8 de outubro de 2016

Capítulo 23

— Você é uma vampira — ele constatou.
O primeiro impulso de Kylie foi negar. Ela não podia ser uma vampira. Mas por que ele mentiria? Ela tocou o próprio braço para sentir sua temperatura. Ele não parecia frio, mas, se a temperatura do corpo todo tivesse mudado, ela não sentiria. Então se lembrou de quanto o avô e a tia tinham parecido quentes.
E outra constatação veio em seguida. Ela tinha literalmente voado até o cemitério depois de lançar a rede em Perry e Lucas.
Lucas!
Ela inspirou, trêmula, uma golfada de ar. O que Lucas diria do seu novo padrão? Ele não tinha ficado muito satisfeito quando achou que ela era uma bruxa. Mas se achasse que ela era uma vampira...
— Algum problema, querida? — a tia perguntou.
Kylie estava paralisada, tentando aceitar o fato de ser uma vampira. Tentando imaginar, ou melhor, tentando não imaginar como Lucas reagiria. Então ela se perguntou se iria começar a beber sangue.
Assim que pensou nisso, começou a ficar com água na boca. O sabor doce, maduro e penetrante do sangue ainda estava registrado em sua memória.
— Querida? — a tia voltou a perguntar. — Talvez seja melhor se sentar. Você está pálida.
— Estou? — Seria outro sinal de vampirismo? Instantaneamente, ela passou a língua nos dentes e quase a cortou nos caninos pontiagudos. Ah, droga! Ela era uma vampira!
Mesmo enquanto o medo da mudança revirava dentro dela como um par de tênis dentro da secadora, ela se lembrou de quão maravilhoso tinha sido voar pela floresta. Supôs que aquele tipo de poder podia ser viciante. Mas até que ponto um poder é bom se não se pode controlá-lo. Seria como a sua audição supersensível; era ótimo tê-la, mas, se não se podia contar com ela quando necessário, era praticamente inútil.
Ela não queria ser inútil.
— Como eu posso controlar isso? — Kylie perguntou. — Me expliquem.
O avô suspirou.
— Não é tão fácil. Você precisa treinar a sua mente. Não é algo que eu possa lhe dizer como fazer; é algo que você aprende com o tempo. Talvez leve anos. E até lá você pode ser um perigo para si mesma.
— Eu vou ficar bem em Shadow Falls.
A preocupação brilhou nos olhos dele. Então o avô levantou a cabeça como se farejasse o ar. Emitiu um som, um rosnado baixo. O rosnado e a maneira como farejou o ar a fez se lembrar de Lucas.
— Alguém veio com você? — Ele parecia decepcionado.
— Eles tentaram me seguir. Eu os despistei, mas é possível que tenham me encontrado agora.
A expressão do avô pareceu ainda mais preocupada.
— Venha conosco. Ajudaremos você a entender tudo. Você precisa descobrir quem é e o que é, Kylie. Você não pode fazer isso sozinha.
Ela balançou a cabeça vagarosamente.
— Não posso ir com vocês.
— Mas você é uma de nós. Temos o mesmo sangue. Um camaleão sozinho não sobrevive. Olhe o seu pai. A morte dele foi tão desnecessária! Você acha que ele não ia querer que você viesse conosco e descobrisse quem é?
Kylie respirou fundo.
— Acho que o meu pai diria para eu seguir meu coração. E, neste momento, o meu coração diz que Shadow Falls é o lugar certo para mim.
Seu avô franziu mais a testa e olhou para a tia.
— Precisamos ir. Alguém está se aproximando. — Ele se virou para Kylie. — Não fale a ninguém que é um camaleão. Deixe que pensem o que quiserem. Quanto menos falar a respeito, menos chance terá de ser perseguida.
— Esperem! — disse Kylie. — Como eu posso entrar em contato com vocês? Eu ainda tenho tantas perguntas!
— Eu entrarei em contato com você — disse a tia, dando a mão para Malcolm.
— Como? — Kylie perguntou. — Como vocês vão...?
Mas a tia não respondeu. Como Perry tinha descrito no dia em que os seguira, eles simplesmente sumiram no ar.
Kylie ficou parada ali, ao mesmo tempo frustrada e assombrada. Como a tia entraria em contato com ela? Como conseguiam sumir no ar? Como ela fazia aquilo? Ela ouviu passos rápidos se aproximando por trás dela, vindo em seu encalço. Ela se virou, esperando ver Burnett. Mas era pior do que isso.
Lucas diminuiu o passo. Seu andar era rígido e ele irradiava um sentimento de raiva e outro ainda maior de mal-estar.
Quando chegou mais perto, ela notou que seus olhos estavam alaranjados e fulgurantes. Claro que deveria estar furioso por ela ter lançado uma rede sobre ele e Perry. Ela olhou por sobre o ombro dele, esperando ver Burnett. Esperando levar um sermão do vampiro.
Então se lembrou de que ela também era um vampiro. Esquivou-se de Lucas, com medo do que ele podia dizer, com medo de vê-lo olhar para ela com desgosto.
— Isso foi uma estupidez! — ele grunhiu.
Ela sabia a que ele se referia.
— Não foi uma estupidez. — Ela desviou o olhar. — Era o meu avô.
— E daí? — ele perguntou.
— E daí que eu consegui as respostas de que precisava. — Ela começou a andar. Ele andou ao lado dela.
— Você confia tão pouco em mim que não podia me contar que estava vindo aqui? — ele perguntou.
Ela deu de ombros, mas não o encarou.
— Eu sabia que você tentaria me impedir. E você provou que eu estava certa.
— Você podia ter argumentado comigo, em vez de lançar aquela rede idiota. — As palavras dele vieram acompanhadas de um grunhido baixo.
— Eu não tinha tempo para argumentar.
— Exatamente por isso devia ter me contado antes. A ideia de que não confia em mim me enfurece.
Assim como ele não confiava nela.
— Eu sei exatamente como você se sente — ela disse, deixando que ele descobrisse por si só o que ela queria dizer.
— É diferente — ele respondeu, demonstrando que sabia muito bem a que ela estava se referindo.
— Não, não é. — Um nó se formou em sua garganta. Ela ainda se recusava a olhar para ele, com medo de que ele verificasse seu padrão e sentisse repulsa dela. E, que Deus a ajudasse, porque ela não achava que suportaria aquilo.
— Você me disse que entendia. Disse que tinha reagido exageradamente ontem, quando ficou com raiva, ou não ficou, ou talvez tenha ficado um pouco. Ah, droga, você me confunde!
— Eu de fato disse isso — ela admitiu. — E realmente compreendo, ou pelo menos estou tentando, mas como você não está me oferecendo a mesma gentileza, estou reconsiderando a minha decisão.
— Então você está voltando à ideia de que é uma mulher e tem o direito de mudar de ideia — ele disse, com ironia.
— Isso mesmo! — Lágrimas faziam seus olhos arderem e ela andou mais rápido.
Eles passaram por um par de estátuas dilapidadas, sem braços. Ela viu Lucas olhar para elas. Quanto não era difícil para ele estar ali, num cemitério? Ele que, como noventa por cento de todos os sobrenaturais, detestava cemitérios. Será que era por isso que o avô lhe pedira para encontrá-lo ali? Ele sabia que muito poucos sobrenaturais se aventurariam a entrar naquele lugar?
Mas Lucas entrara. Ele se preocupava mais com ela do que com seu medo de espíritos. Será que teria entrado se soubesse que ela era uma vampira? Será que ainda se preocuparia se ela se virasse para ele agora e deixasse que ele visse o seu padrão?
A pergunta, ou melhor, o medo da resposta fez com que ela andasse mais rápido ainda. Ela queria ficar sozinha. Sozinha para pensar em cada palavra que o avô dissera.
Sozinha para contemplar o fato de que finalmente descobrira a verdade.
Sozinha para descobrir o que tudo aquilo significava.
Ela era um camaleão. No entanto, por ora, ela era um vampiro. Mas por quanto tempo? Quanto tempo ainda demoraria para controlar aquela coisa maluca que acontecia com ela?
Os espíritos aguardavam por ela nos portões do cemitério. Lucas ficou mais tenso, como se os sentisse. Diminuindo o passo apenas o suficiente para abrir os portões enferrujados, Kylie fez mentalmente uma promessa aos mortos que tentavam tocá-la com os braços estendidos: Eu voltarei.
Tão logo o vento frio fechou os portões atrás dela com um baque, Kylie acelerou o passo, voltando a correr. Um pé batia na terra e depois o outro. Ela se movia com propósito. Queria ir para casa. Queria estar em Shadow Falls.
Você é uma de nós. Temos o mesmo sangue. Um camaleão sozinho não sobrevive. Ela ouvia os avisos do avô ressoando em seus ouvidos, mas se recusava a acreditar. O mero pensamento de deixar Shadow Falls enviava uma onda de dor ao seu coração. Ela não podia partir.
No entanto, mesmo enquanto corria para o lugar que lhe parecia mais certo em sua vida, para o lugar onde ela se sentia mais segura, Kylie sabia que as respostas que buscava não estavam em Shadow Falls, mas com o avô.
Essa constatação causou uma dor aguda no fundo do coração. Lágrimas afloraram em seus olhos e escorreram pelo rosto. Ela as sentiu, quentes, em sua pele fria de vampira. Seu peito estremeceu de emoção quando ela percebeu que, antes de se refugiar na sua cabana, provavelmente teria que enfrentar a fúria de Burnett.
— Mais devagar! — exigiu Lucas.
Ela correu mais rápido. A fúria de Burnett não era nada comparada à hora em que teria de enfrentar Lucas. Seu preconceito contra vampiros doeria mais agora do que ela poderia suportar.
O portão de Shadow Falls surgiu na frente de Kylie. Seu coração martelava no peito. Ela rezou para que o sermão de Burnett não fosse muito longo. Embora seu corpo não estivesse nem um pouco cansado, seu coração estava.
— Droga, Kylie! — Lucas resmungou outra vez. Tudo, desde o seu tom ofegante até o baque dos seus passos na terra, dizia-lhe que ela o estava levando ao seu limite.
— Eu disse para parar! — Ele soou mais perto dessa vez.
Justamente quando ela estava prestes a pular a cerca, sentiu-o agarrando-a pela cintura. Os dois caíram. Com tudo. Ele envolveu-a em seus braços para protegê-la da queda e ambos rolaram vários metros.
— O que há com você? — ele perguntou.
Ela acabou aterrissando em cima dele, seu corpo quente lembrando-a de que ela era uma vampira. Lucas fitava o rosto dela.
Ela tentou se levantar. Ele a segurou.
— Qual é o problema? — ele perguntou novamente.
Lucas rolou e ficou sobre ela. Com medo de que ele visse seu padrão cerebral, Kylie virou a cabeça e olhou os arbustos ao redor. As lágrimas ardiam em seus olhos.
— Ei! — A voz dele soou mais terna dessa vez. Ele obviamente tinha notado suas lágrimas. — Olhe pra mim.
Ela não olhou. Não podia.
— Eu só quero acabar logo com isso — ela disse, com rispidez.
— Acabar com isso o quê? — O peito dele moveu-se para cima e para baixo, sobre ela, enquanto respirava.
— Enfrentar Burnett.
— Ele não sabe de nada, mas, se você pular a cerca agora, ele vai descobrir.
Ela o encarou.
— Ele não sabe?
— Não. Eu saí sem que ele percebesse. E, se você me ouvir, posso fazer você entrar sem que ele fique sabendo, também. Ou você pode pular a cerca e enfrentar a fúria dele.
Percebendo que estava de frente para Lucas novamente, Kylie virou a cabeça. A vegetação sob as suas costas parecia um musgo macio, mas a emoção no seu peito a feria como um espinho.
— É por causa disso que está assim? Droga, Kylie. Eu já sei.
Ela olhou para ele outra vez, sem saber direito o que ele queria dizer.
— Sabe o quê?
Ele soltou um grunhido.
— Que você é uma vampira. Eu... senti o fedor assim que entrei no cemitério.
Ela se sentiu profundamente insultada. A emoção fez seus lábios tremerem.
— Se eu cheirava tão mal, então por que você se deu ao trabalho de entrar?
A expressão dele ficou mais sombria.
— Eu entrei porque pensei que você estivesse em perigo. — Ele soltou o ar dos pulmões ruidosamente. — Eu não vou mentir. Eu não gosto, e vai complicar ainda mais as coisas com a minha alcateia, mas... — Ele a olhou nos olhos. — Mas o mais importante para mim não é o que você é aqui. — Ele tocou a testa dela. — É o que você é aqui. — Ele pousou a mão sobre o peito dela, um pouco acima do seio direito.
Ela sentiu o coração acelerar. O toque não era para ser íntimo, mas ela o sentiu assim.
— Você me enfeitiçou no momento em que nos vimos pela primeira vez, quando éramos crianças. Eu não sabia o que você era, e, é verdade, esperava que fosse um lobisomem, mas não me importava. Você me cativou.
As lágrimas de Kylie umedeceram suas faces. De repente, um suave aroma de mato encheu as suas narinas. Ela sabia que era o cheiro natural de Lucas e da floresta também.
— E ainda estou enfeitiçado. — Ele secou uma lágrima no rosto dela. — Eu não me importo que você seja metade bruxa e metade vampira.
— Eu não sou só isso — ela disse.
Ele pareceu ligeiramente confuso.
— Tudo bem. Então, o que mais você é?
Ela sorriu através das lágrimas.
— Sou um camaleão. O que significa que tenho um pouquinho de tudo dentro de mim. — Ela se lembrou do avô lhe dizendo para não falar sobre isso com ninguém. Mas Lucas não era qualquer um.
— Até de lobisomem? — ele perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
— Eu só não sei ainda como controlar essas mudanças. — Ela suspirou. — Isso faz de mim uma aberração maior ainda?
— Faz de você alguém surpreendentemente incrível — ele disse. — Mesmo quando é uma vampira.
Ele se inclinou e pressionou os lábios contra os dela. O beijo tinha sabor de inocência. E, por mais estranho que fosse, ela se lembrou dele beijando-a daquele jeito um tempo atrás, muito tempo atrás. Como se tivesse acontecido antes de ela conhecer Shadow Falls. Kylie tocou a bochecha de Lucas e, quando tirou a mão, perguntou:
— Você por acaso... um dia entrou pela minha janela quando éramos vizinhos?
Ele pareceu culpado, mas não muito.
— Só uma vez, eu juro, quando você deixou a janela aberta. E eu não fiz nada... Só...
— ... me beijou? — ela perguntou. A ideia não a deixou com raiva; ela viu o beijo como um carinho.
— Foi com você... o meu primeiro beijo — ele disse.
Ela sorriu, e então a boca de Lucas desceu até a dela. Ela mal sentiu o calor dos lábios dele quando ele se afastou.
— Mas eu ainda estou furioso com você por ter lançado aquela rede sobre mim. — Ele bufou. — Não que eu consiga ficar furioso com você por muito tempo.
Ele a beijou novamente. Mas dessa vez não foi um beijo tão inocente. Não que ela fosse reclamar. Seu beijo tinha gosto de paixão, uma paixão doce e ardente. O peso do corpo dele pressionou-a em todos os lugares certos e ela sentiu as diferenças que faziam deles macho e fêmea. A vibração de Lucas, o zumbido no seu peito que a seduzia, invadiu-a em todos os lugares que seu corpo másculo agora tocava o dela.
Ela recebeu o beijo com desespero, querendo senti-lo, querendo saborear as sensações que ele produzia. A mão dele envolveu sua cintura, quente contra a pele nua dela, depois deslizou sob a camiseta e pousou em concha sobre o seu seio. Ela gemeu ao sentir a suavidade do seu toque e ansiou por mais.
Os lábios dele afastaram-se dos dela e desceram pelo seu pescoço. A sensação dos seus beijos quentes deixava seu corpo mole, como se estivesse derretendo. Ela sentia tudo, carência, desejo, anseio.
Quando a mão dele se moveu pelas costas dela e buscou o fecho do sutiã, ela arqueou as costas para facilitar. E, quando a mão dele voltou a acariciar a pele nua do seio, ela tremeu de prazer.
Lucas buscou a bainha da camiseta dela e deslizou-a pela cabeça de Kylie, descartando o sutiã ao mesmo tempo, e seus olhos desceram e contemplaram o que ele tinha acabado de descobrir. Ela achou que se sentiria envergonhada. Mas não era o sentimento de vergonha que se agitava dentro dela. Ela sentia...
— Você é tão linda! — ele disse, com a voz rouca.
Era isso. Era assim que ela se sentia. Linda. Admirada.
Ele respirou fundo.
— Provavelmente não devíamos...
Ela pressionou um dedo contra os lábios dele.
— Eu quero. — Ela deslizou a mão até a nuca de Lucas, entrelaçando os dedos nos seus cabelos pretos e espessos, e trouxe a sua boca até a dela. E, em segundos, estavam ambos perdidos nos braços um do outro.

4 comentários:

  1. Eu não acredito!! 😤😤😭😭 Queria que fosse com Derek

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  2. Naaaaaao! É sério?! 😳😳😳😳😳😳😳😳😱😱😱😱😱😱💤
    Deleta! DELEEEETA! Não, não! Me recuso a acreditar nisso!

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