4 de outubro de 2016

Capítulo 24

— Isso importa? — Derek perguntou.
— Você transou com ela, não foi? — De algum modo, Kylie já sabia desde o início. E achava péssimo estar certa.
Os olhos dele se encherem de culpa.
— Não significou nada.
Ela balançou a cabeça.
— Como pode não ter significado nada? Sexo é a maior forma de intimidade que pode existir entre duas pessoas.
— Nem sempre — disse ele. — Às vezes são só duas pessoas em busca de alguma coisa. E muitas vezes não é o melhor modo de encontrar. Nós não encontramos, Kylie. Ellie percebeu isso. Eu percebi. E o romance terminou. Foi um erro e nós dois sabemos disso.
— Mas você a trouxe de volta pra cá com você.
Ele encolheu os ombros.
— Ela não é má pessoa, eu não podia deixá-la naquela comunidade. Era horrível! Ela estaria numa gangue em questão de semanas.
Kylie puxou as pernas para mais perto do peito e tentou identificar as emoções que brotavam dentro dela. Ela sentia-se magoada. Sentia-se justificada em seu ciúme. Sentia-se... aliviada. E isso não fazia sentido. Por que ela se sentiria aliviada por Derek e Ellie terem feito sexo?
Então a verdade lhe ocorreu. Ela se sentia aliviada porque agora não havia razão para sentir culpa por estar com Lucas. Não que a verdade ainda não a machucasse. E se ela fosse totalmente sincera consigo mesma, veria que ainda sentia um pouco de ciúme. Mas afastou o sentimento, porque agora, mais do que nunca, podia aceitar os fatos. Ela agora era amiga de Derek. Apenas isso.
— Nós somos apenas amigos — disse ela.
Ele a fitou nos olhos.
— É isso aí — concordou. No entanto, algo em sua voz a fez suspeitar que ele não tinha sido tão sincero quanto antes. — Tudo o que eu quero é conversar. Ter certeza de que você está bem. Me dê dez minutos. — Ele analisou o olhar de censura dela. — Cinco. Droga, me dê três minutos, Kylie. É muito pedir isso a uma amiga?
Ela olhou para o riacho e fitou-o.
— Três minutos. E então isso acaba.
— Feito. — Ele olhou para o relógio, e, em seguida, como que para aproveitar o tempo, começou a falar. — Como você está? O que aconteceu no cemitério? Eu ouvi a respeito.
Kylie contou uma versão abreviada dos acontecimentos. Isto é, que ela achava que o seu fantasma estava enterrado lá. E que descobriu que o espírito podia ser um assassino de criancinhas.
Derek não se encolheu de medo como os outros.
— O que você vai fazer? — perguntou, em vez disso. — Como vai chegar à verdade?
— Estou esperando o fantasma voltar. Ele não me visitou desde então.
— Mas vai — disse ele. — E não se preocupe demais. Tenho certeza de que você vai descobrir tudo. Você sempre descobre.
Kylie olhou bem dentro dos seus olhos verdes com raias douradas.
— Como você sabe que estou preocupada?
— Dã, eu posso sentir.
— Pensei que você não podia sentir minhas emoções aqui.
— Eu posso, só que com menos intensidade. Digamos que agora elas estão numa voltagem normal...
Normal. A palavra ficou pipocando na mente de Kylie por um longo tempo.
Ela assentiu com a cabeça.
— Você já encontrou o seu pai? — Ele pareceu incomodado com a pergunta, então ela acrescentou: — Você me disse, quando partiu, que ia tentar encontrá-lo.
Ele balançou a cabeça e depois engoliu em seco.
— Encontrei.
Ela sentiu a confusão de emoções dentro dele como se fossem as suas próprias.
— Não foi bom?
— Não sei. Achei que iria vê-lo e me sentir muito bem fazendo isso. Mas não me senti. Ainda não sei se quero alguma coisa com ele. Tenho quase certeza de que não.
— Por quê? O que aconteceu? — Kylie perguntou.
— Ele me ofereceu uma centena de razões diferentes pra ter deixado minha mãe e eu. A vida dele era uma mentira enquanto tentava viver no mundo humano com a minha mãe. Ele me disse que era difícil demais pra ele manter contato. Disse que gostaria de conviver comigo outra vez. Disse um monte de coisas. E nenhuma delas significou nada pra mim. Talvez isso mude com o tempo. Não sei. Mas, agora, tudo parece muito estranho.
— Eu entendo o que quer dizer — disse ela, oferecendo-lhe um meio sorriso. — Sara pretende vir aqui com a minha mãe no Dia dos Pais.
Ele estendeu a mão para ela e depois recuou.
— Tenho certeza de que tudo ficará bem.
Houve um momento de silêncio, e em seguida Derek recomeçou a falar.
— E com o seu fantasma... Você já sabe o que fazer? Quer dizer, como vai descobrir quem ela é?
— Não sei ao certo. Mas minha intuição me diz que, cada vez que a vejo, ela se lembra cada vez de mais coisas.
Derek ponderou sobre as palavras dela e então disse:
— Sabe, eu me lembro de ter lido alguma coisa uns anos atrás sobre um antigo cemitério público onde descobriram que, em cerca de cinco por cento dos caixões, havia dois corpos sepultados em vez de um.
— Dois corpos?
— É. O governo estava enterrando indigentes, sem-teto, pessoas miseráveis nos caixões de outras pessoas. Eles só largavam os corpos ali pra não ter que gastar com o enterro.
Kylie pensou naquilo por um segundo, e fazia todo o sentido. Catherine O’Connell tinha dito que vira Jane Doe saindo do túmulo de Berta Littlemon. No entanto, se Berta Littlemon estava ali também, e as lendas sobre essas coisas estavam corretas, ela já teria ido para o inferno. Então aquilo significava que somente um espírito sairia da sepultura.
— Eu acho que você pode ter acabado de resolver o meu problema — ela disse a Derek. — Obrigada! — Se as coisas agora fossem diferentes entre eles, ela o teria abraçado.
Ele sorriu.
— De nada.
De repente, Kylie percebeu que eles provavelmente tinham falado mais tempo do que seu acordo de três minutos. Ela deu uma olhada no relógio dele.
— Ah, só mais uma coisa — disse Derek. — Depois de conversarmos outro dia sobre como Ruivo era estranho, eu andei investigando. Sabe, só para ver o que conseguia descobrir. Ao contrário do que a gente achava, ele é vampiro, sim, ou pelo menos é o que todo mundo pensa. E a única outra coisa que eu descobri foi... algo sobre os pais dele.
— O que têm eles? — Kylie perguntou.
— Supostamente, a mãe de Ruivo foi assassinada na frente dele quando ele tinha uns 7 anos. O caso nunca foi solucionado. Parece que até a UPF investigou, mas nunca descobriram quem foi o responsável. Menos de um ano depois o pai dele desapareceu. Foi quando ele foi morar com o avô.
Kylie franziu a testa.
— Droga, estou quase sentindo pena dele.
Derek deu de ombros.
— Infelizmente, a maioria das pessoas que comete crimes violentos um dia também esteve no papel de vítima. Mas dois erros não fazem um acerto. E sabemos que ele matou aquelas duas garotas.
— Eu sei. — Quando ela olhou outra vez para Derek e se pegou contemplando os olhos dele demoradamente, resolveu: — Acho melhor eu...
— ... você ir. Eu sei... — disse ele, a expressão se entristecendo. — Sinto sua falta, Kylie. Podemos... fazer isso de novo?
Ela quase disse sim, mas percebeu que provavelmente não seria uma boa ideia para nenhum dos dois.
— Não sei — disse ela. — Tenho muita coisa para entender...
— Entre você e Lucas? — perguntou ele.
— É — ela disse, com sinceridade. Não se sentia mais culpada pelos seus sentimentos. Ela não sabia o que poderia ter com Lucas. Mas, pela primeira vez desde que tinha descoberto esses sentimentos, não se sentia culpada por causa deles. E de fato havia algo entre os dois. Mas com a alcateia tentando afastá-los e a aversão dele pelo seu envolvimento com os espíritos, ela não sabia ao certo aonde aquilo poderia dar.
— Tudo bem — disse ele. — Mas se precisar de mim... Ou se quiser conversar... Sabe onde me encontrar.
Kylie acenou com a cabeça, e então, no instante seguinte, já estava acordada, olhando para o teto do quarto.
— Sinto sua falta, também... — ela sussurrou, e então se virou e abraçou o travesseiro.


Perry encontrou Kylie na porta da frente na manhã seguinte, quando ela estava saindo da cabana.
— Olá — disse ela, forçando um sorriso. Não estava exatamente deprimida por saber a verdade sobre Derek e Ellie, mas, lá no fundo, sentia o coração pesado de tristeza hoje.
Era uma sensação parecida com a que sentia no último dia de aula antes das férias de verão. Ela queria que o verão chegasse, sabia que não poderia fazer nada para mudar isso, mas uma parte dela queria que a vida continuasse do jeito que estava. Supôs que simplesmente não era uma grande fã da mudança.
Perry, com os olhos de um azul brilhante, sorriu.
— Olá! — Ele olhou para trás, em direção à porta, e Kylie sabia por quê.
— Miranda já saiu — Kylie disse a ele.
— Por quê?
Porque ela não queria vê-lo, já que tem medo do que você vai dizer quando ela contar que tem um encontro na sexta-feira com um bruxo gostosão.
— Não faço a menor ideia. — E estou realmente feliz por você não ser um vampiro que pode ouvir as batidas do meu coração e saber que sou uma baita mentirosa.
Seus olhos foram do azul para um castanho triste.
— Eu pensei... Acho que tinha esperança de que...
— Eu sei — disse Kylie, dando um tapinha no ombro dele. — E tudo o que eu posso dizer é que a esperança é a última que morre.
— Então ainda tenho uma chance? — perguntou ele.
— Pequena — disse ela, sem querer lhe dar falsas esperanças.
Eles pegaram a trilha.
— Quero ver se Holiday e Burnett estão no escritório. Preciso falar com eles antes do café.
— É só mostrar o caminho — disse Perry, fazendo uma reverência. — Sou sua sombra e seu servo pessoal.
Kylie sorriu. Enquanto caminhavam, ela se perguntava se algum dia poderia sair com Derek da mesma maneira sem que parecesse errado. Sem sentir que o relacionamento entre eles era completamente platônico, sem nenhum indício de arrependimento sobre como poderia ter sido. Ela realmente esperava que sim. Embora seu coração dissesse que ele teria sido um namorado maravilhoso... também seria um amigo muito especial. E ela esperava que eles pudessem chegar lá um dia.
Holiday e Burnett não estavam no escritório, então Kylie não poderia lhes contar sobre a teoria de Derek, de que poderia haver dois corpos no túmulo de Berta Littlemon. Ou perguntar a Burnett o que ele tinha na cabeça quando dera permissão a Sara para visitar Shadow Falls.
No café da manhã, Lucas se juntou a ela e Perry em sua mesa. Kylie localizou Miranda na mesa das bruxas, e Della tinha um compromisso com os vampiros naquela manhã. Então, Kylie se sentou entre os dois e, para a sua surpresa, eles se comportaram. Bem, pelo menos Perry se comportou.
Lucas deslizou a mão por debaixo da mesa e tocou a lateral da perna dela. Então se inclinou e sussurrou:
— Quer dançar ao luar de novo hoje à noite?
Ela não tinha certeza, mas poderia jurar que o leve roçar dos lábios dele contra a sua têmpora tinha sido quase um beijo. Ela o cutucou com o cotovelo e, enquanto garfava um punhado de ovos do prato, sussurrou em resposta:
— Cuidado. As pessoas vão saber que você tem algo comigo.
— Isso é bom — disse ele. — Talvez seja a hora de tornar isso oficial.
O coração de Kylie parou. Os ovos caíram do garfo e se espatifaram no prato.
Ela se virou e olhou seus olhos azuis.
— Você está me pedindo em namoro?
— Você está dizendo que sim? — Uma esperança brilhou nos olhos dele.
— E a alcateia?
— Eu disse que não me importo com o que eles dizem.
Uma alegria brotou no coração de Kylie.
— Bem, acho que eu deveria ouvir o pedido primeiro.
— Ok... Será que você, Kylie Galen, quer namorar comigo?
Sim. Sim. Sim. A palavra estava na ponta da sua língua, esperando para ser liberada. Ela sorriu, pronta para dizê-la, quando...
— Pode me dar um minuto com Lucas? — A voz profunda de Burnett arruinou o momento. Ele estava de pé atrás deles, no alto de seus 1,80m de solidez vampiresca.
Lucas olhou para Burnett.
— Algo errado?
— Preciso ter uma palavrinha com você.
Lucas se levantou e saiu. Kylie observou-os se afastar, ainda em tamanho choque por ele tê-la pedido em namoro que se esqueceu completamente de dar uma bela bronca em Burnett por ter concordado em deixar Sara ir ao acampamento.
Um pouco mais tarde, Kylie estava ao lado de Perry, quando Chris anunciou os nomes para a Hora do Encontro dos campistas. Lucas ainda não tinha voltado da sua conversa com Burnett, o que a preocupava.
Olhando para Perry, Kylie perguntou:
— Como vamos fazer agora?
Ele olhou para Miranda, a distância.
— Eu tirei o meu nome da lista.
— Então não temos que ficar aqui? — Kylie perguntou.
— Eu tirei o meu nome. Não o seu. Achei que poderia acompanhar você na sua hora.
— Não é contra as regras?
— Tenho certeza de que Burnett não vai se importar.
— Falando em Burnett, eu não sabia que vocês dois já se conheciam.
— Ele te contou? — Perry parecia surpreso.
— Não. Quer dizer, sim, quando lhe perguntei a respeito. Mas, durante toda a coisa do dragão, você disse algo sobre ele ter te falado alguma coisa quando você tinha seis anos de idade.
— Ah — lembrou-se Perry. — E o que Burnett disse?
— Apenas que já conhecia você. Ele era a pessoa responsável por você ou algo assim?
— É, mais ou menos.
— E Kylie Galen... — A voz de Chris ficou mais alta, e Kylie prestou atenção no que ele ia dizer.
Ela olhou para a frente, onde Chris estava sorteando os nomes de um chapéu. Sim, um chapéu mágico de verdade.
Obviamente, Chris tinha decidido aproveitar ao máximo seus minutos como centro das atenções.
— Você vai passar uma hora com... Ellie Mason.
— Ah, droga! — Todo o seu sentimento não resolvido com relação a Derek e Ellie veio à tona novamente.
— Ai, cara... — Perry respondeu. — Isso vai ser muito divertido!
O comentário dele só mostrava que ela e Perry tinham definições muito diferentes do que era diversão.
Um minuto mais tarde, Kylie, Ellie e Perry pegaram uma das trilhas. Durante um bom tempo, nenhum deles falou.
— Aonde vamos? — Ellie quebrou o código velado de silêncio.
— Até o riacho — disse Kylie.
— Tudo bem — disse Ellie.
Eles continuaram por mais dez minutos, andando rápido, num ritmo sobrenatural. Ninguém reclamou. Pelo menos não do ritmo da caminhada.
Ellie arriscou novamente.
— Eu sou nova aqui, mas pensei que o objetivo da Hora do Encontro fosse conversarmos para nos conhecer melhor.
— Então, fale — respondeu Kylie com rispidez, enquanto se esquivava de alguns galhos que pareciam querer agarrá-la. Ela também se esquivou da lógica que lhe dizia que devia inventar uma enorme enxaqueca e enviar a linda “vampirinha sexy” de volta ao acampamento.
— Ok... Meu nome é Ellie Mason e eu tenho um palpite de que não gosta muito de mim.
Kylie parou e deu meia volta – ela já tinha todo o roteiro na cabeça: iria fingir uma terrível dor de cabeça. Mas não teria sequer que fingir porque agora sua cabeça de fato latejava. Mas quando abriu a boca, suas palavras não tinham nada a ver com enxaquecas.
— Ok, vamos falar abertamente. Eu sei que você fez sexo com Derek. — A voz de Kylie parecia ecoar por toda a floresta.
— Caramba! — Perry disse, e sorriu. — Isso vai ser melhor do que eu pensava.

4 comentários:

  1. — Ok... Meu nome é Ellie Mason e eu tenho um palpite de que não gosta muito de mim.— Ok, vamos falar abertamente. Eu sei que você fez sexo com Derek. — A voz de Kylie parecia ecoar por toda a floresta.— Caramba! — Perry disse, e sorriu. — Isso vai ser melhor do que eu pensava.Melhor parte amo Perry

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    Respostas
    1. morre nessa parte rindo ate o 2090 😂😂😂!!!

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    2. Yeah!
      Tô soterrada! 😂😂😂😂

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  2. kkkkkkkk...mds....essa garota e loca...se eu fosse a vampira tinha começado a rir e muito

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