14 de outubro de 2016

Capítulo 24

— Ok — disse Kylie, um pouco em pânico. — Bem, vai ter que ser um passeio rápido, porque eu... eu tenho que fazer xixi.
— Você foi ao banheiro no restaurante — o pai disse, como se os hábitos dela no banheiro o preocupassem.
— Devo ter uma bexiga pequena. — Ela saiu do carro. Desviou os olhos brevemente para o outro carro e, pelo vão da porta do lado do passageiro, ela viu...
— Ah, merda! — Não eram os Brightens. E agora ela realmente desejava que fossem eles.
Era a mãe e... Ela observou com puro horror a cabeça de John aparecer do outro lado do carro.
— Kylie? — a mãe gritou com voz severa.
Ela se virou para o pai.
— Você tem que ir antes... antes que as coisas se compliquem...
— Tudo bem. — O pai dela parecia envergonhado. — Não é por causa do que aconteceu da última vez que não podemos ser civilizados um com o outro.
A postura e a expressão da mãe enquanto se aproximava do carro pisando duro não pareciam estar de acordo com a declaração “civilizada” de seu padrasto. Ah, pelo amor de Deus!, Kylie não estava com ânimo para lidar com o drama dos pais agora.
Mas, à medida que ela se aproximava, Kylie notou que a mãe, com o cabelo despenteado, a roupa amassada, os olhos vermelhos, não fulminava seu pai, mas Kylie!
Ok... qual era o drama agora? Era entre os pais? Ou...
— É verdade?! — vociferou a mãe.
Kylie se lembrou imediatamente de que a mãe tinha acabado de voltar da Inglaterra, o que explicava sua aparência, mas não explicava a sua fúria.
Kylie olhou para o pai para ver, pela sua expressão, se ele fazia ideia do que a mãe estava falando. Mas ele parecia igualmente surpreso.
— O que é verdade? — perguntou Kylie, notando John se aproximar até parar ao lado da mãe.
Ele não parecia abatido ou sob o efeito da mudança de fuso horário. Mas só a visão do homem já lhe dava um mau pressentimento.
— Você ligou para seu pai por causa disso, mas não para mim? — a mãe perguntou. Kylie viu Holiday e Burnett saindo às pressas do escritório, pensando provavelmente que outra troca de socos em público estava prestes a acontecer.
Voltando a olhar para a mãe, Kylie rezou para que aquilo – o que quer que fosse – não se transformasse num caos.
— Eu não liguei para ele por causa de nada. Do que você está falando?
— Você usou o cartão de crédito que eu lhe dei?
Kylie concordou com a cabeça, a mente dando voltas e logo se dando conta da possível resposta para aquilo tudo. Mas Kylie realmente esperava estar errada.
— Você está grávida?! — a mãe deixou escapar.
Ok, então Kylie não estava errada. Ela abriu a boca, mas nada saiu.
— Ela está grávida?! — O pai olhou para Kylie com um olhar severo. — Nós não vamos poder fazer aquela caminhada agora!
— Não dá pra acreditar! — sibilou a mãe, fervendo de raiva. — Você ouve que a sua filha está grávida e fica preocupado com uma caminhada.
— Não, eu estava... Estou só em estado de choque.
Ele não era o único chocado.
— Parem! — gritou Kylie.
— Só me responda, mocinha! — mandou a mãe.
— Não, eu não estou... grávida. — Kylie sacudia a cabeça para os lados, imitando o movimento que Burnett fazia quando estava indignado. — Eu ainda nem... Eu sou... — Eu ainda sou virgem! As palavras estavam na ponta da língua, mas ela não podia dizê-las.
— Então por que você comprou três testes de gravidez?
— Você comprou três testes de gravidez? — o pai repetiu.
Kylie de repente percebeu outro carro estacionando ao lado do Cadillac de John. Ele não tinha vidros escuros, mas isso não importava, porque as janelas estavam abertas e o casal de idosos no banco da frente, ambos com o rosto voltado para eles, ouviam o tumulto em curso.
De repente Kylie percebeu quem eram aquelas pessoas.
Os Brightens!
Tinha que ser, não é? Com a sorte de Kylie, sim, tinha que ser os avós.
Que maravilha!
Simplesmente maravilhoso!
Os joelhos de Kylie começaram a formigar, sinalizando seu desejo de desaparecer.
Agora não! Agora não!
Respire fundo e relaxe. A voz veio com um certo calafrio familiar.
Kylie olhou em volta e não o viu, mas podia ouvi-lo. Papai?
Eu estou aqui. Vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Seus pais vão pensar que eu sou uma vadia.
Não. Eles vão te adorar. Você vai ver. Vão ficar impressionados com você. E logo, logo estaremos juntos.
Kylie arquejou. Eu vou morrer?
Papai? Daniel? Ele e seu frio familiar tinham desaparecido.
Kylie sorveu uma lufada de ar. Agora, além de se preocupar com sua possível morte próxima e convencer a todos de que não estava grávida, ela tinha que se preocupar se os Brightens iriam gostar dela. Porque, se não gostassem, isso iria, sem dúvida, magoar o pai.
Ah, mas que inferno! Talvez ela devesse simplesmente desaparecer.


Daniel estava certo, pelo menos quando disse que tudo ia ficar bem. Ela ainda tinha que enfrentar os Brightens. Mas, em dois minutos, Holiday já os levava pelo braço e os escoltava até o escritório.
Para grande alívio de Kylie, seus pais não tinham a menor ideia de quem eles eram.
E, em cinco minutos, o padrasto já estava a caminho da sua reunião e a mãe tinha se acalmado.
Não completamente, mas um pouco mais.
Holiday explicou toda a confusão com os testes de gravidez de um modo muito mais racional do que realmente havia acontecido. Alegou que os testes eram para ela e que ela tinha esquecido a bolsa e Kylie tinha feito a gentileza de lhe oferecer o cartão de crédito, e ela já tinha enviado um cheque para a mãe... E assim por diante. Sim, Holiday simplesmente mentiu, mas a mentira soou muito bem.
A mãe explicou que, após o voo, descobrira que a empresa do cartão de crédito tinha ligado e achado que o cartão poderia ter sido roubado, porque ele nunca tinha sido usado e a compra havia sido feita em Shadow Falls, não em Houston. A mãe queria ter certeza de que o cartão não havia sido roubado e ligou para a farmácia para verificar a compra.
Foi quando ela foi informada de que o cartão tinha sido usado para pagar três testes de gravidez e o comprador tinha sido uma tal de Kylie Galen.
Depois que a mãe tinha se acalmado, Holiday voltou para o escritório. Kylie passou cerca de cinco minutos conversando com a mãe, fingindo estar interessada em suas divagações tolas sobre a Inglaterra.
Finalmente, a mãe confessou que estava cansada demais até para pensar, quanto mais para falar. Beijou a testa de Kylie, disse que estava orgulhosa por ela não estar grávida e pediu a John para levá-la para casa.
John tinha dito apenas duas palavras durante todo o tempo que estivera ali, mas Kylie o pegara olhando para ela de uma forma que a deixou irritada.
Porém, quando o homem colocou o braço em torno da mãe dela e gentilmente beijou sua testa, dizendo que ela poderia dormir enquanto ele dirigia, Kylie sentiu uma pontada de culpa por não gostar dele.
Talvez Kylie precisasse mudar de atitude com relação a John. Porque, se ele fazia a sua mãe feliz, Kylie ficava feliz também.
“Mentirosa”, seu coração parecia dizer ao pular duas batidas. Ela não estava nem um pouco feliz com John. Mas talvez Kylie precisasse refletir sobre isso. Tentar gostar do homem. Parecia impossível. No entanto, tanta coisa em sua vida ultimamente parecia impossível – como a possibilidade da sua morte iminente, como romper com Lucas... – que talvez ela só precisasse se esforçar um pouco mais.
Despedindo-se da mãe, Kylie voltou ao escritório para enfrentar os Brightens. E sentiu mais uma vez o estômago se contraindo. E por uma boa razão. A primeira conversa com seus avós recentemente descobertos não deveria ser sobre gravidez. Mesmo quando a conversa era sobre não estar grávida.
Parando na porta do escritório, mentalmente exausta, ela pensou sobre como seu dia tinha começado em uma espiral descendente, desde que Miranda havia transformado Nikki num canguru cheio de espinhas.
Aquele, definitivamente, ia ser lembrado como um dos dias mais bizarros da sua vida.
Endireitando os ombros, determinada a enfrentar aquele encontro com os pais adotivos de Daniel, com a esperança de que a espada não aparecesse novamente, Kylie decidiu que, após a visita, ela iria para a sua cabana chorar ou comer um quilo de chocolate.
Talvez as duas coisas.
Ela se lembrou da promessa do pai de que os Brightens a adorariam e, embora confiasse no pai com todo o seu coração, não podia deixar de se preocupar. Mas talvez eles ficassem tão felizes por ter uma neta que não se importassem com a possibilidade de ela estar dormindo com rapazes e possivelmente grávida.
Um pouco antes de estender a mão para girar a maçaneta, Kylie teve uma leve sensação de déjàvu.
Ela já tinha estado ali antes – a ponto de entrar naquele escritório, pensando que encontraria os Brightens. Claro que acabou descobrindo que eram seu verdadeiro avô e sua tia. Mas o mais importante era que ela se recordava com clareza do medo e da ansiedade que sentira na ocasião.
Um sentimento inexplicável de realização invadiu seu coração. Embora tivesse acabado de admitir que estava preocupada e só queria um quilo de chocolate ou um boa sessão de choro, o que ela sentia agora era muito mais administrável.
Não importava o que acontecesse lá dentro, Kylie seria capaz de lidar com aquilo. Ela quase podia ouvir Nana, mãe de sua mãe, sussurrando lá do céu: Minha pequena Kylie está crescendo.
De repente, sentindo-se um pouco mais confiante e decidida a pensar que talvez tudo de que ela precisasse, aquela tarde, fosse de um bom chocolate, Kylie entrou no escritório.
Holiday veio correndo até ela.
— Burnett levou os Brightens para a sala de reuniões; estão tomando chá. Ele levou a espada para a minha casa e trancou-a num armário, assim... talvez aquilo não vá acontecer novamente. Expliquei toda a situação da gravidez para os Brightens, também. — Holiday mordeu o lábio de preocupação. — Oh, Kylie, eu sinto muito. Foi tudo culpa minha. Coloquei você nessa encrenca.
— Está tudo bem — disse Kylie.
Holiday lhe deu um abraço rápido e reconfortante.
— Você está realmente bem?
Kylie suspirou.
— Um pouco nervosa, mas, sim, estou bem.
— Você quer que eu vá com você?
Kylie refletiu e em seguida, disse:
— Não, eu... eu acho que posso lidar com isso.
Holiday suspirou.
— Você está crescendo.
Kylie olhou para a fae.
— Eu poderia jurar que acabei de ouvir a minha avó dizendo isso.
— Ela disse — falou Holiday. — Ela estava aqui.
Kylie sorriu.
— Sério?
Holiday assentiu.
— Ela aparece nos momentos mais estranhos.
Kylie sentiu o amor da sua Nana se agitar dentro dela.
— Diga a ela que eu a amo — disse Kylie, e foi ao encontro das pessoas que tinham criado seu pai e provavelmente contribuíram para que ele se tornasse o grande homem, e espírito, que era.


Quando Kylie entrou, Burnett já estava de pé, pronto a pedir licença para sair.
— Vou deixar vocês três à vontade.
Enquanto passava, ele descansou a mão no ombro dela e lhe deu um aperto. Foi um toque frio, mas que expressou carinho e um incentivo, do tipo, “Você consegue, garota”. Ela se deu conta novamente da sorte que tinha por poder contar com as pessoas de Shadow Falls em sua vida.
No momento em que Burnett saiu e ela sentiu o olhar do senhor e da senhora Brighten sobre si, a contração no estômago voltou com força total.
Ela ficou um segundo apenas observando-os. O senhor Brighten era careca, tinha olhos cinzentos acastanhados e um rosto bonachão. A senhora Brighten tinha cabelos grisalhos abundantes e olhos castanhos. Ela tinha um olhar suave e amável. Seu rosto era um pouco rechonchudo e simpático. Como alguém que você escolheria numa multidão para fazer o papel de avó amorosa.
— Olá. — Kylie forçou um sorriso, mas não demais. Ela deu um passo para dentro da sala e decidiu esclarecer as coisas primeiro. — Primeiro quero ter certeza de que vocês sabem que não estou grávida.

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