14 de outubro de 2016

Capítulo 21

O problema da “doce vingança” foi que, em retrospecto, ela nem chegou a ser tão doce.
Burnett ficou... atordoado. Ele se virou e ligou o carro. Voltou para Shadow Falls sem dizer uma palavra. Holiday ficou ali sentada ao lado dele, soluçando e com cara de quem ia chorar.
Obviamente, a reação de Burnett não foi exatamente a que Holiday esperava.
Ou talvez, Kylie percebeu, tivesse sido exatamente o que a fae mais temia. Ela se lembrou de Holiday lhe dizendo que Burnett não tinha certeza se queria ser pai. Kylie subitamente quis pedir desculpas por anunciar o fato daquele jeito tão... desastroso, mas o momento não parecia adequado.
Depois de estacionar o carro, Burnett viu Perry enquanto atravessavam o portão e o chamou, pedindo que acompanhasse Kylie até a cabana.
— O que aconteceu? — perguntou Perry, observando Kylie e, em seguida, olhando para trás, enquanto o vampiro ia embora. — Eu nunca vi Burnett assim... tão atordoado. É como se as luzes estivessem acesas, mas não tivesse ninguém em casa...
— Não é nada — respondeu Kylie, com vontade de chorar e bater em si mesma por ter sido tão insensível.
Assim que Kylie voltou para a cabana, foi direto para o quarto. Mas Della atravessou a sala e bloqueou a porta.
— O que foi? — perguntou Della. — Primeiro você chega chorando na classe, então Holiday começa a agir de modo estranho e agora você chega parecendo um cachorrinho que levou um chute do dono. E não me diga que não é da minha conta; eu sou sua amiga, o que me dá todo o direito do mundo para me meter na sua vida.
Kylie deu um abraço em Della.
— Eu te amo.
— Ok... Eu... Eu não estava tentando ser sentimental — disse Della, afastando a amiga.
— Eu sei, mas você foi. Infelizmente, eu não posso... falar sobre isso agora. Preciso fazer alguns telefonemas.
Ela fez um sinal para Della se afastar da porta. A vampira obedeceu a contragosto.
O primeiro telefonema de Kylie foi para avisar Hayden de que Burnett talvez estivesse a caminho e chegaria em pé de guerra.
— Por quê? Que diabos eu fiz dessa vez? — perguntou Hayden.
— Meu avô apareceu na farmácia. Suponho que você tenha contado onde eu estava.
— Ah, droga! Eu mencionei que você estaria, mas... Nunca pensei que ele fosse lá. Acho que vou começar a fazer as malas — ele murmurou.
— Não — pediu Kylie. — Por favor. Apenas explique que você não sabia que ele iria. Só para... acalmar Burnett. Diga qualquer coisa. Mas... não vá embora. Eu preciso de você aqui. E... não seja duro demais com ele. Ele... ele está passando por um dia difícil.
— O que aconteceu? — perguntou Hayden.
— Ele teve que me aturar — justificou Kylie.
— Ah, isso deve ter sido bem difícil — Hayden provocou, mas Kylie não estava com humor para piadinhas.
Ao desligar o telefone, ligou para o padrasto. Ela conversou com ele uns bons cinco minutos, assegurando que estava bem e que tinha perdido o celular, mas agora o reencontrara e lamentava não ter atendido as ligações dele.
Kylie poderia dizer pelo seu tom de voz que ele tinha ficado chateado ao saber que a mãe dela estava em Londres. Ou talvez não fosse só a voz dele lhe dizendo isso, mas suas palavras.
— Caramba! Ela devia ter me contado que ia sair do país!
— Com certeza ela apenas se esqueceu — mentiu Kylie, sem saber mais o que dizer.
Ao desligar, Kylie de repente sentiu seu bolso esquerdo vibrar. Ah, droga! Tinha se esquecido completamente de que ainda estava com o telefone de Holiday.
Ao pegar o telefone, viu que era Burnett enviando uma mensagem a Holiday. Sua intuição lhe dizia que Holiday precisava lê-la. Ela correu para fora do quarto e gritou para Della.
— Vamos sair!
Sabendo que Della iria alcançá-la, Kylie abriu a porta da frente. Em questão de segundos, a amiga estava ao seu lado.
— Para onde estamos indo?
— Para o escritório. Preciso falar com Holiday.
— E você ainda não vai me dizer o que está acontecendo...
— Sinto muito. — Kylie apressou o passo.
Ela pediu para Della esperar do lado de fora. A vampira revirou os olhos, mas não disse nada.
Quando Kylie entrou no escritório, a porta de Holiday estava fechada. Ela bateu.
— Quem é? — perguntou Holiday, e Kylie sentiu que a fae estava esperando que fosse Burnett.
— Sou eu. — Kylie abriu a porta.
Holiday estava de pé atrás de sua mesa. Ela suspirou. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. A fae não ficava muito mais bonita do que Kylie ao chorar.
— Eu sinto muito. — A culpa causou um nó na garganta de Kylie.
— Não é culpa sua.
— É, sim. Ele não devia ter ouvido a notícia daquele jeito. Eu estava tão...
— Furiosa — Holiday terminou a frase por ela. — E você tinha o direito de estar. Ele foi precipitado. Tem de fato o hábito de fazer isso. — A voz dela tremeu.
Kylie viu as caixas dos testes de gravidez no lixo.
— Você fez os testes?
Ela assentiu.
— E então?
Ela confirmou com a cabeça.
— Todos os três deram positivo. Qual é a chance de estarem errados?
— Burnett sabe? — perguntou Kylie.
Holiday balançou a cabeça.
— Ele nem entrou no escritório. Não disse uma palavra. Entrou no carro e saiu.
— Espere. Ele disse alguma coisa. — Kylie puxou do bolso o telefone de Holiday. — Você recebeu uma mensagem dele. Foi por isso que vim aqui. Achei que poderia ser importante.
Holiday pegou o telefone e apertou alguns botões quase em pânico.
Lágrimas encheram seus olhos e ela colocou uma mão sobre os lábios trêmulos.
— É uma reação boa ou ruim? — perguntou Kylie.
Holiday ergueu os olhos cheios de lágrimas, mas com um sorriso.
— Ele escreveu: “Estou na floricultura, tentando descobrir qual flor quer dizer: sou um idiota, por favor me perdoe”. — Ela suspirou. — Ele é um idiota! — Ela soluçou.
— Mas sou o seu idiota! — Burnett disse da porta.
Kylie olhou para trás e viu Burnett entrar carregando o maior e mais estranho buquê de flores que ela já vira. Holiday desabou na cadeira. Algumas lágrimas escorriam pelo rosto dela. Ele passou por Kylie e colocou as flores na mesa de Holiday, praticamente ocupando toda a superfície da mesa.
— Você não disse que tipo de flor eu devia comprar, então trouxe um pouco de tudo.
Os olhos de Burnett se desviaram para o cesto de lixo, onde ele obviamente viu as embalagens dos testes de gravidez. Ele olhou para Holiday.
— Estamos esperando um bebê?
Ela assentiu com a cabeça e enxugou o rosto.
— Me perdoe — disse ele com pura emoção na voz. — Eu só estou com medo. Não tive pai e a maioria dos meus pais adotivos não era o que você chamaria de bom exemplo. Mas então percebi que você vai ser uma mãe tão maravilhosa, que não tem importância se eu não for um pai tão bom assim.
— Você vai ser um ótimo pai — Holiday soluçou.
— Mas se eu não for, você vai me colocar nos eixos, não vai?
Ela concordou com a cabeça.
— Pode apostar que vou.
Kylie sorriu e começou a recuar. Ela estava quase na porta quando Burnett se virou.
— Eu lhe devo um pedido de desculpas, também.
Kylie assentiu.
— E eu te devo um.
Burnett sorriu.
— Aceito.
— Mas sem mais segredos — disse Kylie. — Mesmo entre você e Hayden. Se eles me envolvem, eu quero saber.
Ele suspirou.
— Combinado. Agora que praticamente tudo ficou esclarecido, você pode sair para que eu possa beijar a mãe do meu filho e não me preocupar em ofender seus olhos de donzela?
— Capriche no beijo. — Kylie sorriu e começou a sair.
— Kylie? — chamou Holiday.
Kylie se voltou.
— Os Brightens ligaram enquanto estávamos fora. Eles ainda estão pretendendo vir amanhã. Eu só queria lembrá-la.
Kylie acenou com a cabeça e saiu, tentando descobrir o que iria dizer aos Brightens.
Ela mal tinha colocado um pé para fora da varanda quando Della correu até ela e gritou.
— Holiday está grávida?
Kylie cobriu a boca da vampira com a palma da mão e franziu a testa.
— Você não deveria estar escutando a conversa.
— Eu não tive intenção. — Della bufou atrás dos dedos de Kylie. — A voz de Burnett apenas foi carregada pelo vento.
— Certo. — Kylie desviou os olhos para Della, em descrença.
Della gritou novamente.
— Isso é muito legal!
Kylie, afastando a preocupação com os Brightens, de repente sentiu vontade de gritar também.
— O que é legal? — perguntou Miranda, subindo pela trilha.
Della olhou para Kylie.
— Nós temos que dizer a Miranda. Só para ela.
— É isso aí, vocês têm que me dizer — Miranda gritou. — Não sei o que é, mas quero saber.
Kylie arquejou.
— Ok, mas você não pode contar a ninguém.
— Não vou contar a ninguém — disse Miranda. — O que é? — Ela esfregou as mãos, animada para saber o segredo.
Della afastou-as do escritório, e as três ficaram sob algumas árvores ao lado da trilha.
— Adivinhe quem está grávida? — Della cochichou.
Miranda olhou feito boba para Kylie.
— Mas você disse que nunca tinha transado!
— Eu, não! — defendeu-se Kylie. — Holiday.
O queixo de Miranda caiu.
— Oh, meu Deus! Nós vamos ter um bebê Burnett correndo por aí? Isso é legal mesmo! — concordou, com um sorriu de orelha a orelha.
— Eu sei. — Kylie de repente não conseguia parar de sorrir.
Ou não podia até que alguém deixou cair da árvore em cima dela uma cabeça decepada, bem sobre o seu pé. Kylie gritou e chutou a cabeça, que rolou uns bons dois metros de distância. Ela gritou novamente quando viu os olhos da cabeça balançando e olhando para ela.


Na manhã seguinte, Kylie se levantou e foi se sentar em frente ao computador para checar seus e-mails antes de tomar o café da manhã com Della e Miranda. Ela se sentou ali e ficou olhando para a tela preta do computador quase em transe. Não tinha tido nenhum sonho, nem visto nenhuma cabeça decepada caindo de árvores nem recebido visitas de espadas. Ela nem tinha dormido ainda. O que a mantinha de pé eram todos os seus outros problemas. A maioria deles questões do coração.
Ela ficou acordada um tempo pensando no encontro que teria naquele dia com os pais adotivos de Daniel, perguntando-se o que deveria dizer, ou não dizer. Ela tinha se afeiçoado ao seu verdadeiro avô, mas ele não fora o homem que criara seu pai. Não tinha lhe ensinado a andar de bicicleta ou a jogar beisebol. Ele na verdade não conhecera o próprio filho, mas essas pessoas, sim.
O que elas diriam sobre seu pai? Será que o haviam amado, sentido falta dele desde que fora levado tão precocemente desta vida?
Isso fez com que começasse a sentir a falta do pai. Então, pegou as fotos dele e passou uma boa hora só olhando para elas, falando com ele. Sim, ela falava com o pai como se ele estivesse ali, ouvindo cada palavra que dizia. Ela lhe contou sobre suas missões. Como queria encontrar uma maneira de ajudar todos os outros camaleões adolescentes. Agora só faltava descobrir como fazer isso. Ela lhe contou sobre Mario, como ela se sentia no fundo, agora que tinha que enfrentá-lo.
Pessoalmente.
Confessou ao pai quanto isso realmente a assustava. Tinha medo por causa da maldade que emanava do homem, e porque ela não achava que tivesse o poder necessário para enfrentá-lo e vencer.
Algumas vezes durante a conversa, ela podia jurar que sentia o pai perto dela, uma espécie de leve calafrio que ela conhecia bem – e que a aquecia por dentro. Um calafrio que lhe sussurrava que ela não estaria sozinha, nem ao enfrentar Mario, nem durante a visita dos avós. Então ela tornou a ouvir as palavras que ele lhe dissera não muito tempo atrás. Mas logo. Em breve, vamos descobrir isso juntos.
Seria seu destino enfrentar Mario e ser derrotada? Será que ela iria se juntar ao pai do outro lado?
Colocou as fotos de volta no envelope, o coração batendo um pouco mais rápido, e mais uma vez se lembrou de Holiday falando que ela não achava que era isso que o pai queria dizer. Meu Deus, Kylie esperava que não! Não estava pronta para deixar este mundo.
Quando parou de se preocupar com a mensagem de Daniel – preferindo acreditar em Holiday, ou pelo menos tentar acreditar – e com o encontro com os avós, ela começou a ficar obcecada com o que Fredericka lhe dissera. Era por causa de Kylie que Lucas provavelmente não iria entrar no Conselho dos lobisomens. Ela sabia que não era culpa dela – ele tinha se metido naquela confusão – mas a culpa ainda espicaçava a sua consciência. Era difícil sentir tanta raiva e culpa ao mesmo tempo pela mesma pessoa. Como iria lidar com aquilo? Ela não sabia.
Kylie também tinha que se entender com Derek. Cortar o mal pela raiz antes que as coisas ficassem fora de controle, se é que já não estavam. Lembrou-se do almoço do dia anterior, motivo pelo qual Kylie tinha ficado na cabana e pedido para Miranda lhe trazer algumas fatias de pizza para o jantar. Ah, seu velho truque para evitar as pessoas ainda estava em boas condições de funcionamento! Ela devia ficar orgulhosa... “Vai sonhando”, disse a si mesma...
Mas, honestamente, ela sabia que não deveria nem poderia continuar evitando Derek. O garoto merecia saber a verdade. Agora, se ela pudesse descobrir qual era exatamente essa verdade, ela lhe diria. Espere aí! Ela sabia qual era, não sabia? Ou, pelo menos sabia parte dela. Ela não tinha admitido que amava Lucas? Ainda o amava, apesar do que ele tinha feito. Então por que tinha deixado que Derek a beijasse no sonho lúcido? Seria porque no fundo ela ainda sentia alguma coisa por Derek? Ou será que só temia perder Lucas e não queria ficar sem ninguém? Ou talvez fosse porque estava com raiva de Lucas e de alguma forma se sentira vingada ao beijar Derek... Ou seria porque ela era simplesmente uma grande idiota?
Perguntas.
Nenhuma resposta.
— Nós vamos tomar café? — perguntou Della.
— Vamos — murmurou Kylie, olhando para a tela preta do computador. — Estou só verificando meus e-mails.
Della soltou uma risada sarcástica.
— Acho que seria bom ligar o computador primeiro. Ou será que seus poderes agora permitem que você leia seus e-mails com o computador desligado?
Kylie ligou o computador e olhou por cima do ombro para franzir a testa para Della.
— Você não se lembra da regra? Não pode bancar a sabichona antes do café da manhã. Eu preciso de energia para lidar com isso.
Miranda entrou na sala.
— Eu, pessoalmente, acho que ela devia esperar até depois do almoço. Isso nos dá duas refeições para lidar com suas piadinhas sem graça.
— Vocês duas se acham tão engraçadas... — contra-atacou Della.
— Somos engraçadas — respondeu Miranda.
— Uma verdadeira dupla de comediantes. — Kylie abriu sua caixa de e-mails para fazer uma verificação rápida. Um era de seu padrasto.
Iria responder mais tarde.
Um de... Sara.
Droga, ela não pensava na sua antiga melhor amiga havia quase duas semanas! Engraçado como uma pessoa podia ser tão importante na nossa vida e depois... passarmos um longo período de tempo sem sequer pensar nela.
Não era culpa de ninguém. A vida leva as pessoas em direções diferentes. Kylie tinha lido em alguma revista adolescente que normalmente acontecia isso depois da formatura no colegial. Ela achava que tinha seguido um caminho diferente na vida um pouco mais cedo do que o resto dos adolescentes. Mesmo assim era triste.
Um buraco pareceu se abrir em seu peito. Um lugar que antes costumava ser ocupado por Sara.
Ela clicou no e-mail de Sara, rezando para que não fossem más notícias, como, por exemplo: o câncer ter voltado ou ela achar que estava grávida novamente, ou ter decidido ir para um convento e tornar-se freira. Com Sara, tudo era possível.

Olá... Cortei o cabelo. Achei que você talvez quisesse ver. Não ria. Estou me sentindo corajosa agora que sobrevivi a um câncer. Aposto que a sua amiga Miranda vai aprovar.
Me ligue quando tiver uma chance.

Sabendo que Della e Miranda estavam esperando, Kylie abriu a foto apenas para dar uma espiada. Quando a imagem de Sara, com o cabelo cor-de-rosa, curto e espetado, encheu a tela, um sorriso deslizou pelos lábios de Kylie.
Ela ouviu pés se arrastando atrás dela.
— Estou indo! — gritou, pensando que a qualquer minuto Della iria reclamar. Kylie pegou o telefone e a carteira, mas logo que se levantou, outro e-mail chegou. Era da mãe, que deveria ter retornado da Inglaterra pela manhã. Obviamente, ela já estava em casa.
— Sério? Eu não vejo você se movendo... — disse Della, com sarcasmo.
Ok, o e-mail da mãe teria que esperar, também.
Ao encontrá-las na porta, Kylie olhou para suas duas melhores amigas e sentiu uma onda de tristeza. Não pelo presente, mas pelo que poderia acontecer no futuro.
— Prometem uma coisa? — disse Kylie.
— O quê? — elas perguntaram ao mesmo tempo.
— Quando a gente se formar, não vamos perder contato. Precisamos ir as três para a mesma faculdade. Estou falando sério. Holiday estava falando sobre pegarmos o formulário de algumas faculdades, e precisamos preencher os das mesmas faculdades. E poderíamos alugar um apartamento juntas.
— Poderíamos nos tornar lésbicas e formar um triângulo amoroso — disse Della, rindo.
— Lamento muito — disse Miranda, rindo também. — Eu já vi você pelada e não senti nenhuma atração.
— Por causa dos meus peitinhos minúsculos, não é? — Della perguntou, sorrindo.
Riram ao longo de todo o caminho para o refeitório.


Derek e Lucas não apareceram para o café da manhã, o que Kylie achou ótimo. O fato de haver menos tensão no ar devia abrir o apetite, porque ela comeu seus ovos mexidos com bacon em tempo recorde. Seu celular tocou justamente quando ela estava prestes a empurrar a bandeja. Quando viu o número do padrasto, decidiu retornar a ligação um pouco mais tarde. Ela não achava que ele conseguiria amenizar tão cedo a dor que sentia em relação à mãe dela. Então o telefone apitou, alertando para a chegada de uma mensagem. Não poderia ser o padrasto dela, pois ele não mandava mensagens. Kylie esperou um segundo antes de verificar quem era. Duas palavras apareceram.

Saudade. Lucas.

Sinto saudade, também, ela pensou, mas não mandou nenhuma mensagem de volta. A emoção sussurrava em seu peito.
O som de outra bandeja sendo colocada sobre a mesa fez Kylie levantar o olhar. Steve, o metamorfo gostosão, que tinha deixado um chupão logo abaixo da clavícula esquerda de Della, sentou-se ao lado da vampirinha.
Della ficou completamente imóvel, paralisada, e fulminou com o olhar o seu café da manhã intocado. Se olhares pudessem matar, aquele café da manhã já estaria carbonizado.
— Bom dia! — cumprimentou Steve.
— Você tem que ir embora — disse Della sem olhar para ele.
— Por quê? — ele perguntou.
Della hesitou.
— Porque eu sou a sombra de Kylie e não posso me distrair.
Essa era a desculpa mais esfarrapada que Kylie já tinha ouvido e, pela expressão de Steve, ele achava o mesmo.
— Então, eu sou uma distração para você, hein? — disse ele, inclinando-se na direção dela, com um meio sorriso nos lábios.
— Vá embora! — Ela olhou para cima, com os olhos esverdeados de pura raiva.
O meio sorriso desapareceu dos olhos do metamorfo e ele se levantou, pegou sua bandeja e foi se sentar à mesa dos membros da sua espécie.
— Isso não foi nem um pouco educado — disse Kylie.
— Eu sei — disse Della. — Não sei por que ele age dessa forma.
— Eu estava falando de você! — Kylie inclinou-se e fez uma cara feia para Della.
— Sim, e disse uma mentira também — acrescentou Perry, sentado duas cadeiras mais adiante. — Eu sou a sombra de Kylie agora.
Della fez uma careta e se levantou.
— Você já acabou de comer?
Poucos minutos depois, eles caminharam do lado de fora, para o local onde seria anunciada a Hora do Encontro – Della de um lado de Kylie e Miranda e Perry do outro. Kylie de repente se pegou olhando em volta, à procura de Derek ou Lucas. Nenhum dos dois tinha aparecido ainda. Mas então ela sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Olhando para trás, viu Derek em pé a alguns metros, às suas costas. Seus olhos verdes se encontraram com os dela e Kylie se lembrou novamente do beijo no sonho.
— Ok — disse Chris, chamando a atenção de Kylie para a frente. — O primeiro par de hoje... — Ele puxou um pedaço de papel de sua cartola, que sempre pareceu uma idiotice para Kylie, mas Chris obviamente adorava.
Ela se perguntava se Chris por acaso queria ser mágico, quando criança. Lendo o papel, o vampiro chefe desviou os olhos para o grupo de alunos. O coração de Kylie acelerou quando o olhar dele chegou perto dela e começou a se mover mais devagar. De novo não! Quem teria sido dessa vez?
Então os olhos dele passaram por Kylie, por Miranda, e pararam. Por alguma razão maluca, Kylie teve um mau pressentimento. O sorriso furtivo nos lábios de Chris foi a prova de que ela estava certa.
— Perry, amigo velho — disse Chris. — Você vai ter o prazer de passar uma hora com Nikki.

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