14 de outubro de 2016

Capítulo 25

— O diretor explicou. — A senhora Brighten continuou a olhar para ela.
— Eu também quero dizer que... que eu sei que vocês podem estar pensando que minha mãe e meu padrasto são meio malucos, depois de assistir a toda aquela cena no estacionamento, mas... — Ela se lembrou de respirar. — Mas... bem, às vezes eles são um pouco malucos mesmo, mas na maior parte do tempo, são gente boa. — A emoção provocou um nó na sua garganta e ela engoliu em seco. — Os dois me amam.
O senhor e a senhora Brighten balançaram a cabeça novamente. Um estranho tipo de constrangimento encheu a sala. Um constrangimento que Kylie esperava dispersar. Ela realmente queria que aquela visita desse certo. E não apenas pelo pai dela, percebeu, mas por si própria.
— Nos desculpe por olhá-la desse jeito — disse finalmente o senhor Brighten. — É que... você parece muito com o seu pai. É incrível.
Kylie sorriu novamente, desta vez de verdade. Ela se aproximou e se sentou em frente a eles à mesa.
— Eu sei.
— Você já viu fotos dele? — a senhora Brighten perguntou.
Sim, o verdadeiro pai dele e a tia trouxeram para mim quando estavam fingindo que eram vocês. Sim, ela tinha que mentir.
— Minha mãe tinha algumas fotos dele. — Então Kylie se lembrou de que sua mãe havia guardado o recorte do obituário com a imagem de Daniel.
Quase uma carranca apareceu na expressão da senhora Brighten.
— Eu não entendo por que ela não nos contou sobre você. Poderíamos ter... teríamos adorado acompanhar o seu crescimento. — Ela fez uma pausa. — Teria nos ajudado... a superar a perda do seu pai.
Kylie se lembrou de sua mãe dizendo que os Brightens deveriam odiá-la por isso.
— Ela sabe que foi um erro — Kylie disse, lembrando-se da mãe dizendo quase isso. — Mas ela era jovem, estava grávida e com medo. Meu padrasto, ele foi alguém que ela conheceu e que a amava. Ele concordou em se casar com ela, mas ele queria... que eu fosse registrada como filha dele. — Ela fez uma pausa. — Ele estava errado também, mas ambos estavam apenas tentando fazer o melhor que podiam.
A senhora Brighten assentiu.
— Eu imagino que deve ter sido difícil.
A preocupação de Kylie diminuiu.
— Espero que vocês possam perdoá-la. Porque... ela tem sido uma mãe incrível.
— Eu gostaria de poder conversar com ela.
Kylie ficou tensa.
— Tenho certeza de que isso é possível. Se não se importam, eu posso falar com ela... e depois dar um retorno a vocês. — Kylie fez uma oração para que a mãe fosse acessível. Mas ah, Deus, aquela ia ser uma conversa difícil.
Lágrimas encheram os olhos da senhora Brighten.
— Eu trouxe mais algumas fotos comigo, se você quiser ver.
— Eu adoraria — disse Kylie. — Obrigada.
A senhora Brighten pegou um pequeno álbum de fotos de uma grande bolsa bege. Enquanto Kylie folheava o álbum, ela reconheceu algumas das mesmas fotos que ela tinha. Seu verdadeiro avô tinha entrado escondido na casa dos Brightens e feito cópias para trazer a ela para que pudessem se passar pelos verdadeiros Brightens. Mas havia muitas que Kylie não tinha visto. E vendo as imagens do pai, ela sentiu a emoção crescer dentro dela.
— Se você quiser, pode ficar com elas — disse a senhora Brighten. — Eu fiz estas cópias para você.
Kylie sorriu.
— Muito obrigada! Eu vou guardar muito bem, eu prometo.
O senhor Brighten se sentou.
— Você até age como seu pai. Ele era tão... educado...
— É verdade — confirmou a senhora Brighten. — Ele era um menino tão bom! Sempre bondoso. Manso de espírito. Um pouco tímido, às vezes, mas...
— Acho que sou tímida também — disse Kylie. — Detesto quando sou obrigada a me levantar e falar em público ou fazer um seminário na escola. — Ou quando todo mundo está olhando para o meu padrão estranho. Ou pensam que estou grávida.
A senhora Brighten sorriu.
— Ele não gostava muito da escola. Sempre dizia que se sentia como se não se encaixasse bem em lugar nenhum.
— Ah, nossa, eu sei o que é isso! — comentou Kylie.
— Não que ele tivesse problemas. Bem, houve uma vez no último ano do ensino médio. Havia um garoto na escola, Timmy. Ele era meio lento e, um dia, quando ia a pé da escola para casa, Daniel encontrou um grupo de meninos mais velhos mexendo com ele – realmente maltratando o garoto. Havia talvez seis deles e Daniel perdeu a paciência. Ainda não sabemos como ele fez isso, mas todos saíram com narizes sangrando e olhos roxos. E não havia um arranhão no nosso menino.
Kylie ouviu a história com o coração aflito – uma filha ansiosa para saber sobre um pai que conhecia tão pouco.
— A escola suspendeu-o — a senhora Brighten continuou —, mas quando os pais de Timmy descobriram, foram até uma emissora de rádio local. Eles entrevistaram Timmy sobre o que tinha acontecido e a emissora homenageou Daniel como um herói. E os meninos ficaram em apuros. A escola foi forçada a cancelar a suspensão de Daniel. Claro, Daniel ficou constrangido com a atenção. A emissora deu a ele um troféu e, no dia seguinte, ele foi à casa de Timmy e deu o troféu a ele. Disse que Timmy era o verdadeiro herói por ter que lidar com valentões durante toda a vida.
O orgulho pelo pai inchou o peito de Kylie. Ele tinha sido um protetor assim como ela e, como ela, não queria o crédito por isso. Ela desejou mais uma vez não ter perdido o homem com quem se parecia tanto. Claro, ela ainda tinha uma parte dele, em forma de espírito, mas queria muito mais.
— Mas, sabe, depois que se formou no colegial, Daniel se encontrou. Na verdade, um dia chegou em casa de uma viagem e me disse que tinha finalmente descoberto quem era.
Kylie se lembrou do pai lhe dizendo que havia encontrado um homem mais velho que lhe contara que ele não era humano. Ela se perguntou se seria a mesma viagem.
— Eu disse a ele — continuou a senhora Brighten — que já sabia quem ele era. Que ele era uma alma gentil e bondosa. — Ela olhou para Kylie. — E eu vejo a mesma coisa em você. Como se... como se você tivesse uma magia que poucas pessoas têm. — Ela esticou o braço sobre a mesa e pousou a mão sobre a de Kylie.
A mão enrugada lembrou Kylie de como a tia-avó a tocara quando se fazia passar pela senhora Brighten. Não havia nenhum calor extra no toque da verdadeira senhora Brighten como havia no toque de sua tia-avó. No entanto, isso não fazia a verdadeira senhora Brighten parecer menos especial. E foi assim que Kylie soube o quanto seria fácil amar aquelas pessoas, e quanta sorte o seu pai tinha tido de ser criado por elas.


Eram quase cinco da tarde quando Burnett e Holiday, de mãos dadas como dois pombinhos, levaram Kylie para a cabana. Della esperava lá dentro para assumir suas funções de sombra.
— Tem certeza de que você vai ficar bem? — perguntou Holiday.
— Tenho. — E, surpreendentemente, Kylie acreditava nisso. Sim, ela ainda estava desejando um pouco de chocolate para neutralizar o dia frenético, e, sim, o seu coração ficaria partido para sempre por causa de Lucas, mas ela ia ficar bem.
Pensando em sua outra companheira de quarto, Kylie perguntou:
— Você falou com Miranda sobre o episódio da Nikki?
— Sim — Holiday disse, estreitando os olhos. — Embora eu ainda não tenha pensado em outra punição.
Kylie não poderia deixar de dar sua opinião.
— Eu não estou dizendo que Miranda não esteja errada, mas Nikki estava sendo óbvia demais em sua paixão por Perry. Eu até a avisei sobre isso. Mas ela não me deu ouvidos.
— Eu sei — disse Holiday. — Nikki estava errada, mas Miranda não pode sair por aí transformando as pessoas em cangurus.
— Sério? Você pareceu gostar quando ela fez isso comigo! — Burnett disse sarcasticamente.
Holiday soluçou.
— Aquilo foi engraçado. — Holiday lhe lançou um sorriso diabólico.
Kylie observou-os irem embora antes de entrar na cabana. Encontrou Della sentada à mesa da cozinha, bebendo um copo de sangue, com livros escolares à sua frente. A vampirinha levava a sério o seu dever de casa.
Della ergueu o olhar.
— Concordo com Holiday. Foi engraçado quando Miranda transformou Burnett em canguru.
Kylie desabou numa cadeira.
— Onde está Miranda?
Della revirou os olhos.
— Ela e Perry saíram para fazer “quase sexo” – palavras dela, não minhas. Pessoalmente, eu não precisava saber disso. Embora tenha que admitir que me pergunto o que é exatamente “quase sexo”. — Ela franziu a testa. — Provavelmente envolve Perry chupando os lóbulos das orelhas dela, e eu realmente não estou disposta a ouvir sobre isso. Mais uma vez.
Kylie riu.
— Quando a gente pensa sobre isso, todas as coisas sexuais parecem mais ou menos... Quero dizer, até o beijo francês... ter a língua de outra pessoa na sua boca. É nojento.
— A menos que seja você beijando... — As palavras de Della vieram num tom de devaneio. Kylie tinha certeza de que a amiga estava pensando em Steve. — Aí não é nojento. É quase mágico.
Kylie lembrou-se das vezes em que beijara Lucas assim e fizera até mais do que isso na noite em que estavam voltando do cemitério. Tinha sido mágico. Mas toda essa magia acabara agora. Não havia mais Lucas.
— Sim, aí não é tão nojento.
Levantando-se, ela foi dar uma olhada no que havia dentro da pequena despensa.
— Não temos nada de chocolate na cozinha? Qualquer coisa?
— Acho que tem um pouco de calda de chocolate na geladeira. Mas não temos leite. Não que eu tenha bebido. Deve ter sido a bruxa. — Della olhou para Kylie.
Kylie se aproximou da geladeira e encontrou a calda de chocolate.
Ah, droga, quem estava esmolando não poderia ser exigente. Ela apertou a bisnaga até que uma linha de chocolate caiu no seu dedo indicador; então colocou o dedo na boca.
— Então o encontro com os Brightens não foi muito bem? — perguntou Della.
— Não, foi muito bem, sim — murmurou Kylie, enquanto chupava o dedo coberto de chocolate.
Quando o gosto doce desapareceu, ela virou o frasco de calda de cabeça para baixo e deu outro esguicho no dedo.
— Então por que você está chupando calda de chocolate do dedo como se fosse uísque? Espere! Eu sei por que, eu ouvi sobre o tumulto com o seu pai e a sua mãe, a coisa toda da gravidez. Hilário! — Della colocou os cotovelos na mesa e riu.
— Não foi hilário. — Kylie fez uma careta. — Como você ficou sabendo disso?
Della deu de ombros, parecendo se sentir um pouco culpada por trazer o assunto à tona.
— Alguém ouviu. Todo mundo estava falando disso. Sinto muito. — Ela fez uma cara de quem pedia desculpas.
Kylie gemeu.
— Quando será que vou deixar de ser a fonte de fofocas por aqui? — Ela colocou a cabeça para trás e esguichou o chocolate diretamente na boca.
— Agora, isso é nojento! — Della riu.
Kylie baixou o frasco e lambeu os lábios.
— Eu não encostei nos lábios. Só derramei na boca.
— E no queixo.
Fazendo uma cara feia, Kylie limpou o queixo com as costas da mão.
— Desculpe, mas estou desesperada. — Ela pegou uma tigela e uma colher e voltou para a mesa, onde esvaziou a metade do frasco de calda na tigela.
— Nossa! — disse Della. — Você está mesmo desesperada.
Kylie meteu uma colher de chocolate na boca, lambeu a colher limpa e disse:
— Monique entrou no reservado do banheiro comigo.
— Quem? Que reservado?
— Monique. A Monique do Lucas. Ela entrou comigo no reservado do banheiro do restaurante.
— Ah, merda! Vocês duas brigaram ou coisa assim?
— Não. — Kylie lambeu a colher. — Eu só fiquei toda molhada de xixi. — Ela pôs outra colherada de chocolate na boca.
Della suspirou.
— Você está bem?
— Vou estar depois que acabar com esta tigela de calda — respondeu Kylie.
Della deu um meio sorriso.
— Se eu fosse sua amiga de verdade, faria você parar de comer isso.
Kylie balançou a cabeça.
— Se você fosse minha amiga de verdade, me ajudaria a acabar com ela.
— Ah, por que não? — Ela empurrou o copo de sangue para o lado. — Me dê um pouco.
— Sério? — perguntou Kylie, arqueando uma sobrancelha.
— Sério. — Della então empurrou os livros escolares para o lado. — Que se dane a lição de casa, vamos acabar com essa calda de chocolate. Também estou precisando de um estimulante.
Kylie viu no rosto da amiga que ela também estava sofrendo. Então deu uma boa esguichada de calda no copo da vampira.
— O que realmente aconteceu enquanto você estava fora, Della?

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