou na direção da floresta.
— Espere! — Kylie chamou, e Burnett se voltou num movimento tão rápido que mais pareceu um borrão.
— O que foi? — perguntou, a impaciência evidente na voz.
— Não era um terremoto. — Ela se lembrava nitidamente da águia arremetendo diretamente na direção dela numa atitude de ataque. Agora entendia que a intenção da ave era fazê-la correr, mas isso não mudava o fato de que parecia malévola. Ela tinha visto a escuridão em seus olhos. — A águia estava lá.
E Jane Doe também, embora Kylie não visse nenhuma razão para mencionar isso.
Pelo menos por enquanto.
Burnett soltou outro grunhido.
— Vá para o escritório. Vou ver se consigo descobrir o que causou tudo isso.
Quando os três estavam indo para o escritório, Kylie olhou para Ellie.
— Obrigado por tentar nos salvar.
Ellie deu de ombros.
— Não foi nada demais. Eu realmente não sabia o que aconteceria comigo se eu fosse a única a sobreviver. — Ela riu. — Agora que acabou, até pareceu divertido.
— Não, não acho — disse Kylie, lembrando-se de como se sentiu quando viu Perry caindo no buraco.
Eles deram mais alguns passos e Ellie, com os olhos brilhantes provavelmente por causa do sangue, olhou para o braço arranhado de Kylie e acrescentou:
— Eu sinto muito. Aposto que fui eu que fiz isso quando estava me debatendo. Obrigada por me salvar. Não sei o que teria acontecido se você não tivesse me agarrado. Eu não acho que teria saído voando. Fico te devendo uma. É só falar e eu faço, sem perguntas.
— Não precisa. Você não me deve nada — disse Kylie.
— E quanto a mim? — Perry perguntou.
Kylie e Ellie olharam para Perry e falaram ao mesmo tempo.
— Obrigada.
— É só eu dizer e vocês fazem o que eu quero? — Perry ergueu as sobrancelhas, com humor na voz outra vez.
— Não! — Ellie e Kylie disseram ao mesmo tempo.
— Desconfiava... Que tal, em vez disso, vocês duas dizerem à Miranda que sou o herói de vocês?
— Eu posso fazer isso — disse Ellie. — Quem é Miranda?
— Minha namorada — disse Perry, olhando para Kylie. — Bem, ela será assim que eu convencê-la.
Elas avançaram alguns passos e Ellie disse a Kylie:
— Sinto muito por ter transado com Derek.
— Esqueça — disse Kylie, porque ela mesma tentaria esquecer.
As horas seguintes foram totalmente preenchidas com as perguntas de Burnett, que interrogou todos os três, separadamente, diversas vezes. Kylie percebeu que ele não estava fazendo isso por suspeitar que algum deles mentiria sobre o ocorrido. Ele só não queria que as respostas de uma pessoa influenciassem as lembranças das outras. Kylie não se importava. O que ela queria era descobrir o que tinha acontecido. Será que tinham realmente sido sugados para um buraco que levava direto ao inferno? Se fosse assim, por quê? Era por causa de Jane Doe? Ou teria sido algo planejado por Mario e seus amigos para atormentá-la?
E o mais importante, e se acontecesse de novo?
Infelizmente, Burnett só tinha perguntas e nenhuma resposta.
Holiday não tinha nenhuma ideia do que poderia ter ocorrido. Mas o olhar de medo no rosto dos líderes do acampamento assustou mais Kylie do que qualquer outra coisa.
No momento em que a entrevista terminou e Kylie saiu do escritório de Burnett, Lucas foi ao encontro dela na porta e levou-a pela mão até outra sala. Ele não disse nada, só a puxou contra o seu peito quente... tão quente!... e a abraçou.
— Eu estava fazendo alguns serviços para o Burnett. — Sua bochecha estava pressionado contra o topo da cabeça dela. — Acabei de voltar.
Depois de um longo abraço, ele se afastou e perguntou:
— O que foi desta vez?
Foram as duas últimas palavras que revelavam os verdadeiros sentimentos de Lucas.
Kylie franziu a testa.
— Você fala como se achasse que foi tudo culpa minha.
Ele balançou a cabeça.
— Eu não acho que foi culpa sua. Mas, que droga!, eu gostaria de passar pelo menos alguns dias sem achar que quase perdi você.
Ela sorriu.
— Não é verdade que quase me perdeu. — E então ela fez um relato rápido da abertura do buraco e do insano desmoronamento.
Ele a fitou nos olhos.
— Algum espírito está envolvido nisso?
— Não. Bem, havia um lá, mas...
— Mas o quê? — ele insistiu. E então balançou a cabeça e resmungou: — Você tem que parar de deixá-los colocá-la em perigo, Kylie.
— Eles não me colocam em perigo.
— Ah, fala sério! — Seus olhos azuis ficaram laranja de raiva. — Eu vi parte da sua visão, lembra? Tive que ficar ali e me sentir de mãos amarradas, enquanto aquelas pessoas arrastavam você para longe. Você tem alguma ideia do que eu senti?
Kylie sabia que a emoção de Lucas se devia em parte aos seus instintos de lobisomem. Os lobos eram conhecidos por ter uma intensa necessidade de proteger aqueles com quem se preocupavam. Ela gostava de saber que Lucas se preocupava com ela. Mas tinha que fazê-lo compreender que lidar com fantasmas era tão importante para ela quanto a transformação em lobo era para ele. Era o destino dela, sua vida.
Kylie colocou a mão sobre o peito de Lucas.
— Não foi o espírito que fez isso — ela disse. — Foi provavelmente Mario e o neto de novo, junto com o metamorfo amigo deles. Se o espírito fez alguma coisa, provavelmente foi salvar a minha vida.
Tudo bem, ela estava apenas supondo o que tinha acontecido. Mas fazia mais sentido para ela do que pensar que Jane queria lhe fazer mal.
Ele bufou.
— Merda... O que há com aquele cara? Ele não sabe a hora de parar?
— Obviamente não.
Lucas puxou-a contra ele novamente.
— Isso tudo não podia estar acontecendo em pior momento...
— Como assim? — Kylie perguntou.
— Eu tenho que ficar fora alguns dias. — Ele tocou o rosto dela. — Se não fosse uma emergência, eu não iria.
— O que aconteceu? — Mesmo ao fazer a pergunta, Kylie ficou preocupada com a possibilidade de Lucas não contar a ela. Lobisomens também eram conhecidos por manter tudo em segredo.
— Eu contei a você sobre minha meia-irmã. Ela deveria vir para cá estudar quando o acampamento de verão terminasse.
— E então? — Kylie perguntou, animada por ver que ele confiava nela o suficiente para lhe contar.
— Bem, agora meu pai a obrigou a se juntar à sua alcateia e se recusa a deixá-la vir. Vou ter que ir lá e fazê-lo mudar de ideia.
— Eu pensei que você não se desse bem com seu pai.
— E não me dou. Mas não tenho escolha. Não devo ficar fora por mais do que alguns dias. Vou ter que pedir para Will ficar de olho em você.
Kylie lembrou-se de que, algum tempo antes, Lucas a apresentara a Will, outro lobisomem. Mas, como acontecia com a maioria dos lobos, ela mal o conhecia e não gostava da ideia de ter um estranho “de olho nela”.
— Eu vou ficar bem — disse a ele. — Burnett não me deixa ir a lugar algum sem uma sombra. Não preciso de...
— Vai me deixar mais tranquilo. Saber que alguém da minha espécie está protegendo você.
Kylie não gostava de lembrar que Lucas confiava mais na sua própria espécie do que nas outras. Mas ela tinha coisas demais com que se preocupar e não iria arranjar outro problema para deixá-la pirada.
— Quando você vai? — perguntou ela.
— Agora. Devo estar de volta no sábado, domingo no máximo. — Ele a beijou novamente. O beijo durou mais do que um típico beijo de boa-noite e foi muito apaixonado.
Quando ele se afastou, Kylie ouviu o zumbido leve no peito dele.
Ela sorriu, deixando implícito um aviso.
— Estou ouvindo aquele zumbido novamente.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você desperta o lobo em mim. — Inclinando-se para baixo, Lucas lhe deu outro beijo rápido.
Segundos depois que ele saiu, Kylie percebeu que ele não tinha dito nada sobre o pedido de namoro daquela manhã.
Será que tinha pensado melhor? Fechando os olhos, ela afastou o pensamento para o fundo da sua mente, com todas as outras preocupações.
Holiday entrou no cômodo e a abraçou.
— Eu acho que precisamos de um passeio até a cachoeira, não acha? Que tal se eu combinasse com Burnett e fôssemos amanhã?
— Seria bom — disse Kylie. — Muito bom.
No dia seguinte, Kylie e Holiday atravessaram a cortina de água da cachoeira e chegaram à plataforma de pedra. Minúsculas gotas de água espirravam da cascata e umedeciam o rosto de Kylie. Seu cabelo, já encharcado com a água da cachoeira, caía sobre os ombros e gotejava sobre as suas pernas.
Ela não se importava. A atmosfera serena penetrava em seus poros e, pela primeira vez em mais de uma semana, ela se sentia em paz. Sabia que isso não significava que seus problemas tinham sido resolvidos. Longe disso. Mas, por ora, pelo menos naquele momento, sentia que tudo em seu mundo ia ficar bem.
Burnett, inconformado com o fato de estarem ali, tinha ficado de guarda do lado de fora. O incidente do dia anterior o deixara muito preocupado com a excursão à cachoeira. Era assim que eles estavam se referindo ao buraco gigantesco que tinha quase engolido Perry, Kylie e Ellie: o “incidente”.
O geólogo que haviam contratado para examinar o poço o considerara uma aberração da natureza, um sumidouro. Como a maioria dos campistas de Shadow Falls, Kylie sabia que não se tratava disso. Surpreendentemente, o tamanho do buraco diminuiu antes de o cientista chegar. Havia magia ali, magia negra. Isso era tudo o que Kylie sabia e Miranda tinha confirmado.
Por causa da neblina e da densidade do bosque, o alarme de segurança não tinha detectado nenhum intruso. Burnett estava aborrecidíssimo com isso também. Não com alguém em particular, mas com a situação como um todo. Kylie o ouvira ao telefone com a UPF, dizendo-lhes que precisava de um sistema de segurança melhor o mais rápido possível.
Mas a invasão viera aparentemente do subsolo, e Kylie não sabia se existiria um sistema capaz de detectar intrusos subterrâneos. Aliás, poderosos intrusos subterrâneos que, por razões que Kylie desconhecia, queriam vê-la morta.
Kylie inspirou o ar de tranquilidade da cachoeira. Impressionante. Nem a ideia de fazer parte da lista negra de alguém poderia arruinar seu estado de espírito sereno.
Sentando-se e apoiando o peso do corpo nas mãos, ela observava Holiday, que também usufruía da atmosfera de paz.
— Sabe, a gente devia trazer todos os campistas aqui.
Holiday abriu os olhos.
— Eu queria que fosse assim tão fácil.
— O que quer dizer?
— Não se traz ninguém à cachoeira, Kylie. As pessoas têm que ser chamadas. Lembra?
Kylie de fato se lembrava, e de repente ficou curiosa.
— Então por que a cachoeira chama algumas pessoas e outras não?
— Não sei — Holiday respondeu. — Mas dizem que ela chama menos de um por cento de todos os sobrenaturais.
— Todos os que são chamados se comunicam com fantasmas?
— Todos os que eu conheço, sim. Existem lendas milenares sobre a cachoeira. Os nativos americanos consideravam este solo sagrado e afirmavam que só os escolhidos podiam pisar nele.
— Burnett veio até aqui — disse Kylie.
— Eu sei, e isso me surpreende muito.
— Por quê? Você não acha que ele seja um escolhido? — Kylie perguntou.
— Não, porque ele não consegue ver espíritos.
— Você devia tê-lo visto observando-a quando todos a cumprimentavam no jantar outra noite — disse Kylie, falando por impulso. — Acho que ele te ama, Holiday.
A fadinha arqueou uma sobrancelha.
— Ainda tentando bancar o cupido, hein?
— Talvez eu só esteja tentando ajudar dois amigos.
— Ou talvez esteja se concentrando nos problemas de outra pessoa para não ter que pensar nos seus.
— Talvez — Kylie disse, encolhendo os ombros —, mas agora meus problemas não parecem tão ruins. — Ela olhou para o teto rochoso, maravilhada com a beleza dos padrões da rocha.
Holiday riu.
— É incrível o que acontece aqui, não é? — Ela suspirou. — Eu queria poder engarrafar o ar deste lugar e levá-lo na bolsa para respirá-lo um pouco quando precisasse.
— Pena que não podemos viver aqui — disse Kylie.
— Você viu o fantasma depois do dia do incidente? — Holiday esticou os pés.
Kylie assentiu com a cabeça.
— Ela me acordou ontem à noite. Eu fiz o que você disse e perguntei se havia um outro corpo no caixão com ela.
— O que ela disse?
— Nada. Mas ficou me olhando daquele jeito de novo.
— De que jeito? — Holiday perguntou.
— Como se eu tivesse despertado uma lembrança ou algo assim. Sempre que isso acontece, ela desaparece.
— Talvez ela não queira se lembrar.
Kylie ouviu a implicação na voz da líder do acampamento: a de que Jane Doe não queria se lembrar porque era assassina de crianças inocentes.
— Acho que ela está com medo de se lembrar — disse Kylie. — Mas não pelas razões que você pensa.
— Então por que está tão assustada?
Kylie hesitou.
— Talvez pela mesma razão que me faz ter medo.
Holiday olhou para ela.
— O que a faz ter medo?
— Descobrir a verdade. Descobrir o que eu sou.
— Por quê? — Holiday perguntou como se estivesse confusa.
— Porque é algo desconhecido. Porque é segredo pra mim há muito tempo. Porque provavelmente vai mudar a minha vida para sempre.
Kylie sentou-se ereta.
— Não que eu não queira saber a verdade. Eu quero. Quero tanto saber que posso quase sentir isso. Às vezes não consigo pensar em outra coisa. Mas ainda assim tenho medo. No dia em que os Brightens, ou as pessoas que se passaram por eles, vieram aqui, eu estava tão assustada que tremia por dentro. Quase fugi. Se Lucas não tivesse aparecido, provavelmente teria feito isso.
Kylie engoliu em seco. E foi aí que ela decidiu fazer a pergunta que há muito tempo pretendia fazer a Holiday e não tinha tido a chance.
— Você viu algum espírito diferente? Sabe se o casal de idosos que veio aqui naquele dia morreu?
— Os espíritos deles não vieram me procurar, se é isso que está perguntando — Holiday respondeu.
Kylie mordeu o lábio.
— Ainda me lembro da mão daquela senhora na minha. Por alguma razão, não acho que eles estivessem aqui para me prejudicar de alguma forma.
— Por que outro motivo estariam, então?
— Não sei. — Kylie fechou os olhos. — Do mesmo jeito que sei que Jane Doe não é uma assassina, tenho um pressentimento de que eles não eram ruins.
Holiday sentou-se e puxou os joelhos contra o peito.
— Talvez essa seja apenas a sua maneira de se recusar a ver o mal nas pessoas.
Kylie considerou a teoria por um segundo. Então se lembrou das duas vezes em que tinha visto a águia e, depois, o cervo. Ela não era cega para o mal. Podia reconhecê-lo quando o via, e não via mal nenhum nos falsos Brightens.
— Não — ela afirmou. — Não é isso.
A mente de Kylie voltou a Jane Doe.
— Ontem à noite recapitulei uma parte da visão e me lembrei do que a enfermeira disse ao médico. Ela disse que o marido dela, de Jane Doe, tinha acabado de acordar e estava perguntando pela esposa.
— E você acha que isso significa alguma coisa? — Holiday perguntou.
— Berta Littlemon nunca foi casada. E a visão me leva a crer que o marido de Jane Doe passou pelo mesmo tipo de operação que ela.
Holiday hesitou e então disse:
— Às vezes as visões são difíceis de decifrar.
— Mas todas as vezes em que tive esse tipo de visão, em que estou na pele da própria pessoa, elas não eram um quebra-cabeça que eu tinha que montar a fim de descobrir o que significavam. Eram cenas que realmente aconteceram.
— Mas as visões são a partir da perspectiva da pessoa. E se Jane Doe é pirada, então...
Kylie balançou a cabeça.
— Eu não acho que ela seja pirada. Ou má.
— Espero que você esteja certa — Holiday disse.
— Eu também.
Elas ficaram em silêncio por um minuto ou dois, apenas ouvindo a água corrente e sentindo a atmosfera de calma. Kylie olhou para Holiday novamente e sentiu uma pequena ponta de preocupação em sua mente.
— O que vou dizer a Sara quando ela vier aqui no domingo?
— Não diga nada, exceto que está feliz que ela esteja bem.
— Vai ser tão estranho vê-la aqui! Ela faz parte do meu antigo mundo, e meu antigo mundo não deveria se misturar com o meu novo mundo. É como dar de cara com seu professor de catecismo numa balada.
Holiday riu.
— Ou o seu ginecologista no supermercado. Aconteceu comigo uma vez. Foi tão estranho! — Ela estendeu o braço e pousou a mão sobre a de Kylie.
Normalmente, o toque de Holiday não provocava nada além de calma, mas não desta vez. Desta vez, tudo ficou escuro.

Um comentário:

  1. — Estou ouvindo aquele zumbido novamente.
    Ele arqueou uma sobrancelha.
    — Você desperta o lobo em mim. — Inclinando-se para baixo, Lucas lhe deu outro beijo rápido nsssssssssssssssssssssssssss mdssssssssssssssssss

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