8 de outubro de 2016

Capítulo 20

Kylie se virou na cadeira e olhou para o rosto intrigado de Lucas. Ele usava uma calça jeans preta e uma camiseta azul-clara. A camiseta era justa o suficiente para ela saber que seu abdômen de tanquinho não ficava atrás do de Zac.
Ele continuou a encará-la.
— O que você acabou de dizer?
— Era... um feitiço que deu errado. Eu conjurei um cara aqui por alguns segundos. — Normalmente ela enrubesceria, mas seu tumulto emocional com relação a Lucas afugentou qualquer constrangimento.
Kylie ficou de pé. Sentiu-se desconfortável sentada ali. Seu peito se encheu de alegria ao vê-lo e de angústia pela raiva mal resolvida que sentira. Ela queria beijá-lo, mas queria também extravasar toda a sua raiva e gritar.
— Ah... — Ele olhou para Della e Miranda. Mas antes que colocasse a pergunta em palavras, elas se levantaram. Miranda se afastou como se não estivesse interessada na conversa, enquanto a postura de Della exalava rebeldia.
— A gente vai lá pra varanda. — O tom da vampira combinava com a sua expressão corporal.
— Obrigada. — Embora Kylie não tivesse confidenciado às amigas as suas mais recentes inseguranças com relação a Lucas, ela sabia que elas suspeitavam. Assim como ela própria sabia o que se passava na vida delas. Ela observou enquanto as suas duas melhores amigas saíam da cabana para lhes dar privacidade.
O olhar de Kylie se fixou em Lucas e seus profundos olhos azuis sustentaram os dela até a porta se fechar. Ela se virou e ficou de frente para a geladeira, tentando descobrir o se sentia... além da mágoa que partia o seu coração. Só para ter algo que fazer, abriu a porta da geladeira.
— Quer beber alguma coisa? — ela perguntou, sem saber o que faria se ele aceitasse, pois não havia nada ali exceto um vidro de picles quase vazio e uma garrafa de sangue, que pertencia a Della.
— Escrevi três mensagens e também enviei e-mails e você não respondeu. — Ele parecia magoado.
Fechando os olhos, ela tentou afastar a culpa que lhe causava um nó no estômago.
— Eu ainda não chequei os meus e-mails. — Ela fechou a geladeira e foi até a cadeira em frente ao computador.
— O que você está fazendo? — ele perguntou.
— Checando os meus e-mails. Você não disse que tinha enviado? — Ela parecia uma idiota. Tudo bem, não só parecia uma idiota, mas estava se comportando com uma, mas ela precisava de alguns minutos para pensar.
Ela estava errada em sentir raiva?
Ou estava certa?
Kylie se deixou cair na cadeira. Com o computador ligado, só era preciso um clique do mouse para baixar seus e-mails. Percorreu a lista com os olhos uma vez e encontrou o nome de Lucas.
O assunto de todos os três e-mails que ele mandara era o mesmo: sinto sua falta.
Agora um nó se formou na sua garganta.
— Você está com raiva de mim por algum motivo? — ele perguntou.
— Sim. — Ela passou os olhos pela tela e sentiu como se seu peito estivesse se expandindo – ficando maior e maior – até quase transbordar de emoção. A dor era real, tornando difícil até respirar. Ela engoliu em seco. — Não.
— A resposta é sim ou não. Está com raiva ou não está? — Seu tom de voz deixava transparecer sua mágoa. Ou raiva. Ou talvez as duas coisas.
Ela fechou os olhos e, embora não pudesse ouvi-lo, sentiu-o se aproximar. Seu cheiro, um maravilhoso aroma de terra, parecia impregnar o ar da cabana.
Ela inspirou.
— Talvez.
— Hmm. — Ele de fato estava mais perto. Muito perto. Bem atrás dela. Quase tocando-a.
Ela estava tentada a se virar, mas não fez isso. Olhou para a tela do computador e segurou a respiração.
— É isso que significa quando dizem que as mulheres têm o privilégio de poder mudar de ideia? — Um leve toque de humor matizava a voz de Lucas.
— Pode ser — ela murmurou.
— Está assim porque não apareci ontem à noite? Mas eu deixei um bilhete. Você estava dormindo.
— Não é por causa disso. — O olhar dela estava fixo no computador. Kylie localizou três e-mails do seu pai. Outra coisa emocionalmente difícil com que ela tinha que lidar. Agora que sabia que sua mãe estava se encontrando com outro homem e que ela e o padrasto provavelmente nunca voltariam a ficar juntos, era ainda mais difícil vê-lo.
Ela piscou.
— Então por quê? — A mão dele pressionou o ombro dela de leve. Uma sensação de calor fluiu da palma de sua mão. — Porque neste momento, eu adoraria poder beijá-la e não sei se posso. Não sei se está furiosa comigo, quero dizer.
Inspirando fundo, o coração de Kylie começou a bater freneticamente ao pensar em Lucas beijando-a. Em seu peito contra o dele.
— É porque você está me evitando — ela disse. — Está me mantendo afastada de você.
A outra mão dele acariciou o outro ombro dela.
— Só até o meu pai aprovar que eu me junte ao conselho. Eu sei que é difícil, e sim, ficarmos juntos vai ser ainda mais difícil com Clara aqui, mas... Eu preciso da aprovação dele. Não acho que vá demorar muito.
Ela piscou mais uma vez e foi então que viu. Quatro... não, cinco e-mails com a palavra “neblina” na linha do assunto. Seria possível...?
— Ah, merda! — Ela viu outro e-mail do mesmo endereço cujo assunto era “conversa”.
— O que foi? — ele perguntou.
Ela abriu a boca para contar a ele, mas fechou-a ao mesmo tempo que fechou o e-mail. Ela não queria contar a ele sobre o fato de seu avô ter perseguido a irmã dele. Não tinha contado porque não lhe parecia conveniente. Agora parecia menos ainda.
Se ela decidisse encontrar o avô sem Burnett, Lucas não aprovaria. Ele era superprotetor e insistiria para que ela contasse ao vampiro.
Kylie não podia deixar Lucas contar a Burnett, pois o vampiro não deixaria que ela encontrasse o avô sem que ele estivesse presente. E ela tinha a impressão de que o avô não estava muito disposto a encontrar Burnett.
Ela precisava falar com o avô – com ou sem Burnett por perto. Ele tinha respostas, e descobrir essas respostas era seu objetivo. Quantas vezes Holiday não lhe dissera que ela deveria seguir seu coração? E seu coração lhe dizia que essa era a coisa certa a fazer. Lucas teria que entender.
E nesse exato momento, ocorreu algo a ela. O objetivo de Lucas era fazer parte do conselho. E, para tanto, ele tinha que fingir em frente à alcateia e Clara, para convencê-los de que ela não era importante para ele. Como ela poderia ficar zangada com o namorado quando... ela também tinha prioridades igualmente importantes?
Isso significava que ela tinha que ser mais compreensiva. Se, para atingir seu objetivo, eles não poderiam se sentar juntos nas refeições ou ele precisava fingir que não eram namorados, ela aceitaria isso. Assim como esperava que ele aceitasse que ela também tinha um objetivo.
Ela se levantou e se virou de frente para ele.
— Desculpe. Minha reação foi exagerada. — Ela colocou as mãos no peito dele.
Ele olhou para ela, como se estivesse ainda mais intrigado.
— Não está mais com raiva?
Ela abriu um sorriso sincero. Ao pensar que seu avô não tinha desistido de vê-la, o peito de Kylie se encheu de emoção como uma bolha de ar. Ela olhou de relance para o computador e então para Lucas.
— É duro sentir que estou em segundo plano, mas...
— Você não está em segundo plano. Quando eu entrar para o conselho, terei condições de pôr um fim nessa droga toda. Os lobisomens mais jovens não veem a hora de que haja uma voz no conselho que exprima as opiniões deles. Eu vou conseguir o apoio deles e os mais velhos não vão poder mais nos dizer como devemos viver a nossa vida. Eles não vão mais responsabilizar ninguém pelos pecados dos pais. Por favor, me dê mais um pouco de tempo.
— Eu vou dar. E lamento ter sido tão idiota.
Ele a puxou mais para perto. Tão perto que o calor do seu corpo enviou uma onda de prazer que a atravessou da cabeça aos pés.
— Eu sei — disse Kylie. — E entendi agora. — Ela encontrou o olhar de Lucas e umedeceu seus lábios com a língua. — Você estava dizendo algo sobre me beijar?
Ele arqueou as sobrancelhas, mas abriu um sorriso.
— Acho que nunca vou entender as garotas.
— Então pare de tentar. — Ela ficou na ponta dos pés. Queria que Lucas a beijasse ardentemente e então queria que ele fosse embora para que ela descobrisse o que seu avô tinha lhe dito nos e-mails. Mas no momento em que os lábios dele encontraram os dela, quando seu peito quente pressionou os seus seios e suas mãos deslizaram sob a sua blusa, apertando a pele nua da cintura, ela decidiu que os e-mails poderiam esperar um pouco mais.
Isso... isso era magia. O tipo de magia que ela podia fazer sem causar nenhum tipo de prejuízo.


Naquela noite, Kylie foi para a cama sem trocar de roupa, esperando ouvir Miranda chegar do seu encontro com Perry. As noites do casal eram cada vez mais longas. Não que Kylie pudesse culpá-los. Afastar Lucas depois daquela breve sessão de beijos não tinha sido fácil – mesmo com os e-mails do avô esperando por ela.
Lucas tinha emitido aquele zumbido de desejo e ela emitira o mesmo zumbido junto com ele. A capacidade que os lobisomens machos tinham de seduzir suas companheiras tinha cativado sua alma e seu coração. Seu toque era divino, ela não queria que ele parasse. Era cada vez mais difícil não ceder. E, no entanto... ela o afastou.
Talvez por causa dos e-mails.
Talvez porque não quisesse que questões não resolvidas interferissem na sua primeira vez. E, embora ela entendesse que Lucas estava tentando alcançar o seu objetivo, lá no fundo, isso ainda a feria.
No entanto, provavelmente a questão maior que a levou a não ceder talvez tenha sido Della e Miranda esperando do lado de fora, na varanda. Com certeza aquela tinha sido a razão mais importante que a fez encontrar forças para impedir que as coisas fossem longe demais.
O fato de que ela e Lucas tivessem acabado o encontro deitados no sofá, no maior amasso, enquanto as duas amigas esperavam na varanda, fez com que ela ficasse com as bochechas ardendo quando olhou para as duas, depois de Lucas ter ido embora. O que deixou a coisa ainda pior foi saber que Della podia farejar os feromônios que eles tinham exalado.
Ela esperava, porém, que as bochechas vermelhas e os feromônios a ajudassem a fazer com que seus planos de hoje à noite funcionassem. Os planos de Kylie tinham lhe ocorrido tão logo ela lera o e-mail do avô pedindo que o encontrasse – sozinha – no Cemitério de Fallen.
Será que o avô tinha descoberto a verdade? Que até pouco tempo antes, sua mulher, a avó de Kylie, estava enterrada ali numa sepultura anônima?
O e-mail que Kylie mandou para ele, em resposta, foi breve: “Farei o possível para estar lá a uma da manhã”. O fato de não ter recebido nenhuma resposta incomodou-a um pouquinho. Ele tinha perguntado. Ela tinha respondido. O que mais era preciso dizer? Mas isso não a impediu de checar a sua caixa de entrada a cada quinze minutos.
O que havia de pior em tudo aquilo era a mentira que ela teria que contar às colegas de alojamento. Uma mentira que só funcionaria se Della não sintonizasse automaticamente o batimento cardíaco mais rápido de Kylie quando ela mentisse. Se Kylie pudesse falar uma inverdade e Della acreditasse no ato, ela não iria verificar seu batimento cardíaco. Ou pelo menos Kylie rezava para que funcionasse dessa maneira.
Alguns minutos depois, Kylie ouviu Miranda e Perry na varanda. Ela saiu da cama. Silenciosamente, foi para a sala, esperando Miranda entrar na cabana. Kylie sabia que Della provavelmente já tinha percebido que ela saíra do quarto.
A porta se abriu e, quando Miranda a viu, teve um sobressalto.
— Sou eu — disse Kylie.
— O que está fazendo acordada?
Sem querer se arriscar a mentir duas vezes, ela colocou seu plano em ação.
— Você o viu? — Kylie perguntou.
— Quem? — perguntou Miranda, olhando para a amiga atentamente. — Você está tendo uma daquelas visões estranhas outra vez?
— Não. Você viu Lucas? Ele ficou de me encontrar e nós... vamos a um lugar para ficarmos sozinhos. — Correndo para a janela, ela deu uma olhada para fora. — Eu o vi — Kylie mentiu, e imediatamente se sentiu culpada. — Estou indo.
Miranda segurou-a pelo cotovelo.
— Você vai aonde...?
Talvez fosse imaginação de Kylie, mas ela podia jurar que ouviu Della se levantando da cama.
— Conte a Della por mim. Diga a ela que eu quero ver Lucas. Diga que, por favor, nos deixe a sós desta vez. — Se agora Della estivesse ouvindo com a sua audição supersensível, ela saberia que era verdade. Kylie de fato queria estar com Lucas.
Sabendo que era imprescindível que ela saísse antes de Della chegar, Kylie correu rumo à escuridão, deixando Miranda parada ali com a boca entreaberta, prestes a dizer alguma coisa.
O ar de final de agosto era frio quando Kylie disparou pela varanda e correu o mais rápido que pôde para fora da cabana.
Por favor, que isso funcione. Por favor, que eu consiga. Ela repetia as palavras como uma oração. Seu corpo vibrava quando pensava que estava seguindo seu coração.
A cada passo, sua confiança aumentava. Apesar do aviso de Burnett para não entrar sozinha na floresta, ela sabia que aquela era a rota mais rápida e não hesitou em tomá-la. Movendo-se entre as árvores, ela aceitou o risco. Mario, ou quem estivesse ao lado dele, poderia esperar.
Mas era um risco que ela correria, disse a si mesma, ignorando a sensação de estar sendo seguida. Ignorou a culpa que sentiu por mentir para suas duas melhores amigas.
Ela teve que mentir. Aquela era a sua busca pessoal. E o risco deveria ser apenas dela, não das amigas, que se sentiam compelidas a se unir a ela. Kylie não iria colocar ninguém no caminho de Mario.
De repente, o telefone em seu bolso bipou com a chegada de uma mensagem. Ela diminuiu o ritmo apenas o suficiente para ler a mensagem.
Derek.
— Droga! — murmurou, a voz um sussurro no ar da noite.
Com certeza o fae tinha sentido suas emoções e estava preocupado. Mas, se ela lhe contasse, assim como a Della e a Miranda, ele acharia que deveria acompanhá-la. Ela enfiou o telefone do bolso e então acelerou o ritmo da corrida.
Enquanto ela se esquivava de galhos e arbustos espinhosos, ouvia os barulhos da noite – o fato de a floresta não estar em silêncio a tranquilizava. Se Della a tivesse seguido, ela já estaria ali. Kylie só podia supor que o plano tinha dado certo. Della tinha respeitado a sua vontade de ficar a sós com Lucas.
Consciente da distância que já tinha percorrido, Kylie sabia que estava perto da cerca que delimitava a propriedade de Shadow Falls. Seu coração martelava com o medo de que seu plano pudesse falhar quando atravessasse aquela cerca. Burnett poderia vir correndo.
No entanto, ela tinha ouvido rumores de que alguém estava sempre violando as regras. Perry, que nunca gostara de ser restringido na sua capacidade de se transformar em outras criaturas. Lucas e sua alcateia, que sempre eram convocados pelos anciões da sua espécie, que não obedeciam às regras de Shadow Falls.
Talvez, só talvez, Burnett não percebesse que era ela a pessoa que estava ultrapassando os limites de Shadow Falls.
A cerca já era visível. Ela assomou-se diante de Kylie, com seus quase dois metros de altura. A garota acelerou o ritmo da corrida, rezando para que conseguisse transpor a barreira de metal.
Seu corpo parecia leve quando saltou no ar, subindo cada vez mais alto. Seus pés passaram por cima da cerca e ela chegou ao outro lado, esperando não cair de mau jeito e se machucar. Ela bateu com força no chão e rolou alguns metros.
Então se levantou e massageou o cotovelo, que tinha amortecido a queda. A dor diminuiu, ofuscada pela sensação de vitória. Ela tinha conseguido. Iria conseguir ver o avô.
De repente, Kylie notou uma sensação pegajosa de sangue na palma da mão. O odor de frutas silvestres entrou pelas suas narinas. Quem diria que seu próprio sangue tinha um cheiro tão bom? Sem se importar com o corte superficial, ela continuou a correr cada vez mais depressa, distanciando-se rapidamente da cerca.
Os sons da noite continuavam em volta dela. Nenhum vampiro deixava a noite silenciosa. Ela estava sozinha.
Kylie cruzou a entrada e passou por entre as árvores que a margeavam, enquanto continuava seguindo em frente. Pelos seus cálculos, só alguns quilômetros a separavam do cemitério.
Ela iria finalmente encontrar o avô e descobrir a verdade. O mistério do que ela era – do que significava ser um camaleão – estava prestes a ser desvendado. Um sorriso surgiu em seu rosto.
A sensação de vitória irrompeu em seu peito e lhe deu mais velocidade, agilidade e coragem.
Pelo menos até ela ouvir uma voz masculina dizendo:
— Aonde é que você pensa que vai?
O sangue pulsou em seus ouvidos e ela não reconheceu a voz a princípio – só sabia que não era Burnett. Não importava. Ela não queria nem saber quem era, pois ninguém era bem-vindo naquele momento. Ela tinha uma missão e não queria companhia. E era exatamente isso que planejava dizer ao intruso.
Kylie parou de repente – ou tão de repente quanto era possível parar quando se está correndo numa velocidade muito acima da humana. Seus joelhos se dobraram. Ela passou os braços em torno de uma árvore, apoiando-se nela para não cair.
Ainda incerta quanto à identidade do intruso atrás dela, ainda agarrada à árvore para se manter de pé, outra voz, diferente da primeira, falou:
— Eu ia fazer a mesma pergunta.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!