31 de outubro de 2016

Capítulo 23

— Segurem-se! — Fiona gritou, e ela girou o volante para a esquerda. O barco girou de lado e ela atravessou a entrada, deslizando entre aglomerados de rochas. — Nós teremos que ir para o canal — ela gritou. — Não posso reverter e voltar para Runnybeg agora.
Dan olhou para trás. O barco preto estava mais lento, sem dúvida porque não tinha o conhecimento de Fiona sobre as rotas. As rochas poderiam fazer um buraco no casco. O barco parecia ser uma máquina poderosa, um tubarão escuro se movendo na água.
— Você certeza de que pode ultrapassá-los?
Fiona olhou para trás por uma fração de segundo, e ele viu uma sombra de dúvida passar pelo seu rosto.
— Possivelmente, não — ela respondeu, erguendo o queixo. — Mas eu posso enganá-los — quando ela disse isso, de repente deu uma guinada e enfiou o barco em um canal estreito que Dan não tinha notado. Enquanto fazia as inúmeras curvas, ela aumentou gradualmente a velocidade, e então um porto abriu na frente deles.
As horas estavam passando, e a água cinzenta começava a ficar salpicada de rosa. Os barcos de pesca já se distanciavam do outro lado do porto. Moviam-se para águas mais profundas.
Fiona ziguezagueou entre as embarcações ancoradas, as mãos seguras e especialistas no volante. O barco maior teve problemas em segui-la, por isso, desviou-se para o lado mais profundo do porto.
— Eles estão tentando nos cortar! — Amy gritou por sobre o som do vento e da água batendo contra o casco.
Fiona não respondeu. Ela apertou os lábios e seus olhos se estreitaram. Ao deslizar através dos barcos ancorados, ela começou a fazer um ângulo em direção à costa.
— Nós vamos ganhar algum tempo quando a baía alargar — ela berrou. — Eles estão muito longe para pegar a gente. Pelo menos um pouco.
Um pouco não soou muito encorajador, Dan pensou, mas sentiu uma onda de alegria quando o barco disparou em águas abertas. Fiona acelerou. O barco cortou as ondas, molhando o rosto deles.
Eles estavam à frente agora, e se distanciando. Dan olhou para trás novamente. Mesmo que eles tivessem disparado à frente, a julgar pela velocidade do outro barco não levaria muito tempo para serem alcançados. Eventualmente, a embarcação os ultrapassaria.
Ele se aproximou de Fiona.
— Qual é o plano? — perguntou.
— Se eu conseguir superá-los e levá-los para as falésias, posso fazê-los se perder. Há um caminho.
— Falésias?
— As Falésias de Moher. Elas ficam ao sul. Se eu puder chegar lá rápido o suficiente. É onde Declan e seus amigos estão.
— Mas como é que ele pode nos ajudar?
— SEGUREM-SE! — Fiona gritou, de repente virando o volante com dificuldade para a direita. O barco fez uma curva vertiginosa enquanto Dan se pendurava no corrimão da cabine. Ele viu uma boia passar a centímetros de seu nariz.
Eles estavam em mar aberto agora, as ondas impedindo o seu progresso. O barco balançava enquanto eles atravessavam as ondas, e Dan sentiu seu estômago embrulhar. Ele manteve os olhos no horizonte.
— Eles estão nos alcançando — Ian falou da popa.
— Eu não posso ir mais rápido — Fiona disse entredentes. — Estamos quase lá.
Então o sol rompeu a névoa e nevoeiro, e através dos raios fracos eles viram as falésias surgirem diante deles, majestosas e tocadas pela luz da manhã. Aves marinhas mergulhavam e giravam acima deles.
— Uau — Dan exclamou. — Essas são as falésias? Qual a altura delas, uns trezentos metros?
— Quase... o mais alto tem cerca de 215 metros — disse Fiona, olhando para o barco preto logo atrás. — É a nossa única chance – eles nos alcançarão em um ou dois minutos. Mas teremos a companhia da água, pelo menos. As Aileens estão se formando. Sorte para nós, se não afundarmos.
Dan imaginou uma equipe de meninas irlandesas correndo pelas falésias. Porque isto iria ajudá-los?
— Quem são as Aileens? — perguntou Amy.
— Aill Na Searrach. É uma onda perfeita — Fiona explicou. — Se as condições forem adequadas, e hoje elas são, elas podem chegar a dez, doze metros.
— Você disse doze metros? — Ian exclamou.
— O que são aquelas ilhas? — Amy perguntou, apontando para montes enormes a frente deles.
Dan viu Fiona segurar o volante com dificuldade.
— Não são ilhas. São ondas.
Dan olhou para longe. Não pareciam ser ondas. Pareciam
ilhas distantes que se moviam lentamente até aumentarem de tamanho e se transformarem em paredes maciças de água.
O barco balançou e girou para a esquerda, deixando-os mais perto da costa. Mais perto das Aileens.
— Não conseguirei nos manter nessas ondas! — Fiona gritou. — Nós vamos quebrar! E se eu sair para o mar, eles vão nos alcançar!
Dan podia ver figuras no convés, homens estavam vestidos de preto com óculos escuros. Ele reconheceu um deles, um homem baixo com uma loira estampada em sua camisa justa. Era o homem que o segurara na ponte. O homem levantou um rifle.
— Abaixem-se! — Dan exclamou.
Fiona não se mexeu. A bala acertou o painel de instrumentos, quebrando o velocímetro.
Dan se arrastou e puxou Fiona para baixo. Ela manteve uma mão no volante.
— Você está louca?
O rosto dela estava branco e seus dentes
batiam.
— Não achei que eles iam atirar de verdade! — ela olhou para o painel quebrado. — Com balas de verdade!
— Apenas fique abaixada — Dan ordenadou.
— Se eu não puder ver, não posso pilotar! — ela respondeu. — Nós vamos bater nas rochas ou seremos arrastados para a onda, e será o nosso fim!
Dan olhou para trás.
— Acho que é isso o que eles estão esperando — ele respondeu.
Os homens estavam de pé, os rifles prontos nas mãos. Ele podia sentir o gemido barco movendo-se contra as ondas. Se eles permitissem que Fiona conduzisse direito, não havia dúvida de que ela seria morta. Mas se eles não permitissem, iriam na direção  daquela onda de nove metros ou das rochas.
Houve um som gritante, e o barco estremeceu.
— Nós batemos em alguma coisa! — Fiona gritou. — Ian, você pode descer?
Ian se inclinou e meio rastejou, meio engatinhou, até a portinhola enquanto outra rajada de balas acertava o barco. Abriu-a e desceu a escada.
Um momento depois, ele colocou a cabeça para fora.
— É ruim — ele revelou. — Nós batemos numa pedra, e
há água entrando pelo casco.
— Eles vão nos apanhar se saltarmos na água — Fiona falou. Ela ainda estava pálida, mas já não tremia. Seu queixo estava trincado enquanto ela esquadrinhava a baía atrás deles. — Onde está você, Declan, seu eejit? — sua voz quebrou enquanto ela procurava freneticamente por trás do barco.
Amy se arrastou para a frente para se sentar com Dan, as costas contra a porta da cabine. O barco agora deslizava para um lado. Outra onda os atingiu, e eles deslizaram um pouco mais na direção das pedras. Não levaria muito tempo agora que o casco rachara. Os homens na outro barco pegaram seus rifles, esperando que eles pulasem para a água fria.
— Fiona — Amy falou.
Dan sabia o que ela queria dizer. Outra inocente.
Outra vida que tinha colocado em perigo.
— Eu tenho que ter certeza de que ela conseguirá — Amy
disse. — Então você... apenas nade. O mais rápido possível. A água estará fria. Você precisa manter seus músculos aquecidos. Pegue o livro de Olivia. E não olhe para trás. Ficarei com Fiona. Vou levá-la até a costa.
Dan olhou para a água turva. As rochas. Os penhascos. Seria um milagre se eles conseguirem chegar até a costa. Mas ele não tinha
intenção de pulas na água sem ter a certeza de que Amy estava bem. Menos de uma hora atrás ele tinha ficado furiosa com ela. Agora, faria qualquer coisa para salvá-la.
— Moleza — respondeu ele.
— Lá estão eles! — Fiona exclamou.
Dan olhou contra o sol. Pequenas formas escuras se moviam rapidamente, voando sobre o superfície da água... Jet Skis. Cada um tinha um piloto e um passageiro, e puxavam algo longo e fino.
— Pranchas? — perguntou Dan.
— É Declan e seus colegas — disse Fiona. — Os Jet Skis os rebocam através do pico das ondas, e eles as surfam. Eles são os poucos loucos o suficiente para surfar em Aileens.
— Eles surfam nessas ondas? — indagou Ian, incrédulo.
Os Jet Skis deram a volta e vieram na direção deles. O caminho iria levá-los direito entre o barco deles e a embarcação negra. Os homens rapidamente ergueram seus rifles.
Os Jet Skis chegaram mais perto, formando uma cunha e indo direto para o barco. Um dos surfistas levantou um megafone.
— Precisam de ajuda aqui?
— Sim! — Fiona gritou, de pé e acenando.
Os Jet Skis cercaram o barco. Os capangas da outra embarcação não se atreveriam a atirar agora.
Declan estava sentado de carona, vestido em um colete molhado.
— Parece que vocês precisam de um ascensor aí — ele gritou. Ele apontou para os surfistas empoleirados nas costas dos jet skis. — Estes são meus companheiros Sean, Rory e Patrick. Subam a bordo.
— Você primeiro, Fiona — disse Amy. Ela hesitou, em seguida, empurrou o livro de Olivia nas mãos de Fiona. — Tome cuidado com isso.
— Darei um passeio com Sean, então — Fiona disse, indicando um menino de cabelos vermelhos com brilhantes olhos azuis, que estavam fixados em Fiona. — Ele vai me levar de volta para a praia de Doolin. Vou levar suas mochilas; temos espaços para guardar sob o
assento.
Em apenas um momento, as mochilas e o livro de Olivia estavam guardados.
— É para lá que vão nos levar? — Dan perguntou enquanto subia a bordo atrás Declan.
— Não é possível. O barco só iria segui-los e alcançá-los quando chegassem às docas — Declan disse. — E há caras na costa em Doolin, esperando. Vocês terão que chegar à costa de outra maneira.
Amy deslizou do barco e montou atrás de Rory. Com uma careta, Ian subiu atrás de Patrick. Eles saíram do barco no mesmo instante em que ele afundou. Água encobriu o convés.
— Você me deve um barco, Fee! — Declan gritou para sua irmã, sorrindo.
Dan foi jogado para trás quando o Jet Ski deu partida. Ele estava feliz por deixar os bandidos para trás, mas seria bom se no momento ele não estivesse indo na direção de um conjunto de ondas de nove metros de altura.
— Você está nos levando para a praia? — ele perguntou no ouvido de Declan.
Declan apontou para uma onda tão alta quanto um edifício.
— Só há uma maneira de chegar lá, companheiro. Os Jet Skis não podem dar a volta nessas ondas.
— Nós vamos... — Dan engoliu seco. — Surfar?
— Você estará na praia em menos de três minutos! — Declan gritou. — Tudo o que tem que fazer é se segurar.
O Jet Ski cortou a água. Estavam agora além da crista. O Jet Ski subiu na altura da onda, então desceu pelo outro lado.
Quando penetrou na onda, Dan sentiu o baque nos seus ossos.
— Eles vêm em grupos de sete — Declan gritou. — Nós vamos nos equilibrar no pico. Vê a forma de barril? Isso é bom. Nós entraremos direto em uma delas.
Dan engoliu em seco. Ele tremia de frio e medo. Ele olhou para Amy. Ela ergueu um polegar trêmulo. Ian apenas pareceu determinado e aterrorizado ao mesmo tempo.
O garoto que pilotava o Jet Ski olhou para o oceano. Aparentemente, viu algo que Dan não podia ver.
— Aqui vamos nós! Próximo conjunto!
Os jet skis foram desligados  agora, e eles podiam se ouvir.
— É hora de subirmos nas pranchas — disse Declan.
Cautelosamente, Dan foi para a água. Declan ensinou-lhe como se segurar. Os dentes de Dan estavam batendo tão alto que ele podia ouvir o ritmo irregular constante.
— Não vai demorar muito agora, companheiro — disse Declan. —Só um minuto ou dois.
Dan olhou para os lados. Ian e Amy estavam nas pranchas também.
— Não há tempo a perder — Patrick gritou, apontando com o queixo para o barco preto. Eles apenas podiam assistir os homens no convés, ainda observando-os. Um deles tinha binóculos apontados para eles.
Agora Dan podia ver o movimento da onda, como um enorme Leviatã movendo-se através a água.
— Quando a onda estiver sobre o recife, vai começar a quebrar — explicou Declan.
— Vamos! — o piloto do Jet Ski chamou, e eles seguiram em frente em alta velocidade. Declan levantou-se graciosamente, seus pés distanciados na prancha, equilibrando-se facilmente da mesma forma que a prancha cortava a água.
Eles se inclinaram dentro da onda em formação. Dan sentiu seu corpo agachado na prancha como algo congelado, sua mente gritando uma palavra.
Nããããããão!
Em seguida, a parede de água rugiu na direção deles e a prancha disparou para frente.

3 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!