8 de outubro de 2016

Capítulo 22

A parte de trás do cemitério estava fantasmagoricamente silenciosa. Uma quantidade ainda maior de estátuas guardava os túmulos, a maioria coberta de trepadeiras mortas. Algumas estavam em ruínas, outras decapitadas por vândalos ou desgastadas pelo tempo, as cabeças caídas no chão de terra. Ainda assim, todas pareciam olhar para ela enquanto seus pés estalavam na trilha de cascalho. Sentindo-se de repente sozinha, ela olhou para trás e percebeu que o frio irradiado pelos espíritos tinha se amenizado. Ela estava realmente sozinha.
Os espíritos não a tinham seguido. Por quê? O medo causou um nó na sua garganta. Será que sabiam algo que ela não sabia? Mesmo sentindo o pânico crescer dentro do peito, ela continuou andando, rezando para que estivesse fazendo a coisa certa.
Viu as árvores à frente dela; embaixo da cúpula de galhos retorcidos só se viam sombras – sombras negras que poderiam ocultar qualquer coisa, ou pessoa.
Chegando mais perto, ela pôde ouvir a própria respiração e o canto de alguns pássaros a distância, como se emitindo um alarme. Ela parou a alguns metros das árvores. Seus galhos pesados pareciam se envergar sobre as sepulturas em ruínas ao redor.
— Olá! — A noite parecia engolir a sua voz.
— Você veio! — respondeu a voz, grave e profunda.
Segurando a respiração, ela viu uma figura surgindo em meio às sombras. Malcolm Summers, seu avô. Ele parecia mais jovem do que na ocasião em que visitara o acampamento; obviamente tinha se disfarçado para fazer o papel de senhor Brighten. Ela se lembrou de Della lhe dizendo que os sobrenaturais não envelheciam tão rápido quanto os seres humanos.
Seus olhos se encontraram, e mesmo na escuridão, os olhos azul-claros dele se destacavam. Kylie percebeu que eles eram exatamente da mesma cor dos dela. Ela estudou seu rosto e viu as feições do pai, feições muito parecidas com as dela.
Kylie de repente se sentiu insegura, não sabia bem como se comportar diante dele. Seu peito se oprimiu. Ela deveria abraçá-lo ou não?
— Desculpe — ela disse, sem pensar.
— Pelo quê? — o avô perguntou.
— Por... por não ter falado com o senhor aquele dia na floresta.
— Não foi culpa sua — outra pessoa disse. A tia-avó de Kylie se esgueirou das sombras e parou ao lado de Malcolm. A mulher sorriu. Antes que Kylie percebesse, ela se viu envolvida num abraço. A força e o calor do toque da tia surpreenderam Kylie – a mulher era quente.
Quando o abraço terminou, Kylie percebeu que, como o avô, a fragilidade que a tia tinha demonstrado no dia em que a visitara em Shadow Falls havia desaparecido. Kylie fez um cálculo rápido de cabeça. A mulher tinha setenta ou oitenta e poucos anos, mas ela não parecia ter mais do que cinquenta.
Os camaleões deviam ter uma alta expectativa de vida. Ela armazenou aquela informação para refletir sobre ela mais tarde.
— Olhe só você! — exclamou a tia. — Tão linda! — Ela olhou de relance para o avô. — O que há de errado com você, Malcolm? Dê um abraço na sua neta!
Ele se aproximou, hesitante.
— Não sou muito de abraços, mas acho que a ocasião merece. — Ele a abraçou. E, como a tia, o toque do avô era quente. O abraço foi breve, mas carinhoso e parecia os que ela gostaria de ter ganhado de Daniel, e até do padrasto, antes do relacionamento se deteriorar.
— Você é bom nisso — disse Kylie.
— No quê? — ele perguntou.
— Em abraços. — Lágrimas arderam em seus olhos quando ela viu a emoção no rosto dele.
Um sorriso se abriu dentro dela.
— Você parece meu pai.
— Eu notei isso também, pelas fotos.
— Eu tenho tantas perguntas! — disse Kylie.
— Tenho certeza de que tem.
— Somos camaleões, certo? — Ela prendeu a respiração, esperando que ele confirmasse o que o pai tinha lhe dito. Ou será que Holiday estava certa, que ser camaleão significava uma coisa diferente? Kylie deveria aceitar sua condição de bruxa depois daquela noite?
O olhar do avô deixou de expressar ternura e passou a demonstrar preocupação.
— Como você descobriu isso?
— Meu pai — disse Kylie. Seu coração se encheu de dúvida. Será que o pai dela estava errado? — Ele disse...
Malcolm ficou em silêncio. Então disse:
— Mas ele está morto.
— Ela fala com espíritos. — A tia apertou o braço do avô, empolgada. — Eu disse a você que senti a presença de espíritos quando estávamos no acampamento. — Ela desviou o olhar para Kylie. — Sua bisavó tinha esse dom. Ela ficaria orgulhosa.
— Então é verdade? Somos camaleões? — Kylie perguntou outra vez.
— Sim — eles disseram ao mesmo tempo.
O peito de Kylie parecia que ia explodir com a sensação de vitória. Ela finalmente sabia. Sabia com certeza. Mas o sentimento de vitória veio junto com mais perguntas. Lá no fundo, ela sentiu que sua vitória de verdade viria quando ela tivesse respostas para essas perguntas.
Kylie procurou registrar tudo o que eles diziam, para que pudesse aprender mais. Sua tataravó também falava com fantasmas, mas as duas avós, não. Então um camaleão não tem os mesmos dons que outro. Como isso funciona?
— Meu pai, ele falava com fantasmas também — Kylie disse, percebendo que ela ainda não tinha verificado os padrões do avô e da tia. Ela franziu as sobrancelhas. Foi tomada de surpresa quando viu que eles eram humanos. Mas ela também tinha exibido o padrão humano não muito tempo antes. Exatamente o que significa ser camaleão?
— Então você o viu? — A tristeza era evidente no tom do avô.
— E também vi minha avó. — Ela olhou para a testa do avô novamente. — Será que eu posso perguntar...
— Heidi? — Ele disse o nome com tanto amor que Kylie ficou comovida.
— Sim. Na verdade, foi ela que disse ao meu pai que somos camaleões. Mas ninguém em Shadow Falls sabe o que é isso.
A tia e o avô se entreolharam. A tia fez um aceno com a cabeça em direção a Kylie.
— Conte a ela.
— Vou contar — ele disse. — Mas você precisa vir conosco.
Kylie hesitou.
— Por que não podemos conversar aqui?
— Não se trata de conversar apenas. — O avô pousou a mão no ombro dela. O calor do seu toque era familiar. E Kylie reconheceu que ele se parecia com o toque de Holiday e Derek. Será que isso significa... O avô continuou a falar.
— Você precisa vir e conviver com a sua própria espécie.
— Conviver? — Conviver? Deixar Shadow Falls? Kylie negou com a cabeça. — Não posso. Eu vou estudar em Shadow Falls agora.
— Você não entende o perigo que corre aqui, filha — ele disse.
— Por causa... de Mario? — ela perguntou.
Ele franziu a testa.
— Mario é da UPF?
— Não. — Kylie hesitou falar sobre a UPF. — Ele faz parte de uma organização clandestina.
— A organização que você precisa temer é a UPF. Eles são afiliados ao seu acampamento, mas não são o que parecem. Eu tenho razões para acreditar que sejam responsáveis pela morte da sua avó.
Pouca disposta a mentir, Kylie assentiu.
— Eu sei.
A expressão do avô endureceu.
— Como você sabe? — Ao ver que ela não iria responder, ele continuou. — Heidi lhe contou alguma coisa sobre isso? — O tom de voz dele era o mesmo das suas feições: sério, imperioso.
Sem saber se seria melhor contar tudo a ele, mas sentindo que seria errado manter segredo, Kylie assentiu.
— Ela ficou paralisada por causa da cirurgia. Aquela que eles fizeram em vocês dois. Eles a mataram.
Os olhos azuis do avô se encheram de raiva e suas mãos se fecharam em punhos.
— Bastardos assassinos! Só sob o meu cadáver você vai voltar para aquela escola!
Kylie tentou não reagir à ameaça. Mas, sim, ela sentiu que era de fato uma ameaça. Respirou fundo para se acalmar.
— Eu entendo como se sente. Também fiquei indignada. Mas Burnett me assegurou...
— Burnett trabalha para eles! — rugiu o avô, e até as árvores pareceram se encolher diante da sua fúria.
A tia de Kylie deu um passo à frente e pousou a mão no ombro dele. Kylie se lembrou de como seu toque era reconfortante no dia em que a visitaram no acampamento, fingindo ser os Brighten. Será que sua tia era fae? Metade fae, talvez?
— Tem razão — disse Kylie. — Burnett trabalha para a UPF, mas ele me garantiu que as pessoas que fizeram aquilo não estão mais na organização. E...
— E você confia neles sabendo o que sabe? Confia nele, sabendo a quem ele se reporta?
— Eu não confio na UPF, mas confio em Burnett — explicou Kylie. — Ele está do nosso lado. E, mais do que isso, eu confio em Holiday.
— Você é jovem e ingênua. Não sabe o que é melhor para você.
Ela tentou não se sentir ofendida.
— Sou jovem, mas não sou tão ingênua assim — Kylie respondeu. — Estou seguindo o meu coração.
— O seu coração pode levá-la a tomar o caminho errado — ele disse. — O meu fez isso comigo. Eu confiei neles. Estava cego para o que eles realmente eram. Heidi sabia... ou suspeitava, mas eu não quis ouvi-la.
— Eu sinto muito — disse Kylie. — Mas eu não posso...
— Você pode! — ele exigiu.
— Não, Malcolm! A menina tem a opinião dela. — A tia falou com o avô, mas sem tirar os olhos de Kylie. Ela não parecia zangada, mas a decepção estava estampada em seu rosto. O peito de Kylie ficou oprimido ao pensar que podia ter magoado essas pessoas, mas ela não podia ceder.
O avô deu alguns passos em círculo e fitou uma árvore. Sua dor, sua raiva, seu sentimento de perda preenchiam a escuridão como uma entidade viva, pulsante. Kylie foi até ele. Mesmo assustada, ela precisava confortá-lo.
— A última coisa que eu quero é magoar vocês. Vocês já foram feridos demais. Lamento não poder fazer o que o senhor quer, mas eu tenho que seguir o caminho que acho mais correto. — Um leve movimento no céu entrou no seu ângulo de visão; Kylie não olhou para cima, mas suspeitou de que se tratava de Perry. Ele obviamente a encontrara. Seu tempo estava se esgotando.
— E se você estiver errada e eu for obrigado a enfrentar mais uma morte na minha família? A morte de alguém que eu nem conheço muito bem ainda.
— Eu não acho que isso vá acontecer — Kylie falou, com uma súplica nos olhos.
Ele olhou para o chão, aparentando derrota.
Sentindo que seu tempo era curto, Kylie continuou:
— Eu ainda tenho tantas perguntas... Por favor, me ajude a entender o que eu sou.
Ele olhou para ela. A fúria tinha se dissipado dos seus olhos.
— É impossível contar em poucos minutos em horas ou até em semanas, tudo o que você quer saber. Pode levar anos.
— Então eu procurarei vocês durante anos para lhes fazer as minhas perguntas — ela disse. — Mas, por favor, só me responda isto: o que significa ser um camaleão?
A tia deu um passo à frente.
— É ser como o lagarto. Podemos mudar a maneira como nos mostramos ao mundo. E para a nossa própria proteção, temos que nos esconder, para não sermos perseguidos.
— Nos esconder da UPF? — Kylie perguntou.
— Infelizmente, de todo mundo — explicou a tia. — Os poucos que não se esconderam foram vistos como párias, aberrações, que não pertenciam a espécie alguma. A princípio pensaram que tínhamos tumores no cérebro e então concluíram que éramos pessoas dementes.
Kylie não podia negar que se sentira assim. Como acontecia com todos os preconceitos, provavelmente tinha sido pior a princípio. Embora às vezes ela se sentisse uma aberração, na maior parte do tempo se sentia aceita em Shadow Falls.
— A UPF nos estudou como cobaias — o avô acrescentou. — Os anciãos e os conselhos de todas as espécies nos viam como criaturas mutantes. Alguns de nós foram forçados a trabalhar como escravos para outros sobrenaturais.
A verdade doía, mas ela precisava conhecê-la, em toda a sua extensão.
— Mas o que somos? Uma nova espécie?
— Não exatamente — a tia respondeu. — Normalmente quando sobrenaturais se reproduzem, o DNA dominante é transmitido à prole. Os filhos mestiços geralmente têm poderes mais fracos do que os daqueles cujos pais são da mesma espécie. Os camaleões conservam o DNA de ambos os pais e também dos seus antepassados. Eles são uma mescla de todas as espécies.
O avô olhou para Kylie.
— Meu pai era vampiro e lobisomem. Minha mãe era fae, bruxa e metamorfa.
— Espere aí — pediu Kylie. — Está me dizendo que eu tenho os dons de todas as espécies?
— Quando exibe esse padrão, sim. Exceto... — A expressão dele mostrou preocupação. — Se a regra do protetor vale para o camaleão tanto quanto vale para outras espécies, então você não será capaz de usar nenhum dos seus poderes para proteger a si mesma.
Ela balançou a cabeça, tentando compreender melhor o que ele havia dito.
— Mas o seu padrão parece humano — disse Kylie.
— É mais seguro fingir que somos humanos — a tia explicou.
— Mas eu sou meio humana. Então como eu posso ter essa mistura especial?
— A princípio, parecia não fazer sentido — disse a tia. — Mas quando estudamos o histórico familiar da sua mãe, descobrimos que ela é descendente de...
— ... índios norte-americanos. — Kylie terminou a frase por ela. E de repente um pensamento lhe ocorreu. — Isso significa que a minha mãe é sobrenatural?
— Sobrenatural, não. Apenas superdotada — a tia explicou.
— Como assim? — Kylie respondeu.
— Ela pode ser médium. Ou sensitiva — disse o avô. — Acredita-se que os membros dessa tribo possam diferenciar os sobrenaturais dos humanos. Às vezes eles não têm nem consciência disso, mas são simplesmente atraídos por eles. Existem mais humanos superdotados casados com sobrenaturais do que com humanos comuns, embora a população mundial de sobrenaturais seja muito menor.
O avô franziu a testa e observou o padrão de Kylie.
— O seu cérebro se desenvolveu rápido. A maioria dos camaleões não é capaz de manifestar um padrão e utilizar seus poderes antes dos vinte e poucos anos.
— Eu posso ser precoce, mas me sinto uma ignorante. Não sei como controlar isso, como mudar meu padrão ou como controlá-lo.
— É por isso que você precisa vir conosco. — O avô tinha uma expressão séria.
— Não posso, mas ainda assim preciso entender. — Ela olhou para cima e dessa vez viu que era Perry. — Algum tempo atrás, eu tinha um padrão humano e agora faço pesos de papel girarem pelo ar e... bem, não é muito bom. Mas talvez eu tenha me desenvolvido mais cedo porque sou uma protetora. Ou eles acham que sou. A verdade é que não sei o que pensar de mim mesma.
A tia sorriu.
— Ouvimos rumores de que você é uma protetora. Essa é uma grande honra.
— Acho que sim. — Kylie não sabia o que pensar de nenhum dos seus dons.
O avô examinou a testa dela outra vez.
— Se você não controla seus padrões, então deve manifestá-los instintivamente. Normalmente esse é um talento que pode levar anos para ser aprendido e controlado. Eu presumo que, se você precisar do dom da velocidade, intuitivamente provocará a mudança.
— Velocidade? — Kylie perguntou, intrigada. — Não se trata de velocidade. Minha amiga vive aprontando com seus feitiços e...
— Feitiços? — o avô perguntou.
— Eu sou uma bruxa agora — ela disse, declarando o óbvio.
— Não, não é mais — discordou o avô.

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