4 de outubro de 2016

Capítulo 2

Três minutos depois, Kylie estava no estacionamento observando o Cadillac prata dos Brightens sumir a distância. Ela se virou para encarar Della e Lucas, que tinham invadido o escritório de Holiday e interrompido seu encontro com os avós. Perry havia entrado com eles, mas agora tinha desaparecido. Holiday, que os seguira para fora da cabana, estava ao telefone novamente.
— Alguém pode me dizer, por favor, o que está acontecendo? — Kylie perguntou, sentindo como se a sua chance de descobrir mais sobre o pai estivesse indo embora junto com o Cadillac. De repente, percebeu que ainda segurava o envelope pardo com as fotos de Daniel e o comprimia contra o peito.
— Não esquenta. É só por precaução.
As pontas dos caninos de Della apareciam nos cantos dos seus lábios. Seus olhos castanhos-escuros, ligeiramente amendoados, e seu cabelo preto e liso denunciavam sua ascendência asiática.
— Precaução por quê?
— Derek ligou. — Holiday fechou o telefone e se juntou a eles. — Estava preocupado. — Seu telefone tocou novamente e, depois de olhar para o número na tela, ela levantou um dedo. — Desculpe. Só um minuto.
Com a paciência se esgotando, Kylie olhou para Della e Lucas.
— O que está acontecendo?
Lucas se aproximou.
— Burnett ligou para nós e pediu que a gente não tirasse os olhos dos visitantes. — Seu olhar se encontrou com o dela e, como antes, a preocupação cintilou nas pupilas azuis.
Burnett, um vampiro em torno dos 30 anos, trabalhava para a UPF – Unidade de Pesquisa de Fallen – um departamento do FBI cujo trabalho era supervisionar os sobrenaturais. Burnett também era um dos sócios de Shadow Falls. Quando dava uma ordem, ele esperava que as pessoas a cumprissem. E elas normalmente não o decepcionavam.
— Por que Burnett disse isso? — Kylie perguntou. — Eu preciso fazer umas perguntas a ele.
Inesperadamente, a lembrança da mão da senhora Brighten sobre a dela surgiu em sua mente – suave, frágil. Emoções convergiram para Kylie de todas as direções.
— Burnett nunca dá explicações — disse Della. — Ele dá ordens.
Kylie olhou para Holiday, que ainda estava ao telefone. Ela parecia preocupada, e Kylie sentiu as emoções da líder se somando a outras que já lhe provocavam um frio na barriga.
— Eu não entendo. — Ela lutou contra o aperto na garganta.
Lucas chegou mais perto. Tão perto que ela podia sentir seu cheiro, semelhante a um bosque coberto de orvalho, nas primeiras horas da manhã.
Ele levantou o braço e ela pensou que fosse para pegar a mão dela, mas ele o baixou novamente. Kylie lutou contra a decepção.
Holiday desligou o telefone.
— Era Burnett. — Ela deu um passo à frente e apoiou a mão no ombro de Kylie.
Ela não queria ser tranquilizada, queria respostas. Então afastou a mão da amiga.
— Apenas me diga o que aconteceu. Por favor.
— Derek ligou — explicou Holiday. — Ele foi ver o investigador particular que ajudou você a encontrar os seus avós e o encontrou inconsciente em seu escritório. Então Derek achou o telefone do homem caído no chão, do lado de fora da sala, todo ensanguentado. Resumindo, Derek não acha que foi o investigador que lhe enviou a mensagem de texto falando sobre os seus avós. Ele ligou para Burnett, que está lá agora.
Kylie tentou entender o que Holiday estava dizendo.
— Mas, se não foi o investigador que mandou a mensagem, quem foi?
Holiday encolheu os ombros.
— Não sabemos.
— Derek pode estar errado — disse Lucas, sua falta de afeição pelo fae aprofundava o tom da sua voz.
Kylie ignorou Lucas e seu tom de voz e tentou digerir o que Holiday estava querendo dizer.
— Então... Derek e Burnett acham que o senhor e a senhora Brighten são impostores?
Holiday assentiu.
— Se Derek estiver certo e a mensagem foi enviada pela pessoa que feriu o investigador, então faz sentido pensar que esses dois foram enviados aqui por outras razões.
— Mas eles são humanos — disse Kylie. — Eu verifiquei.
— Definitivamente humanos — concordou Della.
— Eu sei — Holiday explicou. — Foi por isso que não os segurei aqui nem os interroguei. A última coisa que preciso é atrair mais suspeitas sobre Shadow Falls. As pessoas da região já nos olham com desconfiança. Mas só porque são humanos isso não significa que não estejam trabalhando para outra pessoa. Alguém sobrenatural.
Kylie sabia que Holiday estava se referindo a Mario Esparza, avô do vampiro assassino que a raptara.
Por uma fração de segundo, Kylie reviu mentalmente as duas adolescentes que encontraram na cidade e que tinham morrido nas mãos de Ruivo, o neto de Mario Esparza. Mais frustração e raiva se acumularam dentro dela.
— Mas eles me trouxeram fotos — disse ela, erguendo o envelope.
Holiday pegou o envelope e deu uma olhada rápida na pilha de fotos. Por alguma estranha razão, Kylie queria pegá-las de volta, como se a atitude de Holiday demonstrasse certa irreverência.
— Não tem nenhuma foto de família aqui. Devia haver uma ou duas deles com o filho.
Kylie tirou as fotos da mão de Holiday e colocou-as de volta no envelope, tentando refletir sobre o que estavam insinuando. Então seus pensamentos divagaram.
— Mas e se eles realmente forem meus avós e a pessoa que agrediu o investigador tentar pegá-los?
Lembrou-se da fragilidade da mão da mulher idosa sobre a dela. O pouco de vida que a idosa tinha pela frente poderia lhe ser facilmente arrancado.
O peito de Kylie doeu. Será que ela tinha colocado os pais de Daniel em perigo ao encontrá-los? Teria sido isso que Daniel queria dizer a ela? Ela sentiu o olhar de Lucas sobre ela, como se lhe oferecendo uma pequena dose de conforto.
Holiday falou novamente.
— Eu não vejo nenhuma razão para alguém querer envolvê-los. Mas Perry está seguindo o casal. Se alguém tentar fazer algum mal a eles, ele vai cuidar disso.
— Perry é mesmo capaz de chutar um traseiro se tiver que fazer isso — disse Della.
— E eu tenho certeza de que o investigador está trabalhando numa centena de casos diferentes — disse Lucas. — Se ele foi atacado, isso não significa que o ataque tenha alguma ligação com a Kylie. Poderia ser algo relacionado a um dos outros casos. Os detetives particulares vivem irritando as pessoas.
— É verdade — concordou Holiday. — Mas Burnett está preocupado o bastante para querer os Brightens longe do acampamento. Precisamos ter cautela.
A mente de Kylie deu um giro de 180 graus e se fixou no fato de que era Perry, um dos campistas metamorfos, que estava seguindo os Brightens.
— Que forma Perry assumiu quando foi atrás deles?
Da última vez que ela viu Perry numa forma alternativa, ele era um tipo de pterodátilo que parecia saído diretamente do período jurássico. Claro que para Kylie isso era melhor do que o leão do tamanho de uma van ou do unicórnio em que ele tinha se transformado antes disso. Ai, droga! Se não fosse cuidadoso, o metamorfo podia acabar provocando um ataque cardíaco no casal de velhos.
— Não se preocupe — Holiday disse. — Perry não vai fazer nada ridículo.
Miranda escolheu aquele momento para se juntar ao grupo.
— Ah, fala sério! Perry e todas as coisas ridículas andam juntos como sapos e verrugas — disse a ela, afastando os cabelos tricolores do ombro como que para pontuar suas palavras.
Miranda era uma das sete bruxas de Shadow Falls e a outra colega de dormitório de Kylie. Pelo tom da garota, estava claro que ela não estava pronta para perdoar Perry por ter sido cruel com ela ao encontrá-la beijando outro metamorfo... especialmente depois que ela se desculpara. O olhar da bruxa percorreu o grupo.
— O que foi? — Miranda perguntou. — Algo errado? — perguntou, apertando os olhos e provando que, embora ainda estivesse furiosa, não era indiferente ao metamorfo. — Está tudo bem com Perry? É com ele que estão preocupados?
Ela estendeu a mão e pegou um fio de cabelo rosa, enrolando-o no dedo.
— Perry está bem — Holiday e Kylie disseram ao mesmo tempo. Então a mente de Kylie voltou a se concentrar na sua preocupação com os Brightens... se é que eles realmente eram os Brightens.
Ela olhou para Holiday.
— O que iriam ganhar fingindo ser meus avós?
— Acesso a você — Holiday respondeu.
— Mas eles pareciam tão sinceros! — E então, Kylie se lembrou. — Não. Não poderiam ser impostores. Eu... vi os anjos da morte. Eles me enviaram uma mensagem.
— Ah, merda... — murmurou Della, e ela e Miranda recuaram um passo.
Embora Lucas não tivesse saído do lugar, seus olhos se arregalaram. Segundo a lenda, os anjos da morte eram aqueles que definiam as punições para manter as espécies não humanas na linha. Quase todo sobrenatural conhecia um amigo de um amigo que tinha se comportado mal e depois virado uma tocha humana pelas mãos de um anjo da morte vingativo.
Embora Kylie sentisse o poder desses anjos, ela não estava convencida de que a péssima reputação deles não era um exagero. Não que estivesse ansiosa para comprovar sua teoria. No entanto, considerando que já tinha cometido o seu quinhão de erros e não tinha sido queimada ou transformada numa pilha de cinzas, questionava os boatos sobre aqueles que tinham.
— Qual foi a mensagem? — Holiday perguntou, o tom de voz despreocupado.
 A líder do acampamento, que também via fantasmas, era uma das poucas pessoas ali que não temiam os anjos da morte.
— Sombras... na parede do refeitório, e então...
— Quando estávamos lá dentro? — Della perguntou. — E você não nos disse nada?
Kylie ignorou Della.
— Ouvi uma voz na minha cabeça dizendo para ir encontrar o meu destino. Por que eu teria recebido essa mensagem se eles não fossem os meus avós?
— Boa pergunta — disse Holiday. — Mas talvez os anjos só quisessem dizer que essa situação é o que levará você à verdade.
— Ela devia ter nos contado... — murmurou Della para Miranda.
Kylie lembrou-se de Daniel aparecendo, a urgência que sentiu em sua voz nas poucas palavras que tinha dito. Será que ela tinha entendido totalmente errado o que ele queria lhe dizer? Será que tinha vindo para avisá-la que o casal não era seus pais adotivos? Cheia de dúvidas, ela já não sabia mais em que acreditar.
Kylie respirou fundo e outra preocupação dominou os seus pensamentos.
— O investigador vai ficar bem?
— Eu não sei. — Holiday franziu a testa. — Burnett disse que Derek está no hospital com ele agora. Burnett ainda está investigando a cena do crime.
Preocupada com Derek, Kylie sentiu o peito oprimido. Ela tirou o telefone do bolso e discou o número dele.
Ao ver que ele não atendia, não soube se era porque ele não podia ou se ainda não queria falar com ela. Será que ainda estava disposto a mantê-la longe da vida dele?
 Homens!
Por que os garotos reclamavam que as garotas eram tão difíceis de entender, se ela não havia conhecido um que não a deixasse confusa a ponto de ter vontade de gritar?


Quando todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, Kylie aproveitou a chance para escapulir dali e ir dar uma volta, acabando por se sentar sob a sua árvore favorita. Ela abriu o envelope e analisou demoradamente cada uma das fotos, observando todos os pequenos detalhes sobre Daniel.
O jeito como seus olhos azuis brilhavam quando ele sorria, a forma como seu cabelo enrolava um pouco nas pontas quando ele o usava mais comprido. Ela viu tanto de si mesma no pai que seu coração se apertou com a dor de não poder tê-lo ao seu lado.
Quando se deparou com o retrato da mãe ao lado dele, Kylie se pegou sorrindo ao ver o jeito como o casal se entreolhava. Amor. Uma parte de Kylie queria ligar para a mãe no mesmo instante e lhe contar sobre a foto, mas, considerando o que Holiday e os outros pensavam, ela achou melhor não falar nada. Só esperava que não por muito tempo.
— Oi.
A voz de Lucas atraiu a sua atenção e ela sorriu.
— Oi.
— Se importa de ter companhia? — perguntou ele.
— Não, divido a minha árvore com você. — Ela lhe deu espaço para se sentar.
Ele se sentou ao lado dela e estudou seu rosto. Seu ombro, quente, encostou-se no de Kylie e ela saboreou a proximidade.
— Você parece feliz e triste, e confusa. — Ele tirou alguns fios de cabelo do rosto dela.
— Estou confusa — disse ela. — Eles eram tão agradáveis e... Eu não sei em que acreditar agora. Como podiam ter essas fotos se não eram realmente os Brightens?
— Podem ter roubado — arriscou ele.
As palavras dele doeram, mas ela sabia que ele podia estar certo. Mas por que alguém iria tão longe para convencê-la de que eram os pais de Daniel? O que poderiam ganhar fazendo isso?
Ele olhou para as fotos que ela tinha na mão.
— Posso ver?
Ela assentiu e lhe passou as fotos. Lucas analisou lentamente cada uma delas.
— Deve ser estranho olhar o rosto de alguém que se parece tanto com você, e não conhecer essa pessoa.
Ela levantou os olhos para Lucas.
— Mas eu o conheço.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Eu quis dizer... em pessoa.
Ela assentiu, entendendo a incapacidade dele para compreender aquela coisa toda de ver fantasmas, mas desejando que não fosse tão difícil para ele.
— Burnett vai investigar isso a fundo. — Seu olhar baixou até os lábios dela. Por um segundo, Kylie pensou que Lucas ia beijá-la, mas ele ficou tenso de repente e olhou na direção do bosque.
Fredericka, fazendo cara feia para os dois, saiu de trás dos arbustos.
— A alcateia está procurando você.
Lucas franziu o cenho.
— Eu já vou.
Ela não se mexeu. Simplesmente continuou encarando o casal.
— Eles não deveriam ter que esperar pelo seu líder.
— Eu disse que já vou — rosnou Lucas.
Fredericka se afastou e Lucas olhou para Kylie.
— Desculpe. Tenho que ir.
— Algum problema? — Kylie perguntou, notando a preocupação nos olhos dele.
— Nada que eu não possa resolver. — Ele deu um rápido beijo nos lábios dela e colocou as fotos de volta em suas mãos.
— Você vai ficar bem? — Holiday perguntou, quando Kylie voltou para a varanda do escritório.
Kylie sentou-se numa das grandes cadeiras de balanço brancas. O calor pegajoso parecia agarrar-se à sua pele.
— Vou sobreviver. — Ela colocou o envelope sobre a mesinha entre as cadeiras e puxou o cabelo para trás, segurando-o longe do pescoço. — Você acha mesmo que eles eram impostores?
Holiday se sentou na outra cadeira de balanço. O cabelo ruivo solto em volta dos ombros.
— Eu não sei. Mas Burnett não vai descansar enquanto não investigar isso a fundo. Ele se sente culpado por não ter descoberto tudo antes e impedido Mario de raptá-la. Imagino que, depois disso, não vai querer tirar os olhos de você.
— Ele não tinha como saber do que aquele maluco era capaz — disse Kylie.
— Eu sei disso. Você sabe disso. Mas Burnett tem o hábito de ser meio duro consigo mesmo.
— E não são assim todos os vampiros? — Kylie pensou em Della e na bagagem emocional que ela carregava.
— Na verdade, não — Holiday disse. — Você ficaria surpresa se soubesse quantos vampiros se recusam a assumir responsabilidade pelas suas ações. Para eles, a culpa é sempre dos outros.
Kylie quase perguntou se Holiday estava se referindo a um certo vampiro que tinha ferido seu coração no passado. Mas seus pensamentos se voltaram para os Brightens.
— Você estava lá. Não leu as emoções deles? Não foram sinceros? Eu me senti de algum modo... ligada a eles.
Holiday inclinou a cabeça como se pensasse.
— Eles foram muito cautelosos, quase até demais, mas... sim, pareciam sinceros. Especialmente a senhora Brighten.
— Então, como poderiam...?
— A leitura das emoções nunca é cem por cento exata — Holiday explicou. — As emoções podem ser disfarçadas, escondidas, até mesmo falsificadas.
— Por seres humanos?— Kylie perguntou.
— Os seres humanos são mestres nisso. Muito mais do que os sobrenaturais. Eu imagino que, como a espécie carece de superpoderes para controlar o seu mundo, eles se esforçam para conseguir controlar suas emoções.
Kylie ouvia, enquanto seu coração se contraía de preocupação pelos Brightens.
— Narcisismo, desapego, personalidade esquizoide, sociopatia, essas coisas são muito frequentes na raça humana em graus variados. E ainda existem os atores, que podem criar uma emoção dentro de si simplesmente evocando uma experiência do passado. Eu já assisti a peças e espetáculos em que as emoções dos atores eram tão reais quanto as que eu mesma sinto.
Kylie se recostou na cadeira.
— Eu sou metade humana e não consigo controlar coisa nenhuma.
Holiday olhou para ela com ar de compreensão.
— Eu lamento ter sido obrigada a mandá-los embora. Sei que você estava esperando descobrir alguma coisa. Mas não podia correr o risco de que Derek estivesse certo.
— Eu entendo. — E ela de fato entendia. Só não tinha gostado. — A senhora Brighten, se de fato era a senhora Brighten, me lembrou a minha avó.
— Nana — Holiday disse, e Kylie se lembrou de que o espírito da avó tinha feito uma visita à líder do acampamento.
— É.
Holiday suspirou.
— Eu sei que isso é difícil pra você.
O telefone da líder do acampamento tocou e Kylie prendeu a respiração, esperando que fossem notícias dos Brightens, de Derek ou do investigador.
Holiday olhou para o identificador de chamadas.
— É só a minha mãe. Vou ligar para ela mais tarde.
Kylie encostou um joelho no peito e envolveu a perna com a mão. O silêncio que se seguiu gritava pela verdade.
— Eu me sinto como se nada na minha vida fizesse mais sentido. Tudo está mudando.
Holiday torceu com as duas mãos os longos cabelos.
— A mudança não é a pior coisa, Kylie. É quando as coisas não estão mudando que você tem que se preocupar.
— Eu discordo. — Kylie descansou o queixo sobre o joelho. — Quer dizer, sei que a mudança é necessária para o crescimento e tudo o mais. Mas eu gostaria de ter uma coisa na minha vida que fizesse eu me sentir... com os pés no chão. Eu preciso de uma base onde possa me apoiar. Algo que pareça real.
Holiday ergueu as sobrancelhas.
— Shadow Falls é real, Kylie. Ele é a sua base.
— Eu sei. Sei que pertenço a este lugar, é só que eu ainda não sei a que espécie eu pertenço. E, por favor, não me diga que eu deveria fazer disso a minha busca. Porque essa tem sido a minha busca desde que cheguei aqui e não me sinto mais perto de descobrir agora do que estava antes.
— Isso não é verdade. — Holiday levantou os joelhos e, na enorme cadeira de balanço, sua figura pequena parecia ainda menor. — Veja como já progrediu. Como acabou de dizer, você sabe que pertence a este lugar. Já é um grande passo. E seus dons estão se revelando a todo instante.
— Dons que eu não sei como controlar ou quando vão aparecer novamente. Não que eu esteja reclamando... — Kylie encostou a testa no joelho e deu um suspiro exagerado.
Holiday riu.
Kylie olhou para cima.
— Eu pareço patética, não é?
Holiday franziu a testa.
— Não. Você parece frustrada. E para ser sincera, depois do que aconteceu com você neste fim de semana, tem o direito de ficar frustrada. Tem o direito até de ser um pouco patética.
— Ninguém tem o direito de ser patético — retrucou Kylie.
— Eu não sei por que não. Acho que tive esse direito em alguns momentos da minha vida. — Holiday balançava a sua cadeira num ritmo lento.
Kylie olhou para a líder do acampamento, e teve a nítida impressão de que havia muita coisa sobre ela que Holiday ainda não tinha contado.
— Impressão minha ou eu senti a presença de um outro espírito hoje mais cedo? — Holiday perguntou.
— Sentiu. — Kylie se recostou na cadeira. — Ela ainda não está falando coisa com coisa. Disse que está confusa. — Recordou os pontos cirúrgicos recentes que tinha visto na cabeça da mulher. — Acho que ela morreu de um tumor no cérebro ou coisa assim. Tinha a cabeça raspada e cicatrizes.
— Hum... — murmurou Holiday, pensativa.
— Acho que está enterrada no Cemitério de Fallen.
— Sério? Ela disse isso?
— Não, mas foi lá que eu senti a presença dela pela primeira vez. Quando vinha para cá esta manhã, minha mãe passava pelo cemitério quando o espírito apareceu no banco de trás.
— Pode ser que seja isso mesmo.
— Mas você não pensa assim? — Kylie perguntou, sem entender a lógica de Holiday.
— Não estou dizendo que não poderia ser tão simples, mas eu descobri que a maioria dos espíritos que nos procura tem... mais ligações conosco do que apenas a nossa passagem por um cemitério. Mas isso não significa que não possamos topar por acaso com alguns espíritos por aí de vez em quando, porque isso acontece. Outro dia, me deparei com um velho todo molhado, nu como no dia em que nasceu. Ele morreu no chuveiro da casa de repouso onde morava. Queria que eu dissesse à enfermeira para tirá-lo de lá. — Holiday balançou a cabeça.
— O que você fez? — Kylie perguntou.
— Liguei para a casa de repouso e disse que era uma amiga da família. Tentaram chamar o senhor Banes em seu quarto, mas ele não atendeu à porta.
— E ele foi embora?
— Fez sua passagem.
— Espero que este espírito seja fácil assim. Eu bem que estou precisando de uma pausa. — Então Kylie se lembrou do que o espírito tinha dito. — Sabe... a mulher disse que havia pessoas que queriam que ela me dissesse uma coisa.
— Dissesse o quê?
— Eu perguntei, mas... ela disse algo do tipo, algumas pessoas vivem e algumas pessoas morrem. Não fazia sentido.
— No início, o que eles falam raramente faz.
Kylie mordeu o lábio.
— Poderia ser meu pai tentando me dizer alguma coisa? Ele tentou se manifestar um pouco antes de eu ver os Brightens, ou seja lá quem forem.
Holiday parou de balançar a cadeira.
— O que ele disse?
— Ele não conseguiu se manifestar completamente. Só disse algumas palavras. — Kylie franziu a testa. — Por que ele tem que parar de vir me ver?
Holiday olhou para Kylie como se a compreendesse.
— A morte é um novo começo, Kylie. Não se pode começar o novo enquanto não se deixa o velho para trás. Durante muito tempo ele ficou no passado. Agora precisa avançar. Você entende o que estou dizendo?
Kylie também parou de balançar a cadeira.
— Se entendi? Talvez. Se gostei da ideia? Não. — Suspirando, ela se levantou. — Eu disse a Miranda e a Della que iria encontrá-las na cabana.
— Claro. — Holiday hesitou por um instante. — Mas achei que agora poderia ser uma boa hora para conversarmos sobre os seus novos dons.
— Conversar sobre o quê? Só porque atravessei uma parede de concreto? — perguntou Kylie com sarcasmo para encobrir seus sentimentos não resolvidos com relação aos próprios dons.
Holiday sorriu.
— E você curou Sara. E Lucas.
Kylie reclinou-se na cadeira.
— Esperamos que eu tenha curado Sara.
— Pelo que você disse, eu ficaria surpresa se não tivesse. — Holiday continuou a olhar para ela. — Se um de seus dons é ser uma protetora, Kylie, esse pode ser só o início de seus dons. Estou surpresa por não estar me bombardeando com perguntas.
— Talvez eu precise de algumas respostas antes de começar a fazer mais perguntas. E eu nem estou me referindo a quem eu sou, mas a quem os Brightens são. E o que meu pai queria me dizer.
Os olhos de Holiday se encheram de compaixão.
— Está tudo acontecendo muito rápido, não é?
— Está, e falar a respeito não vai mudar nada. — O peito de Kylie se encheu de emoção.
— Poderia mudar. Às vezes as coisas não parecem reais até falarmos a respeito delas.
Kylie deu um suspiro
— Eu não tenho certeza se quero que se tornem mais reais neste momento.
— Quem sabe se fizéssemos uma caminhada até a cachoeira...?
— Não — respondeu Kylie, sem saber se conseguiria ir até lá e não ficar aborrecida se tudo o que conseguisse daquelas águas mágicas fosse uma voz lhe dizendo para ter paciência. Ela já não tinha sido paciente até demais? — Podemos simplesmente conversar mais tarde?
— Tudo bem. — Holiday estendeu a mão para tocá-la e depois puxou o braço para trás. — Mas é apenas um adiamento temporário. Nós realmente precisamos conversar.
— É, eu sei. — Kylie se levantou e pegou o envelope.
— Posso ficar com elas por um tempo? — perguntou Holiday.
O coração de Kylie se apertou.
— Eu...
— Só por alguns dias. Tenho certeza de que Burnett vai querer verificar se são originais.
Kylie acenou com a cabeça.
— Elas são importantes para mim.
Holiday sorriu, compreensiva.
— Eu sei.
Kylie deu um passo para fora da varanda e depois voltou.
— Você vai me avisar no instante em que receber alguma notícia de Burnett ou Derek, certo?
— No mesmo instante — Holiday lhe assegurou.
Kylie começou a sair e depois se virou novamente, aproximou-se de Holiday para lhe dar um abraço. Um abraço bem apertado.
— Obrigada — disse Kylie.
— Pelo quê? — Holiday parecia confusa, mas isso não a impediu de retribuir o abraço.
— Por estar aqui. Por ser você. Por me aturar.
Holiday riu.
— Você está começando a ficar melodramática, e isso a deixa um pouquinho patética.
Kylie interrompeu o abraço, sorriu de volta para Holiday e pegou a trilha para a sua cabana.
Ela não tinha chegado nem na metade do caminho quando os pelos da sua nuca se eriçaram e ela teve a sensação inconfundível de estar sendo observada. Olhou para o bosque à sua esquerda, mas não viu nada, a não ser árvores e vegetação rasteira. Olhou para a direita e também não viu nada. Mas ainda tinha a mesma sensação, cada vez mais forte.
Olhando para o céu azul sem nuvens, ela piscou. Um pássaro voava lá no alto. A ampla envergadura, o bico adunco e a mancha branca no peito revelavam que era uma águia. Ela observou a criatura deslizando lentamente como se não tivesse nenhuma pressa, como se estivesse hipnotizada pela... cena?
Que cena?
A águia a observava? Era essa a sensação que o pássaro lhe transmitia? Não era só uma águia comum? Ou era alguém como Perry, que poderia mudar de forma e se transformar em qualquer coisa que desejasse? Ela continuou a observar o pássaro, sentindo-se inquieta.
Sem aviso, a águia mudou seu curso. Seus movimentos tornaram mais rápidos quando ela arremeteu. Chegou mais perto. Cada vez mais perto. Kylie encontrou seus olhos. A ferocidade neles a fez estremecer. Ou seriam suas garras grossas, estendidas como se preparadas para o ataque?
A lufada de ar provocada pelas suas asas atingiu o rosto de Kylie, e ela fechou os olhos.

Um comentário:

  1. A Kylie está começando a ficar mais chata em alguns momentos.
    Não sabe wquem ela quer
    Na mesma hora quer ser beijada pelo Lucas mas ainda assim quer o Derek perto dela e fora que ela é muito ingênua

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!