4 de outubro de 2016

Capítulo 25

Kylie desviou os olhos para o metamorfo. O sorriso de Perry desapareceu. Kylie arqueou uma sobrancelha.
— Transforme-se.
Ele franziu a testa.
— Não o gato surdo de novo... — ele implorou. — Eu não consigo ouvir nada. Fico sem equilíbrio assim. É como se estivesse no vácuo.
Ela não desviou o olhar até que as fagulhas começaram a aparecer como fogos de artifício. Então ela se virou e encarou Ellie, que olhava com os olhos arregalados as fagulhas em cascata ao redor de Perry.
— Nossa! Eu nunca tinha visto um metamorfo se transformar antes. Quer dizer, ouvi falar sobre o que acontecia, mas é muito mais legal ao vivo!
— Você ouviu o que eu disse? — Kylie cruzou os braços sobre o peito com a fúria se acumulando na boca do estômago.
— Você viu ele se transformando? — Ellie perguntou.
Kylie bateu o tênis no solo úmido e rochoso.
— Eu disse que sei que você fez sexo com Derek.
Ellie continuou a olhar para Perry, que agora era um gato branco de olhos azuis. Houve um silêncio repentino na floresta. Kylie ignorou-o e continuou encarando Ellie.
— É, eu ouvi o que você disse — disse Ellie, ainda sem olhar para ela. — E estava mudando de assunto de propósito, para ter tempo de pensar o que responder. — A vampira de cabelos castanhos lançou um profundo suspiro e olhou para Kylie. — Derek te contou?
Ela assentiu.
Ellie balançou a cabeça.
— Isso é a cara dele. Derek é uma dessas pessoas super do bem que acham que a verdade é a melhor política.
— Você teria mentido pra mim? — Kylie perguntou, procurando uma razão para realmente não gostar da garota. Como se ter transado com Derek não fosse razão suficiente. Mas ela se lembrou de que eles não tinham nenhum compromisso; não tinham nem chegado a namorar oficialmente. E Derek e Ellie tinham uma história juntos.
— É. Eu teria mentido — disse Ellie. — Não por maldade nem nada. Só porque..., bem, o que aconteceu entre mim e Derek não significou nada, então por que deixar que causasse tanto estrago?
Kylie franziu a testa.
— Se não significou nada, então por que dormiram juntos?
Ela encolheu os ombros.
— Porque eu queria que significasse algo.
— Isso não faz sentido — Kylie acusou.
Ellie franziu a testa.
— Ok, escuta. Eu gosto do Derek. Gosto pra caramba! Quer dizer, ele é um gato! E é um doce... Um cara totalmente incrível. Mas... simplesmente não saíram... faíscas. Como acontecia antes, quando estávamos namorando. Nós fizemos muito sexo sem sentir esse algo mais. Tenho certeza de que você já passou por isso, não passou?
Kylie não a corrigiu. Não se sentia à vontade admitindo a uma estranha que era virgem.
— Então, quando ele apareceu naquela festa, eu estava meio com medo, meio vulnerável, e ele foi como o meu salvador. E estava tão gato, tão lindo..., achei que daquela vez a gente fosse sentir aquele algo mais.
Ela balançou a cabeça.
— Mas não aconteceu.
Kylie sentiu o ar ficando mais frio em torno deles. Gelado. Por favor, não agora, ela pediu mentalmente.
— Se ele contou sobre a transa — continuou Ellie —, então contou também que, assim que terminamos, nós dois ficamos tipo... “Cara, isso foi um erro”. E cinco minutos depois, ele estava me contando sobre uma garota que conhecia chamada Kylie.
Kylie olhou para o chão, ela poderia jurar que algo tinha acabado de passar sob seus pés. Olhou para Perry, que estava sentado no galho de uma árvore, esmagando uma borboleta.
— Você sabe que ele realmente gosta de você, não sabe? — Ellie perguntou.
O fantasma se materializou bem na frente de Kylie, e parecia em pânico, apavorado.
Por favor... Agora não!
Kylie ignorou o espírito e estudou Ellie. De repente, toda a conversa parecia sem sentido e totalmente desnecessária. Ela não tinha o direito de ficar chateada com Derek e Ellie. Nenhum direito. Nenhum mesmo. Zero.
— Sinto muito — disse Kylie. — Eu não devia ter...
— Não, você devia. Se alguma garota tivesse transado com o cara que eu gostasse, eu ficaria chateada também. Foi legal você ter falado o que pensava. Eu respeito isso.
— Não — disse Kylie. — Quer dizer, não é que... Entre mim e Derek... Sim, Derek e eu estávamos quase tendo alguma coisa, mas depois... — Ele simplesmente colocou um ponto final em tudo. Ela se conteve. Não queria entrar em detalhes. — Acabou.
— Certo. Acabou. — Ellie revirou os olhos. — Sério? Toda vez que estamos em meio a um monte de gente, sabe o que ele faz? Procura você. — Ela riu. — É uma idiotice. Então eu perguntei a ele sobre isso. Eu disse: “Você diz que pode senti-la a quilômetros de distância, então sabe que ela não está aqui. Por que procura por ela se já sabe?” — Ellie sorriu. — Você sabe o que ele me disse? “A esperança é a última que morre”.
Kylie reconheceu as palavras que ela mesma dissera a Perry um pouco antes.
— Ele gosta de você pra caramba — disse Ellie.
Kylie balançou a cabeça novamente.
— Não, agora acabou. Ele terminou tudo. Estou com outra pessoa agora.
— Está? — O choque fez Ellie arregalar os olhos azuis. — Derek sabe?
— Não. Quer dizer, eu ainda vou começar a namorar com essa pessoa. — Sentindo-se como uma idiota, ela acrescentou: — Lucas me pediu em namoro no café da manhã. Mas eu não tive chance de dizer sim.
Ellie ergueu as sobrancelhas em suspeita.
— Então você não disse sim.
Kylie franziu a testa e o frio pareceu colar em sua pele.
— Fomos interrompidos.
— Quanto tempo você precisa para dizer sim? — Ellie esfregou os braços como se quisesse se proteger do frio e olhou em volta como se estranhasse a súbita mudança de temperatura.
— O que quer dizer? — Kylie perguntou, sentindo-se frustrada, mas sem saber direito se era por causa do fantasma ou de Ellie. Então Kylie viu o fantasma andando de um lado para o outro, olhando para ela como se precisasse dizer alguma coisa. Algo urgente.
Ellie encolheu os ombros novamente.
— Eu só estou dizendo que parece que você hesitou. E talvez haja uma razão para isso. Talvez a razão seja que...
— Não há razão nenhuma. Eu não hesitei.
Jane Doe parou de andar e olhou dentro dos olhos de Kylie.
— Você precisa correr!
— Tem certeza? — perguntou Ellie.
— Tenho — disse Kylie, e ela tinha. Não tinha? Ela ia dizer sim antes de Burnett chegar. Mas diria sim a Lucas da próxima vez que o visse.
— Corra! — o fantasma gritou.
— Por quê? — Kylie perguntou ao espírito, e olhou para Perry ainda na árvore, perseguindo sorrateiramente outra borboleta.
— Por que o quê? — perguntou Ellie.
— Corra! — O espírito gritou tão alto que Kylie pensou que tinha rompido seus tímpanos. Ela olhou para cima e viu a águia arremetendo a toda velocidade, com as garras expostas.
Ela se abaixou, evitando por pouco as garras afiadas do pássaro. Justo nesse instante, o solo sob os seus pés começou a tremer. Tremer muito. Um estrondo parecido com uma explosão soou abaixo dela.
— Corre! — Kylie gritou para Ellie.
A vampira, com os olhos brilhando num tom amarelo cintilante, olhou para o chão.
— O que está acontecendo?!
— Corre! — gritou Kylie outra vez, agarrando Ellie pelo braço e arrastando-a com ela. Elas tinham dado apenas um passo quando o chão sob os seus pés se abriu, e surgiu no lugar um imenso buraco negro. Um buraco que ficava cada vez maior e se aproximava cada vez mais das duas. Kylie tinha avançado pelo menos dez passos quando se lembrou.
Perry. Ele estava na árvore e não era capaz de ouvir nada do que estava acontecendo abaixo dele.
Kylie deu meia-volta. Assim como suspeitava, ele ainda estava na árvore.
Ainda caçava a borboleta.
— A gente precisa sair daqui! — gritou Ellie.
O buraco no chão continuava a aumentar, como se alguém sugasse a terra embaixo delas. Kylie estava quase chegando na árvore. Quase onde Perry estava. E ele ainda não tinha visto nada.
E a culpa era dela. Era tudo culpa dela.
— Perry, corra! — ela gritou com toda a força.
Mas Perry não podia ouvir.
Eu fico sem equilíbrio. É como se estivesse num vácuo. As palavras dele ecoaram na sua mente como vidro estilhaçando.
Ela viu o buraco começando a chegar às raízes da árvore.
Viu o felino Perry perdendo o equilíbrio.
Ele lutava para permanecer na árvore. Kylie assistiu com horror quando ele se agarrou à árvore com as suas patas felinas, as garras cravadas no tronco enquanto lutava para não despencar. Mas o buraco negro, como um monstro que não desistia, sugou a árvore para baixo, levando com ela, através da sua garganta negra, o pequeno gatinho de olhos azuis.
Alguém vive e alguém morre.
— Não! — Kylie gritou, e saiu correndo, dando um salto para dentro do buraco escuro.

5 comentários:

  1. Não! Coitado do Perry!

    ResponderExcluir
  2. cara essa Kylie ja ta me irritando, nao se decide nos cara e so faz besteira

    ResponderExcluir
  3. Caraca será que a mensagem dos anjos da morte eram sobre Perry e Ellie??!!

    ResponderExcluir
  4. Que merda!
    Peço licença, porque sinceramente vou precisar usar um pouco de palavrões:

    Porra!! Essa indecisão de Kylie tá me matando! É Derik, garota! Para de iludir o pobre do Lucas, caraleo! Até você sabe.
    Que merda! Se algo acontecer com Perry... juro que eu cato tanto Derik como Lucas da estória! 😑👌🏻

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!