8 de outubro de 2016

Capítulo 24

O beijo passou de quente a febril, na velocidade das batidas do coração de um vampiro. Ela não tinha nem reparado que ele havia tirado a camisa até sentir o calor da sua pele nua contra os seios dela. Ela tremeu de prazer. Os beijos dele passaram para o seu pescoço e desceram um pouco mais. A sensação fez com que ela arqueasse as costas e murmurasse o nome dele.
E então o celular dele tocou.
Ela sentiu o rosnado no fundo da garganta de Lucas, profundo e baixo sobre a pele nua do seu próprio ombro. Ele levantou a cabeça. Seus olhos estavam brilhantes, as íris azuis ardentes de desejo.
— Eu odeio... odeio essa tecnologia moderna.
Ela deu uma risadinha.
Ele rolou até ficar de costas e pegou o telefone do bolso. Quando consultou a pequena tela, uma expressão de preocupação varreu o desejo do seu rosto.
— É Burnett. — Ele fechou os olhos, depois os abriu. — Eu tenho que... atender. — Ele olhou para ela como se pedisse desculpas.
— Eu sei — ela disse e, então, percebendo de repente que estava nua, cruzou os braços sobre os seios.
O olhar dele desceu por um breve instante para o seu peito coberto. Então ele pegou o sutiã e a camiseta dela, ao lado dele, e passou para ela.
Ela os apanhou e segurou na frente do corpo para se cobrir. Seus olhares se encontraram e os dois sentiram que deveriam parar antes que as coisas fossem longe demais. E, embora ela aceitasse que tinha sido um risco deixar que o relacionamento evoluísse até aquele ponto, ela sabia que esses momentos ficariam gravados para sempre em sua memória.
— Eu não me arrependo — ela disse.
— Ótimo. — Ele parecia tão sexy sem camisa, ostentando apenas um sorriso que dizia “me beije”. — Porque eu também não.
— Obrigada — ela disse.
— Pelo quê? — Ele olhou para o celular tocando, com a testa franzida.
— Por entrar no cemitério mesmo... detestando fantasmas.
Por não me odiar porque sou uma vampira.
Seu olhar de repente ficou sério.
— Eu iria até o inferno para mantê-la segura, Kylie Galen.
Ela acreditava nele.
Lucas por fim atendeu à chamada de Burnett.


Kylie passou o resto da noite se revirando nos lençóis, incapaz de conciliar o sono. O telefonema de Burnett tinha sido só para checar se Lucas havia encontrado algo suspeito, quando saíra para verificar por que o alarme disparara. Então Lucas e Kylie saltaram sobre o portão abraçados, para parecer que havia apenas uma pessoa entrando no acampamento. Como Lucas descobrira essa estratégia, Kylie não sabia nem queria perguntar. No entanto, a ideia de que Lucas tinha mentido e de que Perry também teria que mentir por causa dela não a deixava nada confortável.
Inquieta, ela fitou o teto do quarto enquanto recapitulava tudo o que havia descoberto. Ela era um camaleão. Um tipo raro de sobrenatural. Mas neste momento ela era um vampiro. E isso explicava por que não tinha conseguido ter um sonho lúcido com Lucas, mesmo depois de tentar tanto. Os vampiros não podiam ter sonhos lúcidos. Rolando na cama mais uma vez, ela imaginou todo mundo vendo seu novo padrão.
As palavras da tia-avó davam voltas na sua cabeça. Os poucos que não se esconderam foram vistos como párias, aberrações que não pertenciam a espécie alguma.
Ela já podia imaginar os campistas cochichando pelas suas costas. Olhe para Kylie! Você nunca vai adivinhar o que ela é agora!
Não que precisassem cochichar. A audição supersensível de Kylie estava funcionando às mil maravilhas. Ela não só ouvia Miranda e Della cada vez que se reviravam na cama, como também os filhotes de passarinho piando no ninho, para que a mãe se apressasse, mastigasse as larvas e regurgitasse tudo na boca deles. O barulho que isso fazia, a propósito, não era dos mais agradáveis.
A mente de Kylie deu uma guinada e ela começou a se lembrar dos momentos que passara com Lucas. Ela agarrou o travesseiro extra e abraçou-o. Um sorriso se formou nos seus lábios. Não só pelas coisas pecaminosas que tinham feito, mas porque... agora Kylie acreditava que ele se importava de fato com ela. E a aceitava. Aquilo era demais. Mudava tudo. Ela só não sabia como.
Relembrando as carícias dele, ela sentiu as faces arderem. Provavelmente não de verdade, considerando que a temperatura do seu corpo de vampira era extremamente baixa agora, mas ela podia apostar que suas bochechas estavam vermelhas.
Seu cérebro deu outra guinada e ela se lembrou das palavras do avô. Você é uma de nós. Temos o mesmo sangue.
A necessidade que ela sentia de conhecer melhor o avô, de descobrir tudo com relação à sua herança de família, oprimia o seu peito. Mas deixar Shadow Falls...?
Aquela não era uma opção. Mesmo que alguns campistas não a aceitassem plenamente, era a esse lugar que ela pertencia.
À medida que a noite se arrastava, ela tentava decidir o que iria contar a Holiday e Burnett, e até a Della, Miranda e Derek... Ela não poderia mentir para todos eles, poderia?
Um camaleão sozinho não sobrevive. O aviso se agitava em seu peito já oprimido.
Abraçando ainda mais o travesseiro, ela se sentou na cama. Não estava sozinha. Ela tinha Holiday e Burnett, e todos os seus amigos. E só teria que ouvir sua intuição para descobrir o que deveria contar ou não às pessoas mais próximas a ela.
O ronco do seu estômago faminto se fez ouvir em meio ao silêncio do quarto. Kylie se levantou e foi até a cozinha. Ao abrir a geladeira, estendeu a mão para pegar uma embalagem de suco de laranja, mas a mão parou a meio caminho, quando ela viu o frasco de sangue de Della.
A amiga iria matá-la, mas...
— Cadê o meu sangue? — A voz de Della vibrou através de toda a cabana.
Kylie se encolheu, saiu do chuveiro e ficou em dúvida entre a toalha vermelha ou a branca. Ela escolheu a branca, por ser um símbolo de pureza. Se Della fosse matá-la, pelo menos Kylie estaria usando branco.
— Você o derramou na pia outra vez? — Della vociferou, sem dúvida falando com Miranda.
— Eu não fiz nada com o seu sangue! — respondeu Miranda, ofendida. — Não cheguei nem a um metro dele.
Kylie se enrolou na toalha.
— Confesse, bruxa! — exigiu Della.
— Estou falando a verdade! — rebateu Miranda. — Tire a cera desse seu ouvido imundo de vampira e ouça o meu batimento cardíaco.
Tudo bem, agora os insultos estavam chegando a um nível perigoso.
Às pressas, Kylie saiu do banheiro quente e esfumaçado e se postou bem no meio do campo de batalha.
— Meus ouvidos não são imundos! — ameaçou Della, com um rosnado. — Não sou eu que deixo um metamorfo chupar o lóbulo da minha orelha.
— Chega! — gritou Kylie, estendendo as mãos.
— Nunca mais vou contar nada a você! — Miranda exclamou num tom cheio de mágoa.
— Graças a Deus! — Della rebateu. — Você acha que quero ouvir você contar que chuparam o lóbulo da sua orelha?
— Sua vaca! — gritou Miranda, fervendo de raiva.
— Parem! — berrou Kylie.
— Eu nunca disse isso! — Miranda respondeu a Della. — Eu disse que ele mordeu o lóbulo da minha orelha. — Ela começou a andar na direção de Della, o dedo mindinho levantado como uma arma.
Della exibiu os caninos e começou a avançar.
— Dá na mesma. É tão vulgar quanto chupar!
— Já chega! — Kylie se colocou entre as suas duas melhores amigas.
— Ela jogou meu sangue na pia! — Della acusou.
— Não joguei! — Miranda negou.
— Ela está dizendo a verdade. — Kylie olhou para Della. — Fui... fui eu.
— Você jogou o meu sangue na pia? — perguntou Della.
— Não... eu... bebi. Me desculpe. — Kylie estendeu o braço, expondo a veia. — Tome, beba um pouco do meu.
Della encarou Kylie, as sobrancelhas erguidas, e então seu queixo caiu.
— Santo Deus! Você é uma vampira!
— Ela é uma bruxa! — Miranda disse toda orgulhosa, às costas de Kylie.
— Não é mais — contestou Della. — Olhe, Senhorita Espertalhona, e veja por si mesma. Ou será que Perry lambeu os seus olhos também?
Sem querer prolongar a briga, Kylie voltou-se para Miranda. Afinal, aquilo não era algo que ela pudesse esconder.
— Caramba! — deixou escapar Miranda. — O que aconteceu? Transar com Lucas transformou você numa vampira?
— Claro que não! — respondeu Kylie.
Della deu uma palmada no próprio quadril.
— Por que fazer sexo com um lobisomem faria alguém se transformar em vampiro?
— Sei lá! — respondeu Miranda. — Talvez o sexo tenha sido muito ruim.
Della encarou Miranda e mostrou o dedo médio, depois se voltou para Kylie.
— Você transou com Lucas?
— Não! — Kylie agarrou a toalha que caía. — A gente só... deu uns amassos.
— E até onde foram esses amassos? — Della ergueu as sobrancelhas.
— Achei que você não queria saber sobre essas coisas — disse Miranda, com raiva na voz.
— Não quero saber sobre chupadas na orelha. Isso é vulgar.
— Cadela! — Miranda xingou, avançando sobre Della. A vampira fez o mesmo.
Kylie segurou Miranda pela camiseta com uma mão e agarrou Della, pelo braço, com a outra. Nesse momento, a toalha enrolada em volta do seu corpo caiu no chão.
— Eu disse chega!
Dela e Miranda começaram a rir. Sem dúvida ela estava bem engraçada, nua e furiosa.
Kylie largou as duas e depois se enrolou novamente na toalha.
— Eu tenho uma coisa pra contar, mas, se vocês duas não pararem de brigar, eu vou embora e deixo que se matem.
— Você já veio com esse papo antes — disse Della. — E decepcionamos você. Não nos matamos. — Della rosnou para Miranda. — Claro que podemos fazer diferente dessa vez.
Kylie revirou os olhos.
— Vocês vão parar de brigar ou não?
— Talvez — disse Miranda. — Principalmente se você explicar como, afinal, consegue mudar de padrão desse jeito. Ah, e se nos der detalhes de como foi a noite ontem com Lucas.
Kylie olhou para Della.
— Trégua?
— Tudo bem — Della garantiu. — Além disso, é com você que estou fula da vida por ter bebido o meu sangue. Você roubou uma vampira. — Ela mostrou os caninos, mas ao mesmo tempo abriu um sorriso. — E Miranda tem razão. Queremos detalhes sobre esses dois assuntos.
Uma hora depois, assim que Kylie acabou de dar às amigas todos os detalhes – ou pelos menos todos os detalhes que planejava dar – as três foram para o escritório de Holiday. Kylie confessara ter ido ao cemitério. Ela sabia que Della ficaria louca da vida ao descobrir que tinha sido enganada, e Kylie estava certa. Mas lhe pareceu importante contar tudo a elas, e não só para não ficar com a consciência pesada. Se ela precisasse encontrar o avô futuramente, precisava de aliadas. Della e Miranda eram suas melhores aliadas.
Assim como suas melhores amigas.
As duas eram também um dos grandes motivos pelos quais Kylie não podia fazer o que o avô queria: ir morar com ele. Um detalhe que Kylie omitiu da conversa.
— Você vai contar a Burnett e a Holiday? — Miranda perguntou quando se aproximaram do escritório.
— Não sei. — Kylie olhou para a varanda da cabana e ouviu alguém respirando lá dentro. E se eles ficassem furiosos e a proibissem de ver o avô e a tia novamente?
Será que Holiday faria isso?
Provavelmente não. Mas era bem possível que Burnett fizesse. Ou pelo menos tentasse.
O coração de Kylie ficou apertado quando ela se lembrou de que não estava li só para falar sobre o avô. Tinha chegado a hora. Hora de contar a Holiday sobre a irmã. Mas, primeiro, ela esperava falar com Burnett sobre tudo o que tinha descoberto a respeito de Hannah. Ele precisava saber, para que pudesse decifrar o caráter desse Blake.
Mas, que droga!, Kylie não estava ansiosa para ter essa conversa.
— Merda! — Della agarrou o braço de Kylie. — Se você contar a Burnett sobre o encontro com o seu avô, ele vai assar o meu rabo no espeto, porque eu deixei você ir. Não vai levar em conta que eu pensei que você ia sair com Lucas.
— Ele vai me culpar também — disse Miranda.
— Ele não vai culpar vocês — contestou Kylie. — Vai cair em cima de mim.
— Certo, como se Burnett fosse um cara razoável... — disse Della.
— Bem, o que você esperava? Ele é um vampiro. — Miranda comentou, com malícia.
Kylie ignorou a troca de farpas dessa vez e olhou pela janela do escritório de Holiday. Apurou os ouvidos para ver se conseguia ouvir a voz de Burnett.
Tudo o que Kylie ouviu foi alguém digitando no teclado de Holiday.
Kylie atravessou a varanda da cabana. Não tinha chegado à porta ainda quando, de repente, reconheceu o cheiro e a cadência da respiração da pessoa que estava lá dentro. Não era Holiday.
Nem Burnett.
O que ele estava fazendo no escritório de Holiday?
Ela acenou para as duas amigas e abriu a porta da cabana. Derek, completamente imerso no que estava lendo na tela do computador, não percebeu a presença dela. Kylie o observou e lembrou-se de que tinha ligado para ele do cemitério, sentindo que era o único com quem ela podia contar.
Suspirando, ela também se lembrou de que ele confessara seu amor por ela. Lembrou-se até dos beijos ardentes e maravilhosos que trocaram quando estavam juntos. E que não trocariam mais.
— Olá! — Kylie afastou esses sentimentos despropositados.
Ele literalmente pulou da cadeira.
— Santo Deus! — exclamou, passando a mão no rosto. — Você... quase me matou de susto! — A culpa brilhava nos olhos dele.
— O que você estava fazendo?
— Algo que não devia. — Um gemido escapou dos lábios dele. — Holiday me pediu para ficar aqui no escritório. Quando eu me sentei, a tela do computador saiu da hibernação. Ele estava ligado na página de e-mails dela e...
Kylie arqueou as sobrancelhas, com um ar de reprovação.
— Você estava lendo os e-mails pessoais de Holiday?
— Só porque tinham a ver com Hannah. — Ele gesticulou para que ela fechasse a porta.
Ela obedeceu e se aproximou da escrivaninha de Holiday. De repente, sentiu-se um pouco culpada também, mas, se a informação pudesse ajudá-los...
— O que você descobriu?
— O e-mail era de um investigador particular. Holiday o contratou para encontrar a irmã.
— Ele descobriu alguma coisa? — Kylie deixou-se cair na cadeira em frente à mesa.
— Não. Mas eu não sabia disso até abrir o e-mail. — Ele passou a mão no rosto outra vez. — O que não deveria ter feito. Eu vi o e-mail e achei que poderia desvendar o mistério.
— Eu provavelmente teria feito a mesma coisa — ela disse, sem saber ao certo se era verdade, mais por querer confortá-lo. — Onde está Holiday?
— Ela disse que ia falar com Burnett.
Kylie ouviu passos pesados e em seguida a porta se abriu.
— Não foi comigo que ela foi falar. — O olhar de Burnett fixou-se em Kylie. — Quem é Blake?
Kylie lembrou-se de Hannah dizendo que seu assassino podia ter sido Blake. Teve um mau pressentimento.
— Por quê?
— Porque é com ele que Holiday está.
— Isso não é nada bom. — Kylie ficou de pé num salto. — Onde ela está?
— Quem diabos é Blake? — Burnett perguntou, bloqueando a passagem de Kylie.
— É o ex-noivo dela.
O ciúme cintilou nos olhos de Burnett.
— E ele pode ter sido a pessoa que matou a irmã dela e as outras garotas.
O instinto protetor de Burnett substituiu o ciúme em seus olhos. Suas presas se projetaram dos lábios superiores. Ele se virou e num instante desapareceu pela porta.
Levou uma fração de segundo para Kylie se lembrar de que poderia fazer o mesmo. Ela olhou para Derek e só quando os olhos dele se arregalaram ela percebeu que seus caninos também estavam à mostra. Sem tempo para explicar, saiu correndo da sala e sentiu seu sangue borbulhar nas veias, como sempre acontecia quando ela ficava alvoroçada para proteger alguém.
Kylie só rezou para que seu alvoroço fosse prematuro e Holiday não estivesse em perigo.

2 comentários:

  1. Aê caraleooo!!! #AmemBurnett
    O Senhor é Santo!

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  2. Kylie segurou Miranda pela camiseta com uma mão e agarrou Della, pelo braço, com a outra. Nesse momento, a toalha enrolada em volta do seu corpo caiu no chão.
    — Eu disse chega!

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