31 de outubro de 2016

Capítulo 25

Attleboro, Massachusetts

Nellie havia descoberto algo sobre Pony: Ele era mais dócil se fosse alimentado.
Ela poderia facilmente arranjar uma refeição francesa cinco estrelas, mas Pony preferiu o básico. Seu queijo grelhado o fez desmaiar. Especialmente quando ela fazia batata frita caseira, utilizando azeite e sal marinho.
— Muito mais saudável para você, cara — ela disse para ele.
Ela fizera jantar e lanches para ele por dias agora. Ele não parecia muito mais perto de dar o que ela queria: uma rede digital segura. Ainda assim, ele era um gênio. E era difícil ficar completamente irritado com alguém que a tinha apelido de sua “deusa”.
Pony gemeu quando deu a última mordida no spaghetti carbonara. Ele recolheu o resto das migalhas do pão de alho com um dedo indicador umedecido. Então se inclinou para trás, fechou os olhos, e arrotou.
Ainda com os olhos fechados, ele disse:
— Em algumas culturas, isto é um elogio. Embora eu não tenha certeza de que seja realmente verdade.
— Se eu tivesse acesso à internet, eu poderia pesquisar — Nellie respondeu, apontando para seu prato.
— Ui. Estou operando no máximo — ele protestou. — Esse serviço de hacking está fora das tabelas. É de April May que estamos falando — acrescentou, baixando a voz do jeito como sempre fazia quando falava da hacker. — Ela – ou ele – é uma suprema fantasma das redes, imperatriz de todos os tempos. Ela invadiu AT&T, agências federais, o governo da Bulgária... até mesmo a Disney World! Eu não posso limpar a sua rede até ter certeza de que ela está totalmente protegida. Entende? Tem que ser uma fortaleza impenetrável.
Ela colocou uma tigela de sorvete caseiro de doce de manteiga, o favorito dele, sobre a mesa, mas manteve a colher no ar.
— Eu não posso continuar correndo para cafés de Internet aleatórios, e nem Amy e Dan. Precisamos de telefones!
— Bem, já que não posso decepcionar minha senhora,
darei-lhe um presente — Pony enfiou a mão em um de seus enormes bolsos e tirou uma pilha de smartphones. — Sua própria fortaleza pessoal da inexpugnabilidade Cahill. E, se tudo correr bem, conseguirei um laptop para você hoje mais tarde. Agora que sei com quem estou lidando, serei capaz de garantir que o acesso é seguro. E estarei monitorando o tempo todo. Agora pode me dar a colher?
Nellie entregou a ele, então abraçou o celular.
— Onde você esteve durante toda a minha vida? —
ela sussurrou para ele.
Pony riu.
— Eu tenho brincando de gato e rato com April May. Exceto que o gato é invisível, e o rato ambém. Ela não faz idéia que encontrei um jeito de entrar. Estou espionando-a, também. Usei a porta dos fundos. Uma pequena brecha que ela nunca vai descobrir, mas o suficiente para me dizer as coisas. Estou mais do que perto de criar uma fortaleza, de fato.
Pony olhou para o pote de cobertura de chocolate quente que Nellie deixara em cima da mesa.
— E se você passar a cobertura, revelarei uma pepita de informação que vai agradá-la e me fazer retornar imediatamente às boas graças da deusa.
Nellie empurrou o pode para frente.
— Abra. Não a cobertura de chocolate. A boca e as informações.
— Embora eu tenha estado diligentemente trabalhando na segurança de sua rede, tive alguns minutos de inatividade em que pude me concentrar em seus outros pedidos.
Nellie se inclinou para frente.
— Você descobriu algo sobre Pierce.
— De fato — Pony colocou na boca uma colher cheia de sorvete. — Além de englobar companhias de mídia à torto e à direito e ter uma variedade de empresas de fachada, nosso Malfeitor Maléfico, Rutherford J. Pierce, adquiriu recentemente um laboratório de pesquisas farmacêuticas próximo a Wilmington, Delaware...
— Delaware! — exclamou Nellie.
— ... e demitiu todos os funcionários — com a colher ainda na boca, ele colocou a mão no bolso e puxou de lá um pedaço de papel. Ele empurrou-o sobre a mesa na direção de Nellie. — Aqui está o endereço.
— Por que ele compraria... — o medo invadiu Nellie, uma ideia se formando lentamente enquanto ela prendia a respiração. — Qual o tamanho desse laboratório, Pony?
— Equipamento grande. Era usado para fabricar lotes de remédios. Remédios para resfriado. E todo mundo tem resfriado!
— Então a infraestrutura está lá... — Nellie mordeu o lábio. — Isso poderia significar... realmente poderia. Faz sentido.
— Estou esperando que faça o download em mim, deusa.
— Amy estava certa. Os capangas que foram atrás deles... a força deles. Seu poder. Não foi apenas Pierce quem tomou o soro! Ele usou o trabalho de Sammy e... e usou para criar aqueles paus mandados superfortes. Há uma razão para ele ter comprado esse laboratório.
Pony a encarou sem entender.
— Ele vai fabricar o soro! Está planejando sua produção em massa! Por que mais ele compraria um laboratório?
— E isso seria ruim?
Nellie se levantou e andou pela extensão da sala.
— Seria catastrófico. Ele poderá fazer qualquer coisa! Criar
um exército de super-homens. Esquadrões de tática, líderes. Tudo sob o seu controle. Porque ele teria o controle do soro. Você não vê? Ele pode criar o exército mais poderoso do mundo! Se ele for o único a tomar decisões, será o uníco a controlar quem pode bebê-lo... ele poderia criar toda uma rede de seguidores de Pierce. Pessoas fortes e inteligentes o bastante para fazer qualquer coisa. Sem escrúpulos. Gente que mataria crianças sem sequer piscar um olho. O terror faria parte da vida diária. O resto de nós seria apenas...
— Seus fantoches — concluiu Pony.
— Sammy está lá — declarou Nellie. — Eu sei que sim. Pierce não se livraria dele. Preferiria usá-lo. Sammy é o único que está preparado para fazer isso. Agora ele tem que terminar o que começou.
Nellie se virou.
— Eu tenho que fazer as malas... encontrar equipamentos de vigilância...
— Nellie? Só mais uma coisa — Pony se levantou. — Na tentativa de enganar April May, fiz uma descoberta. WALDO invadiu o Sistema da CCTV em Londres. Você sabe, o circuito fechado de televisão que a Scotland Yard usa? E Amy e Dan estão a caminho de lá.
— Londres? Você está dizendo que Pierce poderia segui-los através da CCTV?
— É difícil, mas possivelmente factível, com o programa certo. Mas, basicamente? Sim.
Ela olhou para os novos smartphones sobre a mesa, pensando bastante.
— Temos que entregar os telefones para eles — declarou. — Mas eu não posso enviá-los. Não confio em mais nada ou ninguém.
— Você pode pegar um voo, entregá-los pessoalmente — disse Pony, dando de ombros.
Ela olhou para Pony.
— Ou você poderia.
— Eu?
— Você. Eu não posso sair agora, Pony. E você poderia verificar os telefones dos irmãos Rosenbloom também. Você tem que ter certeza de que todo o sistema esteja seguro.
— Eu não posso simplesmente fazer as malas e ir — respondeu Pony. — Eu tenho um gato.
— Você pode trazer o gato para cá. Eu tenho uma babá de gatos.
A melhor do mundo – minha mãe. Ela ama gatos.
— Eu não posso voar. Sou alérgico a amendoim.
— Fiz-lhe biscoitos de manteiga de amendoim na segunda-feira porque você disse que eles eram o seu favorito.
— Eu não tenho uma mala.
— Eu te empresto uma. Pony, eu preciso de você — Nellie falou. — O mundo precisa de você.
— Eu? Não. Você não entende, Nellie — os suaves olhos castanhos de Pôny estavam cheios de uma nova emoção – medo. — Eu nunca estive em qualquer lugar. Quero dizer, além de virtualmente.
Nellie movimentou os dedos pelo celular.
— Espere um segundo... eu finalmente consegui falar com Jonah Wizard. Você pode voar com ele em seu avião privado.
— J-Jonah Wizard? — Pony gaguejou.
— O astro?
— Ele também é um Cahill. Primo de Amy e Dan — Nellie finalmente percebeu o olhar de absoluto terror no rosto de Pony ao pensamento de encontrar um artista de hip-hop mundialmente famoso. Ela sorriu. Jonah tinha toda a pompa de uma estrela – o avisão privado, o estilo, a atitude – mas por baixo de tudo, era um garoto legal. — Não se preocupe — tranquilizou-o. — Ele é legal. Ele estará no Logan em... — Nellie consultou o relógio — duas horas. Aí vocês dois podem voar para Londres. Você consegue, Pony.
— Eu acho...
Ela pousou a mão em seu braço.
— É o seguinte. Se você nunca esteve em qualquer lugar, não é hora de começar?
Ele engoliu em seco.
— Se você diz...

* * *

Vinte minutos depois, chegou Pony na casa dela com um saco de papel cheio de roupas e seu gato em uma caixa. Nellie passou-lhe uma mochila. Ela já tinha embalado para ele um sanduíche, biscoitos e uma maçã. Pony se sentia como no jardim de infância, mas estava grato por Nellie concordar em ajudá-lo a atravessar o terror.
E então ele teria que ficar a sós com o fantástico Jonah Wizard. Durante horas. Ele tinha certeza de que diria algo idiota.
Nellie entrou na sala de segurança para colocar o código. Pony, do lado de fora, andava de um lado para o outro. Será que aviões privados tinham linhas de segurança? Será que ele teria que tirar os sapatos? Ele não conseguia se lembrar se sua meia tinha furos ou não. Sentia-se um total perdedor. Era exatamente por isso que ele não participava da vida real! Tudo era real demais!
Ele estendeu a mão e levantou a tampa da caixa de correio. Havia algumas malas diretas, mas tinha também um pequeno envelope endereçado a Amy Cahill. Ele enfiou-o na mochila. Ele, provavelmente, estragaria tudo.
Sempre que ele participava da vida real, as coisas davam errado. Mas o mínimo que podia fazer era levar o envelope para Amy Cahill.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!